sábado, dezembro 16, 2006

A noite de Vincent Van Gogh


















Vincent Van Gogh , A Noite Estrelada (1889)

A noite estrelada de Van Gogh é a noite assustadora. Algo se passa de estranho no céu ondulante como o mar. As estrelas parecem buracos negros no céu, aprisionando a luz em seu torno. A vila está recolhida, talvez com medo do fim do mundo, talvez simplesmente adormecida.
Definitivamente, já não se trata da antiga noite dos poetas. O elemento humano está presente e o elemento natural está alterado, distorcido. É a noite do princípio da Era Industrial. Era que deu início ao maior esforço de domínio da Natureza e transformação da superfície da Terra pelo Homem.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

A antiga noite dos poetas

Dormem os cumes das montanhas e as ravinas,
os promontórios e as torrentes,
a floresta e quantos animais cria a terra negra,
as feras das montanhas e a raça das abelhas,
e os monstros nos abismos do purpúreo mar;
dormem também as tribos das aves,
com as suas grandes asas.

Álcman (Séc. VII a. C), in Hélade, Edições Asa, pág. 128.

Tradução da Excelentíssima Professora Maria Helena da Rocha Pereira. Grande Divulgadora da Cultura Clássica.

Álcman foi poeta nascido em Sardes, mas naturalizou-se espartano.

A noite de Álcman está repleta de elementos naturais e parece pertencer a um mundo em vias de extinção. No mundo actual, subjugado pelo elemento humano, cada vez mais omnipresente à superfície da Terra, já não dormem as montanhas, e os monstros dos abismos já não povoam a imaginação dos homens.

domingo, dezembro 10, 2006

Nas margens suburbanas

Viver no subúrbio é viver à margem, sem ser necessariamente um marginal. No subúrbio vive-se à margem da cidade e à margem do campo, mas nunca, isso nunca, à margem da vida, nem à margem do mundo. O subúrbio agora é um lugar de liberdade, mais do que no centro da cidade, porque pertencer ao subúrbio é não pertencer a lugar nenhum e ao mesmo tempo, pertencer ao mundo inteiro. Vive-se na franja, entre a cidade e o campo, entre o país e o mundo e no meio da juventude empreendedora. A capital essa, envelhece e torna-se conservadora, porque sente o futuro escapar-lhe.
O subúrbio emancipa-se, portanto, gradualmente da cidade centro. Já lá vão os tempos em que se ia de visita à velha capital, centro do Império Ultramarino.
Agora é no subúrbio que a vida se agita e fervilha. Na verdade, o subúrbio está cada vez mais independente da cidade centro e quase já não precisa dela.
E a velha "nomenklatura" dos intelectuais da vetusta urbe ainda se julga no centro do mundo, quando mais não é do que uma espécie de tainhas que se acardumam e engordam frente às cloacas do Tejo. As suas memórias, revelam-se quando falam: sempre e ainda o Estado Novo. Mas essas vivências já não pertencem a esta nova geração ainda que nos queiram ancorar àqueles outros tempos. Parece que já não pertencem ao nosso mundo nem ao nosso tempo. Vivem já das suas memórias. Não vivem já do seu futuro. Mas isso são outras histórias.

sábado, dezembro 09, 2006

Os últimos operários do século (2)

Arrastam-se indolentes pela alba,
num mar de sirenes e ventos.
Arrastam o sono e os sonhos,
perdidos logo que o dia avança,
quando os transportes públicos avançam,
quando a vida avança.

Ao som de sirenes indolentes,
clamores fabris, chamadas ao trabalho,
aos gritos, os suburbanos...
avançam e acordam!

Os últimos operários do século.

Oiço o teu grito, manhã!
Oiço o teu grito.
Um grito estridente
de sirenes e ventos.
Anúncios distintos
de novos dias laborais.
Já arrastam o sono pela rua,
os últimos operários do século.

sábado, outubro 21, 2006

Quem fala a seu tempo...

Quem fala a seu tempo, limitando a poucas palavras o espaço de muitas, está menos atreito à censura humana.

