domingo, maio 18, 2008

Navegação da Primavera


Na Primavera há para os homens outra navegação propícia.

Quando pela primeira vez, qual a marca que a gralha

deixa, ao pousar, assim se tornem visíveis ao homem as folhas

na ponta dos ramos, então é navegável o mar.

Esta é a navegação da primavera. Mas eu não

a recomendo, pois não é grata ao meu coração:

imprevisível, a custo vais evitar a desgraça. Apesar disso,

os homens praticam-na, por ignorância de espírito,

pois a riqueza é a vida para os míseros mortais.

E é horrível morrer entre as ondas. Exorto-te, porém,

a meditar tudo isto em teu espírito, como te digo.

Não ponhas nas côncavas naus todos os teus haveres,

mas deixa a maior parte e embarca a pequena porção,

pois é duro encontrar a ruína sobre as ondas do mar;

duro também se, ao colocar sobre o carro peso excessivo,

partes o eixo, e resulta a perda da carga.

Guarda a medida; a ocasião é em tudo a melhor coisa.


Hesíodo, Trabalhos e Dias


segunda-feira, maio 12, 2008

Prelúdio

Le Boulevard Montmartre, effet de nuit, 1897
Camille Pissarro (1830-1903)

Preludio

Las alamedas se van,
pero dejan su reflejo.

Las alamedas se van,
pero nos dejan el viento.

El viento está amortajado
a lo largo bajo el cielo.

Pero ha dejado flotando
sobre los ríos sus ecos.
El mundo de las luciérnagas
ha invadido mis recuerdos.

Y un corazón diminuto
me va brotando en los dedos.

Garcia Lorca

domingo, maio 11, 2008

As Revoluções

As revoluções são como pedras lançadas à quieta superfície de um lago. Agitam-na, provocam ondas de choque e depois tudo volta a ser como dantes. As águas, passadas as ondas de choque, retornam ao seu sossego. Muitos acreditam nisto e propalam a inutilidade das revoluções. Mas os efeitos das revoluções dependem principalmente da dimensão da pedra que é lançada, ou da rocha, ou do meteorito que cai sobre as águas.

Talvez a sociedade não seja como um lago, mas como um rio. Uma revolução pode mudar o seu curso. Mas mais uma vez depende da dimensão da pedra ou da rocha e da força com que é lançada. Talvez a mudança dependa também da força com que o rio corre.

Talvez o “Maio de 68” tenha sido uma pedra lançada ao charco, assim como o “25 de Abril”. Pois o tempo acabou por trazer o sossego ao limite das águas e já tudo permanece… (ou tudo muda?).

O que é certo é que os revolucionários de 68, quando chegaram ao poder, trouxeram-nos o neoliberalismo. Fizeram tudo ao contrário do que gritaram na rua. Esqueceram os ideais revolucionários na sua acção governativa. Agora festejam apenas a revolução da sua juventude, mas não foram capazes de mudar o curso das águas.

Do “25 de Abril”, passados estes anos, ainda se fazem sentir as suas ondas de choque nas ruas (não é a liberdade uma onda de choque?). Os que nos governaram desde então, porém, repetem os mesmos erros dos governantes de Maio de 68 e adoptaram o neoliberalismo como cartilha.
Pois que se vão, e que dêem lugar a outras gerações. Que venham outras águas. Mais claras.

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