sábado, fevereiro 23, 2013

Poupanças!


Talvez tenha passado despercebida a mudança quase imperceptível e delicada no discurso, habitualmente cínico, do Ministro das Finanças: agora já não são cortes, são poupanças. As poupanças das finanças. As nossas gastanças.

Disse agora Gaspar que, face à inesperada derrapagem no PIB (mais uma), está considerar a aplicação de medidas para controlo da execução orçamental. Segundo o ministro “a composição destas medidas será uma combinação de poupanças em execução orçamental ao longo de 2013 com os efeitos das poupanças orçamentais estruturais e permanentes decorrentes do processo de reforma do Estado".

Pois está claro! Não são cortes, são poupanças! Mais de 800 milhões de poupanças! Poupanças que não seriam realizadas se estas derrapagens (outro eufemismo) não tivessem ocorrido. Benditas derrapagens que permitem tão gordas poupanças.

Venham mais derrapagens que queremos poupanças.

Grande Gaspar! Tanta competência até já aborrece.

P.S. – No Expresso de hoje, já se anuncia que a “Recessão engoliu o plano B de Vítor Gaspar”, na página 8 do primeiro caderno. Aguardam-nos mais poupanças, portanto.

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E será que Manuela Ferreira Leite já deu com a "espiral recessiva"? Mas o que é a “espiral recessiva”? E a Ongoing? O que é a Ongoing?

E a retoma? Para quanto a retoma? Não era em 2013?

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Já não é o povo quem mais ordena, mas há ainda quem o cante.

Por vezes invade-nos uma sensação de déja vu. Parece que voltámos ao marcelismo, quando os estudantes se agitavam nas universidades e na rua se formavam pequenas manifestações espontâneas contra um regime que tendia para o autismo. Mais além cantava-se já o Grândola Vila Morena. Prelúdios de uma revolução. Vivia-se uma paz podre e o regime acabou por cair surpreendido (meses antes, consta, houvera um sinal - falso, sabemo-lo agora - de largo apoio popular). Mas os capitães de Abril tiveram de dar-lhe o último empurrão. E tudo se desfez em escombros. Sem este último abalo não teria havido revolução.

Mas é apenas uma sensação de déja vu. Hoje os tempos são outros e novos. O Governo tende para o autismo e a democracia dá sinais de enfraquecimento com o reforço do poder de elementos antidemocráticos no seu seio. O país perde soberania, o que significa que é o povo que perde soberania.

Por outras palavras, já não é o povo quem mais ordena. Mas há ainda quem o cante.

Quem mais ordena nos dias de hoje? O Governo? Merkel? Os mercados? O que escondem os mercados? Que rostos se escondem por detrás dos mercados? Que poderes e poderosos? Quem são os global players que determinaram o teu desemprego, ó Zé? Muito provavelmente os mesmos que vão determinar o meu.

E o que vamos fazer quanto a isso?

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Yerevan e Ararat

Photograph: Maxim Shipenkov/EPA

domingo, fevereiro 17, 2013

Terá o Papa abandonado a cruz?

REUTERS/ANSA/ALESSANDRO DI MEO

Agora que a poeira assentou, a excepcional situação criada pela resignação do Papa levanta um conjunto de questões sensíveis, em particular, aos católicos. Logo após a resignação do Papa pelos motivos que se conhecem, ouviram-se vozes enaltecendo o acto, como sendo um feito corajoso e perfeitamente aceitável, dadas as circunstâncias pessoais (físicas) em que o Santo Padre se encontra. Poderíamos dizer contudo, que coragem seria o Papa ficar no seu lugar até à morte, não obstante o seu sofrimento. A verdade é que nunca, nos últimos 598 anos, um Papa abandonou a sua cruz. A verdade é que a Paixão de Cristo encerra a mensagem de que cada um tem a sua cruz para carregar, que o Salvador carregou a dele (nas palavras do filósofo Miguel de Unamuno, na sua obra Do Sentimento Trágico da Vida). Que viver também é sofrer*. Assim, esta abdicação não deixa de ser um sinal de grande fraqueza e crise no seio do catolicismo. Por isso se compreende a pressa dos sacerdotes em normalizarem uma situação irregular e que só enfraquece a Igreja.
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(*) Consta que, num suposto certame, Homero foi questionado relativamente à melhor coisa que poderia acontecer aos mortais, ao que o Poeta respondeu que “o melhor para os mortais que habitam sobre a terra é não nascer; mas tendo nascido, ultrapassar sem demora os portões do Hades.” (Já aqui fizemos referência a esta questão). O que queria dizer Homero com tão desgraçada resposta, que não o favoreceu no referido certame? Que viver implica sofrer e depois morrer, e que, quanto menor for a duração da vida, menor será o sofrimento. É um ponto de vista difícil de aceitar nos nossos hedónicos tempos, mas assim é. Viver implica carregar com essa cruz do sofrimento. Ora o Papa não morreu, mas alijou a sua carga ao descer da cruz. Porém, do ponto de vista de um católico, não se pode descer da cruz. Ou por outras palavras, não é lá muito católico descer da cruz.

Quanto à cruz da Igreja, outro a carregará, pois em breve teremos Papa, mas fica sempre a questão relativa ao exemplo do Papa que abandonou a cruz  antes do momento habitualmente determinado por Deus – o momento da morte. Terá o Papa contrariado os desígnios de Deus ao resignar por decisão pessoal e portanto, por decisão humana? Ter-se-á o Homem antecipado a Deus?

Consta que já relampejou na alta cúpula da basílica de São Pedro. Estará Deus zangado?

