segunda-feira, agosto 31, 2009

Pós-política

A crise é tão grande e tão profunda que está literalmente em tudo e em toda a parte: nas ruas, nas conversas, num medo surdo que vai crescendo, no desprezo geral pela autoridade e na desconfiança de qualquer política.

Vasco Pulido Valente, Público, 16.08.09

sexta-feira, agosto 28, 2009

Os últimos dias de Agosto

Claude Monet (1840-1926) -A Regata de Sainte-Adresse, 1867

Música: Shostakovitch, Jazz Suite N.º 2, Valsa Lírica

quarta-feira, agosto 26, 2009

Ética e Responsabilidade

«Mas a ética é a esfera que não conhece culpa nem responsabilidade: é, como sabia Spinoza, a doutrina da vida feliz

Giorgio Agamben, O que resta de Auschwitz – O artigo e o testemunho. Homo Sacer III.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Semper Fidelis


Fidel Castro, a fiel fortaleza, sempre fiel, está longe de ter perdido a lucidez, como muitos gostariam que fosse.

Sempre fiel aos seus princípios e à Revolução, mesmo no fim, não deixa de estar atento ao mundo. Manifestou a lucidez que não teve Hoxa ou que não tem Mugabe, ao retirar-se do Poder em Cuba. Manifestou lucidez ao receber na sua ilha o Papa João Paulo II. Mas mais do que acreditar em Deus, crê no Homem e na Revolução.

Está lúcido quando ouve Ban Ki-moon a propósito da Cimeira de Copenhaga sobre o clima, ou os generais do Pentágono, acerca da ameaça ambiental à segurança dos EUA, e preocupa-se com a sobrevivência dos pobres do mundo.

Ao receber estudantes de Direito venezuelanos referiu que jamais poderá ser revolucionário aquele que não acredita no Homem. Essa pele não cabe aos ressentidos da vida, nem aos “contentes com o mundo”. E nem as distopias em que se transformaram todas as utopias, sempre que o Homem as tentou levar à prática, o demovem da crença na Humanidade.

Eis Fidel, semper fidelis.

Grécia em chamas

O problema do PS

There is no politics without frontiers.

Chantal Mouffe

Neste momento o PS vira-se para a Direita e exige, embirrento, um programa político para plagiar. Vira-se para a Esquerda e tenta desesperadamente encontrar um aliado que se queira coligar consigo, hipótese que lhe é recusada, cada vez com mais asco. Entre o estrabismo das piscadelas de olho à Direita e à Esquerda, lá vai colhendo migalhas que caem das respectivas mesas políticas, como a de Miguel Vale de Almeida. Na mesma linha de comportamento, procurou desesperadamente por Joana, mas esta fugiu-lhe e bem. Alberto das ilhas já clama, astuto, que o PS não tem ideologia. Mas o caso é pior: o PS está com uma crise de identidade.

Tudo começou a esboçar-se há muitos anos atrás, quando decidiu colocar o socialismo na gaveta. Mais tarde, descuida a defesa de instituições democráticas face a ameaças de desmantelamento e demolição, quando essa era uma preocupação da Esquerda, num momento de apogeu neoliberal. Privatiza, abraça a flexibilidade do trabalho e a degradação da qualidade do emprego. Aprofunda as desigualdades sociais e as disparidades territoriais, simula um esboço de regionalização, que foi rejeitado (para seu secreto alívio). Abraça a "terceira via" de Giddens e faz concessões ao neoliberalismo – Sócrates é a versão portuguesa de Blair. O problema é que o neoliberalismo arrastou o mundo para uma crise financeira, económica, social e ecológica – ou seja, mostrou que não é sustentável – e o PS já não pode voltar atrás. Está demasiado comprometido e não definiu linhas claras de separação entre a sua política e a política neoliberal, (na verdade praticou uma política neoliberal quando esteve no Governo).

Neste momento, em que se exige clareza de posições, temos partidos fiéis aos seus princípios e ideologias e um, sem princípios nem ideologia. Alguns fundadores, como Mário Soares, tentam agora desesperadamente inverter o rumo, mas é tarde demais. O Partido Socialista não é socialista. O que é o Partido Socialista?

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Referências

Mouffe, Chantal (1998) - “The Radical Centre. A politics without adversary”, Soundings, issue 9.

Carpentier, Nico; Cammaerts, Bart (2006) – “Hegemony, democracy, agonism and journalism: an interview with Chantal Mouffe”, Journalism Studies, 7 (6). Pp. 964-975.

domingo, agosto 23, 2009

Niña


Niña, de Sorolla, 1904

sábado, agosto 22, 2009

Pois, pois, a competitividade.

Impõem-se os impostos porque doutra forma ninguém os pagaria. No passado eram um tributo ao príncipe, hoje são um dever no Estado de Direito. Idealmente, deveriam ser uma forma de redistribuição justa, dos que têm para os que não têm, mas sabemos que na realidade não é assim. É certo que quem tem, pode ter trabalhado para isso e quem não tem, pode nada ter feito. Mas a maior parte dos que não têm posses não é responsável por essa situação, em particular, num mundo onde, injustamente, as desigualdades sociais se aprofundam, favorecidas por um sistema económico que premeia os exploradores e os nascidos em berços de ouro.

