terça-feira, março 30, 2010

A taça de champanhe

É uma ironia brutal que a desigualdade entre pobres e ricos assuma a forma de uma taça de champanhe (Held, 2007). Os 900 milhões de privilegiados pela graça de terem nascido no Ocidente, são responsáveis por 86% do consumo mundial; usam 58% do fornecimento de energia e têm 79% do rendimento mundial à sua disposição, bem como 74% de todas as ligações telefónicas. Os mais pobres, 1, 2 biliões de pessoas, um quinto da população mundial, são responsáveis por 1,3% do consumo mundial, usam 4% do fornecimento de energia e realizam 1,5% de todas as chamadas telefónicas. É fácil de perceber a abundante fortuna dos ricos, mas por que razão os subordinados pobres a têm de suportar?

Ulrich Beck (2010), “Remapping social inequalities in an age of climate change”, Global Networks 10, 2, page. 167.

segunda-feira, março 29, 2010

O rolo compressor do «desenvolvimento» capitalista

As vítimas do «desenvolvimento» - o verdadeiro rolo compressor de Giddens, que esmaga tudo e todos os que encontre no seu caminho - «evitadas pelo sector avançado e cortadas dos antigos usos...são seres expatriados nos seus próprios países». Por toda a parte por onde o rolo compressor passa, o saber-fazer desaparece, para ser substituído pela escassez de competências; surge o mercado de trabalho mercadoria onde outrora os homens e mulheres viviam; a tradição torna-se um lastro pesado e um fardo dispendioso; as utilidades comuns transformam-se em recursos subaproveitados, a sabedoria em preconceito, os sábios em portadores de superstições.

E não é só que o rolo compressor não se mova apenas por sua própria iniciativa, mas com o apoio e reforço pelas turbas das suas futuras vítimas ávidas de serem esmagadas (ainda que, nalguns casos, o rolo aja por si só, sentimo-nos muitas vezes tentados a falar, mais do que de um rolo compressor, de um Moloch - essa divindade de pedra com uma pira acesa no ventre, em cujo interior as vítimas autodesignadas se precipitam com regozijo, entre cantos e danças); é, além disso, depois de começar a funcionar, empurrado pelas costas, sub-reptícia mas incessantemente, por multidões incontáveis de especialistas, de engenheiros, de empresários, de negociantes de sementes, fertilizadores e pesticidas, ferramentas e motores, de cientistas dos institutos de investigação e também de políticos, tanto indígenas como cosmopolitas, que buscam, todos eles, o prestígio e a glória. É deste modo que o rolo compressor parece imparável, ao mesmo tempo que a impressão de ser impossível pará-lo o torna ainda mais insuportável. Parece não haver maneira possível de escapar a este «desenvolvimento», «naturalizado» sob a forma de qualquer coisa que se assemelha muito a uma «lei da natureza» pela parte moderna do globo, desesperadamente em busca de novos fornecimentos do sangue virgem do qual necessita para se manter vivo e em forma. Mas o que é que este «desenvolvimento» desenvolve?

Zygmunt Bauman (1995), A Vida Fragmentada, Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna, Relógio d’Água, pp. 41.

domingo, março 28, 2010

History

John Trumbull, Declaration of Independence, 1817

sábado, março 27, 2010

History


President Obama Signing the Bill (Health Care Reform), 2010

sábado, março 20, 2010

A Primavera

A Primavera
Giuseppe Arcimboldo, 1573

Uma chegada, sempre celebrada.


sexta-feira, março 19, 2010

“Yes we can!”


Obama vs lobbie das seguradoras.
Obama apostou tudo na reforma do sistema de saúde americano. Desde o princípio que jogou uma cartada muito alta. Quer reformar o sistema de saúde porque, como disse no Verão, “é o Presidente dos Estados Unidos da América”, mas, ser o Presidente não significa necessariamente que detenha o poder. Nas democracias modernas o poder já não reside em quem governa, ou seja, em quem é suposto representar o povo. O poder está noutro lado.
Será que o homem do “Yes we can!” pode realmente? Oxalá possa!
***
Se no domingo Obama não vencer o lobbie das seguradoras, então quem poderá vencer? O seu “Yes we can!” cairá pela base.
Para que servirá então ser o Presidente, se afinal, não pode?

quinta-feira, março 18, 2010

Privatizem tudo!

«privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei,
privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez
a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo...
E, já agora, privatize-se também
a puta que os pariu a todos»


José Saramago, in Cadernos de Lanzarote – Diário III

segunda-feira, março 15, 2010

África, um lugar longe da esperança.

(MLADEN ANTONOV/AFP/Getty Images)

A África hoje, é um lugar muito longe da esperança.

