quarta-feira, julho 17, 2013

Os que pensam o mundo

No dia 24 de Abril deste ano, a revista Prospect publicou um ranking dos pensadores de 2013, de acordo com um inquérito realizado em mais de 100 países, tendo sido inquiridas mais de 10 000 pessoas.

Inspirado por tal inquérito, realizei o meu próprio ranking, sobre aqueles que considero os mais lúcidos pensadores vivos – em particular, os que pensam o mundo. Da lista excluí os políticos (embora ouça a voz de Fidel Castro com atenção, assim como a de Nelson Mandela), e os padres (onde incluiria Ratzinger). Ideologicamente não concordo com alguns, mas reconheço-lhes autoridade e idoneidade suficiente para que o seu pensamento seja considerado entre os mais lúcidos e a sua voz escutada.

Ranking:
 
1. David Harvey (Geógrafo)
2. Zygmunt Bauman (Sociólogo)
3. George Steiner (Crítico Literário, Filósofo)
4. Peter Sloterdijk (Filósofo)
5. Edward Soja (Geógrafo)
6. Giorgio Agamben (Filósofo)
7. Manuel Castells (Sociólogo)
8. Richard Dawkins (Biólogo)
9. Ignacio Ramonet (Sociólogo, Jornalista)
10. Ulrich Beck (Sociólogo)
11. Jared Diamond (Geógrafo)
12. David Landes (Historiador)
13. José Gil (Filósofo)
14. Francis Fukuyama (Cientista Político)
15. Boaventura de Sousa Santos (Sociólogo)
16. Mario Vargas Llosa (Escritor)
17. Adriano Moreira (Cientista Político)
18. Felipe Fernandez-Armesto (Historiador)
19. Eduardo Lourenço (Filósofo)
20. Paul Krugman (Economista)
21. Slavoj Zizek (Filósofo)
22. Georges Lipovetsky (Filósofo)
23. Niall Ferguson (Historiador)
24. Thomas Friedman (Jornalista)


terça-feira, julho 16, 2013

Perenes as sirenes

Perenes as sirenes
Que ousam soar.

Nas fábricas abandonadas
Em ruinosas debandadas,
Permanecem deslocadas,
As sirenes olvidadas.

Honrados desempregados
Aguardam humilhados.

Homens descartados,
Sós, desvalorizados.
Vendidos e comprados,
Em todos os mercados.

domingo, julho 14, 2013

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       Mural de Kenny Scharf, Nova Iorque

sexta-feira, julho 12, 2013

X-47B

Steve Helber / Associated Press

Voa sozinho. Aterra sozinho. Meio caminho andado para matar sozinho.

Como reza um velho provérbio chinês: todas as grandes caminhadas começam com um pequeno passo.

O passo foi dado. (Post sriptum: talvez já tenha sido dado há muito tempo.)

(O X-47BJá tínhamos dado por ele.)

quinta-feira, julho 11, 2013

Portugal: um "exemplo de sucesso" a precisar de "salvação nacional"

Há aqui qualquer coisa que não bate certo, ou então bate. Na óptica dos credores Portugal é apresentado como um "exemplo de sucesso", pois então, desde que pague, e quanto mais elevados os juros, melhor. Na óptica do devedor, e enquanto povo escravo da impagável dívida, precisamos de uma "salvação nacional".

Idiotas são aqueles que, entre nós, se orgulham desmedidamente quando ouvem dizer lá fora que somos um caso de sucesso e o anunciam aos quatro ventos.

Ao contrário do que afirma José Gomes Ferreira

Neste momento o Estado não é o problema, é a solução. O problema é continuar a colocar o Estado de um lado e a economia do outro, como se o Estado não fizesse parte da economia. O dualismo entre Estado e  economia constitui um enviesamento na visão e no discurso de muitos comentadores e jornalistas como José Gomes Ferreira e outros devotos dos mercados. Em suma, partem de uma falácia.

quarta-feira, julho 10, 2013

A ditadura dos mercados

O Presidente na sua comunicação de hoje ao País, brandiu vários argumentos, um dos quais a necessidade de mobilizar em 2014, 14 mil milhões de euros para pagar aos credores por dívidas contraídas no passado. Precisamos de empréstimos para pagar dívidas, ou seja, precisamos de continuar a endividar-nos.

Não se suspendem portanto as transferências das "parcelas dos empréstimos que nos foram concedidos", suspende-se a possibilidade de eleições antecipadas a breve trecho.

Ainda que a realização de eleições não equivalha necessariamente a democracia (no Estado Novo, por exemplo, haviam eleições), podemos concluir que a democracia não está a ser respeitada nesta história pois os nossos credores não são favoráveis a que os eleitores se pronunciem. E os credores falam mais alto do que os eleitores aos ouvidos do Presidente.

O Presidente deseja a minimização dos antagonismos* inerentes à própria dinâmica democrática, para evitar a ira dos mercados, que, segundo afirma, colocaria os portugueses perante a iminência de mais “duros sacrifícios”. Para ele o ideal será trazer o maior partido da oposição para a esfera da governação, juntando-o em acordo de "salvação nacional" ao CDS e ao PSD. Para ele o ideal será limitar as vozes incómodas aos dois partidos minoritários da oposição.

