sábado, maio 05, 2012

Cavaco, o “prestígio”, a “imagem”, a "reputação" e o “investimento directo estrangeiro”


Já não é a primeira vez que Cavaco Silva enfatiza a importância da “imagem” e do “prestígio” de Portugal enquanto factores de crescimento económico do país. A “imagem” e o “prestígio” fazem parte da sua vulgata e ele profere-as até à exaustão e ao aborrecimento (o nosso), reiteradamente. Da mesma forma, salienta a importância do “investimento directo estrangeiro”, para a ultrapassagem da crise económica e social que atravessamos. Ora este discurso, vindo de quem vem e de forma reiterada, aborrece, desmoraliza, não galvaniza e preocupa.

Pois ainda que a “imagem” e o “prestígio” sejam importantes, não se constroem no ar. Têm de assentar numa realidade ou essência que os sustente. E a actual realidade portuguesa, cada vez mais próxima do Terceiro Mundo, não é lá muito prestigiante. O senhor Presidente quer basear o nosso prestígio em quê? No empobrecimento? Nas desigualdades sociais? No crescimento do desemprego? No endividamento do Estado e das famílias? Na submissão do País aos poderes económicos e financeiros externos, ou, na submissão aos “mercados”? Na perda de liberdade? No enfraquecimento da democracia? Não é verdade que a capacidade de os portugueses determinarem o seu destino e o seu futuro se encontra seriamente comprometida? Ora, esta tónica continuada no “prestígio”, que na realidade está na lama, na “imagem”, e também no “investimento directo estrangeiro”, lembra-nos, de cada vez que é proferida pelo senhor Presidente, que a nossa liberdade, a nossa independência e o nosso desenvolvimento dependem mais dos outros do que de nós próprios, ou seja, dependem de elementos que não controlamos na medida em que se encontram fora do País. Será isto verdade?

Dependemos então da forma como os outros nos vêem e do investimento que decidem realizar no nosso território. É isso? Acredita o senhor Presidente que dependemos mais dos outros do que de nós mesmos para sairmos da situação em que nos encontramos?

Ficaríamos positivamente admirados com o Presidente se ele dissesse que, embora a “imagem” do país no exterior seja importante, não deixa de ser secundária em relação às condições de vida reais e ao trabalho que os portugueses poderão desenvolver no seu próprio país. Que a imagem,o prestígio e a reputação, virão depois de obra feita, por acréscimo, e em função da realidade (ou qualidade) criada.

Ficaríamos positivamente admirados com o Presidente se ele dissesse que, embora o investimento directo estrangeiro seja importante para combater o desemprego e desenvolver o País, não deixa de ser secundário em relação ao investimento que os portugueses poderão e deverão realizar no seu próprio país e também no estrangeiro. Que somos nós quem tem de fazer pela vida e que não podemos ficar à espera que venham os estrangeiros safar-nos desta situação.

Ficaríamos positivamente admirados com o Presidente se ele dissesse que o nosso futuro e a nossa liberdade dependem, acima de tudo, de nós, que estão nas nossas mãos e que somos capazes.

Surpreendidos com a surpresa de Gaspar

Dito aqui.
Estamos surpreendidos com a surpresa de Gaspar. Então não sabia ele que o desemprego iria disparar? Ó Gaspar, em que planeta estás tu, que não sabes o que fazes? Então, mas por que carga de água iria o desemprego reduzir-se? Estás a mangar como sempre não é verdade? Afinal a criação de uma reserva de mão-de-obra desocupada só tinha um intuito e tu sabia-lo bem: de acordo com essas regras da economia que segues religiosamente, calculavas que a um aumento da oferta de trabalho, que o seu valor se reduziria mais ainda e que tal iria tornar a nossa economia mais competitiva. Contudo, parece que cometeste um erro de cálculo crasso e, segundo dizes, inesperado: ao aumento da oferta de trabalho não correspondeu um aumento da procura por trabalho. É que a economia e as empresas definham por causa das dívidas, do garrote fiscal, da dificuldade de acesso ao crédito, da redução do consumo interno, da austeridade e por aí fora… Mas não sabias já tu isso? Ou tomas-nos por parvos?

"Bagão Félix diz que o país está melhor, mas os portugueses em pior situação que há um ano"

Dito aqui.

Alguém lembre a este senhor que Portugal são os portugueses e que se todos nos mudássemos daqui de vez, que Portugal iria connosco e que deixaria de existir para todo o sempre, neste pedaço de terra à beira mar plantado.

Acerca do Pingo Doce, Heraclito, uma vez mais...


Os melhores escolhem um só bem em troca de todos os outros, a glória eterna em troca das coisas mortais. A multidão sacia-se como as manadas.”
Heraclito
in Simone Weil, A Fonte Grega, Cotovia. 2006. Pág. 145

Uma vez mais, esta citação de Heraclito, agora a propósito das hordas invasoras de supermercados.

domingo, abril 29, 2012

Munyinya



Gorilla beringei beringei

Munyinga é o nome do macho dominante desta família (em primeiro plano na fotografia), uma das sete famílias de gorilas da montanha que habitam o Parque dos Vulcões, no Ruanda.

Créditos fotográficos: Christophe Courteau/ Biosphoto/Biosphoto / Christophe Courteau

quarta-feira, abril 25, 2012

Foi bonita a festa, pá


“Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim”
Chico Buarque, Tanto Mar
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A Festa da Liberdade... Andam realmente por aqui a tentar murchá-la. Esqueceram-se porém das sementes, neste canto de jardim: Portugal. Ter-se-ão esquecido de alguma semente neste canto de jardim?

Viva o 25 de Abril!


