sexta-feira, abril 15, 2011

Sólon e as dívidas de Atenas


Conforme nos conta Plutarco (46 – 120 d.C.) na biografia de Sólon, no longínquo século VII a. C., Atenas estava mergulhada numa crise política, económica e social parecida com a actual. Sólon, tentou resolvê-la, com relativo sucesso: fez aquilo a que hoje poderíamos chamar uma renegociação da dívida e uma desvalorização da moeda (*).

As crises de endividamento e a usura dos ricos sobre o resto da população são velhas como o mundo.

***

Excerto da biografia de Sólon, escrita por Plutarco (os sublinhados são nossos):

«The Athenians, now the Cylonian sedition was over and the polluted gone into banishment fell into their old quarrels about the government, there being as many different parties as there were diversities in the country. The Hill quarter favoured democracy, the Plain, oligarchy, and those that lived by the Seaside stood for a mixed sort of government, and so hindered either of the other parties from prevailing. And the disparity of fortune between the rich and the poor, at that time, also reached its height; so that the city seemed to be in a truly dangerous condition, and no other means for freeing it from disturbances and settling it to be possible but a despotic power. All the people were indebted to the rich; and either they tilled their land for their creditors, paying them a sixth part of the increase, and were, therefore, called Hectemorii and Thetes, or else they engaged their body for the debt, and might be seized, and either sent into slavery at home, or sold to strangers; some (for no law forbade it) were forced to sell their children, or fly their country to avoid the cruelty of their creditors; but the most part and the bravest of them began to combine together and encourage one another to stand to it, to choose a leader, to liberate the condemned debtors, divide the land, and change the government.
(…)

For the first thing which he settled was, that what debts remained should be forgiven, and no man, for the future, should engage the body of his debtor for security. Though some, as Androtion, affirm that the debts were not cancelled, but the interest only lessened, which sufficiently pleased the people; so that they named this benefit the Seisacthea, together with the enlarging their measures and raising the value of their money; for he made a pound, which before passed for seventy-three drachmas, go for a hundred; so that, though the number of pieces in the payment was equal, the value was less; which proved a considerable benefit to those that were to discharge great debts, and no loss to the creditors. But most agree that it was the taking off the debts that was called Seisacthea, which is confirmed by some places in his poem, where he takes honour to himself, that- 

"The mortgage-stones that covered her, by me 
Removed,- the land that was a slave is free: that some who had been seized for their debts he had brought back from other countries, where-
"-so far their lot to roam,

They had forgot the language of their home; and some he had set at liberty-
"Who here in shameful servitude were held." »

Fonte: http://classics.mit.edu/Plutarch/solon.html
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(*) - Fez equivaler a mina, que antes correspondia a setenta e três dracmas, a cem dracmas.

quarta-feira, abril 13, 2011

Once In A Lifetime*

«Tu não podes apontar-me alguém que saiba de que modo começou a querer aquilo que quer. E porquê? Porque o comum das pessoas não é levada pela reflexão, mas arrastada por impulsos. A fortuna cai sobre nós não menos vezes do que nós caímos sobre ela. A indignidade não está em "irmos", mas em "sermos levados", em perguntarmos de súbito, surpreendidos, no meio de um turbilhão de acontecimentos: "Mas como é que eu vim parar aqui?"»

Séneca, Cartas a Lucílio, Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. Pág. 133
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(*) - Título de música de 1981, da banda Talking Heads, cujos primeiros versos rezam assim:

You may find yourself living in a shotgun shack
And you may find yourself in another part of the world
And you may find yourself behind the wheel of a large automobile
You may find yourself in a beautiful house, with a beautiful wife
You may ask yourself, "Well, how did I get here?"

terça-feira, abril 12, 2011

Milagre! Sismo e tsunami deixam santinha intacta.