Como é evidente, neste momento estamos sob uma nova forma de ditadura: a ditadura dos mercados.

Quem nos garante que uma semana antes das eleições, ou da saída da troika de Portugal, os juros da dívida portuguesa a dez anos não dispararão novamente para taxas superiores a 7,5% e a bolsa não se afundará? Suspenderemos então a realização das eleições?

Manda a situação que prevaleça o bom senso.

Mas não será uma insensatez prosseguir neste rumo? Onde queremos chegar?

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(*) Nota: antagonismo (luta entre inimigos); agonismo (luta entre adversários).

Impalas voadoras

      Aepyceros melampus, Parque  Kruger, África do Sul          Foto: Barcroft Media/Abaca

PS - Um destes impalas em fuga,  refugiou-se num automóvel. Ver AQUI.

terça-feira, julho 09, 2013

Dilemas

«Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) viveu um dos períodos mais gloriosos e perigosos da história. Por todo o mundo romano, os homens tiveram de enfrentar o maior dos problemas políticos, nomeadamente, como viver simultaneamente em paz e liberdade. À maioria dos romanos parecia, durante o transcendental meio século que precedeu à queda da República e ao triunfo de Augusto, que se tinha de escolher entre esses dois bens políticos, ambos da maior importância.

Pode-se ter liberdade, mas para isso há que sacrificar a paz. Inevitavelmente surgiriam conflitos, assim parecia, entre homens que eram livres para perseguir os seus objectivos próprios e divergentes. Também se podia ter paz, mas havia que sacrificar a liberdade, doutra forma, como poderia sobreviver a paz se não se impusesse desde cima um poder supremo que seria o único verdadeiramente livre, enquanto todos os demais sofriam o jugo da tirania?»

Charles Van Doren, Breve Historia del Saber, Editorial Planeta, 2011*
Traduzido do espanhol por AMCD

***

O actual dilema português (um falso dilema) parece colocar-se entre a riqueza e a liberdade. Ou escolhemos a liberdade, abdicando de uma riqueza emprestada, porque não é a nossa, ou escolhemos a riqueza emprestada e abdicamos da nossa liberdade, porque teremos para todo o sempre de responder às exigências dos nossos credores e de lhes prestar contas. E querendo ter as duas, a riqueza e a liberdade, corremos o risco de perder as duas. O melhor será sempre libertar-nos desse lastro que é a riqueza emprestada.

***

PS - A Breve Historia del Saber de Charles Van Doren está a ser uma agradável leitura. Desconhecia, até escrever este post que existia uma edição em português. Descobri ainda um interessante post de Carlos Fiolhais  sobre o livro e o seu autor, no blogue De Rerum Natura. A leitura prossegue.

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*Edição em português: Charles Van Doren, Breve Historia do Saber, Caderno, 2008

segunda-feira, julho 08, 2013

A “globalização da indiferença”

O Papa Francisco refere-se à globalização da indiferença quando releva o que acontece em Lampedusa. Acerta na mouche. Já tínhamos reparado antes em Lampedusa. Não somos indiferentes e saudamos a iniciativa que irá por certo, mais uma vez, colocar a ilha no centro das atenções de muito mundo.

E continuamos a afirmar: Lampedusa é uma metáfora, entre outras, que desmente aqueles que tecem loas à globalização e ao maravilhoso mundo plano (1).
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(1) Referimo-nos a Thomas Friedman, O Mundo é Plano, Actual Editora, 2006, cuja edição portuguesa é prefaciada pelo mui católico João César das Neves (que se associa também ao enaltecimento da globalização).

domingo, julho 07, 2013

Fazer da fraqueza força ou “ponham-se finos”

“Em certas situações de negociação, tal como demonstra Thomas Schelling, a fraqueza e a ameaça de que um parceiro irá entrar em colapso podem ser uma fonte de poder negocial. Um devedor na bancarrota que tenha uma dívida de mil dólares tem pouco poder, mas se dever mil milhões de dólares, ele poderá deter um poder negocial considerável – basta recordar o destino das instituições consideradas «demasiado grandes para cair» durante a crise financeira de 2008.”

Joseph Nye, Jr. O Futuro do Poder, Temas e Debates, 2012, Pág. 23.  

sábado, julho 06, 2013

Sobre o processo histórico e a História

"O que torna assustador o processo histórico é o facto de passar despercebido aos que o estão viver."

Clara Ferreira Alves, “O Ovo da Serpente”, Revista, Expresso, 06 de Julho de 2013




Há quem se aperceba que está a viver um momento histórico quando o vive, mas um momento não é um processo (Clara Ferreira Alves di-lo na sua crónica). Um processo histórico integra momentos históricos. Os egípcios da Praça Tahrir ou os astronautas da Apolo 11, por exemplo, sabem e sabiam que estavam a viver momentos históricos, ou, como se diz, estavam a “fazer história”. Mas os festivos egípcios da Praça Tahrir talvez não se apercebam do quão o seu país está próximo de uma guerra civil ou da subida do preço do petróleo nos mercados internacionais e das suas implicações, devido, em grande parte, às suas manifestações.

