domingo, abril 11, 2021

A antiga e a nova liberdade

 


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No que me toca, prefiro, de longe, a antiga liberdade.

«No mundo antigo – na Antiguidade pré-cristã, em particular na Grécia antiga, ou durante o longo reinado da cristandade -, a definição dominante da liberdade envolvia o reconhecimento de que necessitava de uma forma apropriada de autonomia. (…)

A liberdade, assim compreendida, não era fazer o que se quisesse, mas sim escolher o caminho certo e virtuoso. Ser livre era, acima de tudo, estar livre da submissão aos nossos desejos básicos, que nunca poderiam ser satisfeitos e cuja perseguição só podia criar mais desejos e descontentamento. Assim, a liberdade era a condição alcançada pelo autodomínio, pelo controlo dos nossos apetites e do desejo de domínio político.

A característica definidora do pensamento moderno foi a rejeição desta definição de liberdade em proveito de uma definição que nos é hoje mais familiar. A liberdade, definida pelos criadores do liberalismo moderno, era a condição na qual os seres humanos estavam completamente livres para perseguir tudo o que desejavam».

Patrick J. Deneen, Porque Está a Falhar o Liberalismo? Gradiva, 2019. pág.99

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O resultado está à vista. O ser humano moderno, se puder, apropria-se de tudo o que deseja e erige direitos sobre tudo o que cobiça, porque a sua liberdade não tem limites (é assim que é concebida, neste mundo mui liberal). Do mais poderoso ao mais pelintra, todos acabam por considerar-se proprietários de qualquer coisa, com direitos sobre qualquer coisa, apropriando-se, por isso, de tudo o que se possam apropriar para si, desde que o cobicem e esteja ao seu alcance. E, no mínimo, até o próprio corpo é hoje considerado como uma propriedade de quem o habita. “O corpo é meu, faço dele o que quero” (Ouvem-se certos gritos de ordem nas manifestações). Desculpem?! Mais do que direitos sobre esse corpo, que se quer tratar como se fosse um bem de consumo ou uma propriedade, prevalecem os deveres sobre o mesmo.

Considerá-lo-ão uma mercadoria?

 

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Vivemos, no mundo dominado pelas forças de mercado e pensamos e cada vez mais como consumidores mimados. Tendemos a ver mercadorias em todo o lado. E há quem faça do corpo uma mercadoria e venda até os seus próprios órgãos. Há uma aldeia de pescadores, na baia de Manila, nas Filipinas, em que quase todos os homens pobres têm uma longa cicatriz no lado de um dos rins – decidiram vender um dos rins para transplante, por um pataco. Essa notícia impressionou-me em 2008, ao ponto de ainda me lembrar dela. Este é o mundo em que vivemos.

 

Temos o dever de defender o nosso corpo, de o respeitar como se de um templo se tratasse. Há, no entanto, quem prefira tratá-lo como como uma mercadoria.

 

Prefiro ver o corpo como uma dádiva que tenho de estimar e respeitar, por respeito com o Criador, com a Natureza, com os meus antepassados, enfim com o que me fez chegar até aqui.

 

Desperately poor Filipinos sell kidneys - ABC News

 

https://www.abc.net.au/news/2008-04-18/desperately-poor-filipinos-sell-kidneys/2409350

sexta-feira, abril 09, 2021

Voltar a estar no mundo


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«Perfila-se uma nova sabedoria, uma nova aprendizagem da liberdade. A fractura digital ainda existe claro. No entanto, a desigualdade que emerge é completamente diferente: tratar-se-á de ter acesso, já não à conexão, mas à desconexão. Acesso, não à música, mas ao silêncio; não ao diálogo, mas à meditação; não à informação imediata, mas à reflexão aturada. Os seminários de desintoxicação tecnológica multiplicam-se. Os retiros espirituais nos mosteiros já não têm a mesma natureza: antes era preciso fugir do mundo para encontrar Deus; agora, é preciso fugir dos estímulos eletrónicos para, finalmente, voltar a estar no mundo.» 

Bruno Patino, A Civilização do Peixe-Vermelho, Gradiva, 2019, pág. 112.

sábado, março 20, 2021

Primavera ou Calíope?