Píndaro (Séc. VI-V a.C.), 1ª Ode Pítica

segunda-feira, outubro 02, 2006

A Crise na Educação

O amor dos filhos pelos seus pais tal como a ligação dos homens aos deuses é paralelo ao laço que nos une ao bem e ao que nos é superior. Na verdade, fizeram-lhes o melhor bem que lhes poderiam ter feito, são responsáveis pela sua existência e pela sua criação, e depois pela sua educação.
Aristóteles, Ética a Nicómaco, livro VIII, XII. (Séc. IV a.C.)
Já se disse anteriormente que a grande invenção do século XIX, a escola pública, tinha perdido a capacidade para aproximar as crianças da leitura. Os métodos utilizados para esse propósito, a absurda formação dos professores, a aversão ao trabalho duro, o amor pelos aparelhos electrónicos e os esforços para reproduzir e transformar o mundo exterior ditaram a ruína da educação em todo o Ocidente.
Barzun, Jacques, Da Alvorada à Decadência, 2000
Da dissolução e destruição das normas advém a debilidade, a falta de segurança e até a impossibilidade absoluta de qualquer acção educativa.
Jaeger, Werner, Paidéia, 1936

A actual crise na educação dos jovens reside em primeiro lugar na falência das instituições incumbidas desse papel: a família, a escola, o Estado (e poderemos incluir ainda o Mercado).
Aristóteles, o fundador do Liceu, já há 2400 anos atrás, reconhecia a importância da família, não só na criação dos filhos, mas também na sua educação. Ora a família tradicional desestruturou-se. Já não é o que era. Na maior parte dos casos, ambos os pais trabalham ou não estão presentes, isto quando a família não é monoparental, ou seja, só suportada por um dos pais. A tarefa de educar os filhos por parte da actual família, tornou-se portanto avassaladora. Confia-se agora o papel da educação das crianças a outras instituições, como se estas se pudessem substituir à família. A educação falha porque um dos seus pilares sucumbe, arrastando tudo o resto. Falha a educação, empobrece-se a cultura, dissolvem-se e degradam-se as regras, as normas e os valores. Torna-se impossível ou muito difícil levar a cabo qualquer acção educativa. Está aberto o ciclo da decadência civilizacional.

domingo, outubro 01, 2006

Incursão na Andaluzia. 120 Km/h.

Fervilham os mares e os pomares de amores.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

O carro galga e avança pelas estradas de Espanha.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

O teu corpo, num arrepio, mergulha no mar.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

No oceano do mundo, que não tem fundo.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

Veleiros trazem especiarias,

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

Ouro, prata e marroquinarias.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha!

sábado, setembro 30, 2006

Cada homem, cada Colombo

Cada Colombo tem a sua América,

Sonhada mas não revelada,

Intocada.

Cada homem tem o seu sonho...

Continentes inteiros por alcançar.



Cristóvão Colombo (1451?-1506)

quinta-feira, setembro 28, 2006

Ulisses


O mundo em que se move, é todo o mundo.

O mar para onde alonga o olhar, é todo o mar.

A rota em que navega, são todas as rotas.

Ulísses é a glória do mundo,

A pátria que o amou.

Imorredouro Sul

Enquanto o Bóreas enfuna as velas impelindo a nau para o Sul,
Imorredouro Sul,
As ondas acariciam o casco e a proa.

O mar, afinal morada de todos os deuses,
É também o meu lar.

sábado, setembro 16, 2006

Tudo flui

Todos os dias há um Sol novo.

Heraclito
( frg. 6 Diels-Kranz)

domingo, setembro 10, 2006

A Roda da Fortuna


Um só dia faz baixar ou erguer de novo tudo o que é humano.
Sófocles, Ájax












terça-feira, agosto 15, 2006

Trabalho

Trabalho não é vileza, vileza é não trabalhar.

Hesíodo

sábado, agosto 05, 2006

Nascer é morrer.


Nascer é morrer.

Assim falava o velho marnoto, meu avô algarvio, encerrando em si uma cultura mediterrânica milenar. Uma cultura que sobrevive através dos tempos e do mar, transportada pelo Euro vindo de longe.

Em três palavras se resume o despertar e o crepúsculo da existência. Nascer é morrer.

Assim é! Desde o momento em que nascemos, somos marcados para o sofrimento. Viver é, acima de tudo, sofrer e morrer. Talvez por essa razão, quando questionado por Hesíodo, num certame, acerca de qual a melhor coisa para os mortais, Homero, o Poeta, respondeu:

Em primeiro lugar, o melhor para os mortais que habitam sobre a terra é não nascer; mas tendo nascido, ultrapassar sem demora os portões do Hades.
Certamen Homeri et Hesiodi

sexta-feira, agosto 04, 2006

Guerrilheiros ou Terroristas?

Guerrilheiros ou terroristas? Resistentes? Combatentes?

