domingo, abril 11, 2010

sábado, abril 10, 2010

Muerte del toro


Mira qué pase, oh toro, qué desvío
de la muleta al aire desplegada,
mira pasar su ala derramada
sobre tu negro y rumoroso río.

Pronto caerá tu pleno poderío,
pues ya el agudo rayo de la espada
va en tu celeste noche huracanada
con un acerto perfilado e frio.

Ay!, cómo crece el suelo, cómo crece,
cómo llama la tierra a su costado
y cómo turbia y grande se te ofrece.

Adiós tu yerba de frescor salado
y este viento que llega y desfallece,
que acaso viene, oh toro, de tu prado.

Rafael Morales (1943), Poemas del toro

***

Morte do touro [tradução]

Olha que passe, oh touro, que desvio
da muleta ao vento desdobrada:
vê passar a sua asa derramada
sobre o teu negro e rumoroso rio.

Cedo cairá teu pleno poderio,
pois já o agudo raio de uma espada
vai na celeste noite de rajada
com um acento perfilado e frio.

Ai, como cresce o solo, como cresce,
como a terra chama o teu costado
e como turva e grande se te oferece.

Adeus, tua erva de frescor salgado
e este vento que chega e desfalece,
vindo talvez, oh touro!, do teu prado.

Rafael Morales (1943), Poemas del toro

domingo, abril 04, 2010

Porto, navegação e ventos

As nossas deliberações serão vãs desde que não tenham um alvo preciso a atingir; quem não conhece o porto que demanda nunca encontrará ventos propícios!

Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, Livro VIII, Carta 71, 3ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, pág. 272.

sábado, abril 03, 2010

sexta-feira, abril 02, 2010

O cobertor e as bandeiras de Valença

Os recursos económicos do país são como um cobertor que, dia após dia, vai ficando cada vez mais curto. Quem deveria cuidar para que o cobertor não encolhesse, não o fez atempadamente. Agora o cobertor não tapa todo o corpo, mesmo que se queira, e o corpo é o país. E quando a cabeça que nos governa não tem juízo, o corpo é que paga.

É claro que quem gere os recursos também decide que partes do corpo deve tapar, e quais as partes a não cobrir. Mas parece continuar a não preocupar-se com a dimensão presente e futura do cobertor. Quem governa não cuida para que o cobertor ganhe dimensão. A sua única preocupação é tapar-se. Lisboa puxa então o cobertor para si e destapa as extremidades. São por isso as regiões fronteiriças que, primeiro começam por perder a cobertura, como é o caso do Minho raiano ou do interior do Alentejo e no Algarve. Os que moram em Valença, Elvas ou Vila Real de Santo António, para não referir outros lugares, periféricos para Lisboa, são cada vez mais abandonados pela capital e começam a servir-se dos equipamentos e infra-estruturas que funcionam no outro lado da fronteira. As mulheres raianas já dão à luz em Espanha e os minhotos vão ter de começar a tratar da sua saúde no país vizinho. No Algarve, os idosos de Vila Real de Santo António, recentemente, tiveram de ir tratar as suas cataratas a Cuba (mas não a do Alentejo).

A população de Valença, revoltada, vai colocar bandeiras espanholas nas janelas. É um mau sinal. Parece que a região onde nasceu o país é agora a região onde o país começa a morrer.

quinta-feira, abril 01, 2010

As figuras exemplares do mal


As figuras exemplares do mal não são hoje os consumidores comuns que poluem o ambiente e vivem num mundo violento em que os laços sociais se desagregam, mas os que, embora plenamente implicados na criação de devastação e da poluição universais, compram uma via de saída que os afasta da sua própria actividade, vivendo em condomínios fechados, comendo alimentos biológicos, fazendo férias em reservas naturais, etc.

Slavoj Zizek (2008), Violência, Relógio D’Água, pág. 32.

terça-feira, março 30, 2010

A taça de champanhe

É uma ironia brutal que a desigualdade entre pobres e ricos assuma a forma de uma taça de champanhe (Held, 2007). Os 900 milhões de privilegiados pela graça de terem nascido no Ocidente, são responsáveis por 86% do consumo mundial; usam 58% do fornecimento de energia e têm 79% do rendimento mundial à sua disposição, bem como 74% de todas as ligações telefónicas. Os mais pobres, 1, 2 biliões de pessoas, um quinto da população mundial, são responsáveis por 1,3% do consumo mundial, usam 4% do fornecimento de energia e realizam 1,5% de todas as chamadas telefónicas. É fácil de perceber a abundante fortuna dos ricos, mas por que razão os subordinados pobres a têm de suportar?