Cosmé Tura, Primavera, 1463, Londres, National Gallery


 

 

Eis que se apresenta a Primavera nesta nova Era.

O mundo em convulsão espera o silêncio do Verão.

domingo, fevereiro 28, 2021

Um fogo sempre vivo

 Esta ordem do mundo [a mesma de todos] não a criou nenhum dos deuses, nem dos homens, mas sempre existiu e existe e há-de existir: um fogo sempre vivo, que se acende com medida e com medida se extingue.

Heraclito

in, Kirk, G.; Raven, J.; Schofield, M., Os Filósofos Pré-Socráticos, 6ª ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, p. 205

 

O fogo está na origem de todas as coisas. Não somos nós feitos do pó das estrelas? O fogo estará no fim de todas as coisas. Mas há quem anuncie um universo vazio e infinito em resultado de uma expansão incessante, em que as estrelas se perderão de vista e o céu dos mundos se tornará negro, sem pontos de luz. Um universo frio, uma solidão infinita.

 

Talvez nessa altura se construa uma abóbada virtual, a envolver o mundo, como num planetário, para que não nos sintamos sós. Um simulacro de céu estrelado.

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Ontem no Japão foi empossado o Ministro da Solidão. Justamente no país do sol nascente. O país que ostenta o fogo da manhã na sua bandeira. A pátria dos hikikomori. Decerto muitos japoneses, nas suas cidades luminosas, perderam a capacidade de ver o céu estrelado. Vivem sós num mundo cada vez mais artificial, nas estruturas e nas relações.

 

É-se só em Tóquio. Uma cidade (área metropolitana incluída) de 30 milhões de habitantes. A maior cidade do mundo. Não deixa de ser uma ironia. É exactamente na multidão que se encontra a solidão.

É exactamente no Japão que se encontra a solidão.





domingo, fevereiro 21, 2021

Tempo suspenso


Tempo suspenso

Cavalo suspenso

Terreiro suspenso


Vivemos num tempo suspenso, 

à espera de outro tempo.

segunda-feira, fevereiro 15, 2021

Consenso

Numa urgência, tudo o que soa a demora exaspera.

Esperar por um consenso num mar de divergências para, por fim, tomar uma decisão, pode revelar-se, em certas circunstâncias, fatal.

Quando chega, finalmente, o momento da decisão, uma vez obtido o consenso, já as circunstâncias mudaram, já o barco afundou, já a floresta ardeu...O momento em que a decisão devia ter sido tomada ficou lá atrás.

A obtenção de consensos obriga muitas vezes a demoradas negociações na procura de cedências de parte a parte.

O líder, muitas vezes, decide só. É a ele que cabe a decisão. É a sua responsabilidade. E isto passa-se, principalmente, quando tem de decidir rapidamente. 

Nem sempre as decisões procedem de negociações.

Num momento de urgência não há pior do que um líder hesitante entre divergências, um líder que procura a negociação.

Num momento de urgência a acção impõe-se. Exige-se ao líder que assuma as suas responsabilidades nas horas difíceis, nas horas mais sombrias e decida. 

Que oiça e que decida, mas não perca tempo a negociar em busca de um consenso.

domingo, fevereiro 07, 2021

O Inverno do nosso descontentamento

 


Primeiro foi a Primavera do nosso descontentamento, depois o Verão do nosso descontentamento, ao qual se seguiu o Outono do nosso descontentamento.

 

O cinzento e frio Inverno do nosso descontentamento apresenta-se agora, no Terreiro do Paço, vazio no na sexta-feira sábado passado, cerca das 14:00.

 

Estamos quase a concluir um ano de descontentamento. Seria bom que concluíssemos mesmo. 


Já basta de descontentamento.


domingo, janeiro 31, 2021

O Rabo de Peixe da Europa

Ironia das ironias. Agora somos nós o Rabo de Peixe da Europa. Até uma missão alemã veio cá ver este estranho e triste fenómeno.


E cá estamos nós em quarentena, confinados, de voos cortados e fronteiras fechadas, não vá esta peçonha safar-se daqui.


Ó Portugal, Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo. Meu remorso, meu remorso de todos nós...


Estou como o O´Neill. Venha o poema dele:


Portugal


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill, in 'Feira Cabisbaixa'

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