Atenção às palavras. Elas marcam as posições no espectro mediático. Denunciam as pendências. Revelam tendências. As guerras nunca são neutras. Há sempre outra guerra por detrás das guerras. A guerra de palavras e das palavras.

É por esta guerra que existem outras guerras.

O carrasco e a vítima

O carrasco tortura a sua vítima e condena-se desse modo a ser uma eterna vítima.

George Steiner, Quatro Entrevistas com George Steiner (por Ramin Jahanbegloo)

Insolentes os que fazem a guerra

«Creso, quem dentre os homens te convenceu a invadir o meu país e a fazer de ti um inimigo meu, em vez de um amigo?» E ele respondeu: «Ó rei, eu fiz isto para tua fortuna e meu infortúnio. O culpado disto foi o deus dos Helenos, que me induziu a entrar em guerra. Pois ninguém é tão insolente que a prefira à paz. Nesta os filhos enterram os pais, mas naquela são os pais que enterram os filhos. Mas talvez fosse grato a um deus que as coisas assim acontecessem».
(resposta de Ciro a Creso)
Heródoto, Histórias, livro 1º
Insolentes os que fazem a guerra, induzidos pelos deuses e pelas irracionais paixões dos homens. Acabam por tornar-se vítimas das suas acções, porém, não sem antes vitimizarem os inocentes.

domingo, julho 16, 2006

Matar Moscas com um Martelo

Neste preciso momento, os israelitas estão a tentar "matar moscas com um martelo" e os resultados estão à vista.

As "moscas" escapam e o resto fica destruído. Os russos fizeram uma coisa parecida na Tchechénia, mas a uma escala maior. É o resultado da desproporção de meios entre as partes. Trata-se de um acto de desespero e de fraqueza (ao contrário do que parece). E é também a prova de que os ataques cirúrgicos e as bombas inteligentes são coisa que não existe.

O pior de tudo isto são as vítimas inocentes.

quarta-feira, julho 05, 2006

Choro de Derrota


Desgraçada consolação para as desgraças dos desgraçados.

Ésquilo, Persas

sábado, julho 01, 2006

Alegria

Sempre que haja alegria entre todo o povo
e os convivas, no palácio, ouçam o aedo,
sentados em fila, e, ao seu lado, as mesas transbordem
de pão e de carne, e, tirando do cráter o vinho,
o escanção o sirva, vertendo-o nas taças:
parece-me que tal será o mais agradável para o meu coração.

Homero, Odisseia, 9.6-11

segunda-feira, junho 19, 2006

Os Árabes



Não há como os Árabes para respeitar compromissos.

Heródoto, Histórias, livro 3º, Edições 70, pág. 46.

Há 2500 anos atrás Heródoto fixava um traço característico dos Árabes que ainda hoje persiste.

Por os Árabes honrarem os seus compromissos, são exigentes com quem negoceiam. E quem não honra os compromissos para com eles, não pode depois esperar vantagens.

Durante o século XX quem mais negociou com os Árabes e não honrou os compromissos assumidos?

Os Árabes são negociantes exímios tendo apurado essa qualidade desde eras ancestrais, entre si, na sua relação com povos vizinhos e com povos distantes.

A sua relação com o Ocidente (e com o mundo), quando não era de conflito, sempre se pautou pela negociação. Sempre se tratou de uma relação negociada, de uma convivência negociada.

É o menosprezo por esta realidade que actualmente compromete a relação entre Árabes e Ocidentais.

sexta-feira, junho 16, 2006

Periclitâncias

Montesinho
(Equilíbrio Periclitante de um Granito)
Prescrutas a eternidade...e o abismo,
Enquanto aguardas a brisa que te derrubará.
Ou simplesmente, desafias o destino.
Esse destino que te quedará no fundo dos vales.
Mas enquanto o destino não se cumpre, enfrentas o Vento,
De face erguida ao Sol.

quinta-feira, junho 15, 2006

As "Novas" Políticas "Socialistas"

Acreditam os novos governantes que as empresas e a sociedade civil (o voluntarismo de certas instituições não governamentais) é que vão resolver os problemas sociais, como o desemprego, a fome, a iliteracia, a pobreza... Isto para justificar a retrocesso do Estado perante tais desígnios. O Estado, defendem, deve assumir apenas um papel regulador, intervindo o menos possível na economia e na sociedade. Menos Estado, melhor Estado, dizem. Emagrecer o Estado impõe-se, afirmam.

Como se a redistribuição da riqueza conduzida pelo Mercado e não pelo Estado, desse azo a uma justa redistribuição.