A vending machine stands intact in the area devastated by the March 11 tsunami in Ishinomaki, Miyagi Prefecture, northern Japan Saturday, April 9, 2011.


domingo, abril 10, 2011

Chamaeleo chamaeleon

Chamaeleo chamaeleon, avistamento nas dunas, junto à mata de Vila Real de Santo António, a 6 de Abril

PS - Não, não é o doutor Fernando Nobre.

sábado, abril 09, 2011

Abidjam, 2011

Abidjam, 2011, Combatentes pro-Ouattara lançam o ataque final ao Hotel Golf

Já não brandem azagaias, os soldados búfalo. As suas armas são agora AK 47, lança rockets e punhais. Tudo fabricado em países distantes, “amigos da paz”. Também as suas fardas e as pick up onde se fazem deslocar são doutras terras. Maldita África que não pára de sacrificar os seus filhos. No seu olhar moram a morte e a esperança. Estranha combinação.

Estes homens são carne para canhão.

A esperança média de vida na Costa do Marfim é de 58,4 anos (dados do Relatório de Desenvolvimento Humano 2010, PNUD).

quinta-feira, abril 07, 2011

Ai, ai, ai, o FMI

Ora como aí vem o FMI mais o FEEF e etc. e os portugueses estão deveras preocupados, como se pode atestar pela debandada pascal para os hotéis do Algarve, repõe-se aqui, mais uma vez, o postal alusivo ao estado de espírito dos portugueses, sempre marcado pela extrema apreensão face ao futuro próximo. Cá vai:

Pieter Bruegel "o Velho", A Dança do Casamento (c. 1566)

O País naufraga num profundo mar de desespero


Aqui.

quarta-feira, abril 06, 2011

Mendigos

Portugal bettelt um EU-Geld


"bettelt" = implorar, mendigar.

Quem falou em PRESTÍGIO nacional? Sr. Presidente? Senhor Primeiro-ministro? Disse PRESTÍGIO nacional?

Os mercados venceram! Portugal perdeu.

O FMI vem aí!

sexta-feira, março 25, 2011

Esgotados e falidos

Esgotadas as especiarias da Índia.

Esgotado o ouro do Brasil, o marfim, o ouro e os diamantes de África

Esgotados os subsídios da União Europeia. Foi então hora de partir ao assalto do crédito. Endividaram-se. Endividaram-nos.

Esgotado agora o crédito, as elites, mal habituadas, continuam a precisar de dinheiro, muito dinheiro. Estão mais dependentes de dinheiro do que os demais, para quem meia pataca já é muito.

É uma história antiga.

Que venha então o FMI, dizem. Estão agora disponíveis para governar com o FMI.

Pudera!

quinta-feira, março 24, 2011

terça-feira, março 22, 2011

domingo, março 20, 2011

Outra Europa, outro mundo



E não pode mesmo. Doutra forma, esta Europa não valerá a pena. Mais valerá então sairmos dela, para regressarmos a esse mundo onde estivemos desde o século XV até 1986 e do qual saímos para "entrar" na Europa. E deveremos regressar pelo Atlântico, de preferência.

O Brasil, a Índia, a China, Angola e porque não, Timor, são logo ali ao dobrar do Oceano, para lá do horizonte. Estão mais próximos de nós do que parece. E amanhã a hora será deles, se não é já hoje. Afinal só iríamos reencontrar velhos amigos, companheiros de jornada de longa data.

Se os europeus, de além Pirinéus, persistirem na imposição dessa "banha da cobra" de uma Europa "bancoburocrática", então teremos de recusar. Será hora de zarpar. Sair da Europa tão depressa como nela entrámos. Por que não?

O assalto neoliberal

Começou o assalto. Alguns elementos dos partidos que ao longo da última década enterraram Portugal, já andam para aí a ponderar um “entendimento”*. Eles, que são o problema, querem agora apresentar-se como solução.

Mas a realidade é que o terreno foi adubado e preparado para a incursão neoliberal que se avizinha. Quem governa já o lavrou, empurrado pela União Europeia. Só falta o semeador, ou melhor, o privatizador.

Serão despedidos funcionários públicos e privatizados serviços do Estado, como as escolas e os hospitais, esses focos de despesa, essas ineficiências. No desespero, saqueia-se o Estado.

