terça-feira, outubro 16, 2018

terça-feira, outubro 02, 2018

Outono


   Luigi Garzi, Alegoria de Outono, c.1680

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«Já, o outono! – Mas porque desejar um sol eterno, se partimos à descoberta da claridade divina – longe daqueles que florescem e morrem com as estações.
O outono. A barca ascendida à imobilidade das brumas regressa agora ao porto da miséria, cidade imensa, imenso céu traçado de fogo e de lama. Ah! os farrapos podres, o pão encharcado de chuva, a bebedeira, os mil amores que me crucificaram! Então não findará jamais este vampiro, este tirano de milhões de almas e de corpos mortos que serão julgados! Revejo-me: a pele roída pela peste e pela lama, a cabeça e os sovacos repletos de piolhos, não tão gordos, não tantos como os que me roíam o coração, deitado entre desconhecidos de idade incerta, de sentimentos incertos…Podia ter ficado ali…Pavorosa evocação! Detesto a miséria.
E temo o inverno por ser a estação do conforto!»

Rimbaud (1873), Une Saison en Enfer
(tradução Mário Cesariny de Vasconcelos)


in Jean Arthur Rimbaud, Uma Época no Inferno, Portugália Editora, 1960.


segunda-feira, outubro 01, 2018

Vertigens


«Ao princípio, era apenas um exercício. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Captava vertigens.

Alugando pássaros, pedaços de pele, povoados,
Que busco eu, alheio ao sossego e à esteira?
Em ondas de ternura bebo afogados
Séculos de murmúrio, ajoelhado na areia.

Que piolho eu beberia noutro rio marata?
-  Copo de oiro sem voz, flores de gás, céu alvar! –
Beber por calabaças, fora da minha cubata?
Só se for o licor que a terra faz ao mar.

Ergui minha choupana em foz daninha.
- Rosa de areia! Sangue! Jubileus! –
A água do rio levou-me oiro e vinha,
(Nos lameiros, passava a mão de Deus)

E eu chorava, eu via – oiros! – nunca sereis meus!»

*
Às quatro horas o mastro de neve
Descansa do amor entre brandas avenas.
Na nudez de Bocácio Eva escreve
Uma noite de veias serenas.

Lasso, baço, num vasto coral
De rugas e olhos e sóis improfícuos
Sobe o rio o clamor matinal
            Dos carros Oblíquos.

Para o festim de chocolate, ébrios de claridade,
Eles vestem antecipadamente lambris pré-celestes
                                Cidade
De pão, bandeiras, declives, homens.

Para estes operários, veículo de tantos
Rios interiores a um rei da Babilónia,
Ó Vénus, deixa por momentos as almas
Estagnadas como pântanos no coração do Ródano.

Ó Guia dos pastores
Dá aos trabalhadores a ode viva.
Que a sua força seja como seda pacífica

- Um acto no caminho do amargo banho ao meio-dia.»

Rimbaud (1873), Une Saison en Enfer
(tradução Mário Cesariny de Vasconcelos)


in Jean Arthur Rimbaud, Uma Época no Inferno, Portugália Editora, 1960.

sábado, setembro 29, 2018

Hegel

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831)

Pintura de Jakob Schlesinger, 1831

Nationalgalerie, Staatliche Museen zu Berlin

domingo, setembro 23, 2018

Steven Pinker: só o Iluminismo pode salvar-nos


Quando as predições sobre a apocalíptica escassez de recursos fracassam reiteradamente, temos de concluir que a humanidade escapou milagrosamente sucessivas vezes de uma morte certa, como um herói de um filme de acção de Hollywood, ou que há alguma falha no pensamento que predisse a apocalíptica escassez de recursos. A falha foi apontada em múltiplas ocasiões. A humanidade não sorve os recursos do planeta como uma palhinha num batido até que um borbulhar lhe diga que o recipiente está vazio. Em vez disso, quando as reservas de um recurso que se extrai facilmente começam a escassear, o seu preço sobe, levando mais gente a querer conservá-lo, a chegar a depósitos menos acessíveis ou a encontrar substitutos mais baratos e mais abundantes.