Entretanto na Síria



Entretanto na Síria, os morteiros continuam a semear a morte. Volvidos dois anos de revolução morreram cerca de 70 000 pessoas de ambos os lados, noticia a BBC. Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se o ditador tivesse resignado a tempo de evitar o recrudescimento do conflito? A violência contra os primeiros manifestantes fez as suas primeiras vítimas, e a partir daí cresceu como uma bola de neve. Eis a prova mil vezes repetida de que a violência gera violência. O ciclo só pode ser parado com a cedência de uma das partes ou a derrota militar de uma delas, o que não se adivinha para breve.

Curiosamente parecemos estar a assistir ao tipo de guerras quentes comuns no tempo da Guerra Fria, quando as superpotências se furtavam ao conflito directo entre si. O Bashar tem atrás de si o apoio da Rússia, da China, do Irão, etc. e os rebeldes, o apoio do Ocidente e da Turquia.

Quem sofre? O povo sírio.

sábado, fevereiro 16, 2013

Delichon urbicum


Este ano chegaram cedo. Ontem avistámos as primeiras andorinhas-dos-beirais do ano, vindas de África. Hoje vimo-las atarefadas em Cabanas de Tavira, na construção dos ninhos. 

Anunciam a aproximação da Primavera. Ficarão até ao fim do Verão.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Talvez o maior saque da história, a seguir ao resgate de Atahualpa


David Landes na sua magnífica obra, A Riqueza e a Pobreza das Nações, narra o destino do Madre de Deus, um navio português do tempo em que a Ibéria era hiperpotência:


«Os Romanos tinham um aforismo, Pecunia non olet – “O dinheiro não cheira”. As pessoas podem não gostar do modo como ele é arranjado ou da pessoa que o conseguiu, mas gostam do dinheiro e irão aceitá-lo.
Num outro sentido, porém, o dinheiro cheira fortemente e o seu odor atrairá gente de toda a parte.

Em 1592, a Inglaterra estava em guerra contra a Espanha e Portugal, que, como já vimos, fora unido à coroa espanhola pelo jogo do casamento e da herança. Cerca de quatro anos antes, os Ingleses tinham repelido uma invasão espanhola e puseram a pique as embarcações inimigas (a pretensa Armada Invencível). Agora, uma esquadra inglesa estava a postos ao largo dos Açores para interceptar e capturar navios espanhóis provenientes do Novo Mundo, talvez carregados com tesouros do México e do Peru, quando lhe surgiu uma carraca portuguesa. Era a Madre de Deus, de regresso da Índia e que rumava para Lisboa.
Era maior do que qualquer navio em que os Ingleses já tivessem posto os olhos: 165 pés de comprimento, 57 pés de boca, 1600 toneladas, três vezes o tamanho da maior embarcação existente na Inglaterra; sete cobertas, 32 canhões e outras armas, superstrutura em talha dourada; e porões repletos de tesouros.
Ali estava a matéria-prima dos seus sonhos - arcas abarrotadas de jóias e pérolas, moedas de ouro e de prata, âmbar mais velho do que a Inglaterra, peças do mais fino tecido, tapetes dignos de um palácio, 425 toneladas de pimenta, 45 de cravo-da-índia, 35 de canela, 3 de macis, 3 de noz-moscada, 2,5 de benjoim (resina balsâmica, altamente aromática, usada como base para perfumes e preparados farmacêuticos), 25 de cochinilha (corante feito dos corpos secos das fêmeas de um insecto encontrado em climas semitropicais), 15 de ébano. Mesmo antes que o comandante da esquadra inglesa pudesse tomar a presa a seu cargo, a sua alvoroçada tripulação já tinha atulhado os bolsos com tudo o que era possível.
Quando o navio apresado entrou no porto de Dartmouth, destacou-se muito para além dos outros navios e dos telhados das pequenas casas ao longo do cais. Comerciantes, correctores, vigaristas, batedores de carteiras e ladrões surgiram de muitos quilómetros em redor, vindos até de Londres e de mais longe, atraídos como abelhas para o mel - para visitar o barco (os pescadores locais trafegaram incessantemente, e por alto preço, entre o barco e a margem) e procurar marinheiros bêbados nas tabernas e espeluncas, com a intenção de comprar, roubar, furtar e saquear a presa. Pela lei Inglesa, uma grande parcela dos bens apreendidos era devida à rainha e, quando Elizabeth soube o que estava a acontecer, mandou Sir Walter Raleigh até lá para resgatar o seu dinheiro e punir os saqueadores. «Tenciono deixá-los tão nus como estavam ao nascer», prometeu o valente Sir Walter, «pois Sua Majestade foi roubada e das mais raras e valiosas coisas».
Quando Sir Walter ficou senhor da situação, um carregamento avaliado em meio milhão de libras - quase metade de todo o dinheiro do erário - tinha sido reduzido a 140 000 libras. Mesmo assim, foram necessários dez cargueiros para transportar o tesouro, contornando a costa e subindo o Tamisa até Londres. Depois do resgate de Atahualpa, este foi talvez o maior saque da história. Esse naco de fortuna, essa prelibação das riquezas do Oriente, galvanizaram o interesse inglês por essas terras distantes e colocaram o país (e o mundo) num novo rumo.
Os Ingleses aprenderam outra lição com o Madre de Deus. Quando, alguns anos depois, um rico navio apresado foi conduzido ao Tamisa para ser descarregado, os homens que executaram a tarefa receberam como roupa de trabalho “gibões de tela sem bolsos”».

David Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações, Por que são algumas tão ricas e outras tão pobres, 6ª ed. Gradiva, 2002, pp. 165-167

***

Curiosamente o subtítulo da obra “Por que são algumas [nações] tão ricas e outras tão pobres” acaba por ser muito bem elucidado no trecho acima. Tudo se baseia na guerra, no comércio, no roubo, no furto e no saque. E assim se fez a glória dos impérios.