Ulrich Beck (2010), “Remapping social inequalities in an age of climate change”, Global Networks 10, 2, page. 167.

segunda-feira, março 29, 2010

O rolo compressor do «desenvolvimento» capitalista

As vítimas do «desenvolvimento» - o verdadeiro rolo compressor de Giddens, que esmaga tudo e todos os que encontre no seu caminho - «evitadas pelo sector avançado e cortadas dos antigos usos...são seres expatriados nos seus próprios países». Por toda a parte por onde o rolo compressor passa, o saber-fazer desaparece, para ser substituído pela escassez de competências; surge o mercado de trabalho mercadoria onde outrora os homens e mulheres viviam; a tradição torna-se um lastro pesado e um fardo dispendioso; as utilidades comuns transformam-se em recursos subaproveitados, a sabedoria em preconceito, os sábios em portadores de superstições.

E não é só que o rolo compressor não se mova apenas por sua própria iniciativa, mas com o apoio e reforço pelas turbas das suas futuras vítimas ávidas de serem esmagadas (ainda que, nalguns casos, o rolo aja por si só, sentimo-nos muitas vezes tentados a falar, mais do que de um rolo compressor, de um Moloch - essa divindade de pedra com uma pira acesa no ventre, em cujo interior as vítimas autodesignadas se precipitam com regozijo, entre cantos e danças); é, além disso, depois de começar a funcionar, empurrado pelas costas, sub-reptícia mas incessantemente, por multidões incontáveis de especialistas, de engenheiros, de empresários, de negociantes de sementes, fertilizadores e pesticidas, ferramentas e motores, de cientistas dos institutos de investigação e também de políticos, tanto indígenas como cosmopolitas, que buscam, todos eles, o prestígio e a glória. É deste modo que o rolo compressor parece imparável, ao mesmo tempo que a impressão de ser impossível pará-lo o torna ainda mais insuportável. Parece não haver maneira possível de escapar a este «desenvolvimento», «naturalizado» sob a forma de qualquer coisa que se assemelha muito a uma «lei da natureza» pela parte moderna do globo, desesperadamente em busca de novos fornecimentos do sangue virgem do qual necessita para se manter vivo e em forma. Mas o que é que este «desenvolvimento» desenvolve?

Zygmunt Bauman (1995), A Vida Fragmentada, Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna, Relógio d’Água, pp. 41.

domingo, março 28, 2010

History

John Trumbull, Declaration of Independence, 1817

sábado, março 27, 2010

History


President Obama Signing the Bill (Health Care Reform), 2010

sábado, março 20, 2010

A Primavera

A Primavera
Giuseppe Arcimboldo, 1573

Uma chegada, sempre celebrada.

sexta-feira, março 19, 2010

“Yes we can!”


Obama vs lobbie das seguradoras.
Obama apostou tudo na reforma do sistema de saúde americano. Desde o princípio que jogou uma cartada muito alta. Quer reformar o sistema de saúde porque, como disse no Verão, “é o Presidente dos Estados Unidos da América”, mas, ser o Presidente não significa necessariamente que detenha o poder. Nas democracias modernas o poder já não reside em quem governa, ou seja, em quem é suposto representar o povo. O poder está noutro lado.
Será que o homem do “Yes we can!” pode realmente? Oxalá possa!
***
Se no domingo Obama não vencer o lobbie das seguradoras, então quem poderá vencer? O seu “Yes we can!” cairá pela base.
Para que servirá então ser o Presidente, se afinal, não pode?

quinta-feira, março 18, 2010

Privatizem tudo!

«privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei,
privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez
a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo...
E, já agora, privatize-se também
a puta que os pariu a todos»


José Saramago, in Cadernos de Lanzarote – Diário III

segunda-feira, março 15, 2010

África, um lugar longe da esperança.

(MLADEN ANTONOV/AFP/Getty Images)

A África hoje, é um lugar muito longe da esperança.

Aqui, excelentemente retratada, sem o romantismo dos tempos, cada vez mais distantes, da "África minha".

Agora subsiste apenas uma ténue recordação das rubras montanhas de fogo, quando as queimadas perpétuas abrasavam as florestas na noite. Todas as noites.

quarta-feira, março 10, 2010

A Natureza está para além do Bem e do Mal?

