sexta-feira, outubro 30, 2009

Enriquecer é glorioso

Ninguém até hoje ousou morrer pelo capitalismo. Nenhuma bandeira foi alguma vez erguida em seu nome num campo de batalha. Não consta do nome de qualquer país ou república. Não se trata portanto de uma utopia, pronta a ser defendida por um qualquer revolucionário que queira mudar o mundo, e a razão pela qual não é uma utopia é porque o capitalismo tem lugar. Povoa o mundo e os seus malefícios alastram ao planeta inteiro. Os recursos planetários são consumidos à velocidade da luz e o homem comporta-se como um parasita que mata o hospedeiro.

A exploração do homem pelo homem continua e aumenta a concentração da riqueza, da propriedade e do poder, no rescaldo de cada crise económica capitalista. Prossegue a acumulação pela apropriação dos bens comuns ou colectivos, através das privatizações, sob a passividade das sociedades dominadas por um individualismo crescente. Tudo é transformado em capital: dos recursos naturais ao património genético, do património intelectual às florestas e espécies animais. O planeta está a saque por empresários vorazes e políticos corruptos que actuam na avidez do lucro e na procura enriquecimento rápido, nem que seja à custa do empobrecimento de todos. Crescem as desigualdades sociais e económicas e aprofunda-se o fosso entre a minoria dos ricos e a imensa maioria dos pobres. Tal ocorre com maior gravidade nos países que abraçaram o capitalismo (as desigualdades sociais são um dos maiores indicadores da sua presença). Surge um terceiro mundo dentro do primeiro, constituído por uma multidão de pobres que se torna mais visível quando catástrofes naturais, como o furacão Katrina, arrasam cidades: eles são os desprotegidos que ficam para trás quando os ricos se põem a salvo. Acentua-se a polarização social e espacial em todos os territórios, com o aumento das disparidades regionais e a concentração de poder num reduzido número de cidades e a marginalização de regiões distantes. Os ricos encerram-se em condomínio fechados e os pobres entrincheiram-se em favelas e bairros de lata. Engrossam as legiões de desempregados, considerados perdedores e inúteis sociais, e degrada-se a qualidade do emprego, onde ele existe. À medida que o Estado e os sindicatos enfraquecem, o mercado entra em roda livre e torna-se disfuncional: um monstro que ninguém controla. Verifica-se cada vez mais um crescimento económico à revelia da criação de emprego. O crescimento económico com desemprego torna obsoletos os discursos daqueles que o vêem como a panaceia de todos os males sociais. Uma elite dominante esforça-se por se manter nos lugares de topo e perpetua-se nessas posições, impedindo por ínvias formas e por discriminação velada, a ascensão social dos mais pobres e dos elementos da classe média. Os adolescentes dos subúrbios e das favelas são aliciados e anestesiados com modas fúteis, hip-hop, coca-cola e hambúrgueres. Os filhos das elites são educados na altíssima cultura. A identidade cultural dos povos do planeta enfrenta por todo o lado o rolo compressor e nivelador do capitalismo, que se move pelo dinheiro fácil e pela maximização do lucro.

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Epílogo

O capitalismo tem virtudes e pode ser uma solução momentânea para alguns problemas muito graves de carência, ao permitir a produção em massa de forma a satisfazer necessidades crescentes, muitas delas artificiais, fomentadas por uma publicidade omnipresente. É gerador da produção e do consumo de massa. As sociedades que abraçaram a condição capitalista parecem prosperar e a pobreza reduz-se com a possibilidade crescente de aquisição de bens de consumo e de alimentos, ainda que à custa do esgotamento dos recursos naturais, da qualidade do ambiente e da extinção de espécies. Talvez a maior virtude do capitalismo seja a de contribuir para a redução da pobreza, no curto prazo, iludindo os que enriquecem rapidamente. Veja-se o que está a acontecer actualmente na China, o país dos dois sistemas, onde enriquecer é glorioso: o socialismo e o capitalismo coexistem numa pragmática solução oriental, mas o ar das cidades está a tornar-se irrespirável. Os chineses conseguem por agora conciliar a liberdade de escolher capitalista com o seu comunismo, mas tiveram de lançar a igualdade pela janela.