O saque prossegue entretanto, assumindo novas formas, mantendo porém a sua velha essência.

E assim se constroem as riquezas e as pobrezas do mundo.

Mas no que nos toca, tem a palavra Fernando Pessoa n’Os Colombos:

Os Colombos


Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

Fernando Pessoa, Mensagem

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

É o Governo, estúpido!


Há quem se refira ao Estado quando se deveria referir ao Governo e vice-versa. Será que nos querem confundir ou estão confundidos? Isto chega a acontecer até com ex-governantes (refiro-me a F.J.Viegas, aqui), que apontam o dedo ao Estado, quando consideram absurdas certas medidas legislativas com origem no Governo.

Diabolizam assim o Estado quando deveria ser o Governo o visado. Parecem ignorar que existe uma diferença entre Estado e Governo.

Vem isto a propósito de uma medida legislativa, considerada absurda por muito boa gente, que obriga os consumidores à solicitação de factura no acto de qualquer compra, correndo o risco de serem multados se, no caso de interpelação por um "senhor da Autoridade Tributária e Aduaneira", os consumidores não fizerem prova do pedido da factura.

Parece que a polémica tem origem nas alterações ao Código de IVA decretadas pelo Governo no Decreto-Lei n.º 197/2012. Ora é um Decreto-Lei, e como tal, trata-se de um acto legislativo com força de lei, elaborado pelo Governo (quem tiver dúvidas consulte aqui o Priberam). Pelo Governo, entenderam bem?!

Portanto meus senhores (ex-governantes incluídos), se não vos agradam as medidas legislativas emanadas do Governo, não culpem o Estado por isso. Estão a falhar o alvo. Ou será que é de propósito?

Alguns liberais da nossa praça são tão lestos a atacar o Estado que até se esquecem, talvez convenientemente para eles,  que a responsabilidade é do Governo, no que se refere à idiotia das decisões tomadas.

Parece ser caso para dizer: é o Governo, estúpido!
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P.S. - Peço desculpa por utilizar tantas vezes e de forma redundante a palavra "Governo", mas talvez dessa forma a dúvida fique esclarecida de uma vez por todas.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Estou a gostar de ler...


E de o cruzar com este aqui:


Dois pequenos grandes livros que nos ajudam a compreender a crise da Europa dos nossos dias. Tony Judt escreveu em 1996. O ensaio de Ulrich Beck é mais actual (2012). Entre os dois livros existem áreas de intersecção que apontam no mesmo sentido: o domínio da Europa pela Alemanha.

E a Europa que se prepare:

"A Europa e a sua juventude estão unidas na raiva por causa de uma política que salva bancos com quantidades de dinheiro inimagináveis, mas desperdiça o futuro da geração jovem."

Ulrich Beck (2012), A Europa Alemã, Edições 70. pp. 20 

"A crise, diz Gramsci, é o momento em que a velha ordem mundial morre e em que é necessário lutar por um mundo novo, contra resistências e contradições."

Ulrich Beck (2012), A Europa Alemã, Edições 70. pp. 26

A leitura continua.

Os velhos partidos prosseguem alheios à mudança que se adivinha e ao meio em rápida mutação que os envolve. Ainda jogam no tabuleiro da velha ordem. Continuam a actuar como se a sociedade que os enquadra tivesse os mesmos problemas, interesses e contradições de há dois ou mais anos atrás. Talvez quando acordarem, seja tarde demais*. 

Os velhos partidos já não dão resposta às aspirações da juventude, vítima das políticas que a conduziram até aqui. E "aqui" é o desemprego. A democracia representativa carece de democracia, está ferida, e não se dá conta. Os partidos do "arco da desgovernação" estão a cavar a sua própria sepultura e a da democracia também.

Entretanto, os políticos governantes, tudo fazem para que se "regresse aos mercados", não querendo reparar que dessa forma prosseguem a mesma lógica que nos lançou na dependência dos especuladores. E cada vez que "vão ao mercado", asseguram aos jovens um futuro ainda mais sombrio, de austeridade e dependência, um futuro sem futuro, um futuro colonizado, porque serão eles os convocados a pagar a dívida e os juros contraídos pela actual geração governante.

É por isso que é cada vez mais "necessário lutar por um mundo novo, contra resistências e contradições".
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(*) Como encarar, por exemplo, o ensimesmamento do PS, os seus conflitozinhos internos, enquanto o país se afunda na crise? Parecem actuar com a inconsciência daqueles que discutem a cor do bote salva-vidas a lançar ao mar, enquanto o navio se vai afundando.

Mas alguém pode esperar alguma coisa desta gente? Afinal não estão eles também entre os que nos conduziram até aqui? A esperança, se é que ainda há esperança, reside noutro lado. Tem de residir noutro lado.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Notícia do dia: Papa resigna.


Hoje fez-se história. Non habemus papam.

Um rombo na muralha do Império

Todos os impérios têm um fim. Por vezes tudo ocorre muito rapidamente e a agonia é breve. Outras vezes, começam por surgir sinais quase imperceptíveis de decadência. Rombos nas longínquas muralhas que não são reparados nem notados no coração do império. Mas para lá das muralhas, bárbaros atentos perscrutam  Procuram linhas de fraqueza e brechas. É então por aí que decidem invadir o território abandonado e descuidado pelos seus antigos ocupantes. Aí, no limiar do império, os bárbaros apercebem-se da fraqueza que invadiu o coração império. Apercebem-se que o tempo começou a correr a seu favor. Pressentem que mais tarde ou mais cedo atingirão as imediações da capital imperial onde irão erguer as suas tendas. E a partir daí darão a última estocada no touro moribundo.

