sábado, janeiro 14, 2017

Segura e murada

Para Bauman o progresso das sociedades e das épocas oscila como um pêndulo, não sendo unidireccional (evitaria ele, dessa forma, a antiga visão cíclica das coisas? A Roda da Fortuna?). Os estímulos e as energias subjacentes que movem a sociedade e a forma como esta se organiza politicamente e progride, são por um lado o desejo de mais liberdade e por outro, o desejo de mais segurança (tal como um trade off entre liberdade e segurança). Por vezes viveríamos sob o domínio da liberdade, por outras viveríamos sob o domínio da ordem “coercivamente imposta”, mas almejada. Os efeitos dos excessos de liberdade empurrariam as sociedades em direcção à procura da ordem, e os excessos da ordem “coercivamente imposta” levariam à fuga das sociedades em busca da liberdade. E assim constrói Bauman a sua dinâmica evolutiva das sociedades modernas. Entre a liberdade e o totalitarismo.

Para dizer a verdade, e curiosamente, o autor não coloca como motor do progresso social estímulos positivos como o desejo de obter algo – o desejo de obter liberdade, ou o desejo de obter segurança. Apresenta antes como energia maior para a evolução social dois estímulos negativos: o ódio e o medo. É certo que o medo paralisa, mas o medo também pode fazer correr. E assim correm as sociedades: ao sentir do medo.

Com base neste "modelo", Bauman, acaba por dividir o progresso histórico ocidental das sociedades, nas seguintes épocas:

Do final do século XIX ao início dos anos 30 – “Longa marcha para a liberdade”: diz ele que nessa época, “no final do século XIX as bibliotecas estavam lotadas de estudos eruditos escritos pelos Fukuyama de então, representando a história como uma longa marcha rumo à liberdade” (Bauman & Bordoni: 2016: pág. 87). A Iª Grande Guerra teria resultado de um excesso de liberdade e o seu prelúdio foram os árduos anos que se lhe seguiram até à Grande Depressão.

Dos anos 30 a meados dos anos 70 – foram os anos do ódio e do medo da liberdade. As sociedades passaram a almejar a ordem, e foram de tocha na mão atrás dos ditadores e do totalitarismo. Após a IIª Guerra Mundial, é que advieram os trinta gloriosos anos (aproximadamente entre 1945 e 1975): “Não obstante, os sonhos de menos caos e mais ordem só sobreviveram ao seu prelúdio totalitário durante os «trinta gloriosos anos» de guerra declarada contra a miséria, o medo e a privação humana, sob as bandeiras do «Estado Social»”(Bauman & Bordoni: 2016: pág. 87-88), que não deixa de ser um Estado ordenador, portanto.

De meados dos anos 70 ao final da primeira década do século XXI – voltou agora a ser a procura de liberdade o motor do progresso social, parecendo a civilização ter esquecido os efeitos dos excessos da liberdade. Resultado: caiu na orgia consumista, na degradação ambiental e na crise do crédito, que tão bem conhecemos em 2008 e anos seguintes. E depois o pêndulo volta a balançar. E para onde penderá ele agora? Aqui Bauman é profético, atendendo a que o seu escrito data de 2014:

Estaremos a aproximar-nos, pela segunda vez na história recente, de uma condição madura para ser explorada por demagogos que sejam suficientemente ocos, iludidos e arrogantes para prometerem um atalho para a felicidade; e para traçarem um caminho de volta ao paraíso da segurança perdida, na condição de renunciarmos às liberdades que já são odiadas e muito mal recebidas pelos seus possuidores, e assim também à nossa autodeterminação e à afirmação dos nossos direitos?” (Bauman & Bordoni: 2016: pág. 89)

Zygmunt Bauman, 2014

Volto a repetir:

Demagogos que sejam suficientemente ocos, iludidos e arrogantes para prometerem um atalho para a felicidade; e para traçarem um caminho de volta ao paraíso da segurança perdida, na condição de renunciarmos às liberdades que já são odiadas e muito mal recebidas pelos seus possuidores?

Isto lembra alguma coisa.