Tanto Mar by Chico Buarque on Grooveshark

terça-feira, abril 24, 2012

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segunda-feira, abril 16, 2012

Toledo

© AMCD

«Neste sentido Toledo é uma cidade muçulmana, a mais setentrional de todas, evocando Córdova, Sevilha, Granada e outros focos persistentes de uma civilização que, depois de quase oito séculos de domínio político, impregnou profundamente as paisagens e a vida peninsular, pelo menos na sua metade oriental, onde o Europeu capta o perfume de exotismo do Magrebe e se crê antes na África do que na Europa.»

Orlando Ribeiro, "Toledo. Ensaio de Geografia Urbana" in Opúsculos Geográficos, Vol. 5.  - Temas Urbanos. FCG. 1994. Pág. 401. 


Uma das mais belas paisagens urbanas do mundo

© AMCD

"O ladrilho tem um tom cinzento esbatido, as casas rebocadas são pintadas com uma cor semelhante. Faltam completamente as brancas fachadas, passadas a cal frequentemente, das cidades da Extremadura e da Andaluzia. Por isso se tem dito que Toledo é uma cidade sem cor, o que os visitantes de comprazem em verificar quando dão a volta ao Torno - a melhor maneira de ver o conjunto de uma das mais belas paisagens urbanas do mundo."

Orlando Ribeiro, "Toledo. Ensaio de Geografia Urbana" in Opúsculos Geográficos, Vol. 5.  - Temas Urbanos. FCG. 1994. Pág. 410. 

domingo, abril 15, 2012

O capitalismo não é sustentável


Agradecemos daqui o destaque que nos dá o blogue Maio Maduro Maio. Um blogue que gostamos de ler e no qual descobrimos excelentes referências e até afinidades de pensamento.

Uma dessas referências, por exemplo, foi a entrevista ao economista e filósofo Serge Latouche, que não conhecíamos. Latouche escreveu um pequeno livrinho intitulado, Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno.



Dizia Serge Latouche, em 2007, quando a crise do subprime ainda estava a eclodir nas antigas cidades de Cleveland e Detroit, no outro lado do Atlântico:



«A nossa sociedade ligou o seu destino a uma organização fundada na acumulação ilimitada. Este sistema está condenado ao crescimento. Logo que o crescimento se atenua ou pára, entramos em crise e até em pânico. Deparamos com o “Acumulai! Acumulai! É a lei dos profetas!” do velho Marx. Esta necessidade faz do crescimento um “colete-de-forças”. O emprego, o pagamento de reformas e a continuidade das despesas públicas (educação, segurança, justiça, cultura, transportes, saúde, etc.) supõem o aumento constante do produto interno bruto (PIB). “O único antídoto contra o desemprego permanente é o crescimento”, martela Nicolas Baverez, “declinólogo” próximo de Sarkozy, a que se juntam nesta matéria muitos altermundialistas

Serge Latouche, Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. Edições 70. 2011. Pág. 29.

***

Passados cinco anos e mergulhado agora o País numa profunda crise económica e social, em grande parte importada do lado de lá do Atlântico, os que nos governam e também os que supostamente deveriam liderar a oposição, continuam reféns do mesmo discurso: o discurso do crescimento. O crescimento tudo resolverá, dizem eles. Não se aperceberam ainda da armadilha em que caíram. E assim continuamos todos à espera do crescimento, como quem espera por Godot.

Mas ainda que um dia o crescimento seja retomado, duma coisa poderemos ter a certeza, lendo Latouche: nem esse crescimento é sustentável nem “a organização fundada na acumulação ilimitada” o é. O capitalismo não é sustentável, a não ser que, para que subsista, uma minoria poderosa, condene a grossa maioria da humanidade a uma Idade das Trevas. 

sábado, abril 07, 2012

À espera dos mercados e do crescimento económico


Depois de analisar o ordoliberalismo (o neoliberalismo alemão, o mesmo, dizemos nós, que preside ainda hoje às políticas da U.E. e que está ser imposto aos Estados endividados da Zona Euro) quanto às suas políticas económicas e políticas sociais, Michel Focault conclui o seguinte:


“[Nesta doutrina neoliberal] só existe uma política social verdadeira e fundamental, que é o crescimento económico. A forma fundamental da política social não deve ser uma coisa que contrarie a política económica e que a compense; a política social não deveria ser tanto mais generosa quanto maior é o crescimento económico. O crescimento económico por si só, é que deveria fazer com que todos os indivíduos acedessem a um nível de rendimento que lhes permitisse essas seguranças individuais, o acesso à propriedade privada, a capitalização individual ou familiar, com os quais poderiam proteger-se dos riscos.” (Foucault, 2010: 188)[1]

Ou seja, no neoliberalismo, toda a política social se submete à política económica. Mais: se a política social se situa na dependência do crescimento económico, não devendo ser mais generosa quanto maior for aquele, então, em situações em que não se regista crescimento económico, em situações de recessão, como a que atravessamos, deixa de haver política social ou esta passa a ser muito residual, ou ainda, retrair-se-á. E é o que está a acontecer. Acresce a isto que a política económica, também ela se resume ao crescimento económico e este por sua vez encontra-se na dependência dos caprichos dos mercados nos quais os governos não devem, nem podem interferir, de acordo com a doutrina que defendem. Tudo se resume então ao crescimento económico, ou melhor, aos mercados[2].

Compreende-se agora por que razão se concebeu um Ministério da Economia atomizado em mil e uma secretarias, facilmente bloqueável, assim como, a razão da paralisia que o afecta. Pretende-se que não interfira muito na economia, que não atrapalhe e até que desactive anteriores intervenções (TGV, túneis, ponte sobre o Tejo, aeroporto, escolas, etc.) uma vez que, de acordo com a doutrina dos que nos governam, toda a política económica é (deve ser) ditada pelos mercados e pelas leis da concorrência e não pelos governos. Dos mercados financeiros, por sua vez, depende o crescimento económico. Em suma, como os nossos governantes acreditam que o crescimento económico está longe de depender do Governo, dispensaram a política económica. Ou dito doutra forma: a sua política económica é a ausência de uma política. Estão à espera dos mercados e do crescimento económico. Mais ou menos como a tripulação de um barco na latitude dos cavalos, aguardando desesperadamente que a brisa enfune as velas.