Aqueles que invocam a competitividade para reduzir os impostos, não estão verdadeiramente interessados na redistribuição da riqueza, mas sim na manutenção do status quo e no volume da sua bolsa. E ainda vêm com a velha história de que é preciso primeiro criar riqueza para depois a redistribuir, quando, na verdade, criação e a redistribuição da riqueza são dois processos simultâneos.

No contexto actual, os anúncios de reduções nos impostos sob o pretexto da defesa da competitividade escondem intenções de assalto aos serviços públicos por empresas privadas e pelo empresariado voraz.

A redução de receitas do Estado tem várias consequências entre as quais a degradação dos serviços públicos e o seu descrédito aos olhos dos cidadãos, preparando-se assim o terreno para o seu desmantelamento. Todos deveríamos saber que a redução das receitas tem de ser acompanhada por uma redução da despesa, para que o deficit se mantenha a valores mínimos ou nulos. Ora para que a despesa se reduza é requerido um Estado minimal e para isso não há como despedir funcionários públicos e privatizar serviços do Estado. Mas neste processo só os serviços passíveis de lucro são privatizados, ficando o Estado com os prejuízos. Os cidadãos passam então a ter de pagar a sua saúde, a sua educação, a sua segurança, a sua defesa judicial, etc., deixando o Estado de os apoiar em situação de infortúnio (desemprego, invalidez, doença, morte de cônjuge, etc.). É este o mundo dos que defendem o neoliberalismo.

Em vez de se preocuparem com o nível dos impostos, deveriam preocupar-se em aumentar a eficiência e a eficácia dos serviços públicos e melhorar a sua organização de forma a que os cidadãos não tivessem, por exemplo, de esperar 12 horas ou mais numa urgência de um hospital por um médico que está de folga ou de férias.

Aos que preferem Hayek a Keynes

Preferir Hayek a Keynes é aceitar que o poder se transfira do Estado de Direito para o mercado. Este dita que o poder fica com quem mais lucra e quem mais lucra é quem mais explora. Quem mais explora é quem mais domina e, em última instância, escraviza.

O medo do Estado ditatorial é tanto, que em fuga há quem se lance nos braços da ditadura do mercado, esquecendo que vivemos num Estado de Direito (precisamente, inventado “para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio).

***

Apontar o dedo ao Estado-providência keynesiano alegando a sua falta de democraticidade, é um velho argumento neoliberal (Purcell, 2009, 146):

Not surprisingly then, we see much evidence of neoliberals working to associate their project with democracy. One element of that strategy has been to argue that the Keynesian welfare state was undemocratic because decisions tended to be national, top-down, bureaucratic, and expert-driven. Neoliberals argue that their agenda of deregulation takes such decisions away from the state and its arbitrary, unchecked power, and hands them to individuals making free, rational decisions in an open market. There is little doubt the Keynesian state suffered from important democratic deficits. However, the neoliberal solution is not to democratize the state, but to relocate its power to the market.

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Referência:

Purcell, Mark (2009); “Resisting neoliberalization: communicative planning ou counter-hegemonics movements?”, Planning Theory, Vol 8 (2): 140-165.

segunda-feira, agosto 10, 2009

O vírus turista e a gripe suína

Após ter partido do México e viajado pelo mundo fora nos mais sumptuosos paquetes e em linhas aéreas de primeira classe, ei-lo que chega. Aliás, já se encontra entre nós, o vírus turista, o vírus global (a globalização dos vírus e das bactérias antecedeu a do capital financeiro). E nós, portugueses, afamados na arte de bem receber, acolhemo-lo de braços abertos, que doutra forma não pode ser.

Quando os médicos regressarem das suas férias, aguardá-los-ão urgências repletas de receosos autóctones, não vá a sua gripe ou constipação ser uma gripe porcina. E aos professores, kits de máscaras e escolas hesitantemente abertas, entre aflições de progenitores necessitados de depositar as suas crias nalgum lugar (que seja uma escola!). E aos alunos, rotinas de descontaminação e diversão. E aos patrões, pesadelos de quarentenas. E aos juízes, novas protelações. E aos políticos, cómicas sessões de deputados embuçados.

Passaremos a cumprimentar-nos com um olá fugidio e apressado (nada de beijos e apertos de mão e cuidado com as maçanetas!). Aumentará a frequência acumulada de infectados, sempre noticiada como um número absoluto que cresce em progressão geométrica, quando todos nós sabemos, que aos primeiros já a gripe não incomoda.

domingo, agosto 09, 2009

Questões de "rentrée"

Agosto aproxima-se do seu auge e perfilam-se já algumas questões com as quais os portugueses vão andar enleados a partir de Setembro para além das suas eternas dúvidas existenciais, como por exemplo, a de saberem quanto dinheiro terão nos bolsos ou se é desta que ganharão o euromilhões. Com certeza as suas cabeças, algures nesta silly season, já foram perpassadas por estas interrogações:

  • Serei contagiado pela gripe suína? Quando?
  • Quem nos governará?
  • Sairemos da crise?
  • O preço dos combustíveis aumentará? (portugueses automobilizados e afins)

quinta-feira, agosto 06, 2009

A festa de casamento


A Festa do Casamento, de Pieter Bruegel, o Velho, c. 1567-68

«É um quadro do século XVI do pintor Peter Bruegel que retrata uma boda de casamento de uma família da classe média. Este quadro está cheio de informação económica fascinante. Reparem primeiro na ementa da boda. Apesar de se tratar de uma ocasião de festa, há um único prato que está longe de ser luxuoso: flocos de aveia. Olhem agora para a criança que está a lamber a pouca aveia que resta no seu prato. Parece claro que ela está a aproveitar uma das poucas oportunidades de comer até ficar saciada.
Uma das razões pela qual esta pintura é famosa é porque representa uma pessoa com fome. Reparem no olhar angustiado que um dos músicos deita aos pratos de aveia. Os músicos fazendo parte da classe baixa, comiam no fim. E ao ritmo a que a comida está a desaparecer nesta boda, é bem possível que a aveia se esgote.
Na pintura original há castanhos, verdes, vermelhos, azul claro, mas muito pouco de azul-escuro. A exclusão do azul-escuro pode ter sido uma escolha estética. Mas, perdoem-me o enviesamento profissional, a explicação mais plausível para a ausência do azul-escuro é uma explicação económica. A tinta azul com carácter permanente era na época extremamente cara, por ser produzida com uma pedra semi-preciosa chamada lápis-lazúli. O pintor teve que se contentar com o azul claro que o escuro era caro demais.
Porque é que lhes estou a mostrar esta pintura? Para nos lembrar a todos que, desde o princípio da humanidade até há cerca de dois séculos, o mundo foi muito pobre; o cidadão médio teve níveis de vida incompativelmente mais baixos do que os nossos. Até ao século XVIII a principal preocupação da maior parte dos habitantes era a sobrevivência. O pensamento mais comum era: será que vou ter saúde e comida suficiente para chegar ao fim do dia? Havia um grupo exíguo de ricos, e é sobre esses que se escrevem contos e novelas que nos dão uma imagem romântica dos “bons velhos tempos”. Essas obras podem ser boas do ponto de vista literário, mas escondem a verdade dos factos: os velhos tempos eram péssimos.»

Rebelo, Sérgio (2001); “Educação, Capital Humano e Desenvolvimento Económico” in Globalização, Desenvolvimento e Equidade; Fundação Calouste Gulbenkian e Publicações Dom Quixote, pp. 77-79.

terça-feira, agosto 04, 2009

As férias de Cavaco

O nosso Presidente foi de férias. Foi de férias, alto lá! Leva trabalho que daria para encher um jipe. No seu pedagógico anúncio à nação (como parece pretender que sejam todos os seus professorais anúncios) parece sentir relutância ou pudor em afirmar que não vai fazer a ponta de um corno. Não. Leva trabalho e que trabalho! Pois eu gostaria de ter um presidente que afirmasse sem vergonha que vai aproveitar as suas férias para descansar, para reflectir sobre o mundo, para pôr a sua leitura em dia (caso goste de ler algo mais do que técnicos cartapácios legais) ou para recitar poesia. Será que está imbuído da ética protestante e do espírito do capitalismo? É verdade que visitou a Áustria recentemente, berço de neoliberais, terra de Schumpeters e Hayeks. É também verdade que o trabalho dignifica (quando não escraviza). Mas nas férias? Mais vale reconhecer que não vai de férias. É que nós portugueses quando nos preparamos alegremente para ir de férias, lá vêm os anúncios da imprensa lembrar-nos de que somos o povo (ou um dos povos) que menos trabalha na Europa, que temos mais feriados do que os outros, que a nossa produtividade é baixa, etc. Em suma, somos todos uns mandriões que, se calhar, nem merecíamos ir de férias. Querem que trabalhemos como um alemão, um austríaco ou um japonês? Pois que trabalhem eles, que nós somos latinos. Nisto estou com Agostinho da Silva: ainda que o trabalho liberte (como diziam os outros maldosamente– arbeit macht frei), prefiro libertar-me do trabalho.

Boas férias Sr. Presidente.

sábado, agosto 01, 2009

Começar pelo princípio

Fernando Pessoa, Mensagem

É preciso descer a encosta e procurar outro caminho que nos leve ao cume da montanha. É necessário regressar ao sopé. Perdemos o trilho. A descida agora tem de ser cuidadosa, pois pode ser mais dolorosa do que a escalada se não for realizada com a necessária presença de espírito. Uma vez no sopé, é preciso tornar a avaliar o penhasco e procurar um possível novo percurso. E depois, voltar a tentar. Iniciar uma nova escalada. Procurar um novo caminho.

É esta a mensagem de Zizek*.

E ainda que tentem demover-nos, é preciso encarar a montanha que se ergue à nossa frente, em desafio. E a sua escalada é uma obrigação para todo aquele que não está contente com o mundo.

Na verdade, as causas do nosso descontentamento existem. São elas que nos motivam a subir e a não abandonar tão árdua tarefa. E o nosso descontentamento é o descontentamento com o mundo, hoje dominado pelo capitalismo neoliberal e pelos seus “antagonismos”: a sombria ameaça da catástrofe ecológica motivada pela capitalização de quase tudo (para os neoliberais, tudo o que é passível de ser comercializado no “mercado livre” é capital, desde florestas a presas de elefante, do petróleo a peles de foca); a transformação de toda a propriedade intelectual em propriedade privada; as implicações éticas e sociais dos novos desenvolvimentos tecnológicos, especialmente no campo da bio-genética; e as novas formas de apartheid social – dos muros aos condomínios fortaleza, das vedações eléctricas aos bairros-de-lata (Zizek, 2009: 53).

A montanha aguarda-nos.

