sexta-feira, abril 25, 2014

Mar da Arrábida e "Onde estava você, no 25 de Abril?"

    © AMCD

Há quarenta anos, na savana moçambicana, nas margens do lago Niassa, soava na rádio um cante anunciador de uma revolução longínqua. A perplexidade era geral.

Era por lá que eu andava.

Já por estes dias e por cá, o mar da Arrábida tem estado sereno (é do quadrante Norte que o vento tem soprado e a serra dá abrigo a este mar), mas sob um céu por vezes carregado*.

(*) A fotografia é de anteontem.

40 anos passaram. Pois que venham mais 40!

40 anos passaram. Pois que venham mais 40! (digo eu para com os meus botões)

Em quarenta anos se construiu o que agora se destrói, e rapidamente. Resiste uma Constituição bem alicerçada. Um último bastião. Mas por quanto tempo mais?

Todos sabemos que destruir é mais fácil e mais rápido do que construir. Assistimos agora a uma destruição criativa, mas o que se cria não é já uma revolução (ou no máximo será uma revolução invertida, uma anti-revolução em marcha que nos conduz, já não à liberdade, mas à servidão).

E se há quarenta anos o povo se uniu e nessa união residia a sua força (cantava-se na rua, como em todas as revoluções, em uníssono, que o povo unido jamais seria vencido), agora é pela sua desunião que se enfraquece. Dividir para reinar tem sido a estratégia de todos os inimigos da liberdade: opor novos a velhos, empregados a desempregados, os que partem aos que ficam, nacionais a imigrantes, os que têm aos que não têm, os do público aos do privado, gerações contra gerações...

Um povo desunido é um povo vencido!

Povos desunidos não tomam Bastilhas.

quarta-feira, abril 23, 2014

domingo, abril 13, 2014

E na página 260, reza assim

E na página 260 lá encontramos inesperadamente Portugal, num livro de divulgação científica sobre a história da evolução humana e das sociedades.

Reza assim:

«Estudos adicionais sugerem (mas ainda não o provaram de forma conclusiva) que o nivelamento é benéfico mesmo para as sociedades modernas mais avançadas. Aquelas que mais fazem pela qualidade de vida dos seus cidadãos, da educação aos cuidados de saúde, do controlo do crime à preservação da auto-estima colectiva, são as que têm uma diferença menor entre os rendimentos dos cidadãos mais abastados e dos mais pobres. Entre 23 dos países mais ricos do mundo e estados individuais dos EUA, de acordo com uma análise de 2009 efectuada por Richard Wilkinson e Kate Picket, o Japão, os países nórdicos e o estado americano de New Hampshire têm simultaneamente o mais estreito diferencial de riqueza e a média mais alta de qualidade de vida. No fundo da tabela estão o Reino Unido, Portugal e o resto dos EUA.»

Edward Wilson, A Conquista da Terra: a Nova História da Evolução Humana, Clube do Autor, 2013. Págs. 259-260.
(o destaque é nosso)
***

Nem quando nos embrenhamos na leitura de um livro de divulgação científica de um entomologista escapamos ao opróbrio de constatar que somos (éramos em 2009 e somos ainda) uma das mais desiguais sociedades do mundo. Nem a leitura de uma obra que julgávamos afastar-nos da espuma dos dias, consegue afinal alhear-nos desta vil realidade, cada vez mais cavada pelas “elites” terratenentes e reaccionárias que nos dirigem. É tão evidente que salta à vista. Até nos livros de divulgação científica de um entomólogo! Lá está, na página 260: o nome do meu país. Ah, mas ombreamos com esses países que são a cumeada do capitalismo neoliberal mais extremo, civilizadíssimos, os países do tea party e dos lords: o Reino Unido e os EUA (o resto).

Ah, grande piolheira!

***

Sorrio quando verifico que à luz neoliberal, todo o livro é sobre uma quimera, uma abstracção, uma coisa que não existe: a evolução das sociedades. Nas palavras da ida, mas não saudosa Margaret Tatcher, a sociedade é uma abstracção, é coisa que não existe. Cá está então um livro sobre a evolução de coisa nenhuma.


E quando vejo o meu país, assim contextualizado, aflora-me sempre à memória aquele verso do O’Neil "...ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!"

quarta-feira, abril 09, 2014

O hard talk de José Rodrigues dos Santos - II

"...até o advogado do diabo pode ser inteligente e pode perceber que não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer uma entrevista".

José Sócrates a José Rodrigues dos Santos

Advogado do diabo, burro e papagaio. Eis no que se resume o segundo Hard Talk de José Rodrigues dos Santos com José Sócrates. A dada altura o jornalista disse que registou o insulto mas que não iria responder. Lá se foi o Hard Talk lusitano. Ó civilizadíssima Britânia, que só em ti há essa capacidade dos jornalistas e dos entrevistados se interpelarem duramente sem se deixarem arrastar para a lama!

É o que dá os duelos na terra dos josés.

Quando a cobiça naufragou

Naqueles dias reinava a cobiça aliada ao poder tecnológico dos europeus. E naquelas terras e águas os europeus eramos nós. Cheios de hubris e vã glória chegávamos e pilhávamos. Tesouros para El Rei D. Manuel I. Era tanta a cobiça que as barcas, quais arcas flutuantes, se afundavam sob o peso dos tesouros pilhados nas industriosas cidades orientais. Foi assim com a Flor do Mar, hoje supostamente descoberta por drones subaquáticos nos mares da Indonésia.

Foi n’A Primeira Aldeia Global, de Martin Page, que tive um vislumbre do valor e magnitude do tesouro que se transportava na Flor do Mar, da cobiça do Vice-Rei, e do naufrágio da carraca à saída do estreito de Malaca.

«Quando chegou a altura da principal força portuguesa regressar à Índia, Afonso de Albuquerque mandou carregar o navio-almirante, a Flor do Mar, com o seu magnífico espólio, e com produtos para o rei D. Manuel I. Os bens destinados ao monarca incluíam duas réplicas, em tamanho real, de elefantes-bebés, feitas de prata maciça e embutidas com jóias, quatro estátuas de leões de ouro, cheias de perfumes raros, e o trono de Malaca incrustado de jóias.

