sábado, agosto 19, 2017

Do racismo, da intolerância e do medo perante o desconhecido

A intolerância, sugere [Umberto] Eco, «chega antes de qualquer doutrina. Assim, a intolerância possui uma raiz biológica, manifesta-se no reino animal sob a forma de territorialidade, baseia-se em reacções emocionais que são, frequentemente, superficiais – não conseguimos suportar aqueles que são diferentes de nós, por a sua pele ser de outra cor; por falarem numa língua que não compreendemos; por comerem sapos, cães, macacos, porcos ou alho; por fazerem tatuagens…»  

Umberto Eco citado por Zygmunt Bauman, “Sintomas em busca de um objecto e de um nome” in O Grande Retrocesso, Objectiva, 2017, pág. 38

"No one is born hating another person because of the color of his skin or his background or his religion..."

Nelson Mandela citado por Barack Obama no Twitter a 13 de Agosto, em reacção aos confrontos e agressões de Charlottesville entre supremacistas brancos e manifestantes anti-racismo. @BarackObama

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O racismo não é inato, como dizia Mandela, o que faz dele uma questão cultural. O racismo encontra, no entanto, solo fértil nesse sentimento de intolerância com raízes biológicas, a que se refere Eco, e que cada um de nós sente de forma primária e superficial. Há quem explore esse medo perante o desconhecido, essa intolerância, para incutir no outro a doutrina que proclama a superioridade racial de uns em relação aos outros. Saber que o racismo tem raízes em reacções emocionais superficiais é meio caminho andado para erradicá-lo. Os demagogos porém, como refere Bauman, exploram esse medo perante o desconhecido para expandirem ideologias de ódio:

Os demagogos fundamentalistas, integralistas, racistas e etnicamente chauvinistas podem, e precisam de, ser acusados de alimentar uma «intolerância rudimentar» pré-existente e de com ela lucrar, propagando, assim, as suas reverberações e exacerbado a sua morbidez – mas não podem ser acusados de causar o fenómeno da intolerância.

Onde procurar, então, a origem e a força motriz desse fenómeno? Esta última, a meu ver, será o medo perante o desconhecido – de que os «estranhos» ou «forasteiros» (por definição insuficientemente conhecidos, muito menos compreendidos, e praticamente imprevisíveis nas suas condutas e reacções face às nossas próprias jogadas) são o símbolo mais proeminente, o mais tangível, porque próximo e notório.

Zygmunt Bauman, “Sintomas em busca de um objecto e de um nome” in O Grande Retrocesso, Objectiva, 2017, pág. 39.


Curiosamente esse medo perante o desconhecido também tem sido ao longo da história explorado para fins de gestação e propagação religiosa, estando na raiz das religiões que dividem os seres humanos em diferentes credos. O medo perante o desconhecido é hoje ainda mais dramático, pois o contexto social e económico em que vivemos aponta no sentido da individualização, quebra dos laços comunitários e sociais e atomização, em que cada indivíduo se apresenta aos olhos do outro, cada vez mais, como um elemento estranho e suspeito, alguém que pode ou não encerrar todos os males do mundo (é uma incerteza, um risco), como uma caixa de Pandora, ou um terrorista. E a questão torna-se ainda mais paradoxal quando vivemos na era da omnipresença informacional. Cada vez mais informados mas desamparados perante o desconhecido à nossa porta, na nossa rua, ao nosso lado.

segunda-feira, agosto 14, 2017

"Trump" ad nauseam

Há quem se questione, perplexo, acerca das razões que levaram Trump a vencer as eleições americanas. Como foi possível? Há quem responda, mas a questão volta continuamente a ser colocada, o que prova que as respostas nunca chegam a ser conclusivas ou cabais. A perplexidade ainda persiste em muitos círculos de opinion makers que falam nas cadeias noticiosas mundiais (CNN, BBC, Sky News, etc.). Há quem considere Trump genial por conseguir ser notícia o tempo todo. Propositadamente ou não, ele tem a capacidade de ser notícia a um ritmo horário contínuo. O seu nome é pronunciado dezenas de vezes por hora, para não dizer centenas, em canais noticiosos como a CNN. Experimente o leitor ligar esse canal a qualquer sinal horário, quando vão para o ar as highlights. Era assim há um ano quando a campanha eleitoral americana estava no auge e os pivots da CNN lhe moviam um ataque cerrado, mas também é assim agora. O seu nome é matraqueado a todo o momento. "Trump" ad nauseam. "Trump" no prime time. Trump, a obsessão da CNN. Inadvertidamente o canal televisivo tornou-se o maior anunciador publicitário da marca "Trump" ainda que a maioria das notícias sobre ele não o favoreçam. Ainda assim publicitam-no. Ironicamente aparecem depois os opinion makers no mesmo canal a questionarem-se espantados acerca das razões que levaram Trump à vitória.


Não terá o facto de o canal manter a marca “Trump” no ar o tempo todo exercido um efeito em muitos telespectadores acríticos, da mesma forma que a publicidade repetitiva o faz relativamente a uma determinada marca de um produto que se quer vender?

sexta-feira, agosto 11, 2017

Nestas férias estou a ler…

…romances de cavalaria.


Quem diria que uma pechincha (custou apenas 2€ na livraria da Europa-América) daria um tão grande prazer de leitura. O livro da Europa-América está muito bem traduzido embora tenha algumas gralhas. Trata-se, no entanto, de uma edição de 1981. 

…ensaios de política e economia.