O que esperamos?

Referências

*Zizek, Slavoj (2009); “How to begin from the beginning”, New Left Review, 57, May June 2009.

quarta-feira, julho 29, 2009

O Mal

«O mal, eu afirmo, não é contingente, não é a ausência, ou deformação, ou a subversão da virtude (ou seja o que for que pensemos como seu oposto), mas um facto obstinado e irremissível.»

Kolakowski, "The Devil in History", in My Correct Views

terça-feira, julho 28, 2009

O Destino

O Destino existe. Pressentimo-lo. Pressentiram-no os antigos povos. E pressentiram mais: nem os deuses, nem os homens o podiam iludir por muito tempo. Tudo acabaria sempre por regressar aos seus estranhos desígnios, contra todos os esforços de deuses e humanos. Mas os primeiros conheciam-no melhor. Conseguiam sustê-lo por mais tempo, mas já no limite das suas forças, tinham que o largar e dar-lhe livre curso. É como um rio imorredouro que ninguém pode impedir que corra e que retorna sempre ao seu curso, contra todos os esforços. Hoje sonhei com uma mulher que amei em tempos. E que, pelos vistos, não consigo deixar de amar. Por que sonhei? Não sei. Por que a amei? Não sei. Só sei que o Destino a trouxe e o Destino a levou.

O dia nasceu.

Os melros já cantam à minha janela, como em todas as manhãs. E isso ninguém consegue mudar.

quarta-feira, julho 22, 2009

Comunismo vs Capitalismo

No comunismo o indivíduo perde-se no colectivo.

No capitalismo o colectivo perde-se no indivíduo.

segunda-feira, julho 20, 2009

Assim choram os deuses

E o poente tem cores
Da dor dum deus longínquo
E ouve-se soluçar
Para além das esferas...

Ricardo Reis (12-06-1914)

Ainda o marfim...

Loxodonta africana

Vinte anos após a proibição de comércio de marfim, eis que voltam a tocar a rebate os sinos de alarme.

Afinal neste ínterim prosseguiu a caça, porque o comércio de marfim foi permitido em determinados períodos excepcionais. O suficiente para galvanizar caçadores, furtivos e autorizados, e comerciantes de marfim.

Mas, qual é a surpresa? Não relatam os viajantes a existência de lojas em Adis Abeba e em Harar, na Etiópia e no Quénia?

«O comércio de marfim era ilegal, de maneira que eu insisti no assunto. Tinha ouvido dizer que circulavam grandes quantidades de marfim de elefantes caçados furtivamente. Mas embora tivesse visto bocados dele à venda em lojas, nunca tinha visto dentes inteiros, e não sabia qual era o seu preço no mercado; na verdade embora me tivessem dito que o seu comércio florescia, em Harar e noutros pontos, não fazia ideia de que podia, muito simplesmente, entrar numa pequena loja de Adis Abeba e dizer: “Queria comprar uns dentes de elefante, por favor.”»

Paul Theroux (2002), Viagem por África, Círculo de Leitores, página 155.

Continua o saque, no coração das trevas.

domingo, julho 19, 2009

Memória Esquecida

«O que é significativo na época de transformação actual é a singular despreocupação com que abandonámos não só as prácticas do passado - isso é bastante normal, e não tão alarmante - mas a sua própria memória. Um mundo que mal acabámos de perder já está meio esquecido.» (pág. 17)

(...)

«Em muitos países, "pôr o passado para trás" - ou seja, concordar em superar ou esquecer (ou negar) uma memória recente de extermínio mútuo e violência intercomunitária - foi um objectivo primordial dos governos do pós-guerra: às vezes conseguido, às vezes demasiado conseguido.» (pág. 18)

(...)

«Mas mesmo na Europa uma nova geração de cidadãos e políticos está cada vez mais esquecida da história: ironicamente, é o que acontece em especial nos países ex-comunistas da Europa Central, onde "construir o capitalismo" e "tornar-se rico" são as novas metas colectivas, enquanto a democracia é tida por garantida e até encarada em alguns quadrantes como um estorvo.» (pág. 31)

Tony Judt, O Século XX Esquecido - Lugares e Memórias, Edições 70

domingo, julho 12, 2009

Certezas ou meias-verdades?


«Com confiança de mais e reflexão de menos, pusemos o século XX para trás e, a passos largos, entrámos com ousadia no seu sucessor, ataviados com meias-verdades convenientes: o triunfo do Ocidente, o fim da História, a hora unipolar americana, a marcha inelutável da globalização e do mercado livre.»

Tony Judt, O Século XX Esquecido - Lugares e Memórias, Edições 70

sábado, julho 11, 2009

A arte da fuga

Entre a espada e a parede, o alçapão!

Em tempos ouvi dizer de alguém mais aguerrido, que quando o colocavam entre a espada e a parede, preferia a espada. Mas há sempre uma solução quando parece não haver nenhuma. Uma delas é desaparecer, como que por artes mágicas, e voltar a reaparecer noutro lugar, são e salvo, longe da espada e da parede, mas principalmente, longe de quem empunha a espada. Como nos filmes antigos, mudos e a preto e branco, em que o herói acossado pelo vilão desaparece por detrás de uma cortina de fumo, ante a surpresa do agressor e do espectador. Já com a ponta da espada encostada ao pescoço, plim! E o herói reaparece a milhas…

É a suprema arte da fuga!

quarta-feira, julho 08, 2009

Ao correr do marfim...