Hoje, as muralhas que cingem os impérios já não são feitas de pedra. São feitas de presenças e projecções de forças - vasos de guerra, bases militares, territórios ocupados, etc. - nos lugares mais distantes do planeta. A retirada dessas forças é um sinal de fraqueza e decadência imperial.

domingo, fevereiro 10, 2013

Ainda no meio da ponte

Stiglitz vem lembrar-nos, na sua crónica do Expresso (9-02-2013), que os países da Zona Euro ainda não ultrapassaram o impasse em que estão metidos quanto à sobrevivência da moeda única a longo prazo. Que a “jogada de Draghi” foi isso mesmo, uma jogada, mas nada a isenta que seja um bluff. Pelo menos permitiu criar uma ilusão de segurança entre os investidores, suspensos que ficaram nas suas palavras, e entre os países intervencionados, cujos governantes já vislumbravam luzes ao fundo do túnel. Mas na actual conjuntura a confiança é coisa que não dura, principalmente quando a garantia são apenas palavras, mesmo sendo as de Draghi. É óbvio que, mais tarde ou mais cedo, Draghi e o BCE vão ser postos à prova. Os investidores, ou os mercados, vão querer saber até que ponto Draghi e o BCE vão efectivamente cobrir a parada.

Eis o excerto da crónica de Stiglitz (os realces são nossos):

«Mas a maior parte dos que estiveram em Davos puseram estes problemas de parte [os ganhos de produção industrial na China, devido à automatização de processos que destroem postos de trabalho e o desemprego jovem prolongado], para celebrar a sobrevivência do euro. A nota dominante foi de complacência — ou mesmo de otimismo. A “jogada de Draghi” — a noção de que o Banco Central Europeu, com a sua disponibilidade financeira, poderia fazer e faria o que fosse necessário para salvar o euro e cada um dos países em crise — parece ter funcionado, pelo menos por uns tempos. A calma temporária forneceu algum apoio aos que afirmavam que o que era necessário, acima de tudo, era uma restauração da confiança. A esperança era de que as promessas de Draghi fossem um modo sem custos de fornecer essa confiança, porque nunca teriam de ser cumpridas.

Os críticos salientaram repetidamente que as contradições fundamentais não tinham sido resolvidas, e que se era suposto que o euro sobrevivesse no longo prazo, deveria ser criada uma união fiscal e bancária, o que obrigaria a um nível de unificação política superior ao que a maioria dos europeus está disposta a aceitar.»

Joseph Stiglitz, “Pensamento não Convencional”, Expresso, 9 de Fevereiro de 2013

Em suma: continuamos a meio da ponte – à nossa frente está essa “unificação política” para a qual não queremos avançar; atrás de nós temos o regresso às moedas nacionais o que implicaria a desintegração do Euro, projecto que para já, não queremos abandonar.

Com mais confiança ou com menos confiança, permanecemos ainda no meio da ponte. Estacados, sem dar um passo, com medo do futuro e do passado, num presente precário e paralisado.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Onde está a galinha?


Se neste guia procurar a galinha-sultana (Porphyrio porphyrio), desiluda-se. Aqui não a encontrará. 

Mas como é possível?! A emblemática ave do Parque Natural da Ria Formosa, ausente desta obra que diz ser o guia de campo mais completo das aves de Portugal e da Europa. Será que não consideraram o Reino dos Algarves? 

No melhor pano cai a nódoa.

Mas sempre pode ser vista e ouvida (ou "ouvista", nas palavras do ministro Relvas) neste excelente site, aqui.

A consciência da inconsciência

«A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência.»

Fernando Pessoa

«Há quem viva sem dar por nada, há quem morra sem tal saber

José Afonso

quinta-feira, janeiro 31, 2013

A euforia dos insensatos


Leio o Expresso do último sábado aos pingos ao longo da semana, que os trabalhos e os dias não permitem leituras mais demoradas e, quase surpreso, deparo a páginas tantas, lá mais para o fundo do jornal, com a euforia mal contida de alguns opinion makers de serviço. Parece que o regresso antecipado aos mercados deixou as suas marcas nesta gente. Um dos escribas – o Martim Figueiredo - tece agora loas ao Chile, imaginem só. Que aquilo é que é um país onde brota o leite e o mel por todo o lado, uma autêntica terra prometida onde todos adoram viver. Fosse Portugal o Chile, e os nossos dirigentes clones de José Piñera, nada mais, nada menos, do que o Ministro do Trabalho do ditador Pinochet e Portugal seria “um dos países mais competitivos do mundo”. Mas, para mal dos pecados do escriba, ninguém tem a “têmpera” de um tal ministro neste país. O opinion maker lá refere no entanto que no Chile “os mais favorecidos são ainda 14 vezes mais ricos do que os menos favorecidos”. Não sei onde foi buscar este número, mas se consultarmos o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2011 disponível no portal do PNUD, podemos verificar na tabela 3, página 155 que o Chile detém um dos mais elevados valores do Índice de Gini do mundo – um indicador que mede a desigualdade de rendimentos entre ricos e pobres – que é, nesse país, de 52,1 (a título de exemplo mencione-se que o mais elevado valor registado ocorre no Haiti, 59,5 e o mais baixo na Suécia, 25; em Angola é só 58,6). É justo, pensará o escriba. É o preço da “liberdade para escolher”. Uns têm e outros não, ora essa. E viva o neoliberalismo, que regressámos aos mercados! E viva o Chile! E viva o Haiti! E viva Angola! Mas quando é que Portugal se torna um destes paraísos? Muito tempo não há de faltar.