A frota largou através do estreito, com o navio de Afonso de Albuquerque tão carregado que mal se mantinham à tona de água. Quando chegou às águas costeiras de Sumatra, após menos de meio dia de viagem, foi abalado por uma pequena borrasca e afundou-se. Albuquerque e a sua tripulação fizeram-se às jangadas salva-vidas, de onde foram recolhidos e levados para bordo de outros navios. 

Em 1992, a leiloeira de arte Sotheby's, contratada para avaliar o tesouro afundado a preços actuais, calculou esse valor em 2,5 mil milhões de dólares. Não surpreende, assim, que tenha havido tanto interesse em localizar os destroços do navio através do rastreio de satélite, nem tão-pouco o feroz litígio internacional em relação à sua posse legítima, em que Portugal não participa, mas que decorre principalmente entre a moderna Malásia, da qual Malaca é uma capital de província, e a Indonésia, na qual se integra Samatra.»


Martin Page, A Primeira Aldeia Global, 6ª edição, Casa das Letras, 2010. Pág. 162. 

sábado, abril 05, 2014

Um certo tipo de país

Estamos em presença de um povo manifestamente incapaz de se governar a si próprio. E sabes o que acontece aos povos que não se conseguem governar a si próprios? Nem mais. Vêm povos de fora governá-los.

Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue, Biblioteca Sábado, 2008, pág. 37.

Ao lê-lo, não sei porquê, veio-me à ideia um certo tipo de país. Aquilo a que alguns chamam um protectorado.

segunda-feira, março 31, 2014

Lobos, não se pode viver sem eles

Parece que os lobos de Yellowstone interferem com a geografia física do lugar. É esta a conclusão que Sir David Attenborough nos transmite no excelente excerto do documentário entretanto colocado em destaque no blogue O Vento que Passa. Já tinha lido sobre o efeito da recuperação dos lobos nos ecossistemas, num recente livrinho de Hubert Reeves que já aqui foi destacado, mas a notícia de que a própria geografia física - o comportamento dos rios, por exemplo - se alterou pelo efeito da reintrodução dos lobos no Parque, é surpreendente.

Fica aqui também o excerto do excelente documentário e logo abaixo um trecho do texto de Hubert Reeves, que explica os efeitos da reintrodução do lobo no Parque de Yellowstone (E.U.A).


  «Não se pode viver com os lobos», repetem, há muito tempo, os seres humanos que são confrontados com a sua presença. Em 813, Carlos Magno cria a Companhia da Caça ao Lobo para proceder à sua erradicação. Todos os meios são bons para os matar: armadilhas, veneno, massacre dos recém-nascidos nos covis, espingardas. São oferecidos prémios cada vez mais elevados pelas suas orelhas.
No princípio do século XX os lobos foram, efectivamente, eliminados no oeste dos Estados Unidos. Colocou-se, imediatamente a seguir, o problema da proliferação de coiotes. Tentou-se remediar o assunto aperfeiçoando programas de quotas. Resultado: assistiu-se a uma multiplicação de raposas, que eram a sua presa favorita e rapidamente se tornaram uma séria ameaça para as aves aquáticas. Em consequência da informação retirada destas experiências, foi reintroduzida, há alguns anos, no Parque de Yellowstone, na Califórnia, uma vintena de lobos provenientes do Canadá. Os efeitos que essa reintrodução teve sobre a fauna e sobre a flora foram altamente benéficos. Constatou-se, primeiro, uma di­minuição do número de uapitis, um grande veado cujo excesso de população causava graves danos à natureza. Numerosas plantas, em particular os álamos, cujos jovens rebentos eram roídos em quantidades excessivas por aqueles animais, reapareceram nos vales. As flores da montanha multiplicam-se de novo nos outeiros, aos quais atraem numerosas borboletas para lhes sugar o pólen. Faz-se ouvir, novamente, o chilrear de várias espécies de aves que há muito se não ouviam. E os castores, que tinham desertado do parque – provavelmente por causa da ausência das suas plantas favoritas - voltaram a construir diques, graças aos quais numerosos organismos aquáticos ressuscitaram.
Isto não é um milagre. Esta reintrodução do lobo constitui, de algum modo, uma exibição da força da natureza. Demonstra a importância da noção de escala de predação. Numa natureza em equilíbrio, as espécies são, simultaneamente, presas e consumidoras. O coelho bravo, que devora os prados, pode-se tornar, de um instante para o outro, vítima da raposa. O gavião captura um melro, que comia minhocas, que se alimentavam de folhas secas. No decurso de milhões de anos de evolução criou-se uma hierarquia, na qual cada espécie forma uma malha da cadeia alimentar. No topo estão os grandes predadores: aves de rapina, lobos e grandes felinos.
A eliminação destes predadores pela actividade humana - caça ou ocupação do território - perturba gravemente as interacções. Tendo tomado conhecimento da sua importância para a saúde da natureza, da qual dependemos, há que intervir. Essa responsabilidade é-nos imposta pelo exemplo da experiência de Yellowstone.»

Hubert Reeves, Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação,Gradiva. 2014. págs. 111-112.

domingo, março 30, 2014

O hard talk de José Rodrigues dos Santos

Toda a gente ficou surpreendida com o Hard Talk de José Rodrigues dos Santos com José Sócrates. Apetece dizer: terra de provincianos! Mas a verdade é que o dito programa da BBC tem o formato de uma dura entrevista em que o interpelado se sujeita às regras do jogo e sabe ao que vai, e vai por sua própria conta e risco. O que José Rodrigues dos Santos fez foi uma espécie de Hard Talk surpresa, subvertendo o modelo a que o comentador estava habituado. Surpreendido, José Sócrates passou de comentador a entrevistado e interpelado (mas não, atropelado). Ia para um espaço de comentário e saiu-lhe uma entrevista.

Que venham então mais hard talks, para ver se de uma vez por todas, os que difundem opinião parcial, tendencialmente dissimulada e partidariamente disfarçada,  possam ser contraditos.