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Depois de ler muitas obras de historiadores concluo que a história contada é sempre distorcida pela visão do historiador. Trata-se de um problema genético da História. Heródoto, o pai da História, escreveu as suas Histórias para glorificar os feitos dos gregos. Desde então não há historiador que não puxe a brasa à sua sardinha. 

sexta-feira, julho 05, 2013

Foi você que pediu um segundo resgate?

Eu não fui, mas dizem que já vem a caminho. Brilhante! Paga o Zé!

Entretanto fiquemos aqui quietinhos, à espera, pois só estamos autorizados a mexer os olhinhos, não vão os mercados assustar-se.

quinta-feira, julho 04, 2013

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Pedro Passos Coelho conta com a apreensão e o medo dos portugueses

Ontem em Berlim, numa conferência de imprensa, afirmou o seguinte:

Creio que os portugueses estarão muito mais apreensivos e assustados com a possibilidade de terem eleições sem saberem o que é que poderá resultar disso, não sabendo sequer se poderão continuar a dispor de apoio externo, como têm tido até hoje. Os portugueses estarão muito mais assustados com essa situação do que, com certeza, com a possibilidade de podermos fechar o nosso programa de assistência económica e financeira e de podermos enfrentar as dificuldades que temos, que ainda temos muitas."

Pedro Passos Coelho, Berlim, dia 3 de Julho de 2013

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A inépcia política é gritante. Podia ter afirmado que contava com a razão, a sensatez, o bom senso dos portugueses que ele governa (ou desgoverna)…Mas não. Conta com a apreensão e o medo dos seus conterrâneos e disse-o duas vezes.

Estamos apreensivos e assustados com a democracia? Estamos com medo do plebiscito e do que poderá daí resultar? Estamos com medo das nossas próprias escolhas? Estamos com medo do futuro? Estamos com medo dos mercados? Pois o pior que nos pode acontecer é viver com medo. Isso e calhar-nos em sorte a reeleição de Passos Coelho em futuras eleições. Disso sim, grande parte do povo português provavelmente terá medo.

quarta-feira, julho 03, 2013

Os que mais lêem no mundo

         Daqui: Russia Beyond the Headlines

Nota: esqueceram-se de pintar a Suécia e a ilha da Tasmânia que integra a Austrália.

Mais sobre este assunto: aqui e aqui.

terça-feira, julho 02, 2013

Portas bate com a porta.

E amanhã, quem será?

O CDS sempre beneficiou, quando não coligado com o PSD, do descontentamento das franjas oscilantes do lado conservador desse partido em relação à sua própria liderança, conseguindo dessa forma melhores resultados eleitorais. Beneficiava com os descontentes da ala direita do PSD. Quando assume o Governo em coligação com o PSD, cuja liderança se encontra agora num momento de grande fraqueza e divisão, o CDS vê-se privado desse habitual benefício, pois está no mesmo barco.

Será que julga que poderá voltar à sua condição de beneficiário do descontentamento dos simpatizantes do PSD, distanciando-se neste momento desse partido? Talvez agora seja tarde demais.

Quando o Mediterrâneo fervilha

      Egipto, Cairo, Praça Tahrir, 30 de Junho de 2013

A situação está muito complicada no Egipto. As elevadas taxas de natalidade dos países do Norte de África, aliadas a elevadas taxas de desemprego jovem, funcionaram como uma autêntica bomba demográfica que rebentou. Somadas ao sectarismo religioso e à crescente percepção das assimetrias persistentes entre o mundo em desenvolvimento e o mundo desenvolvido, alimentada pela difusão das novas tecnologias de informação e comunicação, conduziram a uma frustração crescente que agita os países da margem sul e este do Mediterrâneo, com raras e notáveis excepções.

Já Portugal e os países da margem norte do Mediterrâneo empobrecem e revelam também elevadas e crescentes taxas de desemprego jovem, embora a sua fertilidade seja muito mais reduzida comparativamente à dos países do Norte de África.


domingo, junho 30, 2013

Miguel Sousa Tavares, os professores e os romances

A embirração de MST com os professores nem merecia uma reacção (ele serve-se das reacções que suscita para depois se vitimizar nos palcos mediáticos que tem ao seu dispor como o fez no Expresso deste sábado). É um opinion-maker à procura de opinion-takers.

Acerca dos romances que escreve, assim como os romances que escrevem outros jornalistas e pivots de telejornais deste nosso pequeno mundo, também eles muito críticos em relação aos professores, aplicam-se as palavras de Alexis de Tocqueville na sua Democracia na América:

…nas nações democráticas, um escritor pode gabar-se de obter sem dificuldade um renome medíocre e uma grande fortuna. Para isso, não é necessário que o admirem, bastando tão-somente que o aprovem. A turba sempre crescente dos leitores e a sua necessidade contínua de novidades asseguram a venda de livros que de modo nenhum estimam. (…) As literaturas democráticas abundam sempre desses autores que não vêem nas letras mais que uma indústria, e, por um punhado de grandes escritores que aí se vislumbram, podem contar-se aos milhares os vendedores de ideias.
Alexis de Tocqueville, Democracia na América, Cap. III.

Eles estão longe, muito longe, de fazer parte daquele punhado de grandes escritores dos tempos democráticos a que se refere Tocqueville. E como muito provavelmente não obtiveram a aprovação que esperavam dos professores, não os aprovam. Os professores que tenham paciência.

No princípio eram as agências de "rating".