Mais adiante, encontro outro escriba habitual, lá nos fundos da revista – o Henrique Monteiro, na sua crónica do Comendador Marques Correia – num tom jocoso, irónico e de regozijo, a gozar com o discurso anti-neoliberal, anti-mercados, anti-capitalista. Afinal o euro agora está forte frente ao dólar e a taxa de juro da dívida pública a 10 anos a descer para a casa dos 5% e por isso estamos safos, julgará ele pela forma como escreve. O capitalismo está salvo! E viva o neoliberalismo uma vez mais, que agora regressámos aos mercados. Agora é que é, e lá está a luz ao fundo do túnel. Será um comboio?

Como se a taxa de juro da dívida pública a 10 anos descesse para todo o sempre e o euro se reforçasse em relação ao dólar para todo o sempre.

Onde está a insensatez nestas posições?

Se alguma coisa aprendi neste jogo, é que os mercados financeiros são volúveis. Governar países com a preocupação de agradar aos mercados significa governar para o curto prazo, significa o sacrifício do futuro, porque a ambição de quem especula nos mercados é ver ganhos imediatos, custe o que custar.

Mas enfim, as cotações estão em alta! Está tudo “no verde”! Eia! Vivam os mercados! Viva o Chile! Viva o Piñera do Pinochet! E, ui ui o neoliberalismo, que mau que ele é, gozam jocosamente.

Amanhã, quando as tendências se inverterem, quando as cotações estiverem “no vermelho” e os juros da dívida tornarem a subir, cá estarei para os ouvir cantar.

A tempestade ainda não passou, nem vai passar tão cedo.

Pica pica

Pega (Pica pica)

terça-feira, janeiro 29, 2013

A estrada e a estalagem

"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego in Obras de Fernando Pessoa, Vol. II, Lello & Irmão, Porto, 1986. Pág. 550-551

“A estrada é sempre melhor do que a estalagem.”
Cervantes

***

A vida sempre pode ser concebida como uma estalagem ou como uma estrada. Quixote fez-se à estrada e, por vezes, parava nas estalagens que confundia com castelos. Bernardo Soares aguardava na estalagem, sem pressa, a chegada da diligência do abismo do qual nada se sabe.  Sabemos apenas que quando o olhamos ele nos devolve o olhar, mais penetrante ainda, e nos indaga. Estremecemos então. Persignamo-nos. Oramos: “Mesmo que atravesse os vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo” Sl. 23… Além está o vazio e aqui mora o horror ao vazio.

Ora, parece que finalmente estamos de acordo

Campos e Cunha, cujas palavras noutra ocasião já foram aqui alvo de crítica, afirma agora que “o documento do Fundo Monetário Internacional faz um diagnóstico distorcido e avisa que a redução da despesa não pode ser feita através de cortes cegos.” Aqui, na Antena 1. Ora, parece que finalmente estamos de acordo, embora tal conclusão seja já consensual no país, excepto entre os que nos governam, que classificam o relatório de "bom".

E diz ainda que “sem reforma do sistema político, vejo com muito cepticismo a possibilidade de fazermos uma reforma da administração pública". Aqui. De acordo, uma vez mais.

Na verdade, é maior o escrutínio que se faz para contratar um condutor de ambulâncias do INEM do que o que se realiza para escolher um político para um cargo na governação do país ou de um partido político maioritário. O resultado está à vista, o espaço político institucional foi invadido por incompetentes, vigaristas, gente sem ética, cínicos e canalhas.

Gente que utiliza os partidos (em particular os do famoso “arco do poder” ou “da governação”) para ascender e chegar-se ao poder (ao “pote”, dizem alguns deles), pensando em primeiro lugar em servir-se a si, em servir os seus amigos e clientelas, os lobbies que representam, e só depois, muito depois, os cidadãos comuns.

É óbvio que o sistema político deve ser reformado em primeiro lugar. Os partidos deveriam ser “imunizados” contra estes elementos, que se servem deles como cavalos e Tróia para alcançarem os seus intentos e satisfazerem as suas ambições pessoais, sem olharem a meios. Os candidatos a lugares de topo nos partidos e no país deveriam ser muito bem escrutinados – o seu passado, o seu presente -, antes de assumirem tais posições.

Não seria o fim dos vigaristas na política, mas cremos que a qualidade da democracia melhoraria bastante.

Afinal, ninguém gosta de ser governado por vigaristas e incompetentes, muitos dos quais lhes basta aguardar que o poder lhes caia no colo, que é uma questão de tempo, dizem eles.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Este país não é para portugueses.

Noticia o Expresso, aqui:


Os portugueses sem dinheiro, os pobres e os desempregados, são convidados a emigrar. Os estrangeiros endinheirados - os da classe ociosa e super-rica - são convidados a residir em Portugal. Temos residências de luxo, campos de golfe e um céu quase sempre azul, mesmo no Inverno. Tudo no Allllllllgarve.

Decididamente, este país não é para portugueses.

domingo, janeiro 27, 2013

Uma boa notícia da semana passada, que não nos passou despercebida

De acordo com uma notícia do Público, a taxa Tobin “pode entrar em vigor para 11 países da U.E.”, um dos quais Portugal. Lamenta-se porém que nos encontremos ainda no campo das possibilidades, como bem evidencia a notícia (aqui os destaques a negrito são nossos). É também evidente a falta de coragem, que se manifesta através de adiamentos, hesitações e descoordenações – “o comissário europeu da Fiscalidade afirmou já que não espera que o imposto entre em vigor ao nível dos 11 países da cooperação reforçada antes de 2014”. Ora, quando se trata de taxar o capital financeiro, parece que todas as cautelas são poucas, já quando se trata de taxar o trabalho, é fartar vilanagem.


Vamos então estar atentos à coragem do governo português, e ver se faz aquilo que pode. Mas não sejamos ingénuos: neste caso, e com esta gente, é ver para crer, como dizia São Tomé.