Gostei de ler acerca das origens do neoliberalismo, da incompatibilidade entre integração económica profunda, soberania nacional e política democrática ("a democracia, a soberania política e a integração económica global são mutuamente incompatíveis; entre as três é preciso escolher duas") e a desmercadorização do bem-estar...Mas existem muitos ensaios por ler. A leitura continua. 


A Segunda Guerra Mundial (a perspectiva inglesa).



É uma perspectiva inglesa com certeza. Com Martin Gilbert os ingleses saem sempre bem na fotografia. Mas é uma leitura interessante.

E falta a poesia. Mas as férias ainda não acabaram.

sábado, julho 22, 2017

O triunfo dos algoritmos

Quanto mais os trabalhadores funcionam como apêndices das máquinas com que trabalham, menos liberdade de manobra têm, menos importantes são as suas competências e mais vulneráveis se tornam ao desemprego tecnológico. É isso que explica a oposição frequentemente forte dos trabalhadores à introdução das novas tecnologias.

David Harvey, O Enigma do Capital, Bizâncio, 2011, pág. 112

What will happen to the job market once artificial intelligence outperforms humans in most cognitive tasks? What will be the political impact of a massive new class of economically useless people? What will happen to relationships, families and pension funds when nanotechnology and regenerative medicine turn eighty into the new fifty? What will happen to human society when biotechnology enables us to have designer babies, and to open unprecedented gaps between rich and poor?

Yuval Harari, Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, HarperCollins, 2017
(realce nosso)

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Já não nos bastavam as ameaças das alterações climáticas, do terrorismo, da proliferação nuclear, entre outras. De acordo com Yuval Harari, sobre todos pairará a ameaça da inutilidade e do desemprego tecnológico. O homem enquanto trabalhador tornar-se-á obsoleto. Cada um de nós age e pensa, diz ele, de acordo com uma espécie de algoritmo bioquímico que será ultrapassado pelos algoritmos artificiais inteligentes que criámos. A criação ultrapassará o criador. A raça humana será extinta pela máquina inteligente. Os futuros humanos não serão humanos, serão outra coisa qualquer. Uma espécie de super cyborg, de homem-máquina, quase imortal. Homo deus em vez de Homo sapiens. Qualquer resistência em relação às novas tecnologias, das quais estamos cada vez mais dependentes, será inútil. Qualquer resistência fará de nós luditas do século XXI. E como sabemos os luditas não foram capazes de travar as máquinas.

sexta-feira, julho 21, 2017

Martin Landau morreu na semana passada

Martin Landau (1928-2017)

Martin Landau morreu na semana passada. Partiu o lendário comandante da base lunar Alfa, do Espaço 1999, série televisiva que nos encantou nos anos 70, com as suas águias, naves de descolagem vertical, com os seus intercomunicadores e as suas portas automáticas que abriam com um simples toque num telecomando, e mais muito mais. Por vezes havia monstros invasores nos corredores da base e um ecrã gigante na sala de comando através do qual o comandante comunicava com alienígenas e com os pilotos das águias. Brincávamos ao Espaço 1999 nas traseiras do prédio. Um era o comandante, mas havia enfermeiras, pilotos, médicas e cientistas… Aprendíamos assim. Quase tudo se concretizou em 1999: temos aviões de descolagem vertical e telemóveis, portas que abrem à nossa aproximação, ecrãs tácteis que também nos mostram quem está a falar connosco, computadores… Mas falta-nos uma base lunar permanente. Uma base na Lua, onde o céu é sempre estrelado. Na Lua, onde tudo parece mais perto do cosmos.

A morte de Martin Landau não nos passou despercebida.

domingo, julho 16, 2017

Notícias da sexta extinção: o gradual desaparecimento dos leões e de outros grandes mamíferos

Scientists analysed both common and rare species and found billions of regional or local populations have been lost. They blame human overpopulation and overconsumption for the crisis and warn that it threatens the survival of human civilisation, with just a short window of time in which to act.



Assistimos hoje ao rápido desaparecimento dos grandes mamíferos da superfície da Terra, entre os quais carnívoros e predadores como o leão, noticia o The Guardian. A sua presença no planeta não se coaduna com o crescimento demográfico do homo sapiens sapiens e com a crescente necessidade de mais espaço que suporte as suas infinitas necessidades.

Historicamente o leão estava presente nas regiões onde surgiu a civilização e as primeiras aglomerações urbanas, na Mesopotâmia. Foi caçado pelos assírios e foi representado pelos caçadores-recolectores daquela região, muito antes disso. Actualmente, na Ásia, está confinado a uma pequena bolsa na floresta de Gir, no noroeste da Índia.

No séc. VII a.C. o leão era caçado pelos assírios no norte da Mesopotâmia, região que corresponde actualmente ao norte do Iraque e sudeste da Turquia.

Leão representado num pilar de Göbekli Tepe, presumivelmente 
um centro de culto de caçadores-recolectores e um embrião dos
 primeiros assentamentos urbanos, com cerca de 12 000 anos.

segunda-feira, julho 10, 2017

Revoluções políticas e revoluções científicas

Thomas Kuhn (1922 - 1996)
As revoluções políticas começam com um sentimento crescente, habitualmente restringido a um segmento da comunidade política, de que as instituições existentes deixaram de poder enfrentar adequadamente os problemas colocados pelo ambiente que elas próprias em parte criaram. De modo muito semelhante, as revoluções científicas começam por um sentimento crescente, também geralmente restringido a uma pequena subdivisão da comunidade científica, de que um paradigma existente deixou de funcionar adequadamente na exploração de um aspecto da natureza para o qual esse próprio paradigma tinha indicado o caminho.

Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Guerra e Paz, 2009, pp. 133-134

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