No princípio eram as agências de rating. Era necessário fazer subir os juros da dívida pública. Era preciso atacar os elos mais fracos de um espaço monetário com problemas genéticos e ao qual não correspondia qualquer união política, um espaço politicamente dividido, um espaço enfraquecido. Animadas não se sabe por que sopro, decidiram actuar. A sua autoridade e o seu poder residem tão só na credibilidade cega que os especuladores, grandes e pequenos, lhe dão. Em função dos ratings por elas atribuídos às empresas e países (à suposta capacidade de estes pagarem as suas “dívidas soberanas”), os especuladores redireccionam e reorientam os fluxos de capital financeiro para lugares que lhes asseguram, segundo acreditam, os mais elevados retornos. Esses fluxos de capital financeiro determinam hoje a graça e a desgraça dos povos. É com o seu domínio e controlo que se preocupa cada vez mais a actual geopolítica e já não tanto com o comando dos territórios (Agnew, 2012: 3).

A atribuição de ratings pelas agências encerra um elevado grau de subjectividade, como aqui se refere. Os ratings são atribuídos não a partir da realidade vivenciada pelos povos, sociedades e nações, mas com base em fórmulas de duvidosa validade científica, ou com base em sabe-se lá o quê – são opiniões, diz-se aqui. Os “sábios” que estão por detrás dessas classificações, não são antropólogos, sociólogos, geógrafos, historiadores, etnógrafos, filósofos, etc., enfim, profundos conhecedores da realidade dos povos. São economistas e financeiros armados de números, folhas de Excel, preconceitos, ideologia, e embriagados na sua hubris - uma espécie de gasparzinhos.

Epílogo

Depois veio a troika, naquele belo dia de sol, e surpreenderam-se com o povo sossegado que encontraram nas esplanadas e com a pacatez de um país que devia estar em crise e que afinal não se comportava de acordo com as suas expectativas. Havia que fazer alguma coisa. O “deboche” não podia continuar.
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Referência

Agnew, John (2012), “Of canons and fanons”, Dialogues in Human Geography, 2012 2: 321

quinta-feira, junho 27, 2013

Oi?! Agora estão a descer, e depois a subir e depois... quem sabe?

Evolução dos juros da dívida a 10 anos no mercado (valores percentuais)


Gráfico surripiado DAQUI

É principalmente em função disto que o governo governa e decide. E depende mais o governo da evolução dos juros, do que a evolução dos juros depende do governo. Juros e decisões do governo comportam-se como duas variáveis independentes.

Os juros a 10 anos estão a subir (como podemos verificar, inverteram a sua tendência de descida desde meados de Maio, embora estejam a descer há duas sessões diárias - mas o que são dois dias?). Poderíamos perguntar: o que fez o governo para que tivesse ocorrido uma subida nos juros? A resposta é: nada! Da mesma forma que a anterior descida dos juros em nada se deveu às decisões do governo.

E assim andamos à deriva, a cavalo na oscilante taxa de juro. Um cavalo xucro que se assusta facilmente com as declarações de Draghi e de Bernanke.

sábado, junho 22, 2013

Obama and Putin staring



Dois anos disto

Dois anos de miséria mental.
Dois anos de miséria governamental.
Dois anos de miséria material.
Dois anos a afundar Portugal.

E pensar que ainda faltam mais dois…

Deixai…Hão-de solapar a sua própria base de sustentação.
Cairão com estrondo, se antes não abandonarem cobardemente o barco que os próprios ajudaram a afundar. É da natureza dos ratos.

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Relativamente à cartilha ideológica que professam, só me surpreenderam por não terem baixado os impostos. Ao invés subiram-nos, em particular os que incidem sobre o trabalho por conta de outrem (IRS) e o imposto plano do IVA, um imposto cego aos níveis de rendimento – quero dizer, que tanto o pobre como o rico pagam por igual, caso adquiram o mesmo no mercado, sendo por isso o imposto mais injusto de todos. Mas a procissão ainda vai no adro. O processo continua. A descida de impostos far-se-á à custa de destruição do Estado social, e ela já começou. É a fase dois da marcha neoliberal para o abismo.

Pensar é morrer

O coração, se pudesse pensar, pararia.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego


Quem o diz é o Bernardo Soares.

Walking


sexta-feira, junho 21, 2013

A velha guerra e a nova guerra

O mundo está estranho. Não se conseguem vislumbrar sinais do que poderá estar para lá do horizonte imediato e do que está em aproximação. Não se consegue perceber o que se avizinha. Recordo que há um século atrás, na Europa, os impérios se armavam para uma guerra anunciada e estupidamente desejada. Marchou-se alegremente para a primeira guerra total da Era industrial, onde toda a glória da guerra romântica se apagou, para surpresa dos que, na pior das hipóteses, consideravam vir a ter uma morte gloriosa. Morreram na lama, gaseados e metralhados a grande distância. Foi a gloriosa guerra da metralhadora Maxim, uma máquina de matar. Produziu-se a morte em quantidades industriais, como manda a lei industrial das economias de escala – por cada morte produzida baixavam os custos médios de produção de morte.