A devastação iniciada em África no século XIX continua, agora com a conivência e até a participação de governos corruptos, opressores do seu próprio povo. O fim do colonialismo não foi o início da liberdade, antes pelo contrário... Em África ainda não se respira liberdade e todos de lá querem sair.
E assim continua a correr o marfim... a madeira, o petróleo, o ouro, os diamantes, os animais...Tudo é consumido à velocidade da luz.
Prossegue a devastação no coração das trevas.

terça-feira, julho 07, 2009

A Nossa Força...


«Não eram colonizadores; desconfio que o seu governo se limitava a extorquir e nada mais. Eram conquistadores, e para isso bastava a força bruta - nada que seja motivo de vanglória, quando a temos, porque a nossa força não passa de um acaso decorrente da fraqueza dos outros. Apoderavam-se do que podiam só pelo prazer de se apoderarem. Tratava-se apenas de roubo com violência, assassínio agravado em grande escala e homens que se entregavam a isso às cegas, como aliás é próprio daqueles que enfrentam as trevas. A conquista da terra, que significa, sobretudo, tirá-la àqueles que têm uma cor da pele diferente ou o nariz ligeiramente mais achatado que o nosso, não é coisa bonita de se ver, se repararmos bem.»

Joseph Conrad, O Coração das Trevas

quarta-feira, julho 01, 2009

terça-feira, junho 30, 2009

A Leitura

A Leitura, 1870

Henri Fantin-Latour (1836-1904)


Ela observa-nos quando a observamos. A sua mão desnuda revela uma aliança e o laço azul destaca-se nas cores sombrias… Escuta com uma face inexpressiva. O que estará a ouvir? Parece ausente e a leitora, mergulhada na leitura, não se apercebe. Teremos sido nós que lhe captámos a atenção? Então rapidamente partimos para outro quadro.

As flores ao fundo são uma das marcas de Fantin-Latour, também um grande pintor de naturezas mortas do século XIX.

Quadro observado em Lisboa no Museu Calouste Gulbenkian em 28-06-2009.

sábado, junho 20, 2009

O Desnorte

«É já possível, depois de quatro anos de governação, determinar algumas linhas marcantes da política do Governo: 1. Por um lado, e por razões económicas, segue-se claramente uma orientação que se poderia chamar neoliberal. (…)

Mas neste período de eleições, e no contexto da crise nacional e internacional, o Governo é levado a contrariar parcialmente esta tendência neoliberal, insistindo em medidas próprias de um “Estado-Providência” (contra o desemprego, a pobreza, ajudando financeiramente empresas privadas (PME), nacionalizando bancos), o que torna menos clara a tendência para “desengordar” o Estado. 2. Por outro lado, e, aparentemente, em direcção contrária, a modernização da sociedade e do Estado impõe a máxima centralização dos serviços, a regulação mais económica das instituições públicas, a fusão de sectores idênticos até agora dispersos por vários sectores institucionais.
»

José Gil (2009), Em Busca da Identidade – O Desnorte, Relógio D’Água, pp. 44-45

quarta-feira, maio 27, 2009

Só seja marinheiro...

The Gust (c. 1680)

Willem van de Velde the Younger, 1633-1707
Só seja marinheiro quem esteja decidido a que no mar se afogue e nem dele reste memória. Senão até depois é capaz de haver monumento ou, pelo menos, sarcófago à parte.
Agostinho da Silva
Carta Vária, Relógio D'Água, 1990, pág. 70

sexta-feira, maio 22, 2009

Viva El Pelo

"Viva el pelo"
Julio Romero de Torres (1874-1930)

quarta-feira, maio 20, 2009

A Ponte de Ucanha

Ponte de Canga de Onis (Astúrias)

Ponte de Ucanha (Portugal)

Ponte e Torre de Ucanha

No tabuleiro da ponte de Ucanha

A boca da Torre

Em Ucanha há uma ponte medieval (século XII) parecida com a de Cangas de Onis nas Astúrias. Ambas possuem a meio do tabuleiro um ângulo mais ou menos pronunciado, mas a de Ucanha é mais baixa, menos angulosa e declivosa que a de Cangas, e, além disso, tem a particularidade de possuir uma torre que servia entre outras coisas, para a cobrança de portagens. Velho costume medieval que não nos abandonou.

Em Ucanha descobrimos a humilde casa onde nasceu e viveu o arqueólogo, filólogo e etnólogo José Leite de Vasconcellos (1858-1941). Foi uma agradável surpresa deparar com a casa de um Mestre cuja obra tanto apreciamos.

terça-feira, maio 12, 2009

Easy América!


A cultura americana tornou-se um fenómeno global. Massificou-se, difundiu-se. O mundo ficou mais pobre. O cinema de Hollywood funcionou como um difusor de cultura. Potente difusor. “Brad Pitt proibido de entrar na China”. Até os chineses se deixaram ludibriar pela tela. Ou, por outro lado, atribuem-lhe o seu real valor e levam muito a sério um actor de Hollywood no seu papel de difusor, não só de cultura, mas também de manifestos.

A América difunde o easy living, o easy way, mas a vida não é easy. Banaliza, melhor, difunde a idolatria do dinheiro em todas as suas formas, banaliza o sexo, o easy sex, banaliza o culto das armas…A cultura americana é uma cultura de morte e do espectáculo: a banalização da morte, mil vezes repetida, mil vezes encenada, mil vezes comunicada. A cultura do easy fuck. Easy América. A riqueza easy. American way of live. Infantilização de adultos.