A maioria dos cidadãos, se quiser educar-se, tratar-se ou curar-se, terá de pagar às empresas fornecedoras de tais serviços. Os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres (processo que já teve o seu início). O Estado social recuará em toda a linha (aliás, esse recuo também já começou há algum tempo).

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(*) – Pires de Lima no congresso do CDS.

sexta-feira, março 11, 2011

Austeridade

Fim de festa?

Para todos os que agora jocosamente se regozijam com anúncios de fim de festa, reponho novamente este postal.


Pieter Bruegel "o Velho", A Dança do Casamento (c. 1566)

Até porque nunca devemos baixar os braços. Nem os braços, nem o resto.

quarta-feira, março 09, 2011

Lampedusa


***
Adenda
Dirão: não é Lampedusa, é um barco cheio de imigrantes clandestinos. Lampedusa é uma pequena ilha no meio do mar Mediterrâneo.
Não, direi eu! Lampedusa é um barco cheio de imigrantes clandestinos (ou refugiados se quiserem), no meio do mar Mediterrâneo.
Esta fotografia é, toda ela, uma metáfora.

terça-feira, março 08, 2011

A “deolindalização” de uma geração ou Da dificuldade dos recém-licenciados em arranjarem emprego

Há uns anos atrás, o então Ministro da Educação, David Justino, avisou que as portas do Ensino iriam fechar-se. Avisou que haviam demasiados professores e que era preciso reduzir o número de entradas nessa profissão. Posteriormente, Sócrates prossegue nessa via, tentando limitar ao máximo o acesso à profissão por novos candidatos, chegando a introduzir mecanismos de barragem à entrada da carreira de professor, como a prestação de provas escritas selectivas, e desincentivos, como a retirada da remuneração aos grupos de estágio profissionalizante nas escolas. Simultaneamente, promovia-se a política baseada no princípio de “por cada duas saídas da função pública, apenas uma entrada”. Os sinais estavam portanto aí para quem os quisesse ver.

O Ensino nas escolas básicas e secundárias deixou de funcionar como válvula de escape para as “fornadas” de licenciados que todos os anos saíam das universidades e politécnicos. Simultaneamente, o Tratado Bolonha reduziu o período de formação de licenciados de 4 anos para 3, ou seja, num curto período o número habitual de licenciados à saída das universidades aumentou consideravelmente, quando se reduziam as oportunidades de trabalho no sector Estado.

O resultado está à vista agora em 2011: a “deolindalização” de uma geração.

A crise pressentida há duas décadas atrás

David Harvey, um dos marxistas mais determinados e esclarecidos da nossa época, já em 1987 parecia adivinhar o que aí vinha:

There abundant cracks in the shaky edifice of modern capitalism, not a few of them generated by the stresses inherent in flexible accumulation. The world’s financial system – the central power in the present regime of accumulation – is in turmoil and weighed down with an excess of debt that puts such huge claims on future labour that is hard to see any way to work out of it except through massive defaults, rampant inflation, or repressive deflation.”

David Harvey (1987), ‘Flexible Accumulation through Urbanization: Reflections on “post-modernism” in the American City’, Antipode 24: 300-326.


Parece que Marx se enganou, mas não em tudo. Não se enganou, por exemplo, na questão das crises cíclicas do capitalismo e as suas consequências na economia das nações.

segunda-feira, março 07, 2011

As línguas em vias de extinção


Pieter Bruegel "O Velho", Torre de Babel, 1563

Steiner lamenta o desaparecimento das línguas, que considera um dano irreparável, tão ou mais irreparável do que a extinção das espécies. E a quem atribui ele a potenciação deste facto? Ao “mercado de massa” e à “tecnologia da informação”. Outros chamam-lhe capitalismo e globalização.
Na verdade vai tudo dar ao mesmo.

***

«Sustentei em After Babel (1975) que a multiplicidade de milhares de línguas mutuamente ininteligíveis outrora faladas nesta Terra – e das quais muitas desapareceram hoje, ou se encontram em vias de extinção – não é, como as mitologias e alegorias do desastre entendem, uma maldição. São, pelo contrário, uma bênção e um motivo de regozijo. Cada uma, entre todas as línguas, é uma janela que abre sobre o ser, sobre a criação. Uma janela como nenhuma outra. Não há línguas “menores” por reduzido que seja o seu quadro demográfico ou o seu meio. Certas línguas faladas no deserto do Calahari traçam ramificações do conjuntivo mais numerosas e mais subtis do que as que encontramos em Aristóteles.»