Não deixa contudo de ser uma boa notícia, uma vez que “a chanceler alemã, Angela Merkel, sugeriu em Outubro que as receitas sejam usadas para financiar países em dificuldade.” E Portugal é um deles.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Voltámos aos mercados. Rejubilemos!


Portugal foi aos mercados. Aleluia! Que bom é para Portugal e para todos nós, portugueses. Agora é que vai ser: o número de pobres reduzir-se-á, os desempregados tornar-se-ão residuais, as desigualdades sociais esbater-se-ão, e cessará a emigração por razões económicas. Finalmente as obras iniciadas serão terminadas: túneis (o do Marão, por exemplo), auto-estradas, (o IP8, por exemplo), linhas de caminho-de-ferro (o ramal da Lousã, por exemplo), as escolas inacabadas (as do Parque Escolar, por exemplo) pontes (a terceira travessia do Tejo, por exemplo), o novo aeroporto de Lisboa, a linha do T.G.V. e mais o T.G.V. e etc., etc., etc. Finalmente, agora sim, é que vão retirar as medievais portagens das auto-estradas, essas taxas que sufocam a competitividade das nossas empresas, e que tornam todos os lugares do país mais distantes, se considerarmos a distância-custo. Enfim, agora é que o país vai crescer, mas a taxas superiores a 3% ao ano, porque, como é sabido, taxas de crescimento positivas inferiores a 1% não criam necessariamente emprego. Agora é que é: o desemprego e o empobrecimento vão desaparecer dos nossos horizontes. Vão devolver-nos tudo o que nos roubaram em taxas e impostos, para não falar em direitos a que muitos chamaram, maldosamente, regalias.

Portugal voltou aos mercados. Rejubilemos! Aleluia! Aleluia! Aleluia!


terça-feira, janeiro 22, 2013

O Verbo


Ninguém lê o que escrevemos. E depois? Fica escrito! E quando partirmos, ficou escrito! E quando o vento varrer o que escrevemos e as palavras se perderem para sempre nas areias do tempo, o que importa é termos escrito. O que importa é termos passado das palavras aos actos e dos actos às palavras. E esse acto, o de termos escrito, ninguém poderá apagar. E sempre poderemos dizer: ousámos lançar palavras ao vento e lançámo-las. As palavras não morrem. O Verbo já cá andava. No princípio já existia o Verbo. E o Verbo ficará, mesmo que tudo se suma num longo silêncio.

***

Para esclarecimento, remetemos para o poema de Alfonso Canales, O Discurso de César às Legiões, que termina assim:

quando
tudo se suma num longo silêncio, e não haja um só
sinal para decifrar, TEREI VIVIDO.

domingo, janeiro 20, 2013

Os professores, no rol dos sacrificados

Fala-se muito do recuo espectacular da taxa de mortalidade infantil em Portugal, tendo o nosso Sistema Nacional de Saúde conseguido fazê-la regredir para valores situados entre os mais baixos do mundo – no período de 2007-2011, foi de 3,2‰, segundo o INE – mas esquece-se o esforço realizado pelo Sistema Educativo português, que em poucas décadas conseguiu debelar as elevadas taxas de analfabetismo, tendo funcionado como um motor de ascensão social para muitos portugueses. Maria Filomena Mónica, no Expresso desta semana (19-01-2013), honra lhe seja feita, não esquece esse facto. Afirma ela:

Alguém deveria ter recordado a estes cérebros [os técnicos do FMI que redigiram o relatório do Governo que propõe o despedimento de 50 000 docentes do Ensino Básico e Secundário e a entrega das escolas à iniciativa privada] que a evolução da taxa de analfabetismo em Portugal não tem paralelo na Europa. Em vésperas da Revolução de 1974, a percentagem de analfabetos ainda era de 26%. É difícil imaginar um país onde o número de factores adversos à escolarização fosse tão elevado. O resultado está à vista. Muitos dos alunos contemporâneos têm avós analfabetos e pais que não passaram da 4ª classe.

Sei do que Maria Filomena Mónica fala. Sou um dos muitos portugueses que tem avós analfabetos e pais que não frequentaram o Ensino Superior e sinto que muito devo ao Sistema Educativo português, à Escola Pública, às Universidades públicas e ao Instituto também público, que frequentei. Muito devo aos meus professores, pagos com “dinheiros públicos” e por isso aos contribuintes e ao Estado social português.  Foram os professores que me deram a conhecer a existência de universos que desconhecia, como o da Filosofia, da Ciência, da Arte e da Cultura, da Literatura, da Educação Física, entre outros. A minha dívida para com eles não tem preço.

Custa-me por isso ver agora esses profissionais serem apontados, conjuntamente com os profissionais da saúde, como uma espécie de bodes expiatórios da crise que atravessamos. É bom não esquecer, no entanto, que foi José Sócrates quem iniciou o processo de tentativa de estigmatização social dos professores e preparou o terreno para o que agora este governo se prepara para fazer. No momento de realizar “cortes” na Função Pública, são esses os profissionais que estão entre os primeiros, no rol dos sacrificados. Há muito que o primeiro-ministro os vinha visando (bastava atentar nas suas entrevistas, ora sugerindo que emigrassem para países lusófonos, ora afirmando que na Educação ainda tinha margem para “cortar”). Tudo para agrado dos mercados, ávidos por novas áreas de negócio, como o da Educação que querem ver privatizada, e contentamento deste governo lacaio.