Aqui, excelentemente retratada, sem o romantismo dos tempos, cada vez mais distantes, da "África minha".

Agora subsiste apenas uma ténue recordação das rubras montanhas de fogo, quando as queimadas perpétuas abrasavam as florestas na noite. Todas as noites.

quarta-feira, março 10, 2010

A Natureza está para além do Bem e do Mal?

O Mal e o Bem existem porque o Homem existe ou existem também na ausência do Homem? Ou existiriam, caso o Homem não existisse?

Há moral na Natureza?

Tudo indica que sim, dado que o Homem não se pode dissociar da Natureza em que se integra. Faz parte dela.

O Homem é a Natureza que pensa, raciocina e calcula. Antecipa e prevê. E luta contra a morte, ou pela vida (ou inconscientemente, pela perpetuação dos genes, como todo o ser que se quer vivo).

terça-feira, março 09, 2010

O Eixo do Mal

Multiplicam-se as crianças mutantes de Fallujah. Ver, aqui, aqui e aqui.

Pedem agora às iraquianas de Fallujah para que não tenham filhos. Nada se aprendeu com as bombas atómicas nem com as de napalm. As guerras limpas afinal são sujas. Sujas de morrer. Na verdade, não há guerras limpas. Nunca as guerras foram limpas. Os danos colaterais são os principais danos. Não há vítimas colaterais. Há vítimas. E ainda não nasceram todos os que irão sofrer com a batalha de Fallujah (2004).

Um crime contra a humanidade! Onde se esconde o réu? Por que não o julgam?

Quem é o responsável por tão hediondo crime? Que regime político e económico fomentou tal crueldade?

Afinal, onde passa o Eixo do Mal?

segunda-feira, março 08, 2010

O anticristianismo de Nietzsche

Pensamos compreender Nietzsche e ele faz-se muitas vezes compreender, contudo, verifica-se facilmente que se trata de um ressentido. É um ressentido com o cristianismo. O título mais indicado para a sua imprecação contra o cristianismo é O Anticristianismo e não O Anticristo, pois Cristo não integrou o cristianismo, assim como Marx, por exemplo, não foi marxista. Há que separá-los, Cristo e Marx, das ideologias que neles se basearam, mas que eles não fundaram. Na verdade, Nietzsche afirma que “houve apenas um cristão e que esse morreu na cruz” (1).

Por vezes, não muitas, Nietzsche parece, surpreendentemente, de forma implícita, valorizar Cristo. Por exemplo, quando afirma que “Qualquer prática quotidiana, qualquer instinto, qualquer juízo de valor que se torne acto são, actualmente, anticristãos: que monstro de falsidade há-de ser o homem moderno, para que, apesar disso, não se envergonhe de ainda se chamar cristão!(2), está implicitamente a considerar Cristo como uma referência que não está a ser seguida, em actos e atitudes, por aqueles que se dizem cristãos, e que esses deveriam por isso envergonhar-se, na medida em que estão a ser falsos.

Nietzsche parte também de uma premissa falsa ao separar o Homem da Natureza. Para ele os “valores naturais”, a Natureza e a Vida são valores que voam mais alto. O que se opõe à Natureza, aos valores naturais, à Vida deve ser alvo de imprecação. Mas o Homem, na verdade, faz parte da Natureza, o Homem não está fora da Natureza e por isso qualquer separação entre Homem e Natureza é artificial.

Outra objecção: Nietzsche condena o cristianismo por este ter considerado a Ciência o primeiro pecado, o pecado original, aquele que levou à expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Tudo porque a ciência “tornava o Homem igual a Deus” (3). Mas a verdade é que o homem científico está a transformar o mundo num lugar muito distante de um paraíso. O mundo pode tornar-se num inferno por causa do uso indevido que se faz dos avanços científicos. Um inferno atómico, um inferno demográfico, um inferno ambiental, etc. Na verdade, o uso que o Homem está a fazer dos conhecimentos científicos está a expulsá-lo do Paraíso, o paraíso terrestre, ameaçado pela degradação ambiental e pela extinção das espécies. E aqui a metáfora da Árvore do Saber e da expulsão do Paraíso, torna a emergir, prenhe de significado.

O conhecimento científico é um instrumento ao serviço do Homem, e como todos os instrumentos, pode ser utilizado indevidamente.