George Steiner (2008); Os Livros que Não Escrevi, Gradiva, pág. 97
(…)

«A verdadeira catástrofe de Babel não é a divisão das línguas: é a redução do discurso humano a meias dúzia de línguas “multinacionais” planetárias. Esta redução, formidavelmente potenciada pelo mercado de massa e pela tecnologia da informação, está hoje a remodelar o globo. A megalomania tecnocrático-militar, os imperativos da avidez mercantil, estão a tornar o vocabulário e a gramática de um anglo-americano estandardizado num novo esperanto. Devido às suas dificuldades, o chinês não poderá usurpar esta triste soberania. E quando a Índia o fizer, a sua língua será já uma variante do anglo-americano. Por isso houve um simulacro tão inquietante como infame do mistério de Babel na queda das torres gémeas do World Trade Center no 11 de Setembro.»

George Steiner (2008); Os Livros que Não Escrevi, Gradiva, pág. 100

quinta-feira, março 03, 2011

Ainda sobre o descontentamento do mundo

O filósofo francês Gilles Lipovetsky lá tenta pôr água na fervura ao analisar a sociedade hipermoderna. Afirma ele que “a depreciação dos valores supremos não continuará sem limites, o futuro continua aberto” (2011 [2004], pág. 106). Ou seja, ainda há esperança, ainda é possível inverter o rumo que nos arrasta para o fim. Como se não houvessem pontos de não retorno. Como se os limites a não transpor, e a partir dos quais não se pode voltar atrás, se fossem afastando sempre à nossa frente. Como se fosse possível trazer à vida as culturas tribais com todo o seu património perdido, a sua arte, a sua língua…perdidos para todo o sempre. Como se fosse possível voltar a ver os dodós nas ilhas Maurícias.

Não se trata só de uma “depreciação” de valores. Trata-se de uma destruição de valores.

Lipovetsky esquece a geografia. Como se todas as sociedades do mundo fossem hipermodernas. A maior parte delas não é. O mundo está longe de ser plano. Se há sociedades que são realmente hipermodernas, conforme lhes chama, outras ainda vivem na Era Moderna, outras na Idade Média e outras na Idade da Pedra - sociedades de caçadores recolectores encontradas nas selvas, ameaçadas agora pelas sociedades hipermodernas, hiperconsumistas, hiperdestrutivas.

Esta é uma visão pessimista e niilista, quase apocalíptica, eu sei. Mas assim é. O mundo transforma-se, sempre se transformou, na verdade. Mas esta transformação, hoje, abeira-se da destruição. Estamos cada vez está mais longe de um paraíso na Terra. Estamos cada vez mais longe do Paraíso.

***

Fica a citação completa de Lipovetsky:

Ninguém negará que o mundo, tal como está, provoca mais inquietação do que um optimismo desenfreado: alarga-se o abismo Norte-Sul, as desigualdades sociais aumentam cada vez mais, o mercado mundializado reduz o poder que as democracias têm para se governarem. Mas será que isto nos autoriza a diagnosticar um processo de «rebarbarização» do mundo, no qual a democracia não é mais do que uma «pseudo-democracia» e um «espectáculo comemorativo»? Seria subestimar o poder de autocrítica e de auto-correcção que continua a habitar no universo democrático liberal. A era presentista está tudo menos fechada, encerrada em si mesma, dedicada a um niilismo exponencial. Porque a depreciação dos valores supremos não continuará sem limites, o futuro continua em aberto. A hipermodernidade democrática e mercantil não disse a sua última palavra: ela apenas está no início da sua aventura histórica.”

Charles, Sébastien; Lipovetsky, Gilles (2011 [2004]); Os Tempos Hipermodernos, Edições 70, páginas 105-106.