O Mal e o Bem existem porque o Homem existe ou existem também na ausência do Homem? Ou existiriam, caso o Homem não existisse?

Há moral na Natureza?

Tudo indica que sim, dado que o Homem não se pode dissociar da Natureza em que se integra. Faz parte dela.

O Homem é a Natureza que pensa, raciocina e calcula. Antecipa e prevê. E luta contra a morte, ou pela vida (ou inconscientemente, pela perpetuação dos genes, como todo o ser que se quer vivo).

terça-feira, março 09, 2010

O Eixo do Mal

Multiplicam-se as crianças mutantes de Fallujah. Ver, aqui, aqui e aqui.

Pedem agora às iraquianas de Fallujah para que não tenham filhos. Nada se aprendeu com as bombas atómicas nem com as de napalm. As guerras limpas afinal são sujas. Sujas de morrer. Na verdade, não há guerras limpas. Nunca as guerras foram limpas. Os danos colaterais são os principais danos. Não há vítimas colaterais. Há vítimas. E ainda não nasceram todos os que irão sofrer com a batalha de Fallujah (2004).

Um crime contra a humanidade! Onde se esconde o réu? Por que não o julgam?

Quem é o responsável por tão hediondo crime? Que regime político e económico fomentou tal crueldade?

Afinal, onde passa o Eixo do Mal?

segunda-feira, março 08, 2010

O anticristianismo de Nietzsche

Pensamos compreender Nietzsche e ele faz-se muitas vezes compreender, contudo, verifica-se facilmente que se trata de um ressentido. É um ressentido com o cristianismo. O título mais indicado para a sua imprecação contra o cristianismo é O Anticristianismo e não O Anticristo, pois Cristo não integrou o cristianismo, assim como Marx, por exemplo, não foi marxista. Há que separá-los, Cristo e Marx, das ideologias que neles se basearam, mas que eles não fundaram. Na verdade, Nietzsche afirma que “houve apenas um cristão e que esse morreu na cruz” (1).

Por vezes, não muitas, Nietzsche parece, surpreendentemente, de forma implícita, valorizar Cristo. Por exemplo, quando afirma que “Qualquer prática quotidiana, qualquer instinto, qualquer juízo de valor que se torne acto são, actualmente, anticristãos: que monstro de falsidade há-de ser o homem moderno, para que, apesar disso, não se envergonhe de ainda se chamar cristão!(2), está implicitamente a considerar Cristo como uma referência que não está a ser seguida, em actos e atitudes, por aqueles que se dizem cristãos, e que esses deveriam por isso envergonhar-se, na medida em que estão a ser falsos.

Nietzsche parte também de uma premissa falsa ao separar o Homem da Natureza. Para ele os “valores naturais”, a Natureza e a Vida são valores que voam mais alto. O que se opõe à Natureza, aos valores naturais, à Vida deve ser alvo de imprecação. Mas o Homem, na verdade, faz parte da Natureza, o Homem não está fora da Natureza e por isso qualquer separação entre Homem e Natureza é artificial.

Outra objecção: Nietzsche condena o cristianismo por este ter considerado a Ciência o primeiro pecado, o pecado original, aquele que levou à expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Tudo porque a ciência “tornava o Homem igual a Deus” (3). Mas a verdade é que o homem científico está a transformar o mundo num lugar muito distante de um paraíso. O mundo pode tornar-se num inferno por causa do uso indevido que se faz dos avanços científicos. Um inferno atómico, um inferno demográfico, um inferno ambiental, etc. Na verdade, o uso que o Homem está a fazer dos conhecimentos científicos está a expulsá-lo do Paraíso, o paraíso terrestre, ameaçado pela degradação ambiental e pela extinção das espécies. E aqui a metáfora da Árvore do Saber e da expulsão do Paraíso, torna a emergir, prenhe de significado.

O conhecimento científico é um instrumento ao serviço do Homem, e como todos os instrumentos, pode ser utilizado indevidamente.

