sábado, novembro 30, 2013

O mar português


Soares acabou com a Marinha Mercante, Cavaco acabou com grande parte da frota de pesca nacional, Passos acaba com os estaleiros de Viana do Castelo e agora a Marinha de Guerra está sem Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA).

Isto no país dos Descobrimentos, pioneiro da globalização, que possui a 3ª maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia e a 11ª do mundo.

Há algo de extremamente errado aqui.

Portugal sem o mar não é Portugal. Será que quem nos diz governar não compreende isto.

Mas que IIIª República é esta?

***

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Fernando pessoa


Portugal chora, já não os seus náufragos perdidos no mar, mas o fim do seu mar. E o fim do seu mar é o seu fim.

É Portugal que naufraga.

segunda-feira, novembro 25, 2013

Adeus, clara visão do mundo!

Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 6ª ed., 2013, pág. 240

Ver claro é não agir?! Bom, às vezes esfregamos os olhos, estremunhados, para ver melhor ao longe, pra enxergar o que vem lá. E quando constatamos que é um touro furibundo vindo em nossa direcção, então ver claro é agir. Caso contrário, adeus clara visão do mundo!

***

Consta que muitos filósofos e poetas da Antiga Grécia - à excepção do poeta Arquíloco, diga-se de passagem - na sua juventude tinham sido soldados notáveis. Homens de acção, portanto.  


De que serve a contemplação, se não for para melhor agir? Para mero deleite dos sentidos? Mas nem sempre os sentidos se deleitam com o que contemplam. É preciso agir então, transformando o mundo para depois o contemplarmos melhor e é preciso contemplar o mundo, para depois agirmos melhor. Como um escultor que vai criando a sua obra – esculpindo e contemplando, avançando e recuando, frente à sua obra, como Rodin.

domingo, novembro 24, 2013

E agora, o mercado interno chinês: consumir é glorioso!

«O que parece ser novo neste domínio [da globalização da economia] é o aumento exponencial da exportação da cultura de massas produzida no centro para a periferia e com ela das “estruturas de preferências” pelos objectos de consumo ocidental. Está-se a criar assim uma ideologia global consumista que se propaga com relativa independência em relação às práticas concretas de consumo de que continuam arredadas as grandes massas populacionais da periferia. Estas estão duplamente vitimizadas por este dispositivo ideológico: pela privação do consumo efectivo e pelo aprisionamento do desejo de o ter. Pior do que reduzir o desejo ao consumo é reduzir o consumo ao desejo do consumo.
Esta dupla vitimização é também uma dupla armadilha. Por um lado, nem o desenvolvimento desigual do capitalismo, nem os limites do eco-sistema planetário permitem a generalização a toda a população mundial dos padrões de consumo que são típicos dos países centrais

Boaventura Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª ed., Almedina, 2013, Pág. 269
(os sublinhados são nossos)

Dizia bem Boaventura Sousa Santos, que “as grandes massas populacionais da periferia” estavam “arredadas” das práticas de consumo vigentes no centro, mas não da publicidade suscitadora de novos desejos e de insuspeitas "necessidades", individuais e colectivas. Pois bem, essa realidade, que já muda, irá alterar-se rápida e profundamente. A China ao decidir aprofundar mais a sua política económica no sentido de “mais mercado e menos Estado”, alargando-a ao seu mercado interno, abraça definitivamente a biopolítica. Mais mercado, mais consumo interno, mais população (a China vai relaxar a sua política demográfica antinatalista), mais consumidores, mais contribuintes - esses novos escravos a formar… Mas também, mais poluição, mais consumo de energia, mais consumo de recursos naturais, mais ameaça à biodiversidade, mais, mais, mais… Se enriquecer era glorioso, é agora o consumo que passa a sê-lo. E assim se vai imiscuindo o deus mercado, insidiosamente, em todas as esferas da vida (e da Vida).

O mercado é o fetiche da China, esse país mutante. Comunista e capitalista, neoliberal e consumista.

terça-feira, novembro 12, 2013

O sonho português

O desprezo a que é votado o mercado interno é evidenciado pela orientação política e económica destes que nos dizem governar, ao privilegiarem exclusivamente as exportações e o turismo como os motores do crescimento económico nacional (coisa que, curiosamente, mal se vê, ainda que andem já por aí a falar em milagres). Para esta gente, os consumidores estão lá fora. Os de dentro que se resignem ao trabalho mal pago, à exploração, aos baixos salários, que o consumo, esse, não é para cafres. Os da “piolheira”, se quiserem, que emigrem, ou então, que aguardem o crescimento do investimento directo estrangeiro, pois nem Governo, nem empresas nacionais exportadoras, estão preocupados com as suas aflições. Neste país, paradoxo dos paradoxos, empobrece-se a trabalhar. É o sonho português, no seu melhor. Arbeit macht frei.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Delinquentes