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segunda-feira, fevereiro 28, 2011

O olhar crítico de Orlando

"É duvidoso que o turismo sirva a aproximação compreensiva dos homens e é certo que, para além de uma importante fonte de divisas estrangeiras, traz consigo vários malefícios. O turista olha com sobranceria o «indígena» que o serve, desloca-se em rebanhos, não tem iniciativa para descobrir os valores locais, tanto da natureza como da tradição. Esta sofre o mais rude embate, pois tudo tende a descaracterizar-se ou a imitar aquilo que foi espontâneo e desprezado. O custo de vida sobe e torna-se incomportável para os nacionais, sempre mal servidos onde prepondera a única clientela de interesse - os estrangeiros."

Orlando Ribeiro, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, 6.ª ed., Livraria Sá da Costa, 1991.

domingo, fevereiro 27, 2011

Razões para ser crítico

Ser descontente é ser homem.

Fernando Pessoa, Mensagem


Como podemos nós estar contentes com o mundo, tal qual se nos apresenta hoje? Há mil razões para ser crítico. Não compreendo por isso os contentes deste mundo. Os alinhados do capitalismo. Os felizes com tanta infelicidade, quando caminhamos cada vez mais rapidamente para o precipício. Esse precipício que nos chama e ao qual hipnoticamente respondemos, avançando paulatinamente na sua direcção. É preciso travar a lenta marcha que a ele nos conduz. É preciso ser crítico. Há fortes razões, económicas, sociais e ambientais que reforçam o nosso descontentamento.


Podemos sentir-nos contentes quando destroem florestas equatoriais inteiras para as transformar em lucrativos palmeirais ou em extensos desertos verdes de soja?

Podemos sentir-nos contentes com o aumento das desigualdades socioeconómicas ao nível planetário, com o depauperamento de vastas camadas da população mundial, com o desemprego, só para alimentar a injusta concentração de riqueza nuns poucos?

Podemos sentir-nos contentes com a extinção das espécies e das tribos das florestas sempre verdes, com a sua rica cultura?

Podemos sentir-nos contentes com a transformação em mercadoria do planeta inteiro e de tudo o que ele contém?

Podemos sentir-nos contentes com a continuada exploração do Homem pelo Homem?

Podemos sentir-nos contentes com o aquecimento global e com as alterações climáticas?

Enfim, poderia continuar, ad aeternum, com estas questões. Mas sabem que mais? Há quem esteja contente. É contra esses e contra o sistema que defendem – o neoliberalismo - que deveremos dirigir o nosso descontentamento e assestar as nossas armas. É preciso desacreditá-los. Há que ser crítico portanto.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

A avançada neoliberal sobre a educação

A ideologia neoliberal defende que deverá ser o mercado a ditar as regras da sociedade e não o contrário (Encyclopedia of Human Geography, Sage, 2006, pág. 330).

Neste momento a educação universitária está na mira de grupos de interesses neoliberais, em particular, nos países do Ocidente, com destaque para a Itália e Reino Unido. A grande questão que se coloca é a seguinte: quem deverá suportar os custos com a educação dos jovens universitários e investigadores: os contribuintes, ou seja, a sociedade no geral, ou os próprios estudantes e investigadores? Acontece que esta segunda hipótese – a de serem os próprios estudantes e suas famílias a terem de suportar os custos dos seus estudos – vem acentuar as desigualdades de oportunidade entre estudantes ricos e estudantes pobres e veda o acesso ao ensino superior a muitos jovens dos grupos socialmente mais desfavorecidos que não terão outra escolha a fazer senão a de trabalhar, abandonando dessa forma os estudos. Além disso, contribui para perpetuar uma estrutura social desigual e para obstaculizar a mobilidade social.

Aventa-se a hipótese, no Reino Unido e em Itália, dos estudantes das famílias sem condições financeiras contraírem dívidas juntos dos bancos para prosseguirem estudos. À entrada da vida profissional, estes estudantes, ao contrário dos mais abastados, terão de suportar o fardo da dívida, mais os juros, a pagar aos bancos, como se fossem escravos ou servos da gleba.

