quinta-feira, julho 28, 2011

Os terroristas enquanto produtores de entretenimento

Diz Peter Sloterdijk, filósofo alemão, acerca do terrorismo (os sublinhados são nossos):

«Se compreendemos porque é que as circunstâncias trabalham a favor dos terroristas, podemos também fazer uma ideia mais precisa da nossa própria situação: melhor que muitos produtores de televisão, os bombistas compreenderam que os senhores dos cabos não podem produzir todos os conteúdos em estúdio e continuam a depender dos contributos de acontecimentos provenientes do exterior. Passaram a sabê-lo por experiência própria: eles próprios oferecem os acontecimentos mais procurados, pois possuem praticamente um monopólio enquanto contet providers no sector da violência real. (…) Tal significa que a agressão continua a vender-se e que quanto mais impiedosa for, maior é a recompensa mediática. Desalmadamente divertidos, os agressores percebem os motivos disso: os sistemas nervosos dos habitantes do palácio de cristal podem ser ocupados sem dificuldades por quaisquer invasores, pois os referidos ocupantes, entediados com o palácio, continuam à espera de notícias do exterior.»

Peter Sloterdijk, O Palácio de Cristal, Relógio D’Água, 2005, pp. 195

É esse entretenimento que aqui recusamos. O nosso mundo não pode ser um palácio de cristal e nós não podemos comportar-nos como ocupantes entediados de tal palácio, ávidos por novos acontecimentos, consumidores de terror. O mundo não deve ser encarado como um palco, ou como um circo romano, onde as vítimas aguardam aterrorizadas a entrada dos leões para gáudio do público. É que as vítimas também somos nós.

***

«Podem [os terroristas] confiar no facto de que a única medida anti-terrorista que garantiria o êxito, a saber, o silêncio absoluto dos media quanto aos novos ataques (ou então a instauração de uma quarentena da informação que produzisse uma distância entre o atentado e o seu eco sensacional), seria inevitavelmente bloqueada, porque aqueles fariam questão de exercer o seu dever de informar

Peter Sloterdijk, O Palácio de Cristal, Relógio D’Água, 2005, pp. 196

Silenciar o terrorista e a sua obra, não significa enfiar a cabeça na areia, mas sim, adoptar a “única medida anti-terrorista” que garante o êxito da luta contra o terrorismo.

terça-feira, julho 26, 2011


Amy Winehouse (1983 - 2011)


segunda-feira, julho 25, 2011

O terrorista norueguês

A sua imagem não será aqui exposta e o seu nome não será proferido. Os textos que escreveu não serão aqui lidos, nem transcritos. Não será citado. Que seja julgado à porta fechada e que a sua voz não seja ouvida no mundo, para lá das paredes do tribunal. Que o seu nome seja esquecido e se perca rapidamente nas areias do tempo. Que não seja feita a vontade ao terrorista que procura a fama, a glória negra, distorcida, e a lembrança. Também aqui, não será considerado lunático porque o mal existe e há quem o esconda atrás de doenças mentais. Chamar louco ou demente a um assassino é, de certa forma, perdoar ou diminuir a sua responsabilidade no mal que causou porque passará a ser visto como um inimputável. Ora o mal é muito racional e muito humano, demasiado humano. Por isso não chamaremos animal ao assassino, por respeito aos animais não humanos. Que seja esquecido e jamais perdoado. Que não seja feita a sua vontade.

Assim procederemos doravante com todos os terroristas.

Não nos aterrorizarão.

domingo, julho 24, 2011

Crónica de uma crise anunciada?

Nunca, desde a Guerra Civil Americana, os EUA estiveram tão divididos. A divisão entre esclavagistas e não esclavagistas conduziu a nação à guerra civil no século XIX. Actualmente, a irredutibilidade dos conservadores em relação ao aumento do tecto da dívida americana, não augura nada de bom. Talvez cheguem a acordo até Agosto, mas face ao extremar de posições, tudo é possível. Se não chegarem a acordo, a consequência não será a guerra civil, por certo, mas sim a derrocada económica desencadeada pelo incumprimento no pagamento da maior dívida do planeta. A URSS colapsou no início da década de 90. Será que está a chegar a hora dos EUA?

A incapacidade de os EUA manterem o space shuttle no ar é um facto simbólico do momento em que vive actualmente a América.

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David Harvey, há muito tem vindo a alertar para o que se está a passar:

«A derrocada do sector financeiro nos Estados Unidos em 2008-2009 comprometeu a hegemonia americana. A capacidade de lançarem isoladamente um plano de recuperação baseado no financiamento da dívida é limitada politicamente a nível interno por uma oposição conservadora fiel, bem como pelo enorme peso do endividamento que se acumulou a partir da década de 90. Os Estados Unidos têm vindo a endividar-se a uma média de cerca de 2 milhões de dólares por dia há vários anos e, embora os prestamistas, como os bancos centrais chineses e outros do Leste da Ásia e dos Estados do Golfo, lhes tenham andado a conceder créditos porque a economia americana é demasiado importante para falir, é cada vez mais palpável o crescente poder que os prestamistas detêm sobre a política americana. Entretanto a posição do dólar como divisa global de reserva está sob ameaça.»