O Estado demite-se e curva-se perante as empresas e esquece...

Esquece que a vocação primeira de qualquer empresa é a geração de lucro e não a resolução de problemas sociais. E se algumas empresas desenvolvem algumas acções visando a ajuda aos pobres, como campanhas de recolha de fundos associadas à venda dos seus produtos ou serviços, tal tem por base a sua promoção aos olhos dos consumidores, e não um genuíno desejo de resolver problemas sociais.

Por outro lado, é sabido que aos territórios onde o Estado não chega, ou por impotência ou por falta de vontade ou de capacidade, é a sociedade civil que lá tem de se desenrascar...substituindo-se ao papel que o Estado deveria ter.

As ONG's e a sociedade civil têm um papel importante na resolução dos problemas sociais mas o Estado tem o papel mais importante no que cabe à resolução desses problemas. Não deve por isso escudar-se na acção das ONG's e da sociedade civil (e das empresas) para justificar a sua demissão de uma tarefa que lhe cabe: o da redistribuição da riqueza e da resolução dos problemas sociais.

Por estas razões as "novas" políticas "socialistas", de socialista não têm nada. E nem sequer são novas.

domingo, maio 28, 2006

Já se pressente o Verão.

Já se pressente o Verão.

Aproxima-se a largas passadas.
Já o mar se amansou e crepitam as fogueiras,
Nas divinas praias douradas.

Já se pressente o Verão.

Já as velas e os mastros sulcam os mares,
E as sereias cantam e as ninfas dançam,
E por todo o lado ecoam cantares,

Ao findar dos dias que as estrelas alcançam.

sábado, maio 06, 2006

A Partida de um Mestre

John Kenneth Galbraith (1908-2006)

Despede-se mais um Mestre. Simplesmente brilhante.
Num tempo em que vingam as vozes daqueles que pugnam por uma economia selvagem, neoliberal, descomprometida com o ser humano, que reduzem ao número, conducente ao puro darwinismo social, a voz do Economista Galbraith, apontava noutras direcções. Infelizmente, teve de partir.
Disse Galbraith uma vez:
"A grande dialéctica do nosso tempo não é, como antigamente se supunha e alguns ainda supõem, entre o capital e o trabalho, mas entre a empresa e o Estado."

Galbraith, A Economia Política, Publicações Europa-América, 1989, pág. 232.
E assim é.

segunda-feira, abril 17, 2006

Críse Petrolífera à Vista






















Paulatinamente o preço do petróleo vai assumindo valores cada vez mais elevados, arriscando paralisar a breve prazo a economia das nações mais desenvolvidas e do mundo inteiro. Ao contrário do que se anuncia, o aumento do preço do petróleo para os actuais valores não se deve a factores conjunturais, como as afirmações do presidente do Irão ou a política nuclear desta nação, as tempestades no Golfo do México, a política da Venezuela, a crise numa petrolífera russa ou a guerra no Iraque.

O aumento do preço do petróleo é alimentado pelo crescimento económico de países como a China ou a Índia, aumentando assim, de forma sustentada, a procura de petróleo face a uma oferta que tende a ser progressivamente mais limitada. Por outro lado, os países industrializados não diversificaram as suas fontes de energia tanto quanto deviam, continuando a depender do ouro negro e a consumir quantidades elevadas deste recurso.

Quando o Brent estava a 25 dólares o barril, ninguém então diria que chegaríamos rapidamente aos 70 dólares o barril. Em breve virá o dia em que os 100 dólares serão ultrapassados. A economia mundial está à beira de uma crise que poderá ter consequências tão ou mais nefastas que a crise económica de 1929. É uma questão de tempo, se nada entretanto for feito.

domingo, março 19, 2006

Barricadas em Paris



Há quem desvalorize a contestação nas ruas de Paris, tratando-a como se fosse uma réplica dos movimentos de Maio de 1968, e portanto como se fosse uma farsa (e não um drama). Dizem que os jovens hoje são conservadores e pragmáticos, quando em Maio de 68 eram idealistas. Alguns falam com saudade de Maio de 1968. Aquilo é que era contestação. Agora não.

Maio de 1968 foi há 38 anos. É história. No século XXI as preocupações dos jovens franceses passam pelo seu futuro, e o seu futuro é o da França.

Maio de 68 não foi a mãe de todas as contestações, como alguns nos querem fazer crer, e talvez a actual tenha tanto a haver com a de 1968, como essa tem a haver com a de 1871 .

