sábado, junho 12, 2010

Atingir Calecute

Alemão gosta de trabalhar, japonês gosta de trabalhar: coisa extraordinária! Tenho uma grande admiração por eles como os artistas do trabalho. Mas o que eu quero, então, é que eles se encarreguem disso e deixem os portugueses, os africanos, os brasileiros, toda a gente que acha que há coisas na vida muito mais interessantes do que trabalhar, que eles fabriquem aquilo que é necessário para que nós possamos, se quisermos, nadar, mas sobretudo, se pudermos boiar, acho eu que será mais excelente que tudo. Não prego a virtude de Confúcio, senão para se atingir Calecute.

Agostinho da Silva, Agostinho da Silva - Ele Próprio, Zéfiro, 2006, pág. 107-108

Os cafres da Europa


É o que nós somos. Os brancos pretos da Europa, ou os brancos mais pretos da Europa. Por isso encaixamos tão bem em África e tão mal na Europa. Aliás, encaixamos bem em qualquer lado e até a Europa se fez connosco. Talvez sejamos os menos europeus dos europeus, conjuntamente com nuestros hermanos. Para cá dos Pirinéus respira-se outro ar. Perguntem aos portugueses da África do Sul. Ou perguntem aos pretos portugueses da Europa.
Trabalhamos como pretos, sofremos como pretos e vivemos como pretos. E depois? Os pretos são homens como nós e nós somos pretos.
Cafres da Europa dizia o Padre António Vieira. Pois sim, com orgulho!

quinta-feira, junho 10, 2010

domingo, junho 06, 2010

Cumpriram!

Imagem publicada no Ambio. Aqui.


Pelicano coberto de petróleo, fotografado no dia 4 de Junho na costa da Louisiana.
AP Photo Riedel / Charlie

Cumpriram!

sábado, junho 05, 2010

A luminosa poesia bem lá no alto


É bom vê-la ali. Melhor ainda é ouvi-la e lê-la, cantá-la e declamá-la.

Parabéns Torquato da Luz pelo luminoso Espelho Íntimo.

A liberdade enquanto fatalidade

William Blake, The Ancient of Days, 1794

E sabem vocês a que nos estamos inclinando por aqui, se calhar por mais directo contacto com o nosso Espinosa? A que no mundo tudo é fatal, inclusive a liberdade: há quem nasça com ela e quem nasça com a sua negativa, devendo-se sempre, em qualquer caso, supor que se nasceu com liberdade, estando mais próximo do divino aqueles a quem a liberdade tiver sido dom do fatal: ora digam-me, não é a liberdade de Deus uma fatalidade? Será que pode ele, ao mesmo tempo que todo-poderoso, deixar de ser livre?

Agostinho da Silva, Carta Vária, 3ª edição, Relógio D’Água, 1990, pág. 66-67

Afinal, nem o Omnipotente, o Absoluto, pode deixar de ser livre. Afinal, nem é tão omnipotente assim. Não pode deixar de ser livre, mesmo que o queira. Não pode ser mortal. Por isso o Destino é também para Ele uma fatalidade como o era para os antigos deuses. Podiam atrasar o seu curso, mas não podiam impedi-lo de fluir.

quarta-feira, junho 02, 2010

Minguando


Mapa do geógrafo João Ferrão, fanado daqui.

E o texto só não o fano por pudor, que melhor não faria.

É razão para dizer: Portugal é paisagem e o resto é Lisboa, ou então, como diz o professor Maltez no seu blogue: as nossas fronteiras recuaram para Setúbal. Apetece dizer, ironicamente: são as "Novas Fronteiras"!

E assim vai o mundo.

O tempo vai passando e Portugal minguando.

terça-feira, junho 01, 2010

Empédocles

Reinício da actividade do vulcão Tungurahua no Equador (Rodrigo Buendia / AFP).


Vamos, escuta como o fogo ao separar-se deu origem aos rebentos nocturnos dos homens e das lastimosas mulheres: este meu relato não carece de finalidade, nem de experiência. Primeiro, surgiram da terra formas em bruto, com uma porção de água e de calor. A estas, o fogo, desejoso de ir para junto do seu semelhante, as mandou para cima, sem apresentarem ainda a forma atraente dos membros ou voz, que é a parte inerente ao homem.
Empédocles

citado por Simplício, fragmento 62 in Phys. 381, 31

G.S.Kirk e tal. (1983), Os Filósofos Pré-Socráticos, 6ª Ed., Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

segunda-feira, maio 31, 2010

El Arco de Elvira (Granada)



Gacela del Mercado Matutino


Por el arco de Elvira
quiero verte pasar,
para saber tu nombre
y ponerme a llorar.


¿Qué luna gris de las nueve
te desangró la mejilla?
¿Quién recoge tu semilla
de llamarada en la nieve?
¿Qué alfiler de cactus breve
asesina tu cristal?...


Por el arco de Elvira
voy a verte pasar,
para beber tus ojos
y ponerme a llorar.


¿Qué voz para mi castigo
levantas por el mercado!
¿Qué clavel enajenado
en los montones de trigo!
¡Qué lejos estoy contigo,
qué cerca cuando te vas!

Por el arco de Elvira
voy a verte pasar
para sentir tus muslos
y ponerme a llorar.


Garcia Lorca‎

in Martin Sorrel, The selected poems of Federico García Lorca‎, Oxford United Press, 2007

Etiquetas