[1] Michel Foucault; Nascimento da Biopolítica. Edições 70. Lisboa. 2010.
[2] Para o ministro Gaspar o crescimento económico surge como a primeira prioridade, quando prioriza os objectivos da sua política, contudo, paradoxalmente, os efeitos das políticas tomadas apontam no sentido contrário, no sentido da recessão.

quinta-feira, abril 05, 2012

Gaspar no mundo dos mercados


No mundo pós-político põem-se os mercados e as suas leis da concorrência a governar em vez de políticos, bastando "contratar" técnicos, “peritos” no funcionamento dos mercados-máquina. Gasparzinhos. Bastam os mercados, com as suas leis da concorrência e os seus mecanismos, para que o mundo bem funcione, defendem eles. Então, uma “mão invisível” colocará tudo – a economia, a sociedade, as famílias, os indivíduos, etc. - nos seus eixos. Até os indivíduos deverão funcionar como se fossem empresas. Tudo, todas as decisões que tomam, deverá ser sopesado em termos de receitas e custos. Só então o mundo se tornará num lugar melhor, e garantido será o futuro.

Mas até estes “gasparzinhos” estão sujeitos aos caprichos dos mercados e estes nem sempre se comportam de acordo com os cálculos daqueles. Então, por vezes, as decisões que para os “gasparzinhos”  eram certas ou quase certas, são adiadas ou suspensas, pois os mercados nem sempre são propícios, tal como os ventos. Assim se compreende que o nosso Gaspar, coitado, tenha adiado a retoma dos subsídios dos funcionários públicos e das pensões lá para 2015. Antes, os mercados não querem, e depois, só os mercados determinarão. Não ousemos sondar os desígnios dos mercados. Ámen.

PS - E em 2015 até calha bem: é ano de eleições.

quarta-feira, março 21, 2012

Num caminho, na serra algarvia

Essa terra que te lambe os calcanhares enquanto caminhas,

Pelos caminhos de pó que não abriste, saúda-te! É Verão! E os cactos eriçados ao vento, lutam contra o caminho e afastam-te das margens conquistadas.

Aqui, consegues ouvir o som dos teus passos, ainda que o vento te apague as pegadas.

Aqui, no mundo longe do mundo, não soa um só murmúrio.

domingo, março 18, 2012

Tanto amor

Coreia do Norte, Manobras Militares, 2012 

domingo, março 04, 2012

O neoliberalismo enquanto uma “revolução do mercado”


Visto a partir da nossa época, é o ano de 1979 que deve ser qualificado de data-chave do final do século XX. De um triplo ponto de vista, foi nessa época que se entrou na situação pós-comunista: com o princípio do fim da União Soviética (após a invasão do Afeganistão pelo seu exército), com a chegada ao poder de Margaret Thatcher e com a consolidação da revolução islâmica no Irão, sob a liderança do aiatola Khomeini.
O chamado neoliberalismo, no fundo, mais não foi do que um novo cálculo dos custos da paz interna nos países de «economia mista» capitalista e social-democrata de estilo europeu ou do «capitalismo regulado» à maneira dos Estados Unidos. O resultado dessa auditoria foi uma conclusão inevitável: o partido dos chefes de empresa ocidentais pagara muito caro pela paz social, sob a pressão política e ideológica provisória do Leste. Considerou-se que chegara a hora de tomar medidas para reduzir os custos, medidas que, pela sua tendência, transferiram o centro de gravidade do primado do pleno emprego para a prioridade da dinâmica empresarial.”
(…)
O quarto de século que se seguiu à “revolução do mercado” concebida por Keith Joseph e implementada na Grã-Bretanha por Margaret Tatcher em 1979 (que logo se espalhou por todo o continente e por grande parte do mundo ocidental, em especial na América de Reagan, 1981-1988, e de Clinton, 1993 – 2001) mostrou com que precisão esses diagnósticos correspondiam à situação e a radicalidade das consequências que dela se extraíam. Tal manifesta-se com maior clareza na duradoura tendência do neoliberalismo – a longa marcha para o desemprego de massa que marcou o ritmo do ponto de vista sociopolítico. A nova situação levou ao que era impensável até então: as populações das nações europeias aceitaram, mais ou menos sem luta, taxas de desemprego de 8% a 10% ou mais – até mesmo as reduções cada vez mais sensíveis das prestações do Estado social não chegaram até agora para reacender as chamas da luta de classes. As relações de soberania inverteram-se de um dia para o outro: as organizações dos trabalhadores não têm muita coisa na manga para exercer a ameaça efectiva, pois o privilégio da ameaça passou quase exclusivamente para o lado dos empresários. Estes podem agora afirmar de maneira bastante plausível que tudo vai ser ainda pior se a parte adversa se recusar a entender e atender as novas regras do jogo.”