É longa a tradição das barricadas de Paris (e das manifestações). Maio de 68 não foi a primeira, nem sequer a mais importante. A actual por certo não será a última.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006


Na vida do homem, a duração é um instante; a substância, fluente; a sensação, embotada; o composto de todo o corpo, pronto a apodrecer; a alma, um turbilhão; o destino, um enigma; a fama, uma vaga opinião. Em resumo, tudo o que respeita ao corpo, um rio; e a alma, sonho e fumo; a vida, uma guerra, um exílio no estrangeiro; a fama póstuma, o esquecimento. Que pode então guiar-nos? Única e exclusivamente a filosofia.

Marco Aurélio, Pensamentos

domingo, fevereiro 19, 2006

Serão os Americanos, os Romanos em ascensão, e os Europeus, os Gregos em decadência?

A América está feita com a sobra da Europa.


Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

Alguns carpem o fim duma Europa impotente, presa nos seus próprios dilemas, paralisada na acção face aos desafios que o mundo lhe coloca e falam duma América activa, o braço forte do Ocidente, como se a Europa fosse uma Grécia decadente e a América uma Roma ascendente. Trata-se de uma falsa ideia. A união dos povos da Europa é coisa inaudita e poderosa. O desejo de adesão à União Europeia, por parte de Estados europeus e até extra-europeus é uma manifestação da força do projecto europeu. Para reforçar o seu papel no mundo, a Europa só tem de trilhar o seu próprio caminho, não contra os americanos, nem contra ninguém. Trata-se de um novo caminho. Um caminho nunca trilhado, repleto de esperança e de futuro. Pensar na União Europeia à luz de um modelo do tipo Estados Unidos da Europa, como se pensou no início, quando se criou a CEE, é um erro crasso. O modelo a seguir é novo, trata-se de uma união de povos distintos e de diferentes nações e não de estados distintos numa só nação.

sábado, fevereiro 18, 2006

A felicidade de uma alegria interior e sublime está reservada àquele que opõe a sua inexorável personalidade aos orgulhosos deuses e comodoros deste mundo.

Melville, Moby Dick, Relógio d’ Água Editores, Lda. , Pág. 74.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Deus, o livre arbítrio e os condutores de homens

Acontece porém, que uma das marcas essenciais do homem está, com todos os males que tal possa acarretar, na sua possibilidade de se opor, de resistir a Deus, e eis um ponto em que deviam meditar todos os que pretendem conduzir homens aos seus fins deles, não dos próprios homens; mas também é verdade que esses, por seu turno, estão resistindo a Deus. O Português podia ter resistido ao apelo do longe, Portugal podia ter-se recusado à acção.

Agostinho da Silva, Reflexão, Guimarães Editores, Colecção Filosofia & Ensaios, 1996, pág. 36
Ao recusar-se à acção, os portugueses estariam a opor resistência ao Eterno, mas o apelo do Eterno foi mais forte, e reflectiu-se na imensidão do mar, vindo de todos os azimutes, através dos oceanos infinitos.

domingo, fevereiro 12, 2006

A paz e a ausência de conflitos

Toda a vida é a luta, o esforço por ser ela mesma.

Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas


A paz não é meramente a ausência de conflitos, é algo mais. A verdadeira paz não é passiva é activa. A paz envolve um esforço constante das sociedades para mantê-la. A paz, por vezes, não se consegue sem o confronto. Pax romana. Quando os Romanos negligenciaram a sua paz, a paz acabou para os Romanos. Os Romanos acabaram. Às vezes é preciso lutar para conquistar a paz. Esta é a dura realidade. A paz está longe de ser coisa para pacifistas.
O actual renascimento fundamentalista deve-se, em parte, ao sentimento de que os valores liberais do Ocidente representam uma ameaça para as sociedades islâmicas tradicionais.


Fukuyama, Francis, O Fim da História e o Último Homem, Lisboa, Gradiva, 1999, pág.65.

sábado, fevereiro 11, 2006

O Fim da História e o Choque de Civilizações

As guerras entre clãs, grupos étnicos, comunidades religiosas e nações têm sido prevalecentes em todas as épocas e civilizações porque têm as suas raízes nas identidades dos povos.

Huntington, Samuel, O Choque das Civilizações, Gradiva, 1999, pág. 296.