A América está longe de ser uma tragédia. Na verdade é uma comédia.

segunda-feira, maio 04, 2009

quarta-feira, abril 29, 2009

Vasco da Gama e a arte de “bem tratar” as gentes do Índico


Nestes tempos de retorno da pirataria ao Índico, mais precisamente nas águas somalis, e face ao humanismo demonstrado por holandeses (que libertaram os piratas e os enviaram numa embarcação para terra) e pelos actuais portugueses (cuja lei nacional os impede de deter piratas naquelas águas) lembrei-me de Vasco da Gama. Cantado e idolatrado pelos nossos maiores poetas – Camões e Pessoa – Vasco da Gama não passa de um vilão aos olhos de historiadores e filósofos contemporâneos.

Talvez não tenha sido por acaso que os japoneses quando avistaram as velas dos nossos barcos pela primeira vez (fomos os primeiros europeus a demandar as suas costas), nos chamaram “bárbaros do Sul”.

Eis o que dizem historiadores e filósofos contemporâneos do comportamento do nosso Vasco a quem, segundo os poetas, os deuses abriram as portas do céu:

«Quando da sua primeira viagem à Índia, em 1497, Vasco da Gama, sem motivo especial, mandou incendiar e afundar, depois de o ter pilhado, um navio mercante árabe, a bordo do qual se encontravam duzentos peregrinos que se dirigiam para Meca, incluindo mulheres e crianças – prelúdio a uma “história do mundo” dos crimes externos

Peter Sloterdijk, Palácio de Cristal, Relógio D’Água, pág. 122.

«Em 30 de Outubro [de 1502], Vasco da Gama, agora ao largo de Calecute, ordenou ao samorim que se rendesse e exigiu a expulsão da cidade de todos os muçulmanos. Quando o samorim contemporizou e mandou enviados para negociar a paz, Vasco da Gama replicou sem ambiguidade. Capturou no porto, ao acaso, um certo número de negociantes e pescadores, enforcou-os imediatamente, depois esquartejou os corpos, atirou mãos, pés e cabeças para uma embarcação que mandou para terra com uma mensagem em arábico na qual sugeriu ao samorim que utilizasse aqueles bocados de corpos de gente para fazer um caril.»

Daniel Boorstin, Os Descobridores, Gradiva, pp. 170-171

sexta-feira, abril 24, 2009

25 de Abril, Sempre!


Aqui usamos cravos na lapela, Senhor...Presidente.

E os que não,

Que vão

P'ra Santa Comba Dão!



VIVA O 25 DE ABRIL!


segunda-feira, abril 20, 2009

O Coro Milton Friedman

Uma vez que os nossos amigos neoliberais precisam de ânimo e consolo, dada a derrocada do seu mundo (pois defendiam a desregulação dos mercados e agora aparecem a culpar a falta de regulação pela maldita crise, que ninguém sabe, como foi possível ter acontecido), aqui fica uma canção do coro Milton Friedman, para que se recordem dos seus "bons velhos tempos".

Via O Jansenista, já há algum tempo atrás.

domingo, abril 19, 2009

A Crise na Educação, Sempre a Crise na Educação...

A educação parece estar eternamente em crise. O tema é recorrente. Talvez a eterna crise da educação, agora cada vez mais salientada se deva à aceleração da mudança social, que as instituições educativas não conseguem acompanhar. Crise é mudança, ou, pelo menos, decorre da mudança (por isso há crises de adolescência, de meia-idade, menopausas e andropausas, crises de transição para a velhice, etc.).
Falou-se esta semana, da crise do ensino da Matemática, da iliteracia, da crise da Escola. A este propósito as palavras de Bento de Jesus Caraça, proferidas em 1931, parecem ter sido ditas ontem.

«Mas não basta que a Escola seja gratuita; para que ela seja na realidade acessível a todos é preciso ainda que o Estado vá mais longe, procedendo à sustentação material daqueles que a frequentam, para que não se vejam obrigados, por falta de meios, a afastar-se dela empregando o seu tempo em ganhar o pão para si e quantas vezes para os seus.
Mas ainda mesmo que fosse assim, era preciso proceder a uma renovação constante, pois o professor, desde que seja funcionário público, sente uma tendência - a lei do menor esforço - para a cristalização dos métodos de ensino. É necessária essa renovação nas pessoas e nos métodos; a classe dos professores não deve nunca descansar sobre os resultados conseguidos na véspera.
Por enquanto, como a Escola não é entre nós nada do que deveria ser, é preciso fazer um grande esforço e uma grande campanha no sentido da radical modificação do actual estado de coisas. Enquanto a Escola não seguir no seu ensino a orientação exposta, não será um instrumento de liberdade e progresso mas sim um elemento impeditivo da felicidade, liberdade e justiça sociais.»

Bento de Jesus Caraça (1931); "As universidades populares e a cultura" in A Cultura Integral do Indivíduo, Conferências e Outros Escritos. Gradiva, 2008, pág. 30.

quinta-feira, abril 16, 2009

O Novo Imperador

O cão do novo Imperador é português!

Hurra! Hurra! Hurra!

Chama-se Bo! Hurra!