David Harvey, O Enigma do Capital, Bizâncio. 2011. pp. 48.

quarta-feira, julho 20, 2011


Pôr-de-sol na Praia Verde, 8 de Julho de 2011

Caramba! Eu não queria, mas foi mais forte do que eu.

Na melhor nódoa cai o pano.

segunda-feira, julho 18, 2011

Retoma em 2013!

Afinal a retoma será em 2013. Então poderemos respirar de alívio, dizem-nos Passos Coelho & Vítor Gaspar.

Veremos o que nos dirão em 2013: talvez, que afinal a retoma seja, lá para 2015. E em 2015, lá para 2018, e assim sucessivamente.

É o mais provável.

(A retoma é sempre amanhã.)


Devem julgar que somos burros atrás da cenoura da retoma, enquanto nos vergastam com mais impostos.

domingo, julho 17, 2011

O impasse

Eis-nos chegados a um impasse. Ou avançamos para um federalismo castrador do projecto nacional e abandonamos, de vez, o domínio sobre a capacidade de alterar o nosso destino enquanto nação – neste caso passaremos, definitivamente, a ser mais uma região, ou uma espécie de Califórnia, nos novos Estados Unidos da Europa. Ou recuamos e saímos da Zona Euro, mantendo salvaguardada uma grande parte da nossa soberania, mas com custos económicos e sociais muito elevados, no curto prazo, como se diz aqui.

Ficar na situação em que estamos, numa Zona Euro cujos Estados não foram, nem são capazes, de manter a sua economia entre as apertadas balizas dos critérios de convergência, não é viável, nem desejável. Aqui, não podemos ficar!

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PS - A necessidade aguça o engenho. Talvez tenha de ser criado um novo caminho que não passe por um recuo ou por um avanço. Mas para onde caminhar?

sexta-feira, julho 15, 2011

Entretanto, na ilha do Bornéu, prossegue a destruição do mundo, tal como o conhecemos


É preciso observar bem, pois tudo isto, em breve, estará transformado num imenso palmeiral. O longo braço da sanha capitalista chega aos lugares mais recônditos do planeta. Prossegue a destruição criativa do espaço. É preciso convertê-lo em mercadoria, para que dê lucro.

1994

Uma garrafa vazia aguarda sobre a mesa

A tua mão ávida,

A tua boca ressequida, equivocada.


A taverna está deserta,

E a brisa agita as teias pendentes.

O teu olhar perde-se nas sombras

E brilha azul no escuro.


Há um copo em repouso sobre o balcão

Com um Porto luzidio.


1994 foi um ano bom.


Já recolhem a casa

Exaustos trabalhadores.

É o fim da tarde.


Vãos os árduos esforços,

Vãos os beijos que depositei na tua face.

Fujo.


Em fuga remeto contra o vento.

Mergulho na liberdade,

No oceano, no abismo.

Caio, engulo ar.


1994 foi um ano bom.


Quando a tarde finda,

A difusa luz doira os muros

Dos blocos suburbanos.


Da minha janela

não tenho horizontes.


Avisto as nuvens multiformes

Em viagem.

Vagueio em pensamento.


1994 foi um ano bom.

quarta-feira, julho 13, 2011

Porto ao Pôr-de-sol

Claude Lorrain, Porto ao Pôr-de-sol, 1674

terça-feira, julho 12, 2011

A desvalorização do trabalho

Nunca ousámos sequer pensar que iríamos enriquecer a trabalhar, mas estávamos longe de imaginar que iríamos empobrecer a trabalhar. Contudo, é isso que está a acontecer. Empobrecemos a trabalhar. Trabalhamos mais, auferimos menos. Parte do que nos é devido, é-nos subtraído. Estamos a ser alvo de um verdadeiro roubo institucionalizado. Enfim, tudo isto é triste, tudo isto é fado.

E ainda a procissão vai no adro.

segunda-feira, julho 11, 2011

Glórias do futuro*

Com efeito, estamos prenhes de ouvir falar das glórias do passado. Que se calem essas vozes! Que se cale esse hino!

Queremos saber das glórias do futuro!

domingo, julho 10, 2011

Espírito livre

Quem ama verdadeiramente a liberdade não se deixa aprisionar por discursos e por grandes narrativas que condicionam a visão do mundo.

Quem observar o céu do fundo de um poço, vai achá-lo muito pequeno.