Peter Sloterdijk (2006), Cólera e Tempo. Relógio D’Água. 2010. Pág. 253-254

***

Vivemos já o tempo em que é o “partido dos chefes de empresa ocidentais” que mais ordena. De acordo com Sloterdijk, este domínio tornou-se total quando a alternativa que se podia contemplar a Leste deixou, de um dia para o outro, de existir. De acordo com o filósofo, um dos inesperados efeitos colaterais do comunismo soviético foi manter o “partido dos chefes de empresa ocidentais” em sentido, face à possibilidade ameaçadora da classe trabalhadora abraçar o sistema alternativo que se vislumbrava a Leste, caso não fossem satisfeitas as condições por ela ambicionadas, entre as quais o pleno emprego e a construção de um Estado social. Perante tal possibilidade, os “chefes de empresa” anuíram frente aos trabalhadores na concessão de tais condições e esse foi um factor que possibilitou a construção de um Estado social europeu. Quando a queda do bloco de Leste, por fim, afastou do horizonte essa possibilidade de secessão, o “partido dos chefes de empresa ocidentais” alterou o seu posicionamento e iniciou o desmantelamento do Estado social. Nas palavras do filósofo “o partido dos chefes de empresa ocidentais” apercebeu-se que afinal estivera a pagar um preço demasiado elevado pela paz social, pois o sistema que se vislumbrava a Leste afinal não era mais do que uma espécie de fachada. Não são de estranhar pois, as palavras de Margaret Thatcher, essa cabecilha do partido “dos chefes de empresa ocidental”, de que “Não há alternativa”. Foi nesse momento que o Bloco de Leste e em particular a União Soviética começavam a dar sinais de forte de erosão – a dificuldade em vencer no Afeganistão, por exemplo - anunciadores de um futuro desmoronamento. Ufanava-se então Thatcher, dizendo que já não havia alternativa pelo que agora o seu partido teria rédea solta para quebrar a espinha ao forte movimento sindical britânico e doravante poderia dar início ao desmantelamento do Estado social e à prossecução de políticas que privilegiavam a dinâmica empresarial em detrimento do primado do pleno emprego, até ai vigorante. O resultado da política neoliberal rapidamente se notou com o aumento galopante do desemprego, da pobreza e das desigualdades sociais. A sociedade - que na óptica de Thatcher era afinal coisa que não existia, pois para ela apenas haviam indivíduos ou grupos de indivíduos - tornou-se cada vez menos solidária, sendo a liberdade individual e o sucesso empresarial erigidos a valores fundamentais. O individualismo (o grande opositor do colectivismo) tornou-se o caldo de cultura destas sociedades dessolidarizadas.

Em Portugal, qual Albânia do Ocidente, registou-se sempre um hiato de décadas entre as tendências políticas que vigoram no estrangeiro e as que se fazem sentir no país. No entanto a ideia prevalecente entre a elite indígena de que o que vem de fora é que é bom, melhor e mais moderno, leva a que os nossos conterrâneos, ilustres iluminados e estrangeirados, acabem sempre por copiar essas modas ou tendências, ainda que algumas, entretanto, já tenham passado de moda lá fora. Isto para dizer que o neoliberalismo chegou tarde e a más horas a Portugal, mas chegou implacavelmente, primeiro de forma insinuante pela mão de José Sócrates que lhe preparou bem o terreno, e depois pela mão de Passos Coelho. Mas, na verdade, parece que o neoliberalismo ainda não passou de moda lá fora. Que o diga David Cameron do Partido Conservador, no poder no Reino Unido.

Hoje é o “partido dos chefes de empresa ocidental” e pior do que esse, o partido de Wall Street, que dominam o mundo ocidental, para não dizer o mundo inteiro*.
________________

Notas:

(*) - Ainda que hoje também existam, como sabemos, "partidos dos chefes de empresa" orientais e empresas estaduais chinesas, vivendo estas sob um regime de partido único.

sexta-feira, março 02, 2012

As soluções para a crise. Afinal é simples.


Mais competitividade.
Mais inovação.
Mais empreendedorismo.
Mais resiliência.
Mais confiança. (É preciso conquistar a confiança dos mercados! Irra!)
E mais flexibilidade.

Força Mike, força! Estou contigo!

sábado, fevereiro 25, 2012

“Podemos falir, mas falimos na praia.”

Fonte da Telha, 18/02/2012                                                                         © AMCD

A classe média passeia-se no areal, junto ao mar.

Don't Be a Jerk, Jonny by The Drums on Grooveshark

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Perguntem aos gregos, na rua.

Ao nível do contexto económico europeu (e por extensão, mundial), vivemos uma situação parecida com a que imediatamente precedeu a IIª Grande Guerra, quando Chamberlain ao aterrar no aeródromo de Heston a 30 de Setembro de 1938, vindo de Munique, anunciou esfuziante ter conseguido à última da hora um acordo com Hitler que garantiria a paz nos tempos vindouros. Como sabemos, a guerra teve início logo no ano seguinte, a 1 de Setembro de 1939, quando as forças armadas alemãs atravessaram a fronteira polaca.

Hoje, da mesma forma, anuncia-se aos quatros ventos um novo pacote de “ajuda” à Grécia que garantirá a recuperação daquele país e, finalmente, o seu crescimento económico e o afastamento da crise do horizonte, para todo o sempre. Pois bem, todos já percebemos: a “guerra” vem aí.

Perguntem aos gregos, na rua.

O anúncio de Chamberlain "aos quatro ventos", exibindo na mão direita o Acordo de Munique.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

O fracasso da escola

A cultura consumista-hiperindividualista não é a encarnação do horror cultural absoluto. Simplesmente, ressente-se da sua hipertrofia, de um triunfo que não se preocupa o suficiente em erguer barreiras ao seu poder. Assim, a era consumista não impede em absoluto o desenvolvimento de elites nem, mais amplamente, a boa escolarização dos jovens para que, enquadrados pela família, se salvem dos métodos escolares “expressivos”, das sitcom, dos chats, dos downloads de música, da publicidade das marcas. Quando desaparece o contrapeso familiar, a ordem consumista e a escola que lhe corresponde manifestam-se no seu fracasso. Sob a bandeira da democratização, a nova era cultural é profundamente “desigualitária”; é um êxito para alguns, para aqueles cujo enquadramento familiar põe limites à expansão e ao poder dissolvente da cultura cool; é fatal para outros, para todos aqueles que, não apoiados pela sua família, não encontram já nenhum suporte “institucional” para formar-se e aprender.