Mas a questão é a seguinte: estará o provinciano jornalismo português preparado para tal desafio?

Graça

Sob o neoliberalismo terratenente lusitano, conservador e neo-salazarista, Portugal transforma-se num país cada vez mais polarizado, socialmente desigual, entre uns poucos de agraciados, e uns muitos desgraçados, governados por uns engraçados cínicos, sem graça nenhuma.

Em suma: um país de desgraçados, governado por engraçados, ao serviço de uns poucos agraciados.

segunda-feira, março 24, 2014

Notícias do milagre económico - II

É tão fácil dar com o milagre económico. É só abrir o jornal... ou a porta de casa.


Os dados são de 2012, é certo, mas são os mais recentes disponibilizados pelo I.N.E. Entretanto, alguns pobres morreram, emigraram, ou por certo, fruto do milagre, enriqueceram.

E nesta:


Atente-se, o desemprego diminuiu, mas a percentagem de casais desempregados aumentou.

Ó admirável milagre económico!


Vai de vento em popa, o milagre económico. Tão célere vai que o Governo até já pensa em fazer poupanças de 1,7 mil milhões de euros…Que digo eu? Poupanças?! Cortes!

domingo, março 23, 2014

A luta titânica entre os impulsos domesticadores e os bestializadores

«Na própria cultura contemporânea trava-se uma luta titânica entre os impulsos domesticadores e os bestializadores, e seus respectivos meios de comunicação. Seria surpreendente a obtenção de sucessos mais significativos no campo da domesticação, diante de um processo de civilização em que uma onda desinibidora sem precedentes avança de forma aparentemente irrefreável (*).»

Peter Sloterdijk, Regras para o Parque Humano, São Paulo, Estação Liberdade, 2000. pág. 46
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(*) Refiro-me aqui à onda de violência que presentemente irrompe nas escolas em todo o mundo ocidental, em especial nos Estados Unidos, onde os professores começam a instalar sistemas de segurança contra estudantes. Assim como na Antiguidade o livro perdeu a luta contra os teatros, hoje a escola poderá ser vencida na batalha contra as forças indirectas de formação, a televisão, os filmes de violência e outros mídias desinibidoras, se não aparecer uma nova estrutura de cultivo capaz de amortecer essas forças violentas.

***

Miley Cyrus, a fumar "charros" em público ou Justin Bieber apanhado bêbado a conduzir (e não era uma carroça). Dois ídolos globais da juventude estudantil. São domesticadores ou bestializadores?

O escândalo vende. E quanto mais escandaloso melhor. A fórmula é velha e conhecida dos empresários capitalistas da "indústria" da música popular, dita comercial, do espectáculo, do entretenimento, da literatura e doutras artes. Mas adiante, que de uma coisa não há dúvida: aqueles cantores, entre outros, são fenómenos que integram essa "onda desinibidora sem precedentes" que "avança de forma aparentemente irrefreável". São "forças indirectas de formação" contra as quais a escola, entre outras instituições conservadoras, se batem, sem sucesso.

sábado, março 22, 2014

Uma sugestão à Exma. Sr.ª Presidente da Assembleia da República.

Que leia a crónica de hoje de Vasco Pulido Valente no Público, “A sociedade de mercado”, sempre que ousar ter a ideia de comemorar um acontecimento como a Revolução de 25 de Abril de 1974, sob o patrocínio comercial ou outro patrocínio qualquer, de um qualquer patrono.

sexta-feira, março 21, 2014

Até sempre Medeiros Ferreira

A falta de tempo tem dificultado a minha vinda aqui e a actualização do blogue que se quer como um caderninho de pequenas (e grandes) notas, para mais tarde reler.

Medeiros Ferreira faleceu há uns dias. No dia da sua morte quis mas não consegui deixar-lhe aqui a minha humilde homenagem. A austeridade roubou-me tempo. A austeridade levada ao extremo conduzirá à servidão e à escravatura, caso o permitamos. É notório.

Medeiros então partiu.  

Recordo-o doutros tempos, dos corredores da Universidade. Eu, aluno, cruzava-me por vezes com ele, Professor. Sabia quem ele era. Sabia que foi no mesmo arquipélago que vimos pela primeira vez a luz, sabia que tínhamos isso em comum. Eu simpatizava com o homem, que parecia sempre azafamado, sempre em movimento. Partiu esta semana o meu conterrâneo insular açoriano.

 Que descanse em paz.

***

Estes homens e mulheres que cresceram connosco e que nos acompanharam (habituámo-nos à sua constante ou pontual presença desde que temos memória) estão aos poucos a partir e a deixar-nos aqui pelo mundo. Já sem eles, ficamos mais sós, cada vez mais entregues a nós mesmos e às circunstâncias da vida. Eles são as nossas referências que partem.

Mas ainda bem que deixaram obra. Ainda bem que existiram. Ainda bem que continuam connosco, pela obra que nos deixam. Podemos ainda ouvir o seu pensamento, ler os seus escritos, conhecer as suas ideias. Dessa forma permanecem connosco. Não tenhamos dúvidas.

sábado, março 15, 2014

Um excelente livro, com dois erros a corrigir

"Ao actual ritmo de extinção perder-se-á até ao fim do século metade das espécies actualmente existentes. Há, certamente, qualquer coisa com que nos devemos inquietar..."

Hubert Reeves, Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação,Gradiva.2014. pág.90

"Não haverá respeito entre os seres humanos enquanto não respeitarmos os seres não humanos."

Hubert Reeves, Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação,Gradiva.2014. pág.139


Hubbert Reeves ainda escreve, e que bem escreve. Para nosso deleite, consegue encantar-nos e ao mesmo tempo alertar-nos com a sua divulgação científica e activismo ambiental. Já não lia uma obra sua desde Um Pouco Mais de Azul, edição de 1986, um livro que me era dedicado: “Este livro é dedicado a todas as pessoas maravilhadas com o mundo”, dizia no início. Maravilhado com o mundo, porém decepcionado com o Homem, que transforma o mundo numa latrina. É uma contradição. O Homem está no mundo. O Homem é obra da Natureza. O Homem é por isso Natureza, e este dualismo Homem/Natureza é ilusório. Mas adiante. Resolvi agora ler, neste longínquo 2014, o seu livro Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação.


Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação é uma excelente obra, que se lê num ápice, mas contém dois erros tão evidentes, que o revisor científico deveria ter dado por eles: coloca a camada de ozono na ionosfera e esta a 50 km de altitude (pág. 54) e a Nova Zelândia no Índico (pág. 84). Enfim, duas pequenas manchas que não estragam a obra. O livro recebeu o Grande Prémio Ciência Viva!

quinta-feira, março 06, 2014

Notícias do milagre económico

Damos aqui início à rubrica "Notícias do milagre económico".

Comecemos então:

"Pensões atribuídas a partir de amanhã com cortes imediatos."

"Mais de 400 mil sem subsídio de desemprego no início do ano"

Ora se isto não é o milagre económico, então o que será?

quarta-feira, março 05, 2014

Pais e filhos, na paz e na guerra.

Pois ninguém é tão insolente que a prefira [a guerra] à paz. Nesta os filhos enterram os pais, mas naquela [na guerra] são os pais que enterram os filhos.”

Palavras de Creso dirigidas a Ciro, Rei dos Persas

Heródoto, Histórias, Livro I, Edições 70, 1998. pág. 118.

***

E, dizemos nós, salvaguardando as devidas diferenças, que na paz, os filhos são apoiados pelos pais na juventude; e os pais, na sua velhice, são apoiados pelos filhos. Assim deveria ser.

Mas não é isso que hoje está a acontecer neste triste país. Nesta paz que apodrece, também são os pais que na sua velhice se vêm obrigados a apoiar os filhos, mesmo quando estes já são adultos ou quase velhos.

sábado, março 01, 2014

Exigem-se conhecimentos de Matemática!

Um dito encimava o portão da Academia de Platão:

“EXIGEM-SE CONHECIMENTOS DE MATEMÁTICA”

Ali não entrava qualquer um.

Aquilo era uma Universidade! Perdão, era a Universidade!

Volvidos cerca de 2500 anos, as universidades do Ocidente são a evidência do declínio da cultura geral* de uma civilização que nasceu na Idade Média, quando os bárbaros deram início à formação de reinos, e não na Antiga Grécia ou na Mesopotâmia, como alguns historiadores anglo-saxónicos nos querem fazer crer, nomeadamente Niall Ferguson**, que no seu "modelo" cria um Ocidente.1, um Ocidente.2, e por aí fora, como se fossem novas versões de uma aplicação informática.

Volvidos 2500 anos, dizia eu, os estudantes de agora, alguns, exigem o direito à humilhação e à praxe, e os governantes, uma Universidade para as empresas.

 Desculpem a má-criação: bardamerda!

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(*) Sobre este assunto ler o famoso livro do falecido Professor Allan Bloom, The Closing of the American Mind, Simon & Schuster, 1987.

 (**) Sobre isto, ver a sua obra, Niall Ferguson , Civilization: The West and the Rest, Penguin Books, 2011


Ambas as obras encontram-se traduzidas na nossa língua.

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Até sempre Paco (1947-2014)


Partiu ontem. Ficará a sua música, agora nossa, para sempre.

Música do Sul, das casas caiadas de branco e do sal. Mosteiro de Sal, a música que soa. Um dos seus álbuns intitula-se Castro Marim, terra da sua mãe e dos meus antepassados. Minha terra portanto.

Obrigado Paco de Lucía por tornares o fardo da nossa existência mais suportável.

sábado, fevereiro 15, 2014

Três visões convergentes para Portugal


Caso o continente [europeu] continue impávido, a alternativa passa pela interdependência com outras identidades: a CPLP para a defesa e promoção da língua portuguesa no mundo nacional e internacional; os EUA para a inovação tecnológica, científica e universitária e para o futuro da racionalidade internacional da segurança; Brasil, Angola, Moçambique e China, entre outros países, para o restabelecimento das relações comerciais e financeiras suplementares ao espaço europeu. E, sobretudo, para carrear as peças para uma governança mundial.”

 José Medeiros Ferreira, Não há Mapa Cor-de-Rosa, A História (Mal)dita da Integração Europeia, Edições 70, 2013

É preciso uma política externa realista, guiada por uma estratégia nacional sem preconceitos nem ilusões, que leve em conta o factor de defesa e não esqueça os espaços lusófonos; e tal não é possível sem que se restaure a ideia do primado da Nação como valor político, como lugar das liberdades e direitos dos cidadãos e como elemento estrutural do desenvolvimento e da economia.

Num mundo globalizado e com uma cultura cosmopolita de movimento e mudança, os portugueses têm seculares vantagens competitivas: do cosmopolitismo, identificado por Pessoa como característica nacional, à capacidade de resposta aos grandes desafios, identificada por Jorge Dias.

Jaime Nogueira Pinto, Portugal, Ascensão e Queda, D. Quixote, 2013

E há duas janelas de liberdade que acho fundamentais. Uma é a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), que é uma instituição única. Se reparar, a CPLP é toda constituída por países marítimos, pobres, e nenhum tem frota marítima. Neste momento, o transporte marítimo está a ter um desenvolvimento extraordinário. Se houver uma bandeira da CPLP e uma frota comum, nós somos capazes de a fazer. A outra janela de liberdade é a plataforma continental, que eu considero que tem perigos. A Comissão Europeia anunciou que vai definir o mar europeu. Estamos dependentes das nações unidas para a aprovação da plataforma continental, que é a maior do mundo. Sabemos a riqueza que lá está. Mas nada disto está no programa de qualquer partido. Estava previsto que a plataforma continental fosse aprovada em 2013, já foi adiada para 2015, receio que, com aquela minúcia burocrática, em vez de lerem 2015, leiam 2051. A plataforma continental é a janela de recuperação e independência de Portugal.”

Adriano Moreira, “Motivar o Diálogo” (entrevista), Montepio, Inverno 2013.

