quinta-feira, junho 07, 2018

O ciúme


O ciúme é uma adaptação evolutiva.
Resumidamente, isto explica não só os milhões de triângulos amorosos e os milhares de milhões de lágrimas derramadas por eles ao longo da História humana, mas também muita da literatura mundial. Apesar de Tolstoi insistir que cada família infeliz é infeliz à sua maneira, parece-me que, na verdade, existem apenas três tipos de armas nestas batalhas. A primeira é a vergonha (ou, mais friamente, o preço da reputação): vejam, diz ao mundo o parceiro traído, o que o canalha/a cabra fez depois de tudo o que eu fiz por ele/ela. Uma segunda ferramenta é a violência, com que os maridos estão mais bem equipados para a exercer sobre as mulheres, embora uma mulher desprezada possa ser capaz de pedir a um homem seu familiar que desfaça o patife do seu marido deixando-lhe só um fôlego de vida, ou um marido enganado pode atacar a adúltera. E por fim, temos a economia: se um dos parceiros domina os recursos vitais, está numa posição forte para regatear sexo.


Ian Morris, Caçadores, Camponeses e Combustíveis Fósseis, Bertrand Editora, 2017, pp. 317-318

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O ciúme é uma arma de destruição maciça.

domingo, maio 27, 2018

A primeira grande distopia para a era da modernidade líquida

A Possibilidade de Uma Ilha, de Houellebecq é a primeira grande distopia, até agora sem rival, destinada e feita sob medida para a era da modernidade líquida, desregulamentada, obcecada pelo consumo e individualizada.

Zygmunt Bauman


in Bauman, Zygmunt; Donskis, Leonidas, Cegueira Moral, Relógio D’Água, 2013, pág. 253.




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A palavra de Bauman levou-me a procurar o dito livro. Foi agora publicado pela Alfaguara. Entre os alfarrabistas da Feira do Livro, nenhum tinha a antiga edição da Dom Quixote que esperava adquirir por um preço módico. Rendido, trouxe a da Alfaguara.

De Houellebecq já lera, em tempo recorde, Submissão. Iniciada logo depois a leitura do Mapa e o Território, foi parada a meio. Houellebecq é um grosseiro provocador. O que pensar daquele que caracteriza uma mulher feia em idade de menopausa, jocosamente, como sendo uma “vagina inexplorada”? Bastou. Nos seus livros tropeçamos por aqui e por ali em má-criação, baixezas obscenas e pornografia grosseira, em muito mais do que apenas “vergonhas” à mostra. Tentativas de provocação a quem se deixa provocar, pois claro. Procurar escandalizar: uma trivial estratégia adoptada por escritores que se querem fazer notar, nobéis e tudo. E quando pega resulta. Ainda assim os romances de Houellebecq não deixam de tocar em coisas elevadas.

No futuro, quando as artes destes tempos, entre as quais a literatura, forem enquadradas num determinado movimento literário artístico bem definido como agora são, por exemplo, as obras do Romantismo ou do Realismo, uma das características que por certo as cunhará será essa perda de referência entre o que é elevado e o que é baixo, entre as grandezas e as baixezas. Hoje tudo é colocado no mesmo plano e no mesmo saco. As grandezas e as baixezas são hoje despudoradamente reveladas ao mesmo nível. Mas foram as baixezas que ganharam relevância, tendo sido içadas à altura das grandezas. Uma obra como a de Houellebecq seria impensável nos tempos queirosianos, por exemplo. Na obra de Houellebecq não há “mantos diáfanos da fantasia”. Ali não há fantasia nem mantos.

Mas Zygmunt Bauman sabia do que falava.

quinta-feira, dezembro 28, 2017

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