Há que repeti-lo: a nossa escola não funciona. Pede uma mudança, sem dúvida uma reforma intelectual profunda, para reorientá-la e colocá-la em condições de honrar as suas promessas de educação e mobilidade social

Lipovetsky, Gilles; Serroy, Jean (2010), La Cultura-Mundo – Respuesta a una Sociedad Desorientada. Editorial Anagrama. Barcelona. Páginas 171-172
(Traduzido da edição espanhola aqui pelo muchacho)

A obra existe em Portugal:

Lipovetsky, Gilles; Serroy, Jean (2010), A Cultura Mundo – Resposta a Uma Sociedade Desorientada. Edições 70.

***

Ainda aprendemos e ensinamos na anacrónica escola da Era Industrial. A escola ainda funciona como uma espécie de linha de montagem. A entrada e saída de alunos e professores nas e das salas de aula, por exemplo, faz-se ao ritmo de pavlovianas campainhas (quais sirenes fabris). E o conhecimento nas salas de aula ainda se transmite em doses empacotadas. Isto quando fora da escola (e dentro dela também) e em todo o lado, a informação se encontra disponível para quem a queira colher. Informação omnipresente, mas também excesso de informação. Selvas de informação onde nos perdemos e enredamos. Mas já não a Era do deserto da informação. Que fazer então? Se vivemos na Era da Informação, porquê uma escola da Era Industrial? O resultado de tudo isto é a promoção de uma reprodução social que mantém os pobres na pobreza e os ricos na riqueza (e não falamos apenas da pobreza material). E não me venham com essa de que pobres sempre haverá. Mas era suposto que a escola enriquecesse? Era (e mais uma vez não falamos de riqueza material)! Mas neste jogo jogam sempre outros factores, não é verdade? Muito se esforçam os que dentro da própria escola laboram, mas a questão transcende-os, pois esta escola é demasiado importante para que seja deixada apenas ao cuidado dos que dela bem cuidam e estimam.

Esta escola, tal como existe, não honra efectivamente as suas “promessas de educação e mobilidade social”. Antes pelo contrário, contribui para a manutenção das desigualdades sociais e para a reprodução social.  É assim que as elites o desejam, não vá a sua posição ser posta em causa pela mobilidade ascensional dos filhos da ralé. Não vá deixar de haver ralé. É que a ralé afinal é precisa. Afinal, como dizia Almeida Garret, que não consta que fosse comunista: quantos pobres são necessários para se produzir um rico?

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

O que aconteceu naquele dia em Cajamarca

John Everett, Pizarro Seizing The Inca of Peru, 1846

***

Excerto da obra de Jared Diamond (1997), Armas Genes e Aço:

O que aconteceu naquele dia em Cajamarca é bem conhecido, visto ter sido registado por escrito por muitos participantes espanhóis. Para termos uma ideia daqueles acontecimentos, vamos ressuscitá-los combinando excertos de relatos de seis companheiros de Pizarro, incluindo os seus irmãos Hernando e Pedro, testemunhos oculares:

domingo, fevereiro 19, 2012

Rumos e acontecimentos

Nos momentos de crise, de verdadeira crise, existem dois tipos de pessoas que se distinguem quanto às decisões que tomam e às acções que empreendem, em função da análise que realizam da sua circunstância ou, se quisermos, da realidade: as que pressentem, ou percebem antecipadamente, para onde os acontecimentos as poderão levar, e as que acabam por ser levadas pelos acontecimentos.

Um mundo multipolar?

Na realidade ainda não estamos lá. Vivemos na Era da Hiperpotência, que teve início com o findar da Guerra Fria, quando deixou de haver duas superpotências e passou a existir apenas uma. O que temos hoje? Uma hiperpotência decadente em trajectória descendente e um conjunto de potências emergentes em trajectória ascendente.

sábado, fevereiro 18, 2012

Scrat?


O cínico do Sloterdijk


O filósofo Peter Sloterdijk, cinicamente, dispara sobre todo o tipo de militantismo. O militante é um colérico, um ressentido, um activista revolucionário, ansioso por reconhecimento e acção, que se agita e se organiza em partidos e movimentos[1] – reporta-se também aos actuais “movimentos sociais no capitalismo global”. O Partido é, para Sloterdijk, um banco de cólera e de ira que pretende capitalizar ainda mais esses (res)sentimentos, de forma a fazê-los explodir no momento considerado mais oportuno, a mando de um líder, de um comité coordenador ou de um comité revolucionário. O histórico Partido Comunista é visado pelo filósofo, mas não só o Partido Comunista: refere-se principalmente aos “partidos políticos ou movimentos situados na ala esquerda do espectro político” (Sloterdijk 2010: 161), se bem que aluda, noutro lado, ainda aos militantes nacionais-socialistas. No entanto, depois deste tratamento cínico, particularmente em relação a toda a esquerda que ainda mexe - a ala política que representa os desfavorecidos, os explorados, os expropriados, os sem-terra e os injustiçados deste mundo – o filósofo sai-se com este belo naco de prosa relativa ao capitalismo, digna de realce (Sloterdijk 2010: 162):

A verdadeira missão do capital consiste em assegurar constantemente o prosseguimento alargado do seu próprio movimento. Tem por vocação derrubar todas as situações em que as barreiras à exploração, como os usos e costumes e a legislação complicam a sua marcha vitoriosa. Assim sendo, não há nenhum capitalismo sem a propagação triunfal desse desrespeito a que os críticos da época dão desde o século XIX o nome pseudofilosófico de «niilismo». Na verdade, o culto do nada mais não é do que o efeito secundário inevitável do monoteísmo monetário, para o qual todos os outros valores só são ídolos e simulacros.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Caos em Atenas

Caos em Atenas, 13-02-2012

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Whitney Houston (1963 - 2012)


Greatest Love Of All by Whitney Houston on Grooveshark

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Revolucionários sírios




Longa vida aos que lutam sempre e não se submetem nunca aos opressores.