Charles Darwin, o anti-Cristo cósmico


A vida, que se consubstancia na evolução, joga-se na entropia criando ordem, definindo níveis de organização que surgem de fases anteriores sem que possamos descobrir determinismo e, suprema ironia, só pode evoluir produzindo desordem e impondo-lhe condicionalismos. Charles Darwin encarna o pior acidente cosmológico do pensamento ocidental, o anti-Cristo cósmico.
(…)
Não há Deus, nem princípio vitalista, nem ontologia no cosmos, e ainda menos na história da vida. Triste materialismo? Não há decepção, não há desencanto num Darwin que se deslumbra com a evolução ao observar: «Não existe mais grandeza em considerar que o Homem possa ter nascido de uma tal aventura?»”
Pascal Picq, Nova História do Homem, Círculo de Leitores. 2009. pp. 300-303
***
A aprendizagem continua. Do caos nasce o cosmos e do cosmos, o caos. A vida é organização no seio da entropia mas, para evoluir, produz mais entropia.
Heraclito não podia estar mais certo, com a sua fórmula: «viver de morte, morrer de vida.»

quarta-feira, julho 06, 2011

De piolheira a lixeira, em pouco mais de 100 anos

Ah, Portugal! Agora, nem de plástico és (que é mais barato)! És lixo! Dizem lá nas agências financeiras norte-americanas. Já nem te querem comprar. Abaixo disto, só a reciclagem. Então sim: um Portugal novo e reciclado! Até lá teremos de penar na lixeira. (Lixeira para a especulação financeira, entenda-se, que aqui também não se diz mal de Portugal).

domingo, julho 03, 2011

A justa distribuição dos sacrifícios

Todos os rendimentos, superiores ou iguais ao salário mínimo nacional, serão alvo do imposto extraordinário, excepto os rendimentos de capitais. Cá está a justa repartição dos sacrifícios de que falava o nosso Presidente! É justo!

Argumento de um comentador na SIC Notícias: assim é, pois caso contrário, os investidores poderiam fugir com o dinheiro para o estrangeiro, o que prejudicaria a economia nacional. Brilhante!

O trabalho, infelizmente, não tem o mesmo grau de mobilidade do capital financeiro. Não pode circular com a mesma celeridade. Consequência: taxa-se o trabalho, ficando livre o capital financeiro.

Isto está mesmo a pedir uma bernarda.

Ah plácido povo que a tudo te submetes!

***

Outra:

Um dia depois de ser anunciado o imposto extraordinário que permitirá ao Estado arrecadar 800 milhões de Euros, publica-se um despacho em Diário da República que determina um empréstimo ao BPN no valor de 1 000 milhões. Os fiadores somos nós, contribuintes.

Tudo isto é revoltante.

sábado, julho 02, 2011

City of ships


«CITY of ships!
(O the black ships! O the fierce ships!
O the beautiful, sharp-bow’d steam-ships and sail-ships!)
City of the world! (for all races are here;
All the lands of the earth make contributions here;)
City of the sea! city of hurried and glittering tides!
City whose gleeful tides continually rush or recede, whirling in and out, with eddies and foam!
City of wharves and stores! city of tall façades of marble and iron!
Proud and passionate city! mettlesome, mad, extravagant city!
Spring up, O city! not for peace alone, but be indeed yourself, warlike!
Fear not! submit to no models but your own, O city!
Behold me! incarnate me, as I have incarnated you!
I have rejected nothing you offer’d me—whom you adopted, I have adopted;
Good or bad, I never question you—I love all—I do not condemn anything;
I chant and celebrate all that is yours—yet peace no more;
In peace I chanted peace, but now the drum of war is mine;
War, red war, is my song through your streets, O city!»
Walt Whitman, Leaves of Grass

***

Cidade de navios!

(Oh, navios negros! Oh, navios ferozes!

Oh, belos vapores e veleiros de afiadas proas!)

Cidade do mundo!, (pois todas as raças estão aqui,

Todas as terras do mundo deram o seu contributo);

Cidade do mar! Cidade de apressadas e resplandecentes marés!

Cidade cujas jubilosas marés avançam continuamente ou retrocedem para dentro e para fora em remoinhos de espuma!

Cidade de cais e armazéns - cidade de altas fachadas de mármore e ferro!

Altiva e apaixonada cidade - cidade revolta, louca, extravagante!

Ergue-te, ó cidade, não só pela paz, mas pelo que é realmente, pela guerra!

Não temas - não te submetas a modelos que não sejam os teus, ó cidade!

Contempla-me - encarna-me como eu te encarnei!

Não recusei nada do que me ofereceste - aquilo que adoptaste eu adoptei,

Bom ou mau, nunca te questionei -amo tudo - não condeno nada,

Canto e celebro tudo o que é teu - mas basta de paz,

Na paz cantei a paz, mas agora o tambor da guerra é meu,

A guerra, a guerra vermelha é o meu canto através das tuas ruas, ó cidade!


Walt Whitman, Folhas de Erva - Antologia, Assírio & Alvim, 2003, pp. 263
tradução de José Agostinho Baptista

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