***

Nestas três visões convergentes, o futuro não passa pela Europa, nem por nenhum mapa cor-de-rosa de partilha colonial (ou seja, do regresso das velhas relações de dominação entre a Metrópole e o Ultramar; nem tal faria sentido). O Ultramar morreu e o sonho da Europa definha. Medeiros Ferreira bem nos lembra que “a União Europeia não precisa, nem tem, identidade e muito menos constitui um só povo” e da necessidade de “contractos políticos e jurídicos entre as suas partes constitutivas, cidadãos, povos e Estados”. Em suma, não deveríamos ter tanta pressa em evidenciar-nos como “bons alunos” face a poderes e instituições europeias não democráticas, que defendem interesses obscuros que não os da nossa pátria, e por que não dizê-lo, da nossa Nação. A salvaguarda dos interesses e da liberdade dos povos europeus deve ser assegurada por contractos bem firmados. É claro, existe uma ideia romântica de Europa, porém é a realidade que deve impor-se.

“Caso o continente continue impávido”, começa por dizer Medeiros Ferreira, ainda talvez esperançoso no despertar da nova Europa. Até agora a Europa não tem dado mostras desse despertar: pelo contrário, é o fantasma da velha Europa que se assoma. Não vale a pena então aguardar. O futuro não passa pela Europa, melhor, não passa exclusivamente, nem em grande parte, pela Europa. Não desperta a Europa, pois que despertemos nós! “A sociedade portuguesa tem de abandonar a atitude passiva que é a sua desde a entrada na Comunidade Europeia, em 1986” (Medeiros Ferreira, 2013: 136).

Da leitura das referidas obras dos autores supracitados ressalta a ideia de que, no estabelecimento de relações internacionais, não devemos colocar todos os ovos no mesmo cesto, ou seja, no cesto Europeu. Devemos diversificar as nossas relações internacionais, que devem ser de interdependência. Existem portanto outros caminhos:
  • O dos países da CPLP, em estreita interdependência e respeito mútuo, ultrapassados os velhos traumas coloniais e neocoloniais;
  • O dos países onde existem espaços de lusofonia (literalmente, onde o português soa), e por aqui temos, para além dos países da CPLP, outros países, não só europeus, como a França, a Suíça ou o Reino Unido, onde significativas comunidades de portugueses se avolumam, mas também nos países emergentes como a África do Sul; ou não sendo emergentes, a Venezuela, os EUA, entre outros.
  • O dos países com os quais temos relações ancestrais, como a China e a Índia, ou até a Indonésia, antigo inimigo e agora possível amigo;
  • O nosso mar e a nossa plataforma continental – a nossa relação com o mar;
  • E por que não, a criação de novos laços com países do Leste Europeu, como a Ucrânia, baseando-nos também na importante comunidade imigrante desse grande país presente no nosso;
  • Não devemos esquecer nunca a Espanha, ou as Espanhas, que assume sempre um papel de relevo por razões históricas e geográficas; tem sido uma verdadeira “compagnon de route”;
  • E claro, a União Europeia, mas neste caso, que existam relações contratualizadas entre “cidadãos, povos e Estados”, que salvaguardem os nossos interesses, a nossa soberania e a nossa independência e não o que temos agora.
Em suma, precisamos de lançar em várias direcções, novas “amarras” relacionais que nos liguem a estes espaços. Impõe-se a reconquista da soberania perdida.

sábado, fevereiro 08, 2014

Parece

Pois, parece que assim é. Parece que está quase concluída a nossa proletarização. O nosso ajustamento. Estamos a ser “ajustados”! Parece que estamos quase a regressar ao tempo em que se desdenhava dos que borravam as botas no trabalho (ignominiosamente designados de "borra-botas"), dos que trabalhavam com as mãos, dos cinicamente desvalorizados por quem neles assentava o traseiro para se alçar às mais altas cúpulas sociais. Coisa de meninos finos, sopeiras e penicos.


Cada vez que os vejo na televisão, vem-me o cheiro a caruncho. Parece um novo Estado Novo. Parece a mesma gente. 

segunda-feira, janeiro 20, 2014

«é»

Ouvi uma vez dizer, num Verão distante do século XX, da boca do meu querido avô algarvio, já falecido - trabalhador rural no Inverno, marnoteiro no Verão – que “Nascer é morrer!”. Ele era analfabeto, mas não era inculto. Às vezes vem-me à memória aquele dito. A frase é reveladora de um antigo espírito mediterrânico que parece viver ainda entre os povos do Sul, e que nele decerto vivia. Talvez uma coisa dos antigos gregos. É uma frase muito curta, lapidar, de três palavras apenas, mas que tudo parece conter - o nascimento, a vida e a morte. E esse “é” da frase encerra toda uma vida, toda uma existência entre o nascimento e a morte. Esse “é” que nada é (é a mais curta palavra da frase), é tudo o que importa. É tudo o que nos importa.

Na frase, encontramos a crença na força do Destino, a Moira, à qual até os antigos deuses se tinham de submeter. Está lá o ancestral fatalismo mediterrânico, a crença de que viver é sofrer, e por isso os antigos poetas afirmavam que o melhor para o Homem era atravessar rapidamente as portas do Hades, logo após o nascimento.

Ouvi um dia, numa igreja, um padre afirmar na sua prédica, que o momento da morte era mais importante que o do nascimento. Que só nesse momento se podia atestar todo um percurso, valorizador ou desvalorizador. Sólon diria o mesmo em relação à possibilidade de verificação da felicidade humana. Só no fim é que se vê.

Só no fim se confessam os pecados inconfessos. No fim do “é”.

sábado, janeiro 18, 2014

Alto do Jaspe

No sábado passado caminhei pela Arrábida até ao Alto do Jaspe. Uma raposa que por ali andava surpreendeu os visitantes à beira da estrada e deixou-se fotografar. Depois, desapareceu destemida por entre os carrascos (Quercus coccifera).

Do Alto do Jaspe avistei o mar brumoso e diverti-me a pensar que a América já ali estivera tão perto, há cerca de 115 milhões de anos, exactamente onde a onda petrificada da Serra do Risco parece rebentar.

Um painel, ainda intacto, informa os visitantes sobre a paisagem que se avista, a geologia e a biologia do Parque. Tomei a liberdade de transcrever o texto.