Notícias da desindustrialização na Europa, esta semana (com link):


Mitsubishi deixa a Europa. Resultado: 1500 desempregados, 1500 famílias com os seus rendimentos familiares coarctados na Holanda. São mais de 1500 pessoas, como é óbvio.




A Renault inaugura fábrica em Marrocos. Neste caso destaca-se o facto da Renault criar novos postos de trabalho em Marrocos e não em França.

***

A Europa desindustrializa-se e a indústria deslocaliza-se para os países onde consegue produzir o mesmo ou mais, por um custo menor. A ideia é como sempre, aumentar a margem de lucro, à custa dos baixos salários praticados no mundo menos desenvolvido. Lá onde se vive ainda numa espécie de miséria da Era Vitoriana dos tempos de Charles Dickens. Lá, onde os direitos laborais (e humanos) ainda não foram conquistados e onde a liberdade ainda não mora. Lá, onde ainda se pode explorar. Lá, na terra da servidão.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Ninguém pára o Bashar


Não, não é uma orquestração da imprensa internacional pró-Ocidental.

São as vítimas que falam, e falam alto e gritam de dor e de pranto. Ouvimo-las na nossa sala de jantar e já se contam aos milhares.

Se ainda não é uma guerra civil, para lá caminha. As sementes foram lançadas.

***
Caem os ditadores no Próximo e do Extremo Oriente e o processo ainda não cessou.

Primeiro o Sadam, depois o Ben Ali, o Mubarak e a seguir o Kadafi.

Seguir-se-á o Bashar, que aprendeu com o seu falecido pai a não ceder nunca, nem que o sangue do seu povo tenha de correr nas ruas. É uma questão de auto-preservação. Também o pai massacrou, por vezes, quem se lhe opunha. Mas naquele tempo pouco se sabia e era mais fácil encobrir os hediondos crimes. Mas hoje sabemos. As novas tecnologias impossibilitam a ocultação dos massacres e dos bombardeamentos. Ouvimos os obuses que riscam os céus da Síria na nossa sala de jantar. Mas o Bashar não transige. A mínima cedência é o fim e ele sabe-o. Se entreabrir um pouco a porta, virá a enxurrada. Se transigir um pouco, os que se lhe opõem, verão nisso um sinal de fraqueza e cairão sobre ele e sobre o regime. Ele é o regime.

 Então o Bashar bombardeia o seu próprio povo.

Ninguém pára o Bashar.

Por agora.

domingo, fevereiro 05, 2012

"Who do you think you are?"


Que ousadia! Que ousadia!
Proferir uma poesia.

Who do you think you are? 
Digo eu para comigo mesmo.

O Dia Mundial de Tocar Banjo


Se há dias para tudo,
Porque não para este?
Por certo soariam banjos,
Em toda a esfera celeste.

Como eu amo o vento Leste
Que vem no Verão e tudo abrasa.

E do céu desceu um arcanjo,
Animado, a tocar banjo.
E assim foi proclamado
O dia tão aguardado.
Qual guitarra, qual fado?
Veio de banjo, o anjo armado.




I Wanna be Around My Baby All the Time by Bennie Moten on Grooveshark


domingo, janeiro 29, 2012

O que é o neoliberalismo?


«Quando se fala do neoliberalismo, alemão ou outro, ou seja do liberalismo contemporâneo, obtém-se geralmente três tipos de resposta.
Em primeiro lugar, esta: do ponto de vista económico, o que é o neoliberalismo? Nada mais do que a reactivação de velhas teorias económicas já gastas.
Em segundo: do ponto de vista sociológico, o neoliberalismo mais não é do que aquilo através do qual passa a instauração, na sociedade, de relações estritamente mercantis.
Por último: do ponto de vista político, o neoliberalismo mais não é do que uma cobertura para a intervenção generalizada e administrativa do Estado, intervenção tão pesada porquanto insidiosa e por se disfarçar sob os aspectos de um neoliberalismo.»

Michael Foucault (1979), Nascimento da Biopolítica, Edições 70. Lisboa. 2004. Páginas 173-174.

***

Vivemos numa época moribunda, esta do capitalismo tardio e do neoliberalismo que apodrece. Uma época infértil, incapaz de parir um futuro esperançoso. Uma época que se arrasta e nos arrasta, incapaz de prometer o que quer que seja a não ser o sacrifício do presente e a ausência do futuro. É preciso pôr termo a isto. 

Sheared Times by Portishead on Grooveshark

sexta-feira, janeiro 27, 2012

A guerra para além do homem

O Drone X-47B consegue voar sozinho e aterrar, apenas com o auxílio dos computadores de bordo. Representa um novo paradigma na “arte” da guerra: a morte e a destruição passarão a ser semeadas, já não por homens armados, mas por máquinas que operam de forma semi-independente.

Com as novas armas temos hoje a garantia de que a guerra prosseguirá para além da extinção humana. Já ninguém as comanda, nem sequer de forma remota. Questionava-se em tempos um académico acerca da legitimidade das guerras comandadas, já não por militares, mas por civis que, levantando-se pela manhã, se dirigiam ao local de trabalho: um posto de controlo remoto, algures nos EUA, onde se comandavam drones que sobrevoavam terras distantes, fotografando, metralhando e bombardeando se fosse necessário. Ao fim do dia esses funcionários ou empregados regressavam ao aconchego do lar com o sentimento de missão cumprida, enquanto no distante Paquistão alguém chorava os seus mortos.