Nietzsche é preconceituoso em relação à mulher, que considera fraca de vontade:

“Qualquer forma de crença é em si mesma uma expressão de despersonalização, de alienação de si próprio…Se se tiver em conta como é necessário à maioria das pessoas um elemento regulador que as ligue e as fixe a partir do exterior, como a coacção (num sentido mais radical, a escravatura) é a única e derradeira condição que permite prosperar às pessoas de vontade mais fraca, sobretudo à mulher, pois também se compreende a convicção, a «fé»”. (4)

Nietzsche considera a bondade uma fraqueza, com uma excepção: “Só às pessoas mais espirituais é permitido aceder à beleza e ao belo; só nelas é que a bondade não é fraqueza.” (5). O filósofo classifica muitas vezes as pessoas em fracas e fortes, como se tal fosse possível. Tratam-se de condições transitórias. Ninguém é sempre fraco, assim como ninguém é sempre forte. O ser humano vacila muitas vezes, cai e levanta-se…

Enfim, o cristianismo para Nietzsche, é o grande inimigo da Vida, ainda que tenha como primeiro mandamento “Não matarás!”. E isto é uma contradição.

P.S. - Contudo percebemos o rancor de Nietzsche em relação a esses que mataram e matam em nome de Deus, quando o primeiro mandamento pelo qual dizem guiar-se é “Não matarás!”, ou em relação aos sacerdotes, como por exemplo, os padres pedófilos que violam, para além das crianças, os princípios cristãos mais fundamentais. Com efeito, tem razão Nietzsche quando afirma que houve apenas um cristão e que esse morreu na cruz.


***

Notas:

(1) – Friedrich Nietzsche, O Anticristo in Obras Escolhidas de Friedrich Nietzsche, Volume 7, Relógio D’Água, 2000, pág. 57.

(2) – Op. cit., pág. 57.

(3) – Op. cit., pág. 75

(4) – Op. cit., pág. 87

(5) – Op. cit., pág. 93

sábado, março 06, 2010

O desprezo pelo homem moderno

«Há dias em que me atormenta um sentimento mais negro que a mais negra melancolia: o desprezo pelo homem. E para não deixar dúvidas quanto ao que desprezo, a quem desprezo: é o homem de hoje, o homem de que sou fatidicamente contemporâneo.»

O homem de hoje – o seu hálito impuro sufoca-me…Em relação a coisas passadas sou, como todos os adeptos do saber, de uma grande tolerância, isto é, de um magnânimo autodomínio: percorro o universo de manicómio de milénios inteiros, quer se chame “cristianismo”, “fé cristã” ou “Igreja Cristã”, com uma sombria precaução – e abstenho-me de tornar a humanidade responsável pelas suas doenças mentais. Mas o meu sentimento muda, rompe-se assim que entro nos tempos modernos, no nosso tempo.

(…)

«Qualquer prática quotidiana, qualquer instinto, qualquer juízo de valor que se torne acto são, actualmente, anticristãos: que monstro de falsidade há-de ser o homem moderno, para que, apesar disso, não se envergonhe de ainda se chamar cristão!»

Nietzsche (1895), O Anticristo

Os muçulmanos na Europa

(Ton Koene/ZUMA/VISUAL)

quinta-feira, março 04, 2010

Manifesto de Desconfiança no Homem

Saqueadores detidos no Chile após o sismo.

Não há liberdade sem dissuasão. Esta é a lição dos sismos do Haiti e do Chile, ou do furacão Katrina. Quando o caos se instala, reinam os profanadores e os ladrões. Sucedem-se as pilhagens, e a ajuda alimentar, ou outra, de nada serve se não imperar a mínima ordem que assegure a justa distribuição.

As prisões são coisas medonhas, diria Agostinho da Silva. Mais medonhas que os cemitérios, pois nestes repousam aqueles a quem a vida foi subtraída enquanto nas prisões vivem aqueles a quem a liberdade foi negada. Mas o que seria de nós se os monstros que as prisões contêm se libertassem? O Mal existe no nosso mundo (e só porque o Homem existe). Só nas utopias é que não são precisos polícias ou militares. Só nas utopias o crime e as doenças se apartam e a liberdade é mais plena. Aqui não.

Enquanto por aqui andarmos não largaremos as nossas armas.

quarta-feira, março 03, 2010

Saberá Queirós quem é o melhor marcador do campeonato turco?

Primeiro a miopia de Quique Flores, agora a de Queirós. Não reparar em Makukula é grave, quando no nosso país rareiam avançados. Neste momento com 16 golos marcados em 19 jogos (quase um golo por jogo) Makukula é o melhor marcador da Super Liga turca, com mais 7 golos do que o seu adversário mais directo.