Ao atacar-se o Sistema Educativo ataca-se o elevador social que permitiu a ascensão, no espaço de uma geração, dos portugueses ao mundo da Cultura*, para não falar de outros mundos. Foi também através desse elevador que os portugueses foram levantados do chão, para utilizar a realista fórmula de José Saramago. E é para o chão que este governo os quer novamente lançar. Que os portugueses não tenham espírito crítico, que sejam dóceis, submissos e facilmente exploráveis, que regressem à incultura, de onde nunca deveriam ter saído, é o que secretamente parecem desejar as reaccionárias “elites” políticas que nos governam. E o pior de tudo isto é que, ao atacar-se o Sistema Educativo público, é a própria democracia que é atacada nas suas fundações.
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(*) Em relação à importância da Cultura é sempre bom lembrar o matemático e grande professor, Bento de Jesus Caraça, nascido em Vila Viçosa e filho de trabalhadores rurais que, em 1933, na conferência “A cultura integral do indivíduo – problema central no nosso tempo”, responde à questão, “o que é um homem culto?” da seguinte forma:

«É aquele que: 1.º - Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular na sociedade a que pertence. 2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano. 3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida». Ver AQUI.

É isto um homem culto. É também por isto que nos temos de bater. Não podemos perder a nossa dignidade.

domingo, janeiro 13, 2013

Portugal estagnado

        IP8/A26 interrompido, junto a Santa Margarida do Sado, hoje, ao entardecer.

De Norte a Sul de Portugal o que se vê é isto: obras já iniciadas, paradas. Portugal é um imenso estaleiro de obras abandonado. Tudo interrompido, tudo por acabar, como se este país fosse uma casa abandonada em debandada pelos seus ocupantes: ele é viadutos, estradas, auto-estradas, escolas, túneis, pontes, barragens, aeroporto, caminhos-de-ferro, a linha do TGV, etc., etc., etc. Tudo inacabado, estagnado, desolado… Imagens de um apocalipse ao entardecer. Um país sem dinheiro, canalizado que foi para o pagamento dos juros de uma dívida que não se quer renegociar e para outros lados...Um país sem trabalho... Em suma, um país desgovernado.

sábado, janeiro 12, 2013

Sob protectorado. Estaremos preparados para o imprevisto na Era da incerteza?

O Professor Adriano Moreira à Antena 1, AQUI e AQUI:

«Neste momento eu julgo que a confusão ideológica é muito grande, porque o futuro é muito incerto, em relação ao mundo Ocidental, sobretudo, e adivinhar o que é que vai ser o futuro é absolutamente impossível. Ninguém pode fazer juízos de probabilidade. Fazer juízos de possibilidade é uma audácia, portanto, temos sempre de estar preparados para que aconteça a outra coisa. E, a impressão que eu tenho, neste momento, é que nós estamos, sobretudo em relação a esse partido [PSD], num momento em que, tendo ele tido sempre uma pluralidade de orientações, porque foi um partido sempre bastante plural… a impressão que me dá, é que neste momento é que, o acento tónico é neoliberal. É um neoliberalismo que é implacável, nas circunstâncias em que nós estamos, e que por isso mesmo está a acontecer-nos que essa ideologia liberal, que me parece evidente, é acompanhada de uma atitude repressiva que como que redefine o liberalismo que está a ser aplicado. [Repressiva] no sentido em que muitas concessões de autoridade não são propriamente aquelas que são previstas na racionalidade constitucional, designadamente na área fiscal, que está a acontecer, e também o facto da proeminência das sanções económicas para corresponder a uma questão que parece ser a questão estratégica mais evidente do governo, que é o orçamento.

Bom, e isto ainda não é seguro que corresponda a uma tendência que se torna dominante. Noutros partidos também é assim: o CDS também tinha tendências que variaram no tempo, estou só a responder à pergunta, não estou a dizer que é específico. Mas é numa circunstância em que eu julgo que o país está em regime de protectorado. E quando o país está em regime de protectorado as orientações estão muito subordinadas a orientações que não domina, que são, mesmo que sejam compromissos – antigamente dizia-se, foi forçado mas quis - e realmente há um condicionamento por a chamada troika que tem reflexos que a meu ver são preocupantes, designadamente a tendência que há, nalguns lugares, intervenções para tratar a Constituição como se fosse uma lei ordinária. Isso acontece nos protectorados porque quem dá a orientação é quem tem o poder da protecção, não é a Constituição do país. Nós tivemos uma grande experiência de protectorados, não estou a dizer que o modelo é o mesmo, do passado, mas temos que usar palavras que sejam inteligíveis e a palavra inteligível para mim neste momento é esta, e essa orientação que vem desta dependência internacional é evidentemente neoliberal acompanhada de uma atitude repressiva nesse sentido que lhe estou a dizer.

(…)

A fome não é um dever constitucional.

(…)

Nós arriscamo-nos a passar o limite da paciência, sobretudo da devoção, porque todo esse sacrifício da população é devoção cívica ao seu país, e há limites para tudo.»

***

O Professor Adriano Moreira, muito mais que um homem esclarecido é um homem esclarecedor. Uma voz sempre a escutar com atenção.

Venham agora dizer-nos que vivemos numa Era onde a ideologia se encontra ausente, ou que o neoliberalismo é um unicórnio. Nada mais falso. Se a nossa vida está hoje lançada na incerteza e na insegurança, a responsabilidade é em grande parte desses que se guiam por essa doutrina neoliberal e que nos governam guiados por ela. Os ordoliberais que dominam a Zona Euro, por seu lado, mais não fazem do que impor as suas políticas aos que se puseram a jeito, aos que imploraram, aos países que se tornaram seus protectorados pela acção de políticos governantes incompetentes e desprovidos de inteligência e visão.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Heraclito, por Séneca

«Os nossos corpos fluem rapidamente como a corrente dos rios. Tudo quanto vês acompanha o veloz fluir do tempo; nada do que vemos permanece idêntico; eu mesmo, enquanto falo na mudança das coisas, já mudei.
É este o sentido da frase de Heraclito: “podemos e não podemos mergulhar duas vezes no mesmo rio”. O nome do rio permanece o mesmo, a água essa já passou adiante. Num rio o fenómeno é mais sensível aos olhos do que num homem, mas não é menos rápido o curso do tempo em nós; por isso me espanta a loucura que nos leva a tanto amarmos essa coisa fugidia que é o corpo, e a temer morrermos um dia quando cada momento é a morte do estado imediatamente anterior. Dispõe-te, portanto, a não recear que ocorra um dia aquilo que continuamente está ocorrendo.»