Pois bem, com as novas armas a questão começa a perder acutilância. No futuro a guerra poderá escapar não só à alçada dos militares mas também à dos civis. Será coisa de máquinas. Não foi Kasparov vencido pelo Deep Blue? É o admirável mundo novo. O pesadelo do Exterminador entre nós. E ainda que o homem seja varrido da face do planeta, podemos estar descansados: as máquinas ficarão por cá, assegurando a guerra perpétua.

domingo, janeiro 22, 2012

Flamingos (Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e VRSA)


© AMCD

Da dificuldade em conter a expansão do neoliberalismo (isso que alguns teimam em não saber o que é)


 O actual modo de funcionamento da economia mundial (e hoje existe efectivamente uma economia mundial) juntamente com as elites extraterritoriais que a fazem funcionar favorecem organismos estatais que não podem de facto impor as condições de gestão da economia e, menos ainda, a impor restrições ao modo como aqueles que dirigem a economia entendem fazê-lo: a economia é hoje decididamente transnacional. Virtualmente em todos os Estados, pequenos ou grandes, a maior parte dos meios económicos mais importantes para a vida quotidiana da população são «estrangeiros» - ou, dado que foram removidas todas as barreiras aos movimentos do capital, podem tornar-se estrangeiros de um dia para o outro, caso os governantes locais suponham ingenuamente poder intervir.”

Zygmunt Bauman, A Vida Fragmentada, Ensaio sobre a Moral Pós-Moderna, relógio D’Água. 2007. Pág. 253-254.

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Bauman escrevia em 1995, há 17 anos portanto, sobre a impotência dos Estados, ou dos “organismos estatais”, na determinação dos rumos da economia, que passou definitivamente a funcionar num quadro que transcende as nações (transnacional). O “modo de funcionamento da economia” a que se refere Bauman em 1995, não podia ser mais actual. Vivemos já a hora em que “a maior parte dos meios económicos mais importantes para a vida quotidiana da população” se tornam estrangeiros, e, poderíamos acrescentar, chineses. Comunistas capitalistas chineses! Os grandes vencedores da Era neoliberal. Trata-se de uma grande ironia. Eles não comem tudo; eles compram tudo! Esta semana foi a vez da Thames Water, a “maior empresa de água e saneamento do Reino Unido” (Público, 21 de Janeiro de 2012, pág. 15) que “abastece 8,8 milhões de consumidores com água e presta serviços de esgotos a cerca de 14 milhões de britânicos, em Londres e regiões próximas”, ter sido comprada em 8,7% pelo fundo de investimento China Investment Corporation. Já antes a Three Gorges tinha comprado 21,3% da EDP. Água, energia, saneamento básico… – “os meios económicos” mais importantes para a vida quotidiana da população”.

A China posiciona-se estrategicamente no campo geopolítico e geoeconómico da globalização. E não sejamos ingénuos: não o faz por altruísmo ou para “ajudar” o pobre Ocidente que até há pouco era rico e colonizador e que agora implora por mais dinheiro. Fá-lo porque procura ganhar uma posição hegemónica na economia e na política mundial. No futuro poderá impor os seus interesses ao mundo: o que fará o Ocidente (ou o mundo) quando a China ameaçar utilizar o embargo financeiro (essa nova arma), caso os seus interesses sejam contrariados, por exemplo, na questão de Taiwan, essa ilha que se segue, após Macau e Hong Kong?

domingo, janeiro 15, 2012

sexta-feira, janeiro 13, 2012

A confiança dos mercados: Portugal no lixo, mais uma vez.


É preciso ganhar a confiança dos mercados, dizem os adoradores dos mercados que nos governam. É preciso austeridade, dizem também. Ora ai está a resposta dos mercados pela S&P, tão agradada que está com os sacrifícios que lhe prestam e com a austeridade:


domingo, janeiro 08, 2012

Tempos pós-democráticos


«Mas, por muito que Portugal tenha entrado na pós-democracia – e que os políticos portugueses representem de facto interesses outros e privados ou que pouco ou nada têm a ver com o que é a representatividade democrática dos cidadãos e do interesse público -, o sistema político dá ainda poderes ao Presidente. E se este, de facto, não quisesse apenas limitar-se fazer discursos da carochinha, então poderia ter sido coerente com o que é o seu pensamento já expresso anteriormente e com o que é a Constituição, e teria mandado para o Tribunal Constitucional o Orçamento de Estado, em particular as normas que confiscam o subsídio de Natal e de férias dos funcionários públicos.»

São José Almeida, Público, 7 de Janeiro de 2012


Luís Costa, Da Nação
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Democracia, democracia, democracia…A palavra é hoje repetida cada vez mais, até à exaustão, como um grito surdo. Dizemo-la porque decerto sentimos que está a escapar-nos. Parece que vivemos tempos análogos àqueles em que a guerra indesejada e inevitável se pressente, e então a palavra “paz” invade ansiosamente as bocas do mundo. Assim é agora com a "democracia".

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Tony Judt no ano da sua morte, acerca do neoliberalismo. Lê isto ó Gaspar.