Nietzsche é preconceituoso em relação à mulher, que considera fraca de vontade:

“Qualquer forma de crença é em si mesma uma expressão de despersonalização, de alienação de si próprio…Se se tiver em conta como é necessário à maioria das pessoas um elemento regulador que as ligue e as fixe a partir do exterior, como a coacção (num sentido mais radical, a escravatura) é a única e derradeira condição que permite prosperar às pessoas de vontade mais fraca, sobretudo à mulher, pois também se compreende a convicção, a «fé»”. (4)

Nietzsche considera a bondade uma fraqueza, com uma excepção: “Só às pessoas mais espirituais é permitido aceder à beleza e ao belo; só nelas é que a bondade não é fraqueza.” (5). O filósofo classifica muitas vezes as pessoas em fracas e fortes, como se tal fosse possível. Tratam-se de condições transitórias. Ninguém é sempre fraco, assim como ninguém é sempre forte. O ser humano vacila muitas vezes, cai e levanta-se…

Enfim, o cristianismo para Nietzsche, é o grande inimigo da Vida, ainda que tenha como primeiro mandamento “Não matarás!”. E isto é uma contradição.

P.S. - Contudo percebemos o rancor de Nietzsche em relação a esses que mataram e matam em nome de Deus, quando o primeiro mandamento pelo qual dizem guiar-se é “Não matarás!”, ou em relação aos sacerdotes, como por exemplo, os padres pedófilos que violam, para além das crianças, os princípios cristãos mais fundamentais. Com efeito, tem razão Nietzsche quando afirma que houve apenas um cristão e que esse morreu na cruz.


***

Notas:

(1) – Friedrich Nietzsche, O Anticristo in Obras Escolhidas de Friedrich Nietzsche, Volume 7, Relógio D’Água, 2000, pág. 57.

(2) – Op. cit., pág. 57.

(3) – Op. cit., pág. 75

(4) – Op. cit., pág. 87

(5) – Op. cit., pág. 93

sábado, março 06, 2010

O desprezo pelo homem moderno

«Há dias em que me atormenta um sentimento mais negro que a mais negra melancolia: o desprezo pelo homem. E para não deixar dúvidas quanto ao que desprezo, a quem desprezo: é o homem de hoje, o homem de que sou fatidicamente contemporâneo.»

O homem de hoje – o seu hálito impuro sufoca-me…Em relação a coisas passadas sou, como todos os adeptos do saber, de uma grande tolerância, isto é, de um magnânimo autodomínio: percorro o universo de manicómio de milénios inteiros, quer se chame “cristianismo”, “fé cristã” ou “Igreja Cristã”, com uma sombria precaução – e abstenho-me de tornar a humanidade responsável pelas suas doenças mentais. Mas o meu sentimento muda, rompe-se assim que entro nos tempos modernos, no nosso tempo.

(…)

«Qualquer prática quotidiana, qualquer instinto, qualquer juízo de valor que se torne acto são, actualmente, anticristãos: que monstro de falsidade há-de ser o homem moderno, para que, apesar disso, não se envergonhe de ainda se chamar cristão!»

Nietzsche (1895), O Anticristo

Os muçulmanos na Europa

(Ton Koene/ZUMA/VISUAL)

quinta-feira, março 04, 2010

Manifesto de Desconfiança no Homem

Saqueadores detidos no Chile após o sismo.

Não há liberdade sem dissuasão. Esta é a lição dos sismos do Haiti e do Chile, ou do furacão Katrina. Quando o caos se instala, reinam os profanadores e os ladrões. Sucedem-se as pilhagens, e a ajuda alimentar, ou outra, de nada serve se não imperar a mínima ordem que assegure a justa distribuição.

As prisões são coisas medonhas, diria Agostinho da Silva. Mais medonhas que os cemitérios, pois nestes repousam aqueles a quem a vida foi subtraída enquanto nas prisões vivem aqueles a quem a liberdade foi negada. Mas o que seria de nós se os monstros que as prisões contêm se libertassem? O Mal existe no nosso mundo (e só porque o Homem existe). Só nas utopias é que não são precisos polícias ou militares. Só nas utopias o crime e as doenças se apartam e a liberdade é mais plena. Aqui não.

Enquanto por aqui andarmos não largaremos as nossas armas.

quarta-feira, março 03, 2010

Saberá Queirós quem é o melhor marcador do campeonato turco?

Primeiro a miopia de Quique Flores, agora a de Queirós. Não reparar em Makukula é grave, quando no nosso país rareiam avançados. Neste momento com 16 golos marcados em 19 jogos (quase um golo por jogo) Makukula é o melhor marcador da Super Liga turca, com mais 7 golos do que o seu adversário mais directo.

Entretanto o público apoiou efusivamente a selecção nacional em Coimbra num glorioso jogo de preparação com a China.

terça-feira, março 02, 2010

A cobra que os dinossauros temiam


Afinal a cobra encontrada num ninho de dinossauro preparava-se para tragar a cria do saurópode. O fóssil do ninho de dinossauro foi descoberto em 1987. Em 2001 descobriu-se a cobra e agora, as suas reais intenções.

Etiquetas