Alto do Jaspe

«Da Pedreira de Jaspe que atrás de nós se esconde parecendo ocultar a beleza excepcional da Brecha da Arrábida que em tantos lugares foi utilizada para enriquecer o património cultural da região e do país, até à vista deslumbrante que à nossa frente se abre e onde se destaca a Serra do Risco - este é mais um ponto panorâmico revelador da riqueza paisagística e patrimonial da Arrábida.

O Risco apresenta a escarpa litoral calcária mais elevada da Europa, com 380 m, que cai num mar calmo, azul cristalino e verde-esmeralda. A beleza que a natureza aqui esculpiu ou desenhou não passa despercebida e não cansa de nos maravilhar.

“A Serra [do Risco] tem o ar de uma onda que avança impetuosa e subitamente estaca e se esculpe no ar, é uma onda de pedra e mato, é o fóssil de uma onda.”

Sebastião da Gama (1924 – 1952)

Esta Pedreira do Jaspe é, de entre o conjunto de antigas pequenas explorações espalhadas pela Arrábida, a mais expressiva quanto à exposição superficial de um tipo de rocha exclusivo desta região, a chamada Brecha da Arrábida (também designada no século XIX e início do século XX como “Brecha de Portugal” ou “Mármore da Arrábida”).

A Brecha da Arrábida, formada durante o Jurássico Superior, há cerca de 160 Milhões de anos, recobre uma descontinuidade sedimentar cujo estudo é fundamental para o melhor conhecimento das fases iniciais de evolução do Oceano Atlântico. Naquele tempo o grande continente euroasiático e o norte-americano encontravam-se ainda unidos, formando-se um só continente, que foram definitivamente separados e sucessivamente afastados até à actualidade, por alastramento contínuo dos fundos oceânicos, a partir do final do Cretácico Inferior (há 115 milhões de anos).

O conjunto de afloramentos da Pedreira do Jaspe, que foram, na realidade, duas pedreiras com laborações separadas até ao ano de 1976, aquando da criação do Parque Natural da Arrábida, coloca em evidência diversos aspectos geológicos relacionados com a História da Terra nesta região atlântica.»

Parque Natural da Arrábida – Parque Marinho

«A fauna terrestre na área do Parque apresenta uma assinalável riqueza, com mais de 850 espécies de invertebrados e vertebrados. Nas falésias localizam-se grutas que albergam uma importante fauna cavernícola, incluindo algumas espécies de morcegos ameaçadas, com estatuto de protecção e que aqui se reproduzem e hibernam.

Existem duas espécies únicas de flora, dois endemismos arrabidenses: Convolvulus fernandensii e Euphorbia pedroi que surgem em matagais abertos nos afloramentos rochosos voltados para sul sobre o mar. Ocorrem exclusivamente na Serra da Arrábida três endemismos de fauna, dois coleópteros (gorgulhos-esmeralda) e o caracol Candidula setubalensis, que se encontra na lista vermelha da IUCN.
Ao longo da costa escarpada, os fundos rochosos dão lugar a baías abrigadas, a praias de areia e a grutas marinhas onde vivem mais de mil espécies. Nas arribas e nas falésias nidificam aves e existem fósseis de pegadas de dinossauros. Tais características fazem deste lugar marinho um dos mais ricos a nível europeu.

Por isso, em 1998, foi criado o Parque Marinho, incluído no Parque Natural da Arrábida da Arrábida, onde a vida marinha recupera e o mar enriquece, oferecendo um futuro melhor para a pesca e para o turismo sustentável.»


A Arrábida a todos acolhe. Este Património também é seu. Proteja-o!






sábado, janeiro 11, 2014

Homens excelentes, homens felizes

Por estes dias da morte de Eusébio, lembrei-me desta velha história:

Cleóbis e Bíton
Museu Arqueológico de Delfos 
«Por estas razões, pois, e pelo desejo de ver terras, Sólon saiu do país e foi visitar Amásis ao Egipto e Creso a Sardes. À sua chegada, foi hospedado por Creso no seu palácio. Depois, no terceiro e no quarto dia, por ordem de Creso, os servidores passearam Sólon pelos tesouros e mostraram-lhe toda a riqueza e opulência aí existentes. Depois de ter observado e examinado tudo, quando considerou o momento oportuno, Creso perguntou-lhe: “Hóspede ateniense, até nós chegaram muitas vezes relatos a teu respeito, por causa da tua sabedoria e das tuas viagens como, por amor à sabedoria, tens percorrido toda a Terra, levado pela curiosidade. Vem-me agora o desejo de te perguntar se já vistes alguém que fosse o mais feliz dos homens.” Interrogou-o dessa forma, na esperança de ser ele o mais feliz de todos, mas Sólon, sem qualquer lisonja e com sinceridade, reponde: “ Sim, ó rei, Telo de Atenas”. Surpreendido com a resposta, Creso perguntou com interesse: “Porque julgas que Telo é o mais feliz?” E ele explicou: “Natural de uma cidade próspera, por um lado, teve filhos belos e bons e de todos eles viu nascerem filhos e todos permaneceram com vida; por outro, depois de gozar uma vida próspera, para o nosso meio, teve o mais brilhante termo da vida. Declarada a guerra pelos atenienses contra os seus vizinhos de Elêusis, ele acorreu em auxílio, provocou a fuga dos inimigos e morreu da forma mais gloriosa. Os Atenienses sepultaram-na com exéquias públicas no próprio local em que tombou e tributaram-lhe grandes honras”.