Neste domingo que passou (20-02-2011), na TVI, o professor Marcelo Rebelo de Sousa foi questionado por três estudantes de 18 anos sobre o prosseguimento de estudos, a uma das quais o professor disse que actualmente a licenciatura de três anos equivale a um antigo bacharelato, tendo-a aconselhado a realizar o mestrado, dado que esse grau, actualmente, equivale a uma antiga licenciatura. Ora tal significa uma coisa muito simples: o ensino superior degradou-se na sua qualidade a partir do momento em que o Tratado de Bolonha implicou a redução do período da licenciatura para três anos e os Estados se furtaram a terem de suportar a educação superior dos estudantes por mais um ano.

Mas o que é mais significativo foi o professor ter dito à estudante que, se não tivesse condições financeiras para realizar o mestrado, então teria de trabalhar em simultâneo, ou então, uma outra hipótese, dizemo-lo agora nós, passaria pela contracção de uma dívida junto a um banco ou instituição financeira para poder pagar os seus estudos. Pressupõe-se, por outro lado, que se a estudante, ou a sua família, tivessem condições financeiras, ou seja, se pertencessem às elites ou a “boas famílias”, então a jovem poderia dedicar 100% do seu tempo ao estudo e à investigação, o que a colocaria em vantagem relativamente aos jovens que não se encontram a estudar a tempo inteiro, por terem de trabalhar.

Ora este sistema favorece os mais ricos e penaliza os mais pobres. O filho do rico, tem o caminho aberto e o do pobre (aquele a que a nossa sociedade apelidou tristemente de “borra botas”, porque os que borravam as botas trabalhavam a terra e eram rudes) só tem pela frente obstáculos e está condenado a ser pobre e endividado.

Quem ganha com tudo isto? É simples: as elites, que perpetuam desta forma a sua posição no topo da estrutura social, e os bancos, que ganham novos mercados, à custa destes novos escravos do século XXI que são os endividados.

Quem perde? Os pobres e a maior parte da sociedade.

[Ao que um neoliberal responderá: A sociedade? O que é isso? Isso existe? Para a neoliberal Margaret Tatcher a sociedade era uma construção artificial, ou seja, não existia.]

domingo, fevereiro 13, 2011

A cidade moderna e a modernidade

A Spring Morning, Haverstock Hill, George Clausen, 1881

Diferentes grupos sociais partilham os novos espaços construídos da cidade em modernização.

A cidade moderna era uma “cidade de mobilidade social, lugar de contrastes entre riqueza e privação, das residências espectaculares dos burgueses noveaux riches aos cidadãos que contavam apenas consigo próprios para viverem entre os detritos da vida urbana. Era também uma cidade caracterizada pela perpétua transformação, com novas ideias, tecnologias e práticas que constantemente transformavam a relação entre as pessoas bem como o seu lugar, situado num ambiente de rápida transformação urbana.”

Phil Hubbard, The City, Routledge, 2006, pág. 12.

«Ser moderno é encontrarmo-nos num ambiente que nos promete aventura, poder, regozijo, crescimento, transformação de nós mesmos e do mundo – e, ao mesmo tempo, que ameaça destruir tudo o que possuímos, tudo o que conhecemos, tudo o que somos. Os ambientes e experiências modernas atravessam todas as fronteiras geográficas e de etnicidade, de classe e de nacionalidade, de religião e de ideologia: neste sentido, a modernidade, pode dizer-se, une toda a humanidade. Mas é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade; lança-nos a todos num turbilhão de perpétua desintegração e renovação, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno é fazer parte do universo acerca do qual Marx disse: “tudo o que é sólido dissolve-se no ar”.»

Berman, All That is Solid Melts into Air: The Experience of Modernity. Verso. 1983 [citado por Phil Hubbard, The City, Routledge, 2006, pág. 13.]

sábado, fevereiro 05, 2011

O outro lado do Mediterrâneo

Nos idos anos 90, mais precisamente em 1990, a revista Nação e Defesa reproduzia um artigo de José Manuel Nazareth em que o demógrafo já alertava para os tempos que se avizinhavam no Norte de África. A região, nessa altura, enchia-se de gente jovem, à custa de índices de fecundidade elevadíssimos, da ordem dos seis filhos por mulher, e o emprego e a qualidade de vida eram (e continuam a ser) comparativamente menores em relação ao Norte do Mediterrâneo. Estavam então reunidos os ingredientes para que daí a uns anos ocorresse a explosão social a que agora se assiste.