Estamos longe desse tempo. Pelo menos assim parece. Hoje a guerra é financeira e económica e os territórios conquistados, com os seus povos, querem-se incólumes, até porque já se percebeu que não teriam qualquer préstimo se fossem destruídos. Da guerra romântica, à guerra industrial e desta à guerra silenciosa, eis ao que chegámos. Uma guerra que se imiscui insidiosa, que nos toma de surpresa, e um dia quando acordamos, perplexos constatamos que fomos conquistados, que nos tornámos um protectorado de um qualquer império de um imperador sem rosto. Um imperador que domina vastos territórios e o destino de povos inteiros, só com o poder de especular em Wall Street e em todas as bolsas da Terra. Um imperador especulador que lança agora o seu olhar cobiçoso aos commons (bens comuns) dos povos e aos recursos naturais do planeta.


quarta-feira, junho 19, 2013

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Cold War Returns. U.S. President Barack Obama meets with Russian President Vladimir Putin during the G8 Summit at Lough Erne in Enniskillen, Northern Ireland 
Le retour de la guerre froide. Ambiance glaciale lors de la rencontre entre le président des Etats-Unis d’Amérique, Barack Obama et le président de la Russie, Vladimir Poutine. Cette rencontre a eu lieu dans le cadre du G8 organisé à Enniskillen en Irlande du Nord.
PHOTOGRAPHER : REUTERS/KEVIN LAMARQUE

Aos brasileiros que protestam

Força povo brasileiro! Não deixem que o vosso governo e os políticos vos endividem. Não permitam que o vosso país caia no vício do crédito fácil. A estratégia dos escravizadores é simples. É a mesma estratégia do traficante de droga. Primeiro concedem dinheiro (crédito) quase gratuitamente, até o vício pegar. Depois, mais tarde, estarão aí para cobrar juros usurários. E adivinhem quem vai pagar. Vós, os contribuintes! Um país com quase 200 milhões de habitantes escravizados, obrigados a pagar impostos elevados e um governo a privatizar tudo, até monopólios naturais, como a água potável...um sonho e uma tentação para os traficantes de dinheiro e usurários, não?! Hoje no meu país noticiou-se um pagamento superior a 1000 milhões de euros aos bancos (um deles o JP Morgan, imaginem só), para que aceitassem cancelar contratos assinados por governantes incompetentes ou corruptos que envolviam swaps. Vejam AQUI. E adivinhem quem está a pagar. O bom povo português.

Hoje a Cáritas, no meu país, anunciou que ¼ dos meus conterrâneos está em risco de pobreza. AQUI. Não é por acaso.

Acordai povo brasileiro! Não deixem transformar o vosso país num imenso Portugal, endividado, escravizado, entristecido... Somos hoje um protectorado, um país sob ocupação financeira. Não é maravilhoso, submeter um Estado e um povo sem ser necessário mobilizar um exército?! Esta é a nova guerra silenciosa.

Defendam-se! Não caiam nessa!

domingo, junho 16, 2013

Verão quente


Quando o cardo floresce e a sonora cigarra,
pousada na árvore, espalha o melodioso canto,
pela fricção das asas, na penosa estação do calor
nessa altura são mais gordas as cabras e o vinho melhor,
mais ardentes as mulheres e moles os homens;
Sírius abrasa-lhes a cabeça e os joelhos,
fica-lhes ressequida a pele pelo calor. É tempo então
de gozar a sombra de uma rocha, o vinho biblino,
um pão quente de qualidade, leite de cabra que já não amamenta,
carne de vitela apascentada nos bosques, que ainda não pariu,
e de cabritos tenros. Bebe então o vinho rubro,
sentado à sombra, saciado o coração com o festim,
o rosto voltado de frente para a frescura do Zéfiro;
e de uma fonte que corre perene e límpida,
deita três partes de água e a quarta de vinho.
Ordena aos escravos que o trigo sagrado de Deméter
arejem, logo que desponte a força de Oríon,
 em lugar bem ventilado e em eira redonda.

Hesíodo, Trabalhos e  Dias


in Pinheiro, Ana Elias (trad.), Ferreira, José Ribeiro (trad.), Teogonia;Trabalhos e Dias, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2005, pp. 114-115


(Uma eira redonda perto de Sentinela, no Algarve Oriental)

(O Verão toma de assalto as serras...)

(...e os laranjais).

A primeira foto é da albufeira da barragem do Beliche.

Todas as fotos foram tiradas hoje, 16/06/2013.

sábado, junho 15, 2013

O nosso “thatcherzinho”

Sabemos que Thatcher quebrou a espinha aos sindicatos dos mineiros do carvão, depois de quase um ano de luta e de greve. Sabemos que Thatcher é um modelo para pequenos neoliberais provincianos como nosso primeiro-ministro (o provinciano ditador Salazar, como sabemos, é outro modelo seu). Quererá ele mostrar músculo face aos professores, elegendo uma classe profissional para mostrar como se faz? Com a sua teimosia e irredutibilidade em não querer alterar a data de um exame para outro dia, como lhe sugeriu o colégio arbitral, parece querer manifestar uma posição de força face aos sindicatos e a um grupo profissional que os políticos dos partidos do “arco da governação” se habituaram a apoucar e desvalorizar socialmente, como se vê pelo trato que lhe dão quando governam e não pelas palavras mansas que lhe dirigem, quando estão na oposição.

