quarta-feira, outubro 16, 2013

Enquanto isso, na América

Enquanto isso, na América trava-se uma batalha épica, uma espécie de contra-ofensiva desesperada, uma “Batalha das Ardenas” contra a vaga neoliberal que tudo invade. Obama, contra a corrente principal que se faz sentir no mundo, e também em Portugal, que visa a desagregação do Estado Providência, tenta impor o ObamaCare, e, dessa forma, democratizar o sistema de saúde Norte-americano, abrindo a prestação de cuidados de saúde aos que no actual sistema se veem privados desses cuidados, em suma, aos mais pobres e classes médias endividadas, aos que não têm dinheiro para pagar às poderosas seguradoras pelos tratamentos necessários.

Esta gente contra a qual Obama actualmente se bate – os do Tea Party do Partido Republicano - não brinca em serviço na defesa das classes mais ricas (move-os na verdade uma visão de classe). Recentemente votaram uma lei que implica a retirada das senhas de alimentação do programa Federal a mais de 3,4 milhões de pobres em 2014. Outro insulto aos pobres noticiava o editorial do New York Times de 20 de Setembro.

O desfecho deste braço-de-ferro é de extrema importância, pois não é só o ObamaCare que está em causa. É a própria sobrevivência da democracia, na verdadeira acepção da palavra.

terça-feira, outubro 15, 2013

O novo colonizador

Sonhais ainda com guerras coloniais, José Eduardo?
Eram outros portugais, José Eduardo.
Por muito que secretamente o desejes, já não nos encontrarás nesse mister de matar e morrer. Estamos curados disso e muito tempo passou. 
Aí já não nos encontrarás.

Agora tu, José Eduardo,
Numa irónica reviravolta do destino,
tornaste-te o vil colonizador do teu próprio povo,
que jamais medrará

sob a tua cleptocrática sombra.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Ainda por cumprir e já noutro filme

«Assim, como atrás referi, as duas mais importantes promessas da modernidade ainda por cumprir são, por um lado, a resolução dos problemas da distribuição (ou seja, das desigualdades que deixam largos estratos da população aquém da possibilidade de uma vida decente ou sequer da sobrevivência); por outro lado, a democratização política do sistema político democrático (ou seja, a incorporação tanto quanto possível autónoma das classes populares no sistema político, o que implica a erradicação do clientelismo, do personalismo, da corrupção e, em geral, da apropriação privatística da actuação do Estado por parte de grupos sociais ou até por parte dos próprios funcionários do Estado).»

Boaventura Sousa Santos, Pela Mão de Alice, O Social e o Político na Pós-Modernidade, 8ª ed., Edições Afrontamento, 2002, (na página 88).

Desconheço se Sousa Santos já o teria escrito aquando da primeira edição, em 1994. Se o fez, passaram então dezanove anos. Neste ínterim o mundo mudou, para pior, e, em vez de nos aproximarmos progressivamente do cumprimento das promessas por cumprir da modernidade, afastámo-nos delas à velocidade da luz. Volvidos estes anos, em Portugal, semiperiferia (sempre semiperiferia!) cada vez mais periférica, a conversão das elites governantes e dos seus partidos à doutrina neoliberal pós-moderna, agravou os problemas da distribuição e afastou-nos da democratização política do sistema político democrático, ao ponto de se voltarem a ouvir por aí as famosas grandoladas (inclusive na Assembleia da República, a Casa da Democracia).

A modernidade ficou por cumprir neste país e a modernização é uma gargalhada.


A pós-modernidade abalroou as promessas incumpridas da modernidade como uma locomotiva abalroa um camião.

domingo, outubro 06, 2013

Tangerinas de Tânger, laranjas de Portugal

Quanta história se cruza nas ruas de Tânger – até a fruta que recebeu nome da cidade fala de séculos de intercâmbios comerciais e choques culturais. E por causa das frutas, e da geografia cultural que representam, vem-me à memória uma conversa uma vez num mercado do Irão. Eu que explicava que era de Portugal. O vendedor de fruta mostrou-me uma laranja e sorriu: “Ah, portugália”. O nome para “laranja” em persa era “portugália”.


Tangerinas de Tânger, laranjas de Portugal – e pelo meio um estreito de mar com a largura de um milénio de desconfianças, preconceitos, ódios e guerras. Que estúpidos que são os homens e as coisas em que acreditam.

Gonçalo Cadilhe, África Acima, Oficina do Livro, 2007, pp. 197-198

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O livro de Gonçalo Cadilhe é para ler com o auxílio de um bom atlas ou mapa e de uma lupa, para podermos acompanhá-lo no seu percurso e localizarmos as cidades que atravessa. Li-o num ápice. Consegue transportar-nos para África, é divertido e faz pensar. Agradeço ao autor.

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Curiosamente acabei de ler o livro numa semana marcada pela tragédia (mais uma) que se abateu sobre centenas de africanos que tentavam alcançar a ilha de Lampedusa num barco que ardeu e se afundou. Morreram centenas de imigrantes, incluindo mulheres grávidas. Prenhes de África, esperançosas de Europa. Que problema este. Que tragédia.


Estamos pois, muito longe desse tão apregoado mundo plano, aplanado pela globalização, onde supostamente existiria igualdade de oportunidades para todos. A globalização capitalista não é solução porque gera enormes desigualdades socio-económico-espaciais – polarizações, chamam-lhe os sociólogos - e são estes diferenciais que estão na origem de todos fluxos, no caso, fluxos de desesperados que pagam muitas vezes com a vida, a ousadia de sonharem com outra existência, mais promissora do que a que lhes é oferecida nos poeirentos campos de África.

sábado, outubro 05, 2013

O acelerador de partículas da história

A guerra é uma espécie de acelerador de partículas na transformação da história.

João Gouveia Monteiro

No programa da Antena 2, Quinta Essência, de João Almeida, o historiador João Gouveia Monteiro, com grande vivacidade e detalhe, conseguiu fazer com que este ouvinte presenciasse, em directo, a Batalha de Gaugamela, que opôs o exército de Alexandre Magno da Macedónia ao de Dário III da Pérsia, em 331 a. C.


O excelente programa pode ser ouvido AQUI.

Entretanto aguarda-se já a próxima grande batalha.

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Um livro adquirir:


João Gouveia Monteiro, Grandes Conflitos na História da Europa, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

quinta-feira, outubro 03, 2013

Civilização e religião

Abro o Livro do Desassossego e leio:

Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas. Nós perdemos essa, e às outras também.”

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio e Alvim, 2013, p. 259

E não era sociólogo.

No cerne de cada civilização encontramos uma religião, se escavarmos bem fundo. Os que estudam as civilizações sabem-no. Fernando Pessoa, que não estudava civilizações, sabia-o. Desestrutura-se aquela civilização cujos membros vão abandonando paulatinamente a linha íntima da religião civilizacional.


É por aqui que podemos tomar o pulso da decadência civilizacional. Qualquer
que seja a civilização.

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