terça-feira, junho 03, 2008

O desvanecimento da memória, mais uma vez

Por aqui têm desfilado personalidades de vulto, mestres, que nos avivam a memória para o facto de que vivemos actualmente um grande paradoxo: é exactamente no momento em que mais proliferam os suportes mediáticos da memória, que o passado, em particular o mais recente, “o passado público” da época em que vivemos, se obscurece na memória dos homens, principalmente, na dos homens jovens. Vivemos numa espécie de “presente contínuo”, à deriva, sem qualquer vinculação à experiência vivida pelas gerações passadas.

Senhoras e Senhores, Eric Hobsbaw:

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam a nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenómenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milénio. Porém, por esse mesmo motivo, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores, embora essa seja também uma função necessária do historiador.

Hobsbawm, Eric, A Era dos Extremos, Editorial Presença, 1996, Pág. 15.

sábado, maio 31, 2008

Numa boa sociedade

Numa boa sociedade, um homem deve (1) ser útil, (2) estar o mais possível protegido contra o infortúnio não merecido, (3) ter oportunidade de livre iniciativa por todos os meios não prejudiciais aos outros.



Bertrand Russell, O Impacto da Ciência na Sociedade, 1967

domingo, maio 25, 2008

O Partido Neoliberal Democrata, o Partido Neoliberal Socialista, o Neoliberalismo e o Quarto Mundo

O Partido Social Democrata sempre foi neoliberal (um neoliberalismo escondido por detrás do chavão “Social”), o Partido Socialista passou a sê-lo após ter colocado o socialismo “na gaveta”. E embora o neoliberalismo seja mais variegado do que pareça, a verdade é que ambos os partidos o advogam, um de uma forma mais pura, o outro de uma forma mais soft. Mas qualquer neoliberalismo, por mais variegado que seja, parte de premissas comuns: a liberalização dos mercados, a austeridade fiscal e a privatização do sector público.

Estas premissas são acompanhadas geralmente por elevados custos sociais e ambientais e por um retrocesso no grau de reconhecimento de determinados direitos de cidadania, em áreas como a segurança social, o apoio no desemprego, no direito a níveis salariais dignos ou à estabilidade no emprego. Esta velha ideologia com novas roupagens, que grassa pelo globo, apoia-se na progressiva retirada do Estado Social, que nos apoiava nos momentos de infortúnio – no desemprego, na doença e na velhice – e deixa o cidadão, nesses momentos, cada vez mais desamparado e abandonado à sua sorte. As sociedades tornam-se menos solidárias e mais egoístas porque se advoga o fim do papel redistributivo exercido pelo Estado. Este deverá ser “emagrecido” – é o lema do “menos Estado, melhor Estado”, levado ao seu máximo expoente. De acordo com os neoliberais, o Estado deverá ter apenas o papel de regulador da economia e da sociedade, interferindo o menos possível no mercado e na vida dos cidadãos. Persistem numa fé inabalável no Mercado e na “sociedade civil” para a resolução de todos os problemas, quando já se percebeu que o Mercado não funciona sem o Estado regulador, porque não existe nenhuma “mão invisível” que o conduza aos carris quando descarrila.

Adopta-se esta ideologia, quando a mesma revela já sinais de decadência noutros lugares. Os EUA, pioneiros na sua aplicação agonizam agora numa crise profunda, e correm o risco de perderem a sua hegemonia mundial, tornando-se em breve num país como qualquer outro, nas palavras do historiador Fernandez-Armesto, em entrevista ao El Mundo, abandonando a sua condição de hiperpotência.

As políticas neoliberais mal conduzidas deram origem a novas formas de pobreza, nos países mais desenvolvidos, e ao aparecimento do Quarto Mundo, que mais não é do que a emergência do Terceiro Mundo no Primeiro. O aparecimento de bolsas de pobreza e o aprofundamento de desigualdades sociais lançam cada vez mais a democracia representativa no descrédito. Afinal quem representam os partidos? A desregulação e a retirada do Estado do Bem-estar Social (welfare state), deu origem a esse Quarto Mundo, onde, nas palavras dos geógrafos espanhóis, Romero e Noguet (2007), se incluem os excluídos do mercado de trabalho, os desempregados de longa duração, os trabalhadores pouco qualificados e com trabalho precário, os idosos não assistidos e com pensões de miséria, os imigrantes não legalizados e explorados por empresários sem escrúpulos, os grupos étnicos marginalizados, os grupos de jovens marginais oriundos de famílias desestruturadas, com claros deficits educativos e sérios problemas de acesso a uma actividade laboral e a casa própria, ante o encarecimento da mesma e a quase total ausência de habitação social. A utopia neoliberal do mercado livre está a levar o Ocidente a uma espécie de brasileirização, ou seja à irrupção, sobretudo em termos do mercado de trabalho, do precário, do descontínuo, do impreciso, do informal, de tal forma que a sociedade típica do Estado de Bem-estar está a converter-se numa “sociedade de risco”, à imagem e semelhança do Terceiro Mundo.

Os partidos que têm alternado no Governo do nosso país, têm progressivamente adoptado políticas neoliberais, com todas as consequências da sua governação a emergirem, em particular, ao nível económico e social – aumento das desigualdades sociais e territoriais (disparidades regionais), da pobreza e do desemprego.

Os candidatos concorrentes à liderança do Partido Neoliberal Democrata (assim se deveria chamar, em vez de Partido Social Democrata), finalmente assumiram essa condição de neoliberais, em particular o candidato mais novo, que com toda a transparência acenou bandeiras neoliberais, e marcou cedo a sua posição nesse campo. Em seu favor está o facto de não ter ocultado essa sua linha de acção política e de a ter assumido claramente. Aparentemente, por arrasto, a candidata menos nova, presumível vencedora, retirou o véu diáfano que cobria o seu pensamento neoliberal e passou também ela a defender, por exemplo, um Sistema Nacional de Saúde (SNS) reformado, ou para dizer a verdade, o fim do SNS, ou um SNS à americana. Um SNS só para alguns, os mais necessitados, ou seja, os mais pobres dos pobres. A maioria, os mais remediados, a classe média (cada vez menos média), os mais abastados e os poucos ricos, mas muito ricos, esses que recorram aos seguros de saúde ou às clínicas privadas. As companhias de seguro e as clínicas e hospitais privados agradecem. A perversidade de tudo isto é que a real preocupação dos candidatos não é com os mais pobres, mas com os possíveis lucros dos lobbies que os apoiam - o ramo segurador e o sector privado ligado a várias actividades económicas, entre as quais a saúde, para não nomear outras. Seguir-se-á a educação, e tudo o mais que possa ser privatizado.

Quanto à maioria dos cidadãos, se querem saúde, educação, circular nas estradas ou simplesmente, beber água, pois que a paguem já que têm posses para isso porque o Estado, esse, já não pode suportar o fardo de sectores despesistas, como o da Saúde ou o da Educação entre outros e por isso quer sacudi-los para o sector privado como quem sacode a água do capote.

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