Para mais Bo, veja o Caderno do Saramago!


(Este não é o Bo, mas é um cão-d'água português!)

sábado, abril 11, 2009

Enquanto vivemos, temos de aprender a viver!

Aos poucos reforça-se em mim a ideia de que realmente somos anões empoleirados nos ombros de gigantes e por isso o nosso olhar alcança mais longe e vislumbra outros horizontes mais vastos. Ontem ao abrir ao acaso um livro recentemente adquirido do Filósofo Séneca, eis que deparo com ela: a Educação. Não resisto por isso a publicar o dito excerto em que o Filósofo responde ao seu amigo Lucílio, e, ao mesmo tempo, ao que parece ser, ao seu alter-ego, que o confronta com o facto de regressar à escola na sua velhice. Reza assim:

«Ameaças cortar relações comigo se não te der parte de todas as minhas acções diárias. Ora vê com que franqueza eu te abro a minha vida, se até isto te vou confessar: ando a escutar as lições de um filósofo, já há cinco dias que frequento a sua escola onde assisto desde as duas horas da tarde às suas prelecções! "Bela idade para ir à escola?!” E porque não? Não será o cúmulo da insensatez desistir de estudar só porque há muito tempo já se deixou a escola? “Ora essa! Então hei-de pôr-me ao nível dos miúdos, dos adolescentes?” Dar-me-ei por muito satisfeito se a minha velhice me não der outros motivos de que me envergonhe: a escola da filosofia aceita gente de todas as idades. “Então é por isso que envelhecemos, para imitar os jovens?” Pois se eu apesar de velho, posso ir ao teatro e ao circo, se não há um combate de gladiadores a que eu não assista, porque hei-de envergonhar-me de ir assistir às lições de um filósofo?...Temos de estudar enquanto formos ignorantes; e, se é verdadeiro o provérbio, temos de aprender até morrer! Em nenhum caso aliás, o ditado se aplica melhor do que neste: enquanto vivermos, temos de aprender a viver!»

Séneca; Cartas a Lucílio, 3ª edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, pp. 310-311.

sexta-feira, abril 10, 2009

Desertos Verdes

Um velho axioma keynesiano da Economia, se assim o podemos chamar, determina que numa economia simples o investimento é também igual à poupança. Numa economia ligeiramente mais sofisticada os investidores financiam o seu investimento através do recurso a empréstimos de indivíduos que poupam (Dornbush, Fisher, Startz, 1998). Logo, para que o equilíbrio se mantenha e para que a identidade seja satisfeita, o crédito concedido deve igualar a poupança. Nas sociedades de consumo, fundadas cada vez mais no crédito ao consumo, esta premissa deixou de se verificar. Os indivíduos passaram a afectar a maior parte do seu rendimento, se não todo, ao consumo. O crédito concedido deixa de ter correspondência com a poupança. Os bancos, contudo, em vez de apelarem à poupança, continuam no entanto a apelar à contracção de crédito aumentando o desequilíbrio no “sistema”económico. O crédito concedido passa então a fundamentar-se, não nas poupanças, mas na produção de dinheiro nas rotativas dos bancos centrais e no endividamento dos estados. Mas esse crédito tem de ser ressarcido através de um acréscimo do investimento. Tem de haver crescimento económico. E o que faz o investidor? A necessidade aguça o engenho. O investidor vira-se para o mundo e parte em busca do capital necessário ao pagamento do juro e que lhe garanta simultaneamente o lucro que almeja. É desta forma que florestas inteiras desaparecem no Paraguai para darem lugar a vastas extensões de campos de soja: os desertos verdes.
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Dornbush, R.; Fischer S.; Startz R. (1998); Macroeconomia; McGraw Hill, 7ª edição, pág. 28.

sexta-feira, abril 03, 2009

A Economia Fundada no Crédito e o Saque do Mundo

«Os europeus de 1500 não são mais ávidos, nem mais cruéis, nem mais capazes do que qualquer linhagem antes deles. Mas têm um gosto pelo risco – quer dizer, têm mais desejo de conceder crédito, do lado dos credores, e estão mais dependentes do crédito do lado dos devedores, o que corresponde a uma mudança de paradigma económico, que passa da exploração antiga e medieval dos recursos a economias mais fundadas no investimento. Com este tipo de acção económica, a ideia dos juros a pagar dentro do prazo é convertida em assunções de risco práticas e em invenções e técnica. A empresa é a poesia do dinheiro. Tal como a necessidade aguça o engenho, o crédito estimula a empresa.

Ora, como o exterior é também o futuro e o futuro pode ser apresentado
post mundum inventum como espaço de onde provém o saque, a riqueza e a bem-aventurança, os primeiros empresários comerciais excêntricos desencadearam essa tempestade de investimentos em direcção ao exterior que, no espaço de um milénio, havia de dar origem ao desenvolvimento do ecúmeno capitalístico-informático actual. (…) O lucro significa doravante [desde a época de Colombo] o dinheiro que alguém arriscou e que regressa à sua conta original após ter dado a volta aos oceanos.»