As duas teses surgidas no final do século XX parecem encerrar uma contradição entre si porque a marca da história tem sido o confronto de civilizações. A Bíblia está repleta de confrontos civilizacionais e Heródoto há cerca de 2500 anos atrás já narrava o choque de civilizações entre o Egipto e a Mesopotâmia, entre Gregos e Fenícios e desde então os confrontos sucederam-se: Gregos e Persas, Romanos e Gregos, Romanos e Cartagineses, Ocidentais e Muçulmanos, Ocidentais e Incas, Ocidentais e Astecas, Chinenses e Japoneses e por aí fora. Por isso, qual é a novidade se actualmente, numa era em que todas a civilizações tem conhecimento umas das outras, existem atritos, choques e conflitos. É a história. E a história continua...

segunda-feira, fevereiro 06, 2006



Vejo as lágrimas no teu rosto, mais amargas que o fel.
A farda que transportas na tua retirada, vai desmazelada.
O fim desse império efémero...
O futuro incerto no teu caminho...
Vai livre miúdo.
Nunca foste um soldado desse maldito Reich.
Foste um miúdo fardado,
que queriam fazer soldado.

domingo, fevereiro 05, 2006

Quando as pessoas aceitam a futilidade e o absurdo como coisas normais, a cultura está decadente.

Barzun, Da Alvorada à Decadência, Gradiva, pág. 30.

O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade, de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. Como não é possível converter em sã normalidade o que na sua essência é criminoso ou anormal, o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido, fazendo-se totalmente homogéneo com o crime ou a irregularidade que arrasta.

Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

«Deveremos continuar a fechar os olhos? Será ético prosseguirmos, como se nada de preocupante se estivesse a passar? Até quando é legítimo fingirmos que desconhecemos os problemas?»

[Questões de Daniel Sampaio, Pública de 28 de Janeiro, a propósito dos adolescentes portugueses que manifestam comportamentos de risco.]

sábado, fevereiro 04, 2006

Tolerância

Tolerância?! Sim, com certeza.

Mas nas nossas sociedades democráticas tolerantes, demasiado tolerantes, não nos arriscamos a tolerar o intolerável?

Até a tolerância tem limites. E a intolerância também os tem.

domingo, janeiro 29, 2006

Inveja dos deuses, inveja dos homens

Enquanto esteve triste, Ílion defendeu-se de armas na mão; num dia de alegria introduziu na cidade um cavalo prenhe de guerreiros .
Ovídio, A Arte de Amar

O estado de felicidade e a despreocupação associada, tornam-nos desatentos aos maiores perigos. A frase acima é uma alusão à tomada de Ílion pelos Aqueus. Ovídio aplica-a ao contexto da escolha do momento correcto para abordar uma dama – quando ela estiver mais feliz. Mas a riqueza da mensagem da frase é muito mais vasta.

Os antigos gregos acreditavam que a felicidade demasiado prolongada, num homem, poderia motivar a inveja dos deuses, e por consequência, sobre esse homem poderia recair uma desgraça resultante da acção invejosa dos deuses.

Tudo isto se relaciona com a temperança, uma das quatro virtudes cardeais. Até a felicidade no homem não deve manifestar-se excessivamente efusiva e duradoura, de modo a não suscitar a inveja, quer dos deuses, quer dos homens.

Quando os deuses entram nisto, tal significa, que nem no seu íntimo o homem deve estar sempre feliz (porque os deuses conhecem o íntimo dos homens, e dessa forma a sua inveja pode ser desencadeada com as funestas consequências). Mas os estados de alma estão sempre presentes nos actos dos homens, em todos os actos, nem que seja de uma forma quase imperceptível, ainda que o tentemos ocultar.

Mas se nem os deuses podem escapar à inveja da felicidade humana, o que não sentirão os homens relativamente àqueles que a sentem de uma forma aberta e prevalecente.

Ai daquele que é feliz, logo sobre ele recairão os olhares e as manifestações mais invejosas dos demais. A inveja dos bens materiais dos outros é mesquinha, mas a inveja de um estado de alma é terrível. A inveja é sempre uma das piores doenças da alma, senão a pior, porque é filha da cobiça e pode ser mãe da loucura. A inveja está para a alma como a preguiça para o corpo.

Porém sendo tão humanas e naturais, a preguiça e a inveja talvez se possam tolerar se obedecerem à virtude da temperança, ou seja, se não se revelarem excessivas ou não virem dar origem aos males que referi. O importante é não nos deixarmos tomar pelos nossos sentimentos ao ponto de perdermos a razão, quer esses sentimentos sejam de inveja ou de alegria. Afinal, não foi isso que deitou Ílion à perdição?

Esquerda, direita, volver!

Ser de esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas de hemiplegia moral.

Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

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