De facto, para começar, é uma falácia pensar que as pessoas «necessitam de recursos». Do que necessitam são formas de produzir alimentos, deslocar-se, iluminar as suas casas, exibir informações e outras fontes de bem -estar. Satisfazem estas necessidades com ideias: com receitas, fórmulas, técnicas, projectos e algoritmos para manipular o mundo físico a fim de que este lhes ofereça o que desejam. A mente humana, com a sua capacidade combinatória recursiva, pode explorar um espaço infinito de ideias e não se encontra limitada por nenhuma classe de material terrestre. Quando uma ideia deixa de funcionar, outra pode ocupar o seu lugar. Isto não desafia as leis da probabilidade, apenas lhe obedece.

É certo que esta maneira de pensar não encaixa bem com a ética da “sustentabilidade”. (…) A doutrina da sustentabilidade assume que o ritmo actual de utilização de um recurso pode ser extrapolado para o futuro até se atingir um tecto. A consequência que implica a dita assunção é que temos de trocar para um recurso renovável capaz de repor-se indefinidamente à medida que o vamos usando. Na realidade, as sociedades sempre abandonaram um recurso por outro melhor, muito antes que o velho se esgotasse. Com frequência se disse que a Idade da Pedra não terminou porque o mundo ficou sem pedras, e outro tanto cabe dizer da energia.

Steven Pinker (2018), Enlightenment, now!
[Tradução nossa]

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Pinker é um optimista. Tem fé na Razão, no Progresso, na Ciência e na Tecnologia. Tem fé nos valores do Iluminismo. Tem fé no Homem. Ao contrário de Heidegger, que diz que só um deus nos pode salvar, Pinker defende que o Homem pode salvar-se a si mesmo, caso se guie pelos valores do Iluminismo. A Razão, o Progresso, a Ciência e a Tecnologia poderão salvar-nos de qualquer apocalipse previamente anunciado, assim o Homem se empenhe e disso sinta necessidade, pois a necessidade aguça o engenho. O problema é que a Razão, o Progresso, a Ciência e a Tecnologia são facas de dois gumes, em que um cortará mais do que outro se forem perseguidos sem Ética. O Progresso pode ser a bomba atómica e à sua sombra, em tempos, defendeu-se o eugenismo, só para dar dois exemplos. Mas também é verdade que o Progresso evitou uma catástrofe malthusiana, salvando milhões da fome, permitiu à Humanidade conciliar procedimentos para evitar a depleção da camada de ozono, contribuiu para aumentar a esperança média de vida no mundo, para baixar a mortalidade infantil e para tratar e curar doenças no passado incuráveis. O Progresso contribuiu para diminuir o sofrimento humano. Pinker acredita em tudo isto, defendendo que hoje se sobrevaloriza o que é negativo, desde as alterações climáticas ao esgotamento dos recursos naturais e aos anúncios de extinção de espécies ou de uma sexta extinção em massa…e que se está a subvalorizar a capacidade humana de superação de problemas e obstáculos, mediante a Ciência e a Tecnologia, pelo Progresso.

sábado, setembro 15, 2018

Montanhas

Monte Pilatos, Agosto, 2018                                                                   © AMCD

sexta-feira, setembro 14, 2018

Censura: a política contra a reflexão


A história da censura resume-se nesta fórmula. É a história da política contra a reflexão. No momento em que alguns seres humanos amadurecem o suficiente para conhecerem a verdade sobre si próprios e sobre a sua condição social, os detentores de poder desde sempre tentaram partir os espelhos que revelavam aos seres humanos quem eram e o que lhes acontecia.
Peter Sloterdijk (1983)


Peter Sloterdijk , Crítica da Razão Cínica, Relógio D’Água, 2011, p. 116.

***

Quem detém informação detém poder. Esse poder é tanto mais efectivo quanto maior for o monopólio da informação. Neste sentido partilhar informação significa partilhar poder. Para manter a sua posição iluminada uma minoria acaba por sujeitar a maioria à escuridão. 

quarta-feira, setembro 05, 2018

Luminárias e alimárias

A propósito disto.


Entre luminárias e alimárias há certos deputados da República que encaixam que nem uma luva na segunda categoria. Parece ser o caso.