Nem Passos é Thatcher, nem os professores são mineiros do carvão. Se ele se julga uma espécie de “dama de ferro” à portuguesa, ou se intenta querer seguir-lhe o exemplo, ou ainda, se sonha ser assim, está muito equivocado.

Passos será sempre uma versão de plástico, que é mais barato (nas palavras de O'Neill).

terça-feira, junho 11, 2013

O tornado de Nice

Valery Hache/AFP

Domingo passado.

segunda-feira, junho 10, 2013

E você, também tem medo dos portugueses?

Um destes dias a perplexidade atingiu-me ao ouvir coisa inaudita. O primeiro-ministro afirmava a alta voz que não tinha medo do povo do país que governa. Mas era suposto que tivesse? Tentei lembrar-me de outro primeiro-ministro português que o tivesse afirmado. Debalde. Imagine-se Obama, por exemplo, clamar do alto de um palanque que não tem medo dos americanos, ou Hollande a dizer o mesmo relativamente aos franceses, ou Merkel em relação aos alemães, e assim por diante. Só de imaginá-lo é ridículo!

Mas que necessidade pode levar um primeiro-ministro ou um governante, verbalizar tal coisa em relação ao seu próprio povo. Suspeito que por tê-lo dito, manifesta exactamente o contrário: que ele lá no fundo teme os portugueses. Só pode. Mas caramba! Não é ele português?

Os portugueses, tal como qualquer outro povo civilizado, não pretendem ser temidos por quem os governa. São um povo pacífico. Os portugueses pretendem apenas ser respeitados.

domingo, junho 09, 2013

O papel do professor

A competência do professor consiste em conhecer o mundo e em ser capaz de transmitir esse conhecimento aos outros. Mas a sua autoridade funda-se no seu papel de responsável pelo mundo. Face à criança, é um pouco como se ele fosse um representante dos habitantes adultos do mundo que lhe apontaria as coisas dizendo: «Eis aqui o nosso mundo!»

Hannah Arendt (1968), “A Crise na Educação” in Quatro Textos Excêntricos, Relógio D’Água, 2000, p. 43.

terça-feira, maio 28, 2013

Platão, a preço de banana


O Górgias de Platão foi uma das aquisições recentes por este bibliófilo. O culpado foi um tal de Frederico Lourenço que escreveu algures na sua Grécia Revisitada, que “o Górgias de Platão está para a obra de Platão como a sonata “Apassionata” para a de Beethoven”.

Mas o classicista diz mais: “O leitor moderno do Górgias está mais apto a compreender as razões profundas da desconfiança de Platão relativamente à classe política, uma vez que hoje em dia estamos mais alertados que nunca para a ‘retórica’ oca da adulação das massas (para utilizar um conceito típico do Górgias), que está na base das manobras eleitorais, por demais conhecidas das sociedades “democráticas” para precisarem aqui de serem explicitadas.” (Frederico Lourenço, Grécia Revisitada, Livros Cotovia, 2004).

E mais adiante: “Basta pensarmos na história recente do século XX para darmos razão à forma indignada como Platão rejeita a retórica: uma arte que não é uma arte, sem qualidades definidas, pouco melhor que uma versão verbal e particularmente insalubre da haute cuisine – para retomar a própria analogia socrática.” (Frederico Lourenço, Grécia Revisitada, Livros Cotovia, 2004).

E pronto, lá comprei o Górgias, na Feira do Livro da FNAC, a preço de banana. Uma obra imorredoura, um monumento, por apenas 7,80 €.

E assim, vivam os classicistas, pelas suas preciosas indicações e traduções! E viva a Feira do Livro! (Estranho: no Porto critica-se o centralismo de Lisboa, mas abandona-se a Feira do Livro ao centralismo da capital. Parece que há por lá quem saque da pistola, sempre que ouve falar de cultura, ou estarei a ser injusto?)

Fica a capa da dita obra:

Platão, Górgias. Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, Lisboa
Edições 70, 1992.

PS - Mas o que estão as Edições 70 à espera para publicarem os Livros II, VII e IX da História de Heródoto?

domingo, maio 26, 2013

Graffitis

Andam lunáticos à solta pela cidade nocturna com pincéis e baldes de tinta negra. Nas noites de lua cheia ou outras luas, atacam os muros com frases indecifráveis ou que se dão a múltiplas interpretações e significações. Frases para fazer pensar, a quem gosta de pensar, quando vagueia pelos passeios dos subúrbios e das cidades. Frases para flâneurs e voyeurs.

Eis algumas frases, escritas em antigos e verdadeiros graffiti:

TIRO NO ESCURO

O que significa isto? Um dito racista? Um tiro num africano? Não. Uma aposta incerta, um “tiro no escuro”? Um passo cego que pode conduzir ao abismo? Um estampido ecoando na noite? Uma bala perdida que, caprichosamente, pode atingir qualquer um, qualquer inocente? Mas um tiro não tem que significar necessariamente um estampido. Há quem use silenciador. Ou ainda, será alguém que furta, que tira, a coberto da noite, e o afirma? O “escuro” oculta, mas o “tiro”, ouvido, revela algo. Remete para o perigo de ser alvejado. Remete para a ameaça de ser atingido por um raio, vindo sabe-se lá de onde. Quando se recebe uma chapada na escuridão, ficamos sem saber a quem acometer. Ficamos indefesos ante a chapada oculta, inesperada. Na escuridão estamos cegos.