Peter Sloterdijk (2005), Palácio de Cristal, Para Uma Teoria Filosófica da Globalização, Relógio de Água, pág. 59.

quinta-feira, abril 02, 2009

A Crise da Burguesia

«Nas crises declara-se uma epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas as épocas anteriores – a epidemia da superprodução. A sociedade vê-se de repente retransportada a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma guerra de destruição generalizada lhe cortaram todos os meios de subsistência; a indústria, o comércio parecem-lhe aniquilados. E porquê? Porque a sociedade possui civilização em excesso, meios de subsistência em excesso, indústria em excesso, comércio em excesso. (…)

E como supera a burguesia as suas crises? Por um lado, pela destruição forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de mercados velhos. Como então? Preparando crises mais generalizadas e mais graves, e reduzindo os meios para prevenir as crises. »

Marx, Karl (1848); «Manifesto do Partido Comunista» in Braga da Cruz (org.) Teorias Sociológicas (Antologia de Textos), Fundação Calouste Gulbenkian, 4ª edição, pág.66.
Vivemos na era em que se assiste à capitalização de quase tudo. Já não existem novos mercados a conquistar. Essa válvula de escape da burguesia investidora desapareceu.

domingo, março 15, 2009

Das Guerras Distantes

«Com efeito, poucas grandes expedições, seja de helenos, seja de bárbaros, quando efectuadas contra lugares muito distantes das cidades que as empreendem foram bem sucedidas.»

Palavras de Hermócrates, habitante de Siracusa, no século V a.C., alertando os seus conterrâneos para a vinda da expedição de Atenas. Citado por Tucidides em História da Guerra do Peloponeso

«Embora os regimes dos talibãs e de Saddam Hussein tenham sido rapidamente derrubados, nenhuma das duas guerras levou a uma vitória, e os objectivos anunciados no início não foram de modo algum alcançados: o estabelecimento de regimes democráticos em sintonia com os valores ocidentais, transformando-os numa luz ao longe para outras sociedades da região ainda não democratizadas. Ambas, mas sobretudo a catastrófica guerra no Iraque, revelaram-se longas, sangrentas e destruidoras em massa, e continuam ainda, à data do presente escrito, sem uma previsão de conclusão

Hobsbawm (2007); Globalização, Democracia e Terrorismo, Editorial Presença

sábado, março 07, 2009

A Era Global


«Cruzar-se contra a “mundialização” ou mesmo contra a “globalização” tem o mesmo sentido que lutar contra a lei da gravidade. Estamos nela e vivemos nela e dela. A única questão é conciliá-la com a democratização do mundo…»

Eduardo Lourenço, entrevista ao Diário de Notícias, 27 de Julho de 2001

«Com o estabelecimento do sistema monetário internacional de Bretton Woods, em 1944, a globalização terrestre pode considerar-se completa; mas, seja como for, ficou terminada o mais tardar nos anos 60 e 70 com a instalação de uma atmosfera electrónica e uma envolvência de satélites na órbita terrestre.»
Peter Sloterdijk (2005), Palácio de Cristal – Para Uma Teoria Filosófica da Globalização, Relógio D’Água

A globalização passou à história. A história passou à história. A modernidade passou à história. O choque de civilizações, contudo, prossegue. Tratam-se de fricções tão imperceptíveis como o deslizar das placas tectónicas. Por vezes, lá surge um foco de tensão, um ponto de ruptura, um sismo, um tsunami, aqui e ali…

Esta é a Era Global, pós-histórica, pós-moderna e do conflito civilizacional.

sábado, fevereiro 28, 2009

Socialismo bichoso

Três anos de neoliberalismo e um para tirar apressadamente o “socialismo” da gaveta, que os tempos mudaram. São estes os nossos “socialistas” e o seu “socialismo” já bichoso de tanta traça.

São indisfarçáveis os efeitos da sua governação neoliberal. Agora de nada lhes adiantará bater no peito e acenar novas bandeiras, como se nada tivessem com o neoliberalismo que nos trouxe até aqui.

domingo, fevereiro 08, 2009

O regresso dos anos sombrios

O desemprego alastra como uma peste e nós agora, nem sequer podemos abandonar a cidade e procurar lugares mais sadios, como noutros tempos. A praga é geral. Eis o fruto do capitalismo tardio, essa forma de organização económica e social que já nos trouxe paz, prosperidade e segurança, em tempos idos, quando tinha sido corrigido nas suas crises cíclicas, após a de 1929. Chegados os anos 70 do século XX, apagou-se a memória, abraçou-se o neoliberalismo e o monetarismo. Resultado: voltámos às velhas crises cíclicas. Os governantes dos países desenvolvidos estão em pânico: já não conseguem assegurar os interesses dos poderosos que os colocaram nos governos dos Estados. Utilizam agora os contribuintes como fiadores e transferem avultadas quantias para esse buraco negro, insaciável e ganancioso, que se tornou o mundo da alta finança e da especulação bolsista.

Há que procurar uma nova forma de organização económica e social, nem que seja abalando o status quo. Este capitalismo, que se alimenta do desemprego de milhões já não nos serve.

domingo, janeiro 11, 2009

Faixa de Gaza

Sob um céu azul,
Grito amor!
Não reparas na dor que sinto,
Tão perto que estás?

A liberdade é um navio,
E tu viajas amarrada ao seu mastro.

Quanto a mim,
Não existem amarras que me prendam.
Ainda que o tempo seja um tormento,
E os dias um torpor.

Mas a viagem é a minha casa,
E os teus lábios o meu luar.

Da vida não me arrastarão. Lutarei.
A terra é fria.
A morte que espere.

Ainda que os tiros varram este céu,
É só pelos teus lábios que morro.

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