Leio Trump, leio Farage, leio Le Pen, leio Putin, leio Erdogan. Leio outro mundo e outra Era que se avizinha, agora sob a sombra do ódio e do medo à liberdade. Leio uma nova entrega a uma outra ordem, que os ilusionistas nos prometem, segura e murada.

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Referência: Bauman, Zygmunt;  Bordoni, Carlo, Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016.

O ódio e o medo de liberdade e o ódio e o medo da ordem coercivamente imposta

O ódio e o medo de liberdade e o ódio e o medo da ordem coercivamente imposta não são traços inatos da espécie humana nem “estão na natureza humana”. Só que aquilo que chamamos progresso não é um movimento linear “unidireccional”, mas pendular, que extrai a sua energia do desejo de liberdade (assim que começamos a sentir que a segurança é excessiva, insuportavelmente intrusiva e opressiva) ou do desejo de segurança (assim que começamos a sentir que a liberdade é um negócio excessiva e insuportavelmente arriscado, produzindo pouquíssimos vencedores e uma quantidade exacerbada de perdedores).  

Zygmunt Bauman

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Fonte: Bauman, Zygmunt;  Bordoni, Carlo , Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016, pág. 87.

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Multa

Ó pranto!
Fui multado outra vez
no túnel do Marquês.
120 euros por um retrato fugidio.
Da próxima vez
irei ao arrepio.

Por lá não tornarei.

terça-feira, janeiro 10, 2017

Zygmunt Bauman «In Memoriam» (1925 - 2017)

















Outro Mestre que parte: Zygmunt Bauman.

Faleceu no dia 9 de Janeiro. Ontem.

Lamentamos profundamente a sua morte. Já nos tínhamos habituado à sua imagem de ancião, surpreendentemente lúcido. Possuía uma lucidez na análise social do mundo contemporâneo que fazia inveja a muitos jovens.

Era provavelmente o melhor sociólogo do mundo e partiu. Era um prolífico analista social: muitos são os seus escritos. A sua análise era (é) sempre certeira e muitas vezes surpreendente.

Que pena que a sua voz se tenha calado para sempre. Que pena que este homem tenha partido. Hoje, que soubemos da sua partida, fomos invadidos por uma profunda tristeza. Estávamos a ler, com muito prazer, um livro seu (mais um), um diálogo com Carlo Bordoni, como se pode ver pelo post abaixo. E que diálogo.

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Tenho os seus livros muito sublinhados. Ao lado de cada frase sublinhada uma interjeição: "É isto!"

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«A sociedade humana distingue-se de um rebanho de animais porque é possível nela haver quem seja sustentado por outrem; distingue-se porque tem a capacidade de conviver com inválidos, e de tal maneira que poderíamos dizer que a sociedade humana nasceu com a compaixão e a prestação de cuidados a outrem, qualidades que são exclusivamente humanas. O problema que hoje nos preocupa diz respeito a saber como poderemos transpor essa compaixão e essa solicitude à escala planetária. Estou consciente de que as gerações que nos precederam se confrontaram com a mesma tarefa, mas hoje o caminho que deveríamos seguir, agrade-nos ele ou não, terá de começar pela casa e pela cidade de cada um de nós, agora mesmo.

Não consigo pensar noutra coisa mais importante do que esta. É por ela que temos de começar.»

Zygmunt Bauman
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Fonte: Zygmunt Bauman, Confiança e Medo na Cidade, Relógio D'Água, 2005, pp.86-87. 

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Liberalismo e neoliberalismo: para quem ainda tem dúvidas

Ao contrário do liberalismo clássico, que contemplava um modelo puramente de mercado, deixado à iniciativa privada e à livre competição sem nenhuma intervenção do Estado (“mais mercado, menos Estado”), o neoliberalismo instala-se no próprio Estado. Wendy Brown argumenta que o neoliberalismo, em contraste com o liberalismo clássico, tende a empoderar cidadãos para os transformar em empreendedores; por conseguinte, em estabelecer uma ética sem precedentes de “cálculo económico”, a qual se aplica a actividades em favor do público que antes o governo garantia.


A prática do neoliberalismo submete as funções sociais do Estado ao cálculo económico: uma prática invulgar, que introduziu critérios de viabilidade nos serviços públicos, como se eles fossem empresas privadas, para ordenar os campos da educação, da saúde, da segurança social, do emprego, da pesquisa científica, do serviço público e da segurança sob uma perspectiva económica.