***

Outra frase, esta lida lá para os lados das Amoreiras:

ENTRE O DIZER E O FAZER, HÁ MUITO QUE FAZER.

Esta tem o seu interesse. Na verdade dizer já é fazer, ou não é assim? Quando se diz, já se actua. Dizer, implica um comportamento observável, uma acção: escrever, falar, dizer…Mas quem a escreveu deve ser alguém de acção, que paradoxalmente diz-nos primeiro que, “entre o dizer e o fazer, há muito que fazer”, e di-lo escrevendo. Fá-lo escrevendo. Fá-lo dizendo.

Mas no caso, parece querer fazer-se uma distinção entre a palavra e a acção. Mas fazer o quê? Uma revolução? Uma reforma? Há muito que fazer para preparar uma revolução. Dizer, pode manifestar uma intenção, mas da intenção à acção, há muito que fazer. O nosso povo está prenhe de intenções, mas o primeiro a atirar a pedra levantada da calçada é quase sempre um estrangeiro profissional em motins.

***

A MAIOR ARMA DO OPRESSOR É A CABEÇA DO OPRIMIDO.

Esta é decerto, coisa de marxistas. Os termos “opressor” e “oprimido” fazem parte desse discurso dialéctico. Desde a antiguidade, os escravos, os servos e os proletários são, segundo Marx, os oprimidos deste mundo. O discurso pós-marxista detectou outros oprimidos que atravessam as classes sociais definidas por Marx, e com isso pretende tirar validade à divisão marxista das sociedades em classes. Prefere falar de grupos identitários. E que oprimidos foram esses, que o discurso marxista não relevou? As mulheres, os homossexuais, os segregados devido à etnia ou à raça, etc. Porém, um marxista pode contestar isto. Afinal, a classe dos escravos não contém as escravas, só para dar o exemplo? E a dos servos, as servas? E a dos proletários, as proletárias? Mas a verdade é que as mulheres foram segregadas e oprimidas, independentemente da classe social a que pertenciam. Só assim se justifica a sua ausência da história do pensamento, para não dizer da história da arte, e, salvo raras excepções (algumas rainhas que, não estando à sombra de nenhum rei protagonizaram os destinos do seu povo) de toda a história. É caso para dizer que das mulheres não reza a história. A História tem sido uma história de homens. Não nos admiremos portanto com o surgimento dos Estudos de Género na actual Universidade. As mulheres chegaram à Academia quase 2500 anos depois dela ter sido fundada por Platão.


A Escola de Atenas, de Rafael. 
(Onde estão as mulheres? 
Temos duas estátuas marmóreas a enfeitar o friso.)


Mas em relação ao dito de que “a maior arma do opressor é a cabeça do oprimido”, não tenhamos dúvida que assim é. Já nos referimos a este dito aqui.

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O MORAIS FOI ÀS PUTAS
(escrito numa parede, em Almada)


Ai o Morais, o Morais, que anda por aí a pregar a moral e os bons costumes. Afinal o Morais “foi às putas”. Esta bem poderia ter sido escrita por um antigo cínico, por um Diógenes dos nossos tempos. Uma manifestação contra os falsos pregadores, os que apregoam uma coisa e fazem outra. É o que há mais por aí. É como a história do frei Tomás e do “faz o que ele diz, não faças o que ele faz”. Ou então faz e depois não te queixes. Esta frase do Morais é um tratado kínico.

[Este post irá sendo acrescentado com mais ditos escritos nas paredes urbanas e suburbanas, por aí lidos nas deambulações urbanas e suburbanas]

sábado, maio 25, 2013

Um muro no caminho


Um obstáculo, uma barreira,
Um problema, um desafio.
Uma questão de semântica.
Um murro no caminho.
Um muro no caminho.

sábado, maio 18, 2013

Hoje, à beira do mar



Uma longa caminhada à beira do mar, entre a Praia Verde e Cacela-a-Velha, aproveitando a baixa-mar. Pelo caminho, um torneio de pesca na Manta Rota onde o peixe não medrava e um falso zéfiro não convidava a permanências demoradas. No regresso, já os pescadores tinham rumado a costas mais aprazíveis, ou, o mais provável, aos bares mais próximos.

Na triste praia, não se avistaram “les filles du bord de mer”.


Dois anos de troika, troikistas e mais troikistas que a própria troika

Eis apenas dois indicadores económicos cuja evolução recente é reveladora do bom sucesso das políticas que até aqui têm sido fielmente seguidas por este "bom aluno", que é o Governo Português.

Evolução da Taxa de Desemprego
Fonte: INE, 2013


Variação Trimestral do PIB Português
Fonte: INE, 2013

Como se vê, está tudo a correr bem, estamos no bom caminho e a retoma é já a seguir. Venham mais dois anos destes, que precisamos de mais anos assim. Abençoada troika e mais as suas abençoadas tranches (mas onde é que estão as tranches, que nunca ninguém as vê?). E abençoado regresso aos mercados. Assim podemos continuar a endividar-nos alegremente. Que paguem os que vêm depois.