Como Sólon, ao falar das muitas prosperidades de Telo, incitara Creso, este perguntou quem, dentre os homens que ele vira, seria o segundo depois de Telo, imaginando obter de certeza pelo menos o segundo lugar. Mas Sólon respondeu: “Cleóbis e Bíton. Estes de facto, que eram de raça argiva, tinham suficientes meios de subsistência e eram, além disso, dotados de grande força física. Os dois foram igualmente atletas vencedores e deles conta-se ainda a seguinte história. Numa altura em que os Argivos celebravam a festa em honra de Hera, tornava-se absolutamente necessário que a sua mãe fosse levada num carro ao templo, mas os bois não chegaram a tempo do campo. Constrangidos pela falta de tempo, os jovens submeteram-se eles próprios ao jugo, puxaram o carro em que sua mãe se colocara e, numa distância de quarenta e cinco estádios, transportaram-na até ao santuário. Depois de fazerem isto, sob os olhares de toda a assembleia, sobreveio-lhes o melhor termo de vida, e neles mostrou a divindade ser melhor para o homem morrer do que viver. Os Argivos, rodeando os jovens, elogiavam a sua força e as Argivas a mãe que tais filhos teve. Ela, cheia de júbilo pela façanha e pelos elogios, de pé diante da estátua, pediu que a deusa concedesse aos seus filhos Cleóbis e Bíton, que tanto a haviam honrado, o melhor que um homem pode obter. Depois desta prece, uma vez realizados o sacrifício e o banquete, os jovens adormeceram no próprio templo e não se levantaram mais. Foi esse o fim que tiveram. Os Argivos ergueram-lhes estátuas que consagraram em Delfos como homens excelentes que eram.”

Heródoto, Histórias (Livro 1º), Lisboa, Edições 70, 1994, pág. 74 e 75.

Sólon, é claro, foi rapidamente despedido pelo indignado Creso, "sem dele receber qualquer palavra".

Telo de Atenas, Cleóbis e Bíton, eram homens excelentes para os gregos e tiveram o tratamento devido aos homens excelentes: após a morte, foram sepultados com exéquias públicas e ergueram-lhes estátuas consagradas em templos sagrados. 

domingo, janeiro 05, 2014

Eusébio (1942-2014)

Eusébio: um herói, um exemplo.

Partiu.

sexta-feira, janeiro 03, 2014

Os Gregos , de H.D.F. Kitto


«A graça e o encanto são os sinais da arte iónica, da mesma maneira que a força e a beleza o são da arte dórica. Para avaliar este facto, basta comparar a arquitectura iónica com a dórica: a leveza geral do estilo iónico, realçada pelas encantadoras volutas dos seus capitéis, oferece um contraste impressionante.»

Kitto, H.D.F., Os Gregos, 3ª ed., Coimbra, Arménio Amado Editora, 1990. Pág. 143.

***

Excelente obra, a de H.D.F. Kitto sobre os Gregos da época clássica. Custa apenas €6,90, mas vale muito mais. Passa quase despercebida nas estantes das livrarias. Feliz o dia em que a folheei curioso. Foi editada pela primeira vez em 1951 (em Portugal, em 1959), traduzida por José Manuel Coutinho e Castro, e revista pela Exma. Senhora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira.

Equiparo-a, pelo prazer que a sua leitura me suscita, ao Fogo Grego de Oliver Taplin. A terceira edição d’Os Gregos que ainda resiste nas estantes é de 1990, quando se realizou uma tiragem de 3000 exemplares. Questiono-me, como pode uma obra deste jaez não se ter esgotado durante estes 23 anos? Que sorte ter dado com ela.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

A Mensagem do Presidente

Gostei de ouvir a Mensagem de Ano Novo do Presidente da República, mas, perdoem que pergunte: não é a assumpção da necessidade de um “programa cautelar” a prova evidente do falhanço das políticas tomadas até aqui por este Governo, que tem sido tão bem respaldado pelo Presidente?

Julgo que não vale a pena dourar a pílula: a necessidade de um “programa cautelar” é uma prova mais do que evidente do falhanço das políticas governamentais, para não falar do resto – dos elevados níveis de desemprego, da pobreza, das desigualdades sociais, da emigração, do défice orçamental, etc., etc. etc. Faz por isso todo o sentido clamar por mais justiça social e por desenvolvimento (na Mensagem de Ano Novo, o Presidente não se esqueceu de referir estes desígnios). Na verdade, o crescimento económico de nada nos servirá se não for acompanhado por desenvolvimento, ou seja, para ser mais exacto, pela criação de emprego, pela redução da pobreza e pela diminuição das injustas desigualdades sociais.

Além disso, por muito virtuoso que possa ser o “programa cautelar” – parece que é assim que querem que pensemos dele, que é uma coisa virtuosa - a verdade é que a Irlanda o rechaçou.

Serão os irlandeses parvos?


Se vier o “programa cautelar”, o que quer que isso seja, em caso de necessidade, dizem, e se for accionado, adivinhe quem vai pagar?

Passeio pelo Porto, Douro & Gaia XIII


Passeio pelo Porto, Douro & Gaia XII

Passeio pelo Porto, Douro & Gaia XI

Passeio pelo Porto, Douro & Gaia X

Passeio pelo Porto, Douro & Gaia IX


Passeio pelo Porto, Douro & Gaia VIII


Passeio pelo Porto, Douro & Gaia VII


Passeio pelo Porto, Douro & Gaia VI


Passeio pelo Porto, Douro & Gaia V


Passeio pelo Porto, Douro & Gaia IV

Passeio pelo Porto, Douro & Gaia III

Passeio pelo Porto, Douro & Gaia II


Há dias assim, em que nos armamos em turistas japoneses.

Passeio pelo Porto, Douro & Gaia: Jardim do Morro

Hoje, cerca do meio-dia. Início do calcorreio.

A passagem de ano é quando o homem quer

Na verdade, na verdade, a passagem de ano é que é quando o homem quer, não o Natal.

Toda esta alegria alimentada a espumante ou champagne, para não mencionar beberagens mais agrestes, não passa de uma grande ilusão: os dias sucedem-se e hoje é quarta-feira. No entanto, a laboriosa cidade jaz adormecida.

O dia, ou o ano, se quisermos, acordou cinzento e as ruas ainda dormem.

terça-feira, dezembro 31, 2013

Lisboa e Porto

Escrevo da invicta, mui industriosa e livre cidade do Porto. Lisboa fede. Alguns dirão que fede porque há luta. Ainda assim fede, a filha da puta.

Agora ide a correr dizer que enlouqueci.