Volvidos 20 anos, e num momento de crise económica, quando a válvula de escape da emigração já não funciona, o Norte de África transforma-se numa panela de pressão social em explosão. Tunísia e Egipto já explodiram, mas para quando a Argélia, Marrocos e a Líbia? É preciso lembrar também que há muito, a margem oriental do Mediterrâneo fervilha de agitação, no Líbano, na faixa de Gaza (Palestina) afectando também o estado vizinho de Israel. Mas agita-se também a Jordânia e o Iémen, este na península Arábica.


Toda esta importante região projecta ondas de choque que alastram ao mundo. E é para esta região que se voltam os olhares do mundo.

***

Encontrado o artigo de José Manuel Nazareth, cá vai um excerto:

«A Europa ainda não tomou consciência da evolução demográfica contrastada que existe de um lado e de outro do Mediterrâneo. Existe um autêntico colapso demográfico no norte (a fecundidade da Europa dos doze é de 1,6 filhos por mulher) e uma expansão sem precedentes no lado sul (em média seis filhos por mulher).

Alguns números absolutos começam a ser preocupantes sob o ponto de vista europeu…a Europa dos doze tem anualmente 3,8 milhões de nascimentos para 321 milhões de habitantes, ou seja, o mesmo número de nascimentos da Turquia e do Egipto, que totalizam apenas 97 milhões de habitantes. Em 1950, a parte Norte do Mediterrâneo tinha um total de 140 milhões de habitantes, ou seja, metade dos habitantes da região que se estende de Marrocos ao Bósforo. Nos dias de hoje estas duas regiões têm o mesmo número de habitantes – cento e setenta milhões de habitantes de cada lado – mas já está escrito o que será o futuro, ou seja, o início do próximo século, quando nascem por ano cerca de dois milhões de crianças ao norte e mais de sete milhões no sul. Ficaremos amanhã com cento e setenta milhões de habitantes para fazer face a trezentos e sessenta milhões de habitantes “do outro lado do Mediterrâneo” aos quais se juntará a pressão dos restantes povos do continente africano, que será superior a um milhar de milhão de habitantes nos próximos trinta anos.

É neste enquadramento que teremos de situar a Europa, a CEE e o nosso país face à África do Norte. Esta última região, considerada no seu todo, tem por ano mais um milhão de nascimentos do que a Europa dos Doze, numa população que globalmente representa um terço. Dentro de algumas dezenas de anos a sua população ultrapassará a da Comunidade.

Evolução da População da Comunidade Económica Europeia e da África do Norte, de 1960 ao ano 2025 (em milhões)

Ano

CEE

África do Norte

1960

1975

1985

2000

2025

279,9

312,2

321,6

323,8

306,4

51,8

93,8

123,0

175,6

260,8

Fonte: Ramsés 87/88

Também são igualmente preocupantes os contrastes estruturais…que podem conduzir à tentação da complementaridade forçada: por um lado, temos um excedente enorme de idosos em relação às capacidades de financiamento dos sistemas de segurança social; por outro lado, temos, no Norte de África, um excedente de jovens em relação à capacidade de absorção do sistema produtivo.

(…)

Se, nos dias de hoje, a região de maior imigração é os Estados Unidos da América do Norte, amanhã essa região poderá ser a Europa. Não é uma novidade. Porém, a pressão demográfica será incomparavelmente superior devido à disparidade existente nos níveis de vida.»

José Manuel Nazareth, “A problemática demográfica portuguesa no contexto europeu”, Nação e Defesa, Agosto, 1990


domingo, janeiro 30, 2011

"Enfim, livres!"