Entretanto o público apoiou efusivamente a selecção nacional em Coimbra num glorioso jogo de preparação com a China.

terça-feira, março 02, 2010

A cobra que os dinossauros temiam


Afinal a cobra encontrada num ninho de dinossauro preparava-se para tragar a cria do saurópode. O fóssil do ninho de dinossauro foi descoberto em 1987. Em 2001 descobriu-se a cobra e agora, as suas reais intenções.

domingo, fevereiro 28, 2010

sábado, fevereiro 27, 2010

Os que se calam


"Nos que se calam, há quase sempre falta de delicadeza e de cortesia sinceras; o silêncio é uma reserva, engolir tudo causa necessariamente mau carácter, e até estraga a digestão. Todos os que se calam são dispépticos."

Friedrich Nietzsche, Ecce Homo

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Pois

O senhor primeiro-ministro nunca foi constituído arguido.” (disse a procuradora-geral adjunta Cândida Almeida)

A candura de Cândida é de enternecer.
É de ir às lágrimas.

Não havia ninguém mais adequado para investigar o caso Freeport?

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Madeira

Funchal, 20 de Fevereiro de 2010

«Todavia, a pequena dimensão destas bacias e das suas ribeiras, aliada aos grandes desníveis e fortes declives das vertentes e à grande inclinação das linhas de água principais, são factores de enorme perigosidade face às cheias. Quando a ilha é assolada por precipitações intensas, as águas delas resultantes são rapidamente canalizadas ao longo da rede de drenagem, engrossando os caudais das ribeiras de forma desmesurada. As ribeiras tornam-se então num formidável agente erosivo, arrancando e transportando blocos de centenas de quilos e sedimentos das mais variadas dimensões: são as “aluviões”, como lhe chamam os Madeirenses. Estas cheias rápidas têm destruído, ao longo do seu historial, pontes, estradas, casas e matado pessoas. A sua perigosidade advém sobretudo da velocidade das águas, dos caudais atingidos, da carga sólida que transportam e da rapidez com que se formam.»

Catarina Ramos, “Recursos Hídricos das Regiões Autónomas” in Carlos Alberto Medeiros (dir.), Geografia de Portugal, Vol. 1, 1ª ed., Círculo de Leitores, Lisboa, 2005.

***

Passada a tragédia é hora de aprender e aplicar o que se aprende. Alguma coisa falhou no planeamento e ordenamento da ilha. Tal é uma evidência. Basta observar o desrespeito pelos leitos das ribeiras e a construção despreocupada e desregrada nas suas margens. E não é só uma questão de povoamento, como alguns nos querem fazer crer.

O crescimento económico da ilha (um dos maiores do País, senão o maior) tem sido acompanhado por um surto de construção sem regras. Um laissez faire, laissez passer urbanístico. Na ilha o crescimento económico parecer ser o valor que mais alto se levanta, como se tornou patente nas declarações do máximo responsável político da região, quando ainda decorria a tragédia: parecia estar mais preocupado com a imagem internacional da ilha e a forma como isso se poderia reflectir no turismo e nas receitas, do que com as vidas humanas que entretanto se perdiam.

domingo, fevereiro 21, 2010

O leviatã de Sloterdijk


Sem ser um paladino do neoliberalismo, Sloterdijk alerta-nos [aqui] para a pilhagem a que a futura geração já está a ser sujeita pela actual, sem que ainda tenha nascido. O perpetrador dessa pilhagem, não é mais nem menos do que o moderno Estado democrático, pelo enorme endividamento que contrai e através dos impostos excessivamente elevados que esmagam a classe produtiva. O imposto é o equivalente funcional a uma expropriação socialista, diz o filósofo.
Segundo Sloterdijk não vivemos sob um sistema capitalista, mas sim num regime semi-socialista, numa economia social de mercado. De acordo com o filósofo, um mundo pós-democrático prepara-se para suceder ao actual, como resultado de uma rebelião civil contra os impostos. Tal rebelião surgirá em resposta a uma situação paradoxal: o desapossamento dos credores devedores pelos devedores credores.
Não é uma situação inaudita: o legislador de Atenas, Sólon, resolveu o problema do excessivo endividamento que atormentava as famílias da antiga cidade-estado ao legislar contra os credores. Sólon conseguiu assim pacificar a sociedade ateniense porque os devedores eram a maioria e os credores a minoria. O legislador de Atenas conquistou o reconhecimento dos seus concidadãos para a posteridade e passou a ser considerado um dos maiores sábios da Grécia antiga.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

O carnaval tropical não passa por aqui


Ah! Triste fado.
Tudo é enfado e corso a passar.
Brasileiras desnudas tiritando ao ar.
E nós em bermudas errando com frio.
Brasileiras jucundas num arrepio.