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quinta-feira, dezembro 26, 2013

A saída de Gaspar, a “irrevogável” demissão de Portas e os seus efeitos nos mercados financeiros.

Diz Fernando Madrinha, na sua coluna no Expresso, que a saída do Governo de Vítor Gaspar e a demissão “irrevogável” de Paulo Portas interromperam a “consistente tendência de queda” dos juros que permitem o acesso aos mercados financeiros. Ora isto não é, pura e simplesmente, verdade. A saída do Governo de Vítor Gaspar não interrompeu a “consistente tendência de queda”, coisíssima nenhuma, por uma razão muito simples: não se registava, à data, nenhuma “consistente tendência de queda”. Este facto é facilmente constatável no gráfico abaixo (fonte: Bloomberg), relativo aos juros a 10 anos.


Como pode se verificar, desde o dia 21 de Maio de 2013 que se registava uma consistente tendência de crescimento dos juros da dívida a 10 anos (no dia 21 de Maio, as taxas de juro foram as mais baixas do ano, cerca de 5,23%, e a partir daí inflectiram, começando a aumentar de forma sustentada; quando Gaspar sai, a 1 de Julho, a taxa de juro estava a 6,39%). E se é verdade que as taxas de juro diminuíram entre 25 de Junho e 1 de Julho, tal movimento não é suficientemente amplo para constituir uma tendência “sustentada”. Pelo contrário, o movimento que se processa entre 22 de Maio e 3 de Julho de 2013, sendo mais amplo, é o que caracteriza a tendência que então se verificava.

Em suma, quando Gaspar sai, a coisa já tinha dado para o torto.

Gosto de ler o que escreve Fernando Madrinha, mas discordo dele neste ponto. Atribui a Gaspar uma importância que ele não tem. São os mercados financeiros que determinam a saída de Gaspar. Não é Gaspar que determina a evolução sustentada dos mercados financeiros. Antes fosse.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Natal 2013

Jan van Eyck, Madona em Igreja, 1425-1430

Um feliz Natal a todos os que por aqui passaram e passarão. E também aos que passam.

O nascimento de Jesus, esse grande revolucionário, não será aqui esquecido.

Não consta que tivesse deixado qualquer escrito (para quê?). Consta que o que escrevia fugazmente, por vezes uns rabiscos no chão enquanto reflectia, como naquele dia em que disse: “Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra”, era logo apagado. Ainda hoje nos interrogamos sobre o que terá escrito ou desenhado no chão naquele dia.

Feliz Natal

sábado, dezembro 07, 2013

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Será recordado!


Será recordado!

Ainda que os séculos nos varram a todos.

Um grande Homem morreu ontem.

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domingo, dezembro 01, 2013

Do curtíssimo prazo

Ao gerirem os nossos destinos por curtíssimos horizontes temporais, os “governantes” abdicaram do sonho utópico, para eles sempre utópico, sem lugar neste mundo, de um dia as comunidades que “regem” se libertarem dos fardos quotidianos que as oprimem – essa era a busca pela verdadeira liberdade e civilização! Movem-se agora por curtos ciclos eleitorais e curtíssimos ciclos financeiros – as cotações nos mercados internacionais, os ratings, e, entre outras, as taxas de juro da dívida pública a 10 anos, mais precisamente, e agora em inglês técnico, “The Portuguese Government Bonds 10YR Note”, que pode ser vista aqui (e que no momento se encontram em tendência decrescente, em torno dos 6%, daí a temporária euforia de alguns), oscilando diariamente, ora para cima, ora para baixo, como uma espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças, e é só isto que lhes interessa, porque ironicamente, no longo prazo, estaremos todos mortos. Para cúmulo, é para eles agora o curtíssimo prazo que importa, e por isso não admira que alguns destes iluminados tenham querido difundir a ideia de que a história não importa e pouco influi na progressão das sociedades pós-modernas e nos nossos destinos. Assim, uma nação com mais de 800 anos de história é vendida a retalho no mercado internacional por meia pataca. Os traidores estão entre nós, sempre estiveram, que gente a defenestrar sempre houve.

Meus caros, eles já não nos representam. Qual democracia representativa, qual quê? Eles representam os credores internacionais e outros interesses que não os nossos. Nós só lhes interessamos na medida em que, estamos convocados para lhes pagar as dívidas e os juros usurários. O melhor, meus amigos, é votar com os pés, partir, e ir contribuir para outra freguesia (contribuir, na verdadeira acepção da palavra: como contribuinte!). E diga-se de passagem, muitos já o fizeram.

Tenho dito.

Epílogo

«Hoje, a classe política vive atascada nos problemas e nas soluções de curto prazo, segundo a temporalidade própria dos ciclos eleitorais, nos países centrais, ou dos golpes e contra-golpes, nos países periféricos. Por outro lado, uma parte significativa da população nos países centrais vive dominada pela temporalidade cada vez mais curta e obsolescente do consumo, enquanto uma grande maioria da população dos países periféricos vive dominada pelo prazo imediato e pela urgência da sobrevivência diária.»

Boaventura de Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª ed., Almedina, 2013, Pág. 277


Hoje existe ainda outra temporalidade que Boaventura de Sousa Santos não aborda, talvez porque no momento em que realizou a sua análise essa tendência ainda não se tinha materializado claramente aos seus olhos prescientes - é a temporalidade do curtíssimo prazo que agora determina as decisões dos governos: o tempo dos mercados financeiros, o tempo dos credores. 

sábado, novembro 30, 2013

O mar português


Soares acabou com a Marinha Mercante, Cavaco acabou com grande parte da frota de pesca nacional, Passos acaba com os estaleiros de Viana do Castelo e agora a Marinha de Guerra está sem Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA).

Isto no país dos Descobrimentos, pioneiro da globalização, que possui a 3ª maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia e a 11ª do mundo.

Há algo de extremamente errado aqui.

Portugal sem o mar não é Portugal. Será que quem nos diz governar não compreende isto.

Mas que IIIª República é esta?

***

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Fernando pessoa


Portugal chora, já não os seus náufragos perdidos no mar, mas o fim do seu mar. E o fim do seu mar é o seu fim.

É Portugal que naufraga.

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