O que se está a passar agora no Norte de África, mais precisamente na Tunísia e no Egipto, não nos surpreende. Há muito que demógrafos e geopolíticos nos vinham avisando desta eventualidade. Recordo-me de um texto de José Manuel Nazareth, na revista Nação e Defesa, do início dos anos 90 (que infelizmente não encontro agora) em que o excelente demógrafo, agora jubilado, já então alertava para a futura instabilidade política do Norte de África, associando os elevados índices de fecundidade registados com as elevadas taxas de desemprego entre os jovens.

E não é que tudo agora começou com a auto-imolação de um licenciado desempregado na Tunísia, num momento de crise económica generalizada…

Mas observemos atentamente a foto acima: são os jovens que seguram as bandeiras da revolução. “Enfim, livres!”, escrevem eles nas paredes. Esperemos que desta vez os revolucionários não sejam tragados pela sua própria revolução.

Atentemos.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Ainda Sevilha

Sevilha, 15 de Janeiro de 2011

domingo, janeiro 16, 2011

Sevilha é uma torre

Sevilha, 15 de Janeiro de 2011

Laranjas de Sevilha

Sevilha, 15 de Janeiro de 2011


Poema de la saeta: Sevilla

Sevilla es una torre
llena de arqueros finos.

Sevilla para herir.
Córdoba para morir.

Una ciudad que acecha
largos ritmos,
y los enrosca
como laberintos.
Como tallos de parra
encendidos.

¡Sevilla para herir!

Bajo el arco del cielo,
sobre su llano limpio,
dispara la constante
saeta de su río.

¡Córdoba para morir!

Y loca de horizonte,
mezcla en su vino
lo amargo de Don Juan
y lo perfecto de Dioniso.

Sevilla para herir.
¡Siempre Sevilla para herir!

Frederico Garcia Lorca

***

Poema da seta: Sevilha

Sevilha é uma torre
plena de arqueiros finos.

Sevilha para ferir.
Córdova para morrer.

Uma cidade que espreita
por longos ritmos,
e os enrosca
como labirintos.
Como talos de parra
acesos.

Sevilha para ferir!

Debaixo do arco do céu,
sobre o seu plaino limpo,
dispara a constante
seta do seu rio.

Córdova para morrer!

E louca de horizonte,
mistura no seu vinho
a amargura de Don Juan
e a perfeição de Dioniso.

Sevilha para ferir.
Sempre Sevilha para ferir!

Frederico Garcia Lorca

terça-feira, janeiro 11, 2011

Floresceram, uma vez mais

Ouvi!

Soturnos homens das cidades

Que avançais cabisbaixos,

Temerosos com o F.M.I.


As amendoeiras que povoam o vosso solo pátrio

Ousaram florescer uma vez mais,

À revelia dessas coisas banais

Que vos atormentam a alma.


Em breve,

Os campos do Sul

Explodirão em flores multicolores.

Só faltarão os amores.


Pois que venham também

Passear entre as flores...

Antes que cheguem os homens

Do F.M.I.


domingo, janeiro 09, 2011

O FMI, os credores e as boas notícias do PM

Penso que toda a gente já percebeu que os credores de Portugal, os especuladores financeiros, os “mercados”, farão tudo o que estiver ao seu alcance para forçar a entrada do FMI no país, nem que para isso tenham de fabricar um aumento artificial das taxas de juro da dívida. É a forma que têm de ver garantido o pagamento dessa mesma dívida, com o menor risco possível e atempadamente. Se Portugal ameaça não poder pagar, então que pague o FMI e Portugal depois que se entenda com o FMI. E é óbvio que se estão nas tintas para as “boas notícias” que o primeiro-ministro deu no Parlamento.

Eles querem é o dinheirinho e rapidamente.

São uns pândegos, estes credores de Portugal.

domingo, janeiro 02, 2011

Pôr-de-Sol, Primeiro de Janeiro, Cabo Raso

Não te deixarei só.

Agora que o mundo exulta

E os sinos dobram

E os relógios marcam a hora

De um novo amanhecer.

No quarto vazio, (se estiveres num quarto vazio),

Observa a lua da tua janela (mesmo que não tenhas uma janela).

Asseguro-te daqui:

Não estarás só ao dobrar da hora.

Também eu estarei por aqui.

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