Pára o cortejo já em retirada.
Que está um bêbado estirado na estrada.

sábado, fevereiro 06, 2010

As amendoeiras floriram! Quais jacarandás!



Posse!

Avisam-se os estimados urbanitas que o animal preto à esquerda não é um touro nem um boi cobridor.

terça-feira, janeiro 26, 2010

A globalização atingiu em cheio o Algarve Oriental

Quando éramos crianças passeávamos alegremente ao lombo de velhos burros, nos verões quentes dos idos anos 70.

Muitas vezes éramos surpreendidos por sonoros zurros que ecoavam nas ruas tortuosas da aldeia. Os grunhidos eram omnipresentes. Bovinos, muares, caprinos e ovinos povoavam os estábulos. As casas, entre estrumeiras e pocilgas, não tinham electricidade nem água canalizada e os fogões ainda funcionavam a lenha. Pendurados nas chaminés secavam chouriços. Ao entardecer as mulheres transportavam cântaros à cabeça e reuniam-se junto às noras, centros de convívio local. Os homens, quando regressavam da lavoura ou das salinas, reuniam-se nas tabernas e bebiam vinho, muitas vezes até à embriaguez. Ao fim da tarde, nos pátios e nos quintais, ouvia-se a algaraviada da gente feliz. Candeeiros a petróleo alumiavam as noites estreladas. A civilização rural ainda fervilhava nas aldeias do Algarve Oriental, sem pressentir que estava à beira do fim.

***

Volvidos 40 anos, tudo mudou.

Os campos de golfe invadiram a arcádia algarvia. Antigos montes convivem agora com moradias de 500 000 euros e mais.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Para lá do horizonte, dançam criaturas bisonhas

Max Ernst, The Fireside Angel, 1937

Um horizonte onírico, claro está.

E voltamos ao mesmo

Se é verdade que a crise económica e financeira abalou o neoliberalismo, também é verdade que não constituiu o seu fim. O capitalismo, por sua vez, está longe do seu estertor porque as crises fazem parte da sua natureza. O neoliberalismo é apenas uma forma de capitalismo, tal como o keynesianismo o foi, antes da década de 70.

Ultrapassados os dias de tempestade financeira e na iminência de soprarem ventos bonançosos, o comportamento dos governantes altera-se novamente e rapidamente se esquecem das intenções que manifestaram, com veemência, nos dias de aflição. Não terminaram com os paraísos fiscais onde os ricos e as empresas mais lucrativas depositam os lucros, furtando-se ao dever de contribuírem através dos impostos para o progresso social e para todos os esquemas de solidariedade social e redistribuição de riqueza (essas empresas são contudo, as primeiras a apelar ajuda ao Estado, nos momentos de maior aflição financeira).

Voltámos portanto à economia de casino, irresponsavelmente. Iniciou-se a distribuição de bónus chorudos aos especuladores (gestores e accionistas) pelas maiores instituições financeiras norte-americanas, das quais a Goldman Sachs é um exemplo. Não estão no entanto ainda saldadas as suas dívidas para com os contribuintes e o Estado. Obama bem tenta moralizar os mercados, mas o capitalismo é uma hidra de muitas cabeças. Ainda que seja o Presidente e chefie o governo dos EUA, não consegue levar a sua reforma do sistema de saúde a bom porto. Os conservadores e as empresas seguradoras opõem-lhe uma resistência tenaz.

A cada crise capitalista reforça-se a acumulação e a concentração da riqueza. As empresas mais resistentes, ficam maiores pelas aquisições e fusões que realizam. Acentuam-se as desigualdades entre ricos e pobres e a sociedade torna-se progressivamente mais polarizada e desequilibrada: a uma poderosa minoria de ricos opõe-se uma larga maioria de pobres, que engrossa cada vez mais.