Séneca, Cartas a Lucílio, Livro VI, Carta 58, Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, pág. 205.

***

Ler os estóicos. O pensamento de Séneca atravessa o tempo e atinge-me quase dois mil anos depois. Ecoa no meu pensamento. Intemporal, conforta-me no meio desta tempestade contemporânea que atravessamos. Nasceu em Córdova, não muito longe daqui, viveu e escreveu no tempo do Império, no meio da pax romana, mas o seu pensamento adequa-se a todas as tempestades. Ajuda-nos a enfrentá-las, sem medo, de cabeça erguida e em paz connosco e com o mundo, com estoicidade.

Depois da sua breve explicação, alguém duvida ainda que todos os dias nasce um sol novo, como dizia Heraclito? Aquela fornalha a oito minutos-luz daqui, também muda, e não só todos os dias, mas a todos os nanosegundos, e o hidrogénio que queima converte-se em hélio e amanhã, quando voltar a raiar (como se alguma vez tivesse deixado de raiar), já não será por isso o mesmo. Mudará sempre, porque tudo muda. Tudo flui.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Vamos ao que interessa

           © AMCD


           © AMCD


           © AMCD

Atreveram-se a florescer uma vez mais, à revelia do FMI. As primeiras flores estão nos ramos, os primeiros botões... Em breve as serras rebentarão em rosadas e brancas flores de amendoeira. O perfume das estevas tudo submerge ao fim da tarde. Envolve as aldeias e bate à nossa porta. Acolhe-nos quando nos assomamos e envolve-nos quando saímos.

Aqui não entra o FMI.

domingo, janeiro 06, 2013

Um Estado a construir a sua própria destruição: um Estado paradoxal.

O Professor José Gil, em entrevista à Antena 1,  (AQUI):

Este Governo tem de ser mudado, tem de sair!” (aos 17’55’’)

Durante o salazarismo, nós vivíamos abaixo das nossas possibilidades, depois do 25 de Abril, vivemos acima das nossas possibilidades, agora o que o Estado [o Governo] quer é que nós vivamos de acordo com as nossas possibilidades. Mas como? Reduzindo ao máximo as possibilidades. Não é? Portanto, isto vai ser uma sociedade esquisitíssima, porque nós não vamos ter os meios para querer mais. Abaixam-nos as possibilidades e reduzem o Estado, adaptam o Estado, às possibilidades que são mínimas. Vamos ter um Estado minimal, realmente. Não é o que nós estamos a ter. Nós estamos a ter um Estado que é paradoxal, contraditório, porque ele invade tudo e ao mesmo tempo está a construir a sua própria… está a desmantelar a sua própria estrutura estadual.” (aos 24’55’’)

(os destaques são nossos)

***

Ora bem, parece que o Governo está, face ao Estado, a aplicar o velho conceito schumpeteriano de “destruição criativa”. Já tínhamos percebido: arrasa o Estado para construir um novo à sua medida, um estado neoliberal. Chamam-lhe reestruturação do Estado ou reforma, quando na verdade o destroem e desmantelam. Das suas cinzas nascerão novos amanhãs que cantam, julgarão eles, para usarmos um lugar-comum. São os amanhãs deles. Estamos perante um governo de revolucionários portanto. Pois bem, contra esta revolução, só uma rebelião. Uma rebelião pacífica e democrática. Seremos capazes disso, ou voltaremos a votar nos mesmos de sempre? Esses, os do "arco da governação".(*)

Palavras de um insuspeito muito suspeito, para alguns...


«Na realidade o nosso tempo, caracterizado pela globalização, com seus aspectos positivos e negativos, e também por sangrentos conflitos ainda em curso e por ameaças de guerra, requer um renovado e concorde empenho na busca do bem comum, do desenvolvimento de todo o homem e do homem todo.

Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado. Além de variadas formas de terrorismo e criminalidade internacional, põem em perigo a paz aqueles fundamentalismos e fanatismos que distorcem a verdadeira natureza da religião, chamada a favorecer a comunhão e a reconciliação entre os homens.

(…)

Por isso, é indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e éticas fundadas sobre motivos teorico-práticos meramente subjectivistas e pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins, e vice-versa, a cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na eficiência. Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do relativismo e da apologia duma moral totalmente autónoma, que impede o reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por Deus [quem for ateu que omita ou risque as palavras por Deus e continue lendo] na consciência de cada homem

Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Celebração do XLVI Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2013. AQUI.

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E não é que estou de acordo.
O Papa consegue ser mais "radical" que o Cardeal Policarpo. E esta.
E estou-me nas tintas para os sapatos que usa, se são Prada ou outros, que me importa, seus anticlericais duma figa. Ele que calce o que quiser e que lhe sirva nos seus santos pés.

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Até na Antiga Grécia os mais sábios não deixavam de visitar, por vezes, o Templo de Apolo, para ouvir a Pitonisa.

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P.S. – E não, não sou o João César das Neves, nem por sombras.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Northwest. Hitting north, heading south.

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Quietude

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Foz do Minho. Avistamento de Seixas (dia 1/01/2013).

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