“Hoje em dia, ainda se ouvem ecos atabalhoados da tentativa de reacender a Guerra Fria em torno de uma cruzada contra o «islamo-fascismo». Mas o verdadeiro cativeiro mental dos nossos tempos está alhures. A nossa fé contemporânea no «mercado» segue nos mesmíssimos trilhos da sua sósia radical oitocentista – a crença cega na necessidade, no progresso e na História. Tal como o infeliz chanceler trabalhista britânico entre 1929-1931, Philip Snowden, desistiu perante a Depressão e declarou que não valia a pena contrariar as leis inelutáveis do capitalismo, assim os dirigentes da Europa de hoje se refugiam à pressa em medidas de austeridade orçamental para acalmar «os mercados».
Mas o «mercado» - tal como o «materialismo dialéctico» - é apenas uma abstracção: simultaneamente ultra-racional (a sua argumentação supera tudo) e o apogeu do absurdo (não pode ser questionado). Tem os seus verdadeiros crentes – pensadores medíocres quando comparados com os pais fundadores, mas ainda assim influentes; os seus compagnons de route – que em privado podem duvidar dos princípios do dogma, mas não vêem alternativa a pregá-lo; e as suas vítimas muitas das quais nos EUA, em especial, engoliram pressurosamente o seu comprimido e proclamam aos quatro ventos as virtudes de uma doutrina cujos benefícios nunca verão.
Acima de tudo, a servidão em que uma ideologia mantém a sua gente mede-se melhor pela sua incapacidade colectiva para imaginar alternativas. Sabemos muito bem que a fé ilimitada nos mercados desregulados mata: a aplicação estrita do que até há pouco tempo, em países em desenvolvimento vulneráveis, se chama o «consenso de Washington» - que punha a tónica numa política fiscal rigorosa, privatizações, tarifas baixas e desregulamentação – destruiu milhões de meios de subsistência. Entretanto, os «termos comerciais» rígidos em que estes remédios são disponibilizados reduziram drasticamente a esperança de vida em muitos locais. Mas na expressão letal de Margaret Thatcher, «não há alternativa».

Toni Judt, O Chalet da Memória, Edições 70. 2011.Páginas 180-181.
(os sublinhados são nossos)
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Onde estão os verdadeiros sociais-democratas como Tony Judt? É certo que um dia, quando o dogma neoliberal for desacreditado (ou derrubado) pelos resultados de pesadelo a que nos irá conduzir, muitos dos nosso falsos “sociais-democratas”, esses do intitulado “Partido Social Democrata”, irão aparecer aos magotes, batendo com a mão no peito, afirmando a alta voz que sempre foram verdadeiros sociais-democratas, renegando o neoliberalismo – essa teologia do “mercado” que agora apregoam. Hoje, nas fileiras desse partido, verdadeiros sociais-democratas é coisa que não encontramos: todos se converteram ao dogma que não acredita em alternativas; todos se submeteram, inclusive os nossos auto-intitulados “socialistas” que, tal como o Dr. Jekyll and Mr. Hyde, fazem uma coisa quando estão no Governo e defendem outra quando na Oposição.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.


No país socialmente mais polarizado da Europa Ocidental, onde “todos somos responsáveis” pela situação a que isto chegou (diz Cavaco Silva), parece que afinal se exige mais esforço pelas medidas de austeridade aos mais pobres do que aos mais ricos. Com certeza, devem ser os mais pobres os verdadeiros responsáveis. [Clicar para ver a notícia na Agência Financeira. Aqui.]

Um dia depois do Presidente ter apelado a todos os portugueses para que combatessem pelo futuro de Portugal, não estando nenhum Português dispensado desse combate, parece que existem alguns empresários e empresas que julgam combater melhor pelo futuro do País, mudando a sede social da empresa para a Holanda. Eia patriotas! E já lá vão 19 empresas das que estão cotadas no PSI 20!  [Clicar para ver a notícia na Agência Financeira. Aqui.]

Mas porque nos admiramos? Não sabíamos já que o capital não tem pátria e os negócios não têm ética?

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Somos todos responsáveis?!


«A crise que Portugal atravessa é uma oportunidade para nos repensarmos como País. Orgulhamo-nos da nossa história e queremos continuar a viver de cabeça erguida. Durante muito tempo vivemos a ilusão do consumo fácil, o Estado gastou e desperdiçou demasiados recursos, endividámo-nos muito para lá do que era razoável e chegámos a uma “situação explosiva”, como lhe chamei há precisamente dois anos, quando adverti os Portugueses para os riscos que estávamos a correr. Agora temos de seguir um rumo diferente, temos de mudar de vida e construir uma economia saudável. Somos todos responsáveis. Esta é a hora em que todos os portugueses são chamados a dar o seu melhor para ajudar Portugal a vencer as dificuldades. Trabalhando mais e apostando na qualidade, combatendo os desperdícios, preferindo os produtos nacionais. Deixando de lado os egoísmos, a ideia do lucro fácil e o desrespeito pelos outros. Nenhum Português está dispensado deste combate pelo futuro do seu País.»



O Presidente convoca-nos para o combate pelo futuro do País, dizendo-nos que “somos todos responsáveis”. Somos todos responsáveis?! Nem somos todos responsáveis e entre os responsáveis, alguns são mais responsáveis do que outros. Esta atribuição da responsabilidade a todos os cidadãos é uma forma de diluir a responsabilidade, desresponsabilizando, dessa forma, os verdadeiros responsáveis: os timoneiros que, ao longo dos anos, nos conduziram até aqui.[1]

Uma auditoria à dívida serviria para apurar as responsabilidades da situação a que chegámos e por isso alguns cidadãos defendem-na. Mas, à parte do apuramento das responsabilidades, a verdade é que Portugal se encontra em apuros, pelo que o empenho de todos os portugueses no combate pela salvação do País, se sobrepõe à questão do apuramento das responsabilidades. Por outras palavras: se um navio está a meter água, é melhor que os tripulantes se concentrem no escoamento da água, em vez de perseguirem pelo convés os responsáveis pelo rombo.

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Nota: [1] acerca dos responsáveis pelo “rombo”, este gráfico do blogue Douta Ignorância é muito interessante.

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