Quando vejo e oiço políticos deste jaez lembro-me sempre da advertência de John Tyler a Thomas Jefferson, em 1782, quando este queria renunciar ao cargo para o qual tinha sido eleito pelo povo do condado de Albemarle, de delegado na Câmara, por estar cansado de cargos públicos. Tyler advertiu Jefferson de que «homens bons e capazes fazem melhor em governar do que em deixar-se governar, uma vez que é possível, e na verdade altamente provável, que as pessoas capazes e boas que se retirem da sociedade sejam substituídas por outras venais e ignorantes». (Boorstin, 1997: 112)

Ora não tenho a mínima dúvida de que em Portugal muita gente boa e capaz se furta a cargos públicos, que não encara decerto como um dever cívico e não quer sujeitar-se àquilo. Só assim se explica a abundância de gente venal sentada nas cadeiras da Assembleia.

Dito isto, diga-se no entanto que na Venezuela se assiste a uma tragédia – a governação de Maduro e seus apaniguados. A boa gente daquele país já vota com os pés e parte em demanda de outras paragens. Fazem bem, pois se pegassem em armas seria um banho de sangue. Os ditadores, tudo fazem para se manter no poder, nem que seja à custa da vida dos seus concidadãos. Veja-se o que fez Assad na Síria. Na Venezuela só um golpe militar à 25 de Abril poderia resolver a situação trágica em que aquele Estado se encontra pois é muito improvável que Maduro se afaste, abrindo as portas à democracia.
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Referência

Daniel Boorstin, Os Americanos: A Experiência Colonial,  Gradiva, 1997.

terça-feira, setembro 04, 2018

Deus é um triângulo


"Se os triângulos tivessem um deus, dar-lhe-iam três lados."

                                                                         Montesquieu


citado por Steven Pinker, Enlightenment Now! The Case for Reason Science Humanism and Progress, Penguin, 2018.

segunda-feira, setembro 03, 2018

A erosão da democracia na América


A democracia na América está a erodir-se a si mesma. Donald Trump foi eleito presidente com 26,3% dos eleitores. Hillary Clinton ganhou com 26,5%, mas perdeu o colégio eleitoral. Contudo há aqui um número mais relevante: aproximadamente 45% dos eleitores americanos não votou. Alguns não apareceram para votar por sentirem que o seu voto representaria uma gota no oceano, e alguns residiam nos estados onde o resultado não estaria em dúvida. Outros sentiram que nenhum dos candidatos poderia ou deveria fazer as coisas melhor. Mas muitos destes mais de 100 milhões de americanos eleitores não acreditavam que o resultado interessasse. Apenas 36,4% destes eleitores votaram nas eleições intermédias para o Congresso, em 2014.”

Ian Bremmer, Us vs. Them: The Failure of Globalism, Portfolio/Penguin, 2018, pp. 162-163.
(tradução nossa)

Aproximam-se novamente as eleições intermédias para o Congresso. Será este ano, em Novembro. Veremos então se se confirma esta tese da erosão da democracia na América.

Mas Bremmer prossegue no seu diagnóstico negro em relação à evolução da democracia na América:

Está a tornar-se pior. De acordo com um estudo publicado no The Journal of Democracy, a proporção de jovens americanos que considera ser importante viver num país democrático caiu dos 91% nos anos 30 para 57% hoje. Menos de um em três jovens americanos refere que é importante viver em democracia. Em 1995, apenas um em dezasseis americanos concordavam que seria “bom” ou “muito bom” ter um regime militar nos Estados Unidos. Em 2016, eram um em seis.”

Ian Bremmer, Us vs. Them: The Failure of Globalism, Portfolio/Penguin, 2018, p. 163.
(tradução nossa)

Sócrates, o filósofo, dizia que a tirania surge da democracia*, quando esta se afoga nos excessos da liberdade. Será que estamos a assistir a um processo desses nos E.U.A.?
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(*) “Acaso não é mais ou menos do mesmo modo que a democracia se forma a partir da oligarquia, que a tirania surge da democracia?” in Platão, A República, 9ª ed., FCG. 2001. Pág.  392.

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