Está visto que estamos ante um milagre da Nossa Senhora de Fátima. Oremos.

domingo, maio 12, 2013

Consciência e existência


Não é a consciência dos homens que determina a sua existência, pelo contrário é a sua existência social que determina a sua consciência.

Karl Marx (1859)




Não! Não existem por aqui palas ideológicas para ler e interpretar a realidade. A realidade é demasiado travessa para se conformar às ideologias inventadas pelos homens. Mas que nisto e em muitas outras coisas Marx tinha razão, lá isso tinha.

Noutro lugar* lemos uma referência à sua famosa máxima de que “as pessoas fazem a sua própria história, mas não sob as condições que elas mesmas escolhem” (Marx, 1852, citado por Herod, 2011).

sábado, maio 11, 2013

Néscios

Titula Rui Ramos a sua crónica no Expresso: “O antitroikismo dos néscios”. Como se os néscios não fossem os troikistas. E mais néscios ainda, os mais troikistas que a própria troika.


***
P.S.


No mesmo artigo, Rui Ramos continua a basear-se no habitual erro de análise económica que é o de comparar aquilo que não é comparável: uma desvalorização monetária dos anos 80 do século XX, com o inaudito "ajustamento" da economia portuguesa no presente.

Os economistas tiveram a "brilhante" ideia de "ajustar" a economia portuguesa, uma vez que não se pode realizar uma desvalorização competitiva da moeda (facto que representaria um abaixamento dos salários reais, sem que o mercado interno fosse beliscado). Julgavam eles, que o mesmo efeito poderia ser obtido, atacando diretamente os salários e reduzindo o rendimento disponível das famílias. Esqueceram-se contudo das concomitâncias do processo.

Desvalorizar a moeda e "ajustar" a economia, como agora se está a fazer, trata-se de processos distintos nos seus efeitos, e os resultados estão à vista de todos.

Por muito que a economia portuguesa seja uma economia pequena e aberta, por muito que se viva agora na Era global da economia globalizada, o que é certo é que o mercado interno nacional era o viveiro de milhares de pequenas empresas, agora falidas, afectadas pelas políticas económicas e financeiras experimentais de um bando de neoliberais. Ainda por cima, néscios.

Viviane viveu.

Viviane Forrester (1925-2013)

Eis-nos ainda imersos no horror económico. Cada vez mais profundo, na Era de todas as incertezas, desbaratada que foi toda a confiança. O bom povo, desempregado e envergonhado, ou sai do país, ou da vida (houve quem se suicidasse, alguns levando os filhos), ou então, resignado, torna-se presa de uma exploração que é, a cada dia que passa, mais insuportável. Paralisante até. Enquanto isso, um banqueiro, um macho alfa da nossa Era, profere cinicamente, referindo-se ao povo, “ai aguenta, aguenta”, ao mesmo tempo que os seus conterrâneos definham…O horror económico é isto. É isto e muito mais...

Viviane morreu viveu. Fica a sua obra e, infelizmente, o horror económico, que ela tão bem retratou.

***

«Brincadeiras engenhosas! Como a de um governo anterior que, meses atrás, cantava vitória, delirante, impando: diminuição do desemprego? Não, de facto. Pelo contrário, aumentara – mais lentamente, contudo, do que no ano transacto!
Mas enquanto assim se diverte o pagode, milhões de pessoas, e refiro-me mesmo a pessoas, postas entre parênteses, têm direito, por um período indefinido, talvez sem limite que não a própria morte, à miséria ou à sua ameaça mais ou menos próxima, e muitas vezes à perda de um tecto, à de toda a consideração social e mesmo a toda a autoconsideração. Ao drama das identidades precárias ou naufragadas. Ao mais vergonhoso dos sentimentos: a vergonha. Visto que cada um se julga (é encorajado a julgar-se) senhor falido do seu próprio destino, quando não passou de um número metido por acaso numa estatística.
(…)
A ignomínia desencoraja qualquer reacção da sua parte que não seja uma resignação dolorida.
Porque nada enfraquece ou paralisa mais do que a vergonha. Ela altera radicalmente, deixa sem recurso, permite qualquer subjugação, reduz os que dela sofrem à condição de presas. Daí o interesse dos poderes em servir-se dela e impô-la; permite legislar sem oposição e transgredir a lei sem receio de protestos. É ela que cria o embaraço, impede qualquer resistência, faz renunciar a todas as clarificações, a todas as desmistificações, a qualquer confronto da situação. Desvia de tudo o que possibilitaria a recusa da ignomínia e a exigência de uma responsabilização política do presente. É ela que permite também a exploração dessa resignação, assim como a do pânico virulento para cuja criação contribui.
A vergonha devia ter cotação na Bolsa; é um elemento importante do lucro

Viviane Forrester, O Horror Económico, Terramar, 1997, pp. 10-13.

Em destaque: Reis Novais, sobre a mobilidade especial. Uma barbaridade!



Reis Novais fala-nos de um retrocesso civilizacional.

Em suma, o que se propõe para os funcionários públicos e a forma indigna como são tratados pelos que dirigem o país, ultrapassa as raias da bestialidade! Uma barbaridade, diz ele.

Já inventaram o "salário zero". Só lhes falta inventar o "salário abaixo de zero".
As bestas quadradas.

Isto está mesmo a pedir uma bernarda!

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