sexta-feira, outubro 16, 2009

A última árvore

Muitas vezes perguntei a mim próprio: «O que terá dito o ilhéu da Páscoa que cortou a última palmeira, enquanto o fazia?» À semelhança dos lenhadores modernos, terá gritado: «Empregos sim, árvores não!»? Ou: «A tecnologia vai resolver os nossos problemas. Nada temam, havemos de encontrar um substituto para a madeira»? Ou: «Não temos provas de que não haja mais palmeiras algures na ilha, temos de fazer mais pesquisas, a vossa proibição de cortar árvores é prematura e provocada por medos irracionais»? Questões semelhantes surgem todos os dias, em todas as sociedades que prejudicam inadvertidamente o seu ambiente.

Diamond, Jared (2005); Colapso. Ascensão e Queda das Grandes Civilizações. Gradiva.

terça-feira, outubro 13, 2009

Os guardiões

Junto ao mar contemplamos

A partida do último homem

Depois das árvores.

Seremos os últimos guardiões do mundo

Deixado para trás.

Aqui pernoitaremos

Até ao fim dos tempos.


Nota: os moai não contemplam o mar. Na ilha de Páscoa as estátuas não estão a olhar para o mar.

Sobre este assunto, ler a obra do geógrafo Jared Diamond:

Diamond, Jared (2005); Colapso. Ascensão e Queda das Grandes Civilizações. Gradiva.

domingo, outubro 11, 2009

October Lazy Sunday Morning in Spain

Praia de Islantilla (Andaluzia)

Passeio de Islantilla (Andaluzia)

A tranquilidade matutina do domingo oculta uma ameaça velada. O Verão prolonga-se até meados de Outubro e ainda não terminou. A água falta nos campos e nas albufeiras. Na serra aguarda-se desesperadamente pela chuva. Entretanto tudo é abandono e quietude. Receia-se um novo ciclo de prolongada seca. Mas está uma agradável manhã de domingo em Islantilla.

terça-feira, outubro 06, 2009

Ozymândias



Nemrut Dagi, sudeste da Turquia

Ozimândias

«Encontrei um viajante de uma terra antiga,
Que disse: “Duas vastas pernas de pedra sem tronco
Erguem-se no deserto. Perto delas, na areia
Meio enterrado, jaz um rosto despedaçado, cujo olhar severo
Revela na expressão escarninha de frio comando,
Que o escultor bem sabia ler essas paixões
Que ainda sobrevivem, estampadas nestas coisas sem vida,
A mão que as arremedava e o coração que as alimentava.
E sobre o pedestal, podem ler-se estas palavras:
“O meu nome é Ozimândias, Rei dos Reis:
Olhai as minhas obras, ó Poderosos, e desesperai!”
Nada mais resta ali. Em redor da ruína
Daquele colossal destroço, ilimitadas e nuas
As solitárias e suaves areias estendem-se na distância.»

Percy Bysseh Shelley (1792-1892)


E ainda há quem clame por reis e pela glória perdida,
- A vã glória de mandar - quando o destino dos reis é o do homem mais comum, e na sua vida
Ordenam obras destinadas às areias dos desertos e impérios de vento.
E os ossos apodrecidos dos homens que os serviram
Jazem no fundo dos oceanos, tendo os navios como sarcófago
E o mar como sepultura.

sábado, outubro 03, 2009

Humanismo grego


Muitos prodígios há; porém nenhum
maior do que o homem.
Esse, co’o sopro invernoso do Noto,
passando entre as vagas
fundas como abismos,
o cinzento mar ultrapassou. E a terra
mortal, dos deuses sublime,
trabalha-a sem fim,
volvendo o arado, ano após ano,
com a raça dos cavalos laborando.

Sofócles, Séc. V a. C.

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