Após visionar uma reportagem na RTP 1 sobre o estado de degradação a que a Escola Secundária da Anadia chegou (e esta escola não é a única escola pública nesta situação degradada - há muitas Anadias por aí), uma palavra ecoou na minha cabeça: “delinquentes!” (isso mesmo, a proferida por Soares). Tem razão Soares: somos governados por um bando de delinquentes e presididos pelo chefe da quadrilha. Soares esquece porém que o caminho para a chegada desta gente à governação do país foi preparado por aquela “terceira via” "socialista" e socrática, comprometida com o neoliberalismo, pioneira na organização das escolas por agrupamentos, o que virá a facilitar o posterior passo no sentido da privatização das escolas; a mesma via que precarizou o vínculo dos funcionários públicos ao Estado, tornando-os, a maioria, em “contratados de trabalho por tempo indeterminado”, rebaixando o estatuto social dos professores, a meros “ocupadores” de alunos – passavam a tratar da famosa ocupação plena dos tempos livres, quando o seu papel não é, meramente, ocupar alunos, mas sim ensinar saberes relevantes, divulgar cultura, ciência, arte e desporto; congelou-lhes as carreiras; deixou de  lhes pagar pela correção de exames, ao contrário do que se faz nos outros países; transferiu custos para muitos professores ao fazer com que tivessem de circular entre várias escolas de um mesmo agrupamento. Em curtas palavras, o ministério educativo de Sócrates tentou arrastar os professores para a lama. Tentou, debalde, rebaixá-los socialmente. Não conseguiu porque eles lutaram, e bem, e a maioria dos portugueses os tem em grande consideração.

Mas no ministério educativo de Sócrates nem tudo foi mau: distribuiu computadores pelos alunos e professores - os famosos Magalhães, entre outros -, inclusive a alguns que nunca tinham utilizado um, e equipou escolas. Diminuiu o número máximo de alunos por turma e abriu a escola aos adultos – os famosos Cursos de Educação e Formação e os cursos de Educação e Formação de Adultos, enquadrados pelo programa Novas Oportunidades. Introduziu o ensino do Inglês no Primeiro Ciclo, alargou a rede pública de educação Pré-escolar. Além disso, investiu nalgumas escolas reparando-as, modernizando-as, dotando-as de novos equipamentos, …Pelo menos era essa a intenção, até chegarem os delinquentes.

Os delinquentes chegaram e pararam tudo – não havia dinheiro, diziam – e ao invés de investirem na Escola Pública, desinvestiram. Agravaram as condições de trabalho nas escolas públicas, aumentaram o número de tempos lectivos nos horários dos docentes, aumentaram o número máximo de alunos por turma (quando o Governo anterior, o tinha diminuído). E, contrariando as orientações do memorando da troika (porque aqui lhes convinha), aumentaram a transferência de dinheiros públicos para os colégios privados – para isto já havia dinheiro.

São delinquentes, pois claro, porque a sua intenção evidente é a de favorecer negócios privados, que envolvem empresas de amigos, conhecidos, influentes e grupos de interesse dos colégios privados. Para estes delinquentes é preciso que a Escola Pública e a Universidade Pública se degradem, para que a Privada se torne mais apelativa, apetecível e lucrativa. Para estes delinquentes, o ensino e a educação escolar são ainda um rico filão à espera de ser explorado. Há que prepará-lo para a rapina.

Um bando de delinquentes! É o que são. Uma cambada!

domingo, novembro 10, 2013

A comercialização da estética e a prostituição publicitária

A comercialização da estética, a sua redução a kitsh, contam-se entre os traços marcantes das culturas capitalistas. Shakespeare e Kant servem para vender sabonetes. Um tema de Haydn é convertido em refrão que acompanha o lançamento de um novo modelo de peúgas. Os textos, a música em causa, prestar-se-iam, em certo sentido, a uma tal prostituição? As ironias aqui são profundas.

George Steiner, Gramáticas da Criação


Muito antes desta constatação de Steiner, Fernando Pessoa tinha sido alertado por um amigo para o possível destino que a sua obra – Mensagem – teria, caso lhe desse o nome inicialmente pensado, “Portugal”. É que nem “Portugal”, nem a sua maior Dinastia, escapavam já à prostituição publicitária da cultura capitalista da época e ao kitsh (curiosamente, tal como Steiner, também Pessoa relaciona esse uso publicitário, por ser mais do que abusivo e empobrecedor, à prostituição).





Fernando Pessoa, AQUI

Em suma, a relação entre o capitalismo e a cultura equipara-se à relação entre o proxeneta e a prostituta, “em certo sentido”. A cultura só ao capitalismo interessa na medida em que ele pode ganhar dinheiro com a sua comercialização. Fernando Pessoa não queria que a sua “Mensagem” se prestasse a tal tratamento.

domingo, novembro 03, 2013

Desarmadilhar o futuro

Diz o caro Rogério, do blogue Conversa Avinagrada, em comentário ao post anterior, que o futuro virá atrás de um punho cerrado, se cerrarmos os punhos.


O futuro virá atrás de um murro de revolta se não for desarmadilhado, ou de um ruidoso murro dado numa mesa, por algum Sebastião iluminado, populista, que gritará “Basta!”, um ditador... Estaremos ainda a tempo de o evitar?


O futuro, longe de ser uma pomba, parece ser uma bomba. Uma bomba nuclear, demográfica, ambiental, económica, social...São essas as ameaças que pairam sobre as nossas cabeças e que se têm acumulado. O futuro já vai explodindo por aí, por esse mundo fora e por aqui, por Portugal. Que futuro mora no Bairro do Lagarteiro, ou noutros bairros como esse, só para dar um exemplo? O futuro poderia ser uma pomba, mas armadilharam-no como uma bomba. 

sábado, novembro 02, 2013

O futuro

Nunca esteve tanto nas nossas mãos, mas as nossas mãos nunca foram tão ignorantes sobre se afagam uma pomba ou uma bomba.


Boaventura Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª ed. Afrontamento, 2013, p.54

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