Chegámos agora ao ponto de o crescimento económico se tornar independente do emprego, ou seja, o crescimento económico é hoje possível com desemprego crescente. Desactualiza-se então o discurso dos políticos e economistas neoliberais, que vêem no crescimento económico a panaceia para o desemprego e para a saída da crise social. Ainda que a crise económica possa ser ultrapassada, a crise social persiste. O sistema económico capitalista serve por isso, cada vez menos, porque agrava as disparidades sociais em vez de as resolver.

sábado, janeiro 23, 2010

A Jangada da Medusa

Théodore Gericault, A Jangada da Medusa, 1818-1819

«Logo à primeira vista podem distinguir-se o grupo da depressão na parte esquerda do quadro, e o grupo da esperança na parte direita; o primeiro continua de olhos cravados na sua miséria enquanto o segundo fita o navio salvador no horizonte. Face ao extremo, estes náufragos exprimem a disputa entre esperanças e desânimos constitutiva da totalidade da época moderna. Desde o motim dos capitães de Vasco da Gama e a sua repressão, a campanha da globalização é uma guerra permanente dos humores e um combate pelos meios de orientação que é da ordem da hipnose de grupo – e desde recentemente: pelo poder de programação nos mass media e pelo poder de consulta nas empresas.»

Peter Sloterdijk, O Palácio de Cristal, Relógio D’Água, 2005, pp. 91-92.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Finda a crise financeira, a crise continua


As grandes instituições financeiras afastam-se alegremente da crise financeira. Irresponsavelmente. Atrás de si deixam um longo rasto de desempregados que ainda não se recompuseram da crise económica por elas gerada. Para os desempregados a crise continua. E assim vai o mundo financeiro, cantando e rindo enquanto a economia real se afunda. Entretanto, os paraísos fiscais permanecem intactos. Ninguém conseguiu acabar com eles, ao contrário do que prometeram nos momentos de maior aflição, no pico da crise económica e financeira.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Entretanto, na Serra Algarvia


Toda a tarde, toda a noite, há um diabo de um cordeiro que não pára de balir. Irra!

Grande economia a nossa, que consegue crescer com desemprego crescente

Expliquem-me ó excelsos doutores de Economia, como é possível? Então o crescimento económico, por si só, já não garante a criação de emprego? Como é possível? Enormes devem ser os ganhos de produtividade, quando com menos trabalhadores se consegue produzir tanto ou mais do que no passado. Não cai agora por terra esse argumento de que neste país não se podem aumentar mais os salários por ser reduzida a produtividade? Que prodígio esse, de se conseguir crescer economicamente com um desemprego sempre crescente.

Revejam as vossas teorias, ó doutores. A realidade está a mudar.

domingo, janeiro 17, 2010

Um retrato da semana que passou

Port-au-Prince

Não mostrarei aqui os rostos do sofrimento, pois esses já estão disseminados pelo planeta. Chega de pornografia dos corpos apodrecendo ao Sol. Não bradarei aqui, a todos os ventos "Ajude o Haiti", porque isso não é ajudar o Haiti. Bradar aos ventos não é ajudar o Haiti. A ajuda não se diz, faz-se.

Sobre as razões, de sobra, desta atitude, remeto para dois "posts" que lêem muito bem o que se está a passar. A Origem das Espécies e A Natureza do Mal.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Dois retratos da semana que passou

Lago Ljsselmeer, Holanda

A Europa, a América, a Ásia, enfim, todo o hemisfério setentrional, tiritam de frio. O Árctico vinga-se desta forma, com o seu sopro gélido, das fusões estivais impostas pelos homens.

Rosarno, Calábria, Itália

Não são surpresas o que o século XXI nos reserva. Face à contínua pressão migratória, uma certa Europa reage mal. Prelúdio de novas "noites de cristal". Os homens do Sul percorrem há muito as nossas ruas e continuarão a chegar enquanto subsistirem as extremas desigualdades entre os diferentes mundos do nosso mundo. Nem o mar no meio da terra, que nos aparta, os demove. Continuarão a chegar. Nem que os recebamos a tiro.

Para quê os tiros então? Questiono-me se os bárbaros estão às portas de Rosarno ou se são os que já moram em Rosarno.

sábado, janeiro 09, 2010

10,3%

domingo, janeiro 03, 2010

Teerão

Teerão, 27 de Dezembro de 2009

Aqui luta-se e morre-se pela liberdade. Muitos destes bravos manifestantes pagaram com a vida a ousadia de enfrentar o regime teocrático iraniano.

A multidão mansa assiste.

Talvez este ano soprem ventos de liberdade na terra dos persas. Seria um grande 2010.

sábado, janeiro 02, 2010

Insurgiu-se contra a lua, o lunático.

Cão ladrando à Lua, Miró, 1926

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