Consequentemente, o neoliberalismo retira a responsabilidade do Estado, fazendo-o renunciar às suas prerrogativas e avançando na direcção da sua gradual privatização.

Carlo Bordoni
(realces nossos)
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Fonte: Bauman, Zygmunt;  Bordoni, Carlo , Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016, pp. 30-31.

domingo, janeiro 08, 2017

Fuga pela madrugada

Quando a cidade acordou
já não o encontrou.
Fugiu pela madrugada.

Ainda a névoa se levantava
nos frondosos bosques de sobreiros,
num frio e soalheiro dia de Janeiro,
pela via-férrea abandonada
já longe se encontrava.

Quando a cidade carcereira acordou,
Em vão o buscaram,
no Norte, no Leste e no Oeste.
Foi para o Sul que descuraram.

O Sul, sempre o Sul.
Mediterrânico Sul
que nunca amaram.

sábado, janeiro 07, 2017

Mário Soares (1924-2017)


Para que neste blogue fique registado: Mário Soares morreu esta tarde.

Muito haveria a escrever. Outros fá-lo-ão ou já estão a fazê-lo. Mário Soares ficará para a História, a nossa História, que será escrita e reescrita e escrita novamente. Os vindouros saberão.

Curiosamente a recordação mais aprazível que dele tenho é a das suas apresentações na RTP 1 da série da BBC, O Século do Povo, quando no final rematava com o seu enfoque no século XX português. Uma História que em grande parte viveu e em parte protagonizou. Sabia do que falava. Recordo assim o Mário Soares na sua faceta pedagógica. Foi um homem do Século do Povo. Foi um democrata e um amante da liberdade, pois claro. Neste século XXI, interveio quando pressentiu que o neoliberalismo representava uma ameaça à democracia e ao Estado social.

Parte agora, quando a democracia se encontra em crise aguda, como se vê pela ascensão dos demagogos e pela separação entre o poder e a política. 

Enfim, muito haveria a escrever. Outros fá-lo-ão e já estão a fazê-lo.

Até sempre Mário Soares.

O que amanhã sucederá, foge de sabê-lo

O que amanhã sucederá, foge de sabê-lo, e o dia
que o Acaso conceder, averba-o nos lucros.
E não desprezes a doçura do amor, nem as danças,
enquanto és jovem,

enquanto as cãs morosas estão longe
dos teus verdes anos. Por agora, procura o Campo de Marte
bem como os espaços onde à noitinha há doces sussurros,
à hora aprazada.

É então que, de um canto recôndito,
o amado riso denuncia a donzela escondida,
por lhe arrancares a ofertada jóia dos braços
ou o dedo que finge resistir.

                                             Horácio, Odes (I.9)


in Rocha Pereira (org. e trad.), Romana, Antologia da Cultura Latina, 6ª ed. Guimarães, 2010, pág.  197

sábado, dezembro 31, 2016

O Mediterrâneo, no Porto

Nestes dias caminhei pelo Porto. Não subi à Torre dos Clérigos, não entrei no Majestic, nem na livraria Lello & Irmão. Infelizmente as multidões bloqueavam as entradas. Limitei-me a flanar pela cidade, pela Ribeira e pela Foz. Contemplei o Douro e o Atlântico, mas a maior descoberta foi o Mediterrâneo. Tropecei na obra por acaso, na livraria Bertrand, quando folheava as Odes de Horácio, um livro caríssimo que me é caro, e que merece ser caro, na secção de poesia. O meu olhar desviou-se para outros livros de poesia mais baratos que lá estavam empilhados. Um livro prendeu-me a atenção: ostentava na capa o desenho de uma oliveira. Após vários regressos à livraria, e ao Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães, lá adquiri o livro desse poeta nascido no Porto. É que sempre que abria o Mediterrâneo o Mediterrâneo encontrava, em todo o seu esplendor, em todo o seu perfume, em toda a sua história e em toda a sua dor. O Mediterrâneo estava ali.

Valeu a pena vir ao Porto encontrar o Mediterrâneo.

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