terça-feira, dezembro 31, 2013

Lisboa e Porto

Escrevo da invicta, mui industriosa e livre cidade do Porto. Lisboa fede. Alguns dirão que fede porque há luta. Ainda assim fede, a filha da puta.

Agora ide a correr dizer que enlouqueci.

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quinta-feira, dezembro 26, 2013

A saída de Gaspar, a “irrevogável” demissão de Portas e os seus efeitos nos mercados financeiros.

Diz Fernando Madrinha, na sua coluna no Expresso, que a saída do Governo de Vítor Gaspar e a demissão “irrevogável” de Paulo Portas interromperam a “consistente tendência de queda” dos juros que permitem o acesso aos mercados financeiros. Ora isto não é, pura e simplesmente, verdade. A saída do Governo de Vítor Gaspar não interrompeu a “consistente tendência de queda”, coisíssima nenhuma, por uma razão muito simples: não se registava, à data, nenhuma “consistente tendência de queda”. Este facto é facilmente constatável no gráfico abaixo (fonte: Bloomberg), relativo aos juros a 10 anos.


Como pode se verificar, desde o dia 21 de Maio de 2013 que se registava uma consistente tendência de crescimento dos juros da dívida a 10 anos (no dia 21 de Maio, as taxas de juro foram as mais baixas do ano, cerca de 5,23%, e a partir daí inflectiram, começando a aumentar de forma sustentada; quando Gaspar sai, a 1 de Julho, a taxa de juro estava a 6,39%). E se é verdade que as taxas de juro diminuíram entre 25 de Junho e 1 de Julho, tal movimento não é suficientemente amplo para constituir uma tendência “sustentada”. Pelo contrário, o movimento que se processa entre 22 de Maio e 3 de Julho de 2013, sendo mais amplo, é o que caracteriza a tendência que então se verificava.

Em suma, quando Gaspar sai, a coisa já tinha dado para o torto.

Gosto de ler o que escreve Fernando Madrinha, mas discordo dele neste ponto. Atribui a Gaspar uma importância que ele não tem. São os mercados financeiros que determinam a saída de Gaspar. Não é Gaspar que determina a evolução sustentada dos mercados financeiros. Antes fosse.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Natal 2013

Jan van Eyck, Madona em Igreja, 1425-1430

Um feliz Natal a todos os que por aqui passaram e passarão. E também aos que passam.

O nascimento de Jesus, esse grande revolucionário, não será aqui esquecido.

Não consta que tivesse deixado qualquer escrito (para quê?). Consta que o que escrevia fugazmente, por vezes uns rabiscos no chão enquanto reflectia, como naquele dia em que disse: “Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra”, era logo apagado. Ainda hoje nos interrogamos sobre o que terá escrito ou desenhado no chão naquele dia.

Feliz Natal

sábado, dezembro 07, 2013

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Será recordado!


Será recordado!

Ainda que os séculos nos varram a todos.

Um grande Homem morreu ontem.

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domingo, dezembro 01, 2013

Do curtíssimo prazo

Ao gerirem os nossos destinos por curtíssimos horizontes temporais, os “governantes” abdicaram do sonho utópico, para eles sempre utópico, sem lugar neste mundo, de um dia as comunidades que “regem” se libertarem dos fardos quotidianos que as oprimem – essa era a busca pela verdadeira liberdade e civilização! Movem-se agora por curtos ciclos eleitorais e curtíssimos ciclos financeiros – as cotações nos mercados internacionais, os ratings, e, entre outras, as taxas de juro da dívida pública a 10 anos, mais precisamente, e agora em inglês técnico, “The Portuguese Government Bonds 10YR Note”, que pode ser vista aqui (e que no momento se encontram em tendência decrescente, em torno dos 6%, daí a temporária euforia de alguns), oscilando diariamente, ora para cima, ora para baixo, como uma espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças, e é só isto que lhes interessa, porque ironicamente, no longo prazo, estaremos todos mortos. Para cúmulo, é para eles agora o curtíssimo prazo que importa, e por isso não admira que alguns destes iluminados tenham querido difundir a ideia de que a história não importa e pouco influi na progressão das sociedades pós-modernas e nos nossos destinos. Assim, uma nação com mais de 800 anos de história é vendida a retalho no mercado internacional por meia pataca. Os traidores estão entre nós, sempre estiveram, que gente a defenestrar sempre houve.

Meus caros, eles já não nos representam. Qual democracia representativa, qual quê? Eles representam os credores internacionais e outros interesses que não os nossos. Nós só lhes interessamos na medida em que, estamos convocados para lhes pagar as dívidas e os juros usurários. O melhor, meus amigos, é votar com os pés, partir, e ir contribuir para outra freguesia (contribuir, na verdadeira acepção da palavra: como contribuinte!). E diga-se de passagem, muitos já o fizeram.

Tenho dito.

Epílogo

«Hoje, a classe política vive atascada nos problemas e nas soluções de curto prazo, segundo a temporalidade própria dos ciclos eleitorais, nos países centrais, ou dos golpes e contra-golpes, nos países periféricos. Por outro lado, uma parte significativa da população nos países centrais vive dominada pela temporalidade cada vez mais curta e obsolescente do consumo, enquanto uma grande maioria da população dos países periféricos vive dominada pelo prazo imediato e pela urgência da sobrevivência diária.»

Boaventura Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª ed., Almedina, 2013, Pág. 277


Hoje existe ainda outra temporalidade que Boaventura Sousa Santos não aborda, talvez porque no momento em que realizou a sua análise essa tendência ainda não se tinha materializado claramente aos seus olhos prescientes - é a temporalidade do curtíssimo prazo que agora determina as decisões dos governos: o tempo dos mercados financeiros, o tempo dos credores. 

sábado, novembro 30, 2013

O mar português


Soares acabou com a Marinha Mercante, Cavaco acabou com grande parte da frota de pesca nacional, Passos acaba com os estaleiros de Viana do Castelo e agora a Marinha de Guerra está sem Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA).

Isto no país dos Descobrimentos, pioneiro da globalização, que possui a 3ª maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia e a 11ª do mundo.

Há algo de extremamente errado aqui.

Portugal sem o mar não é Portugal. Será que quem nos diz governar não compreende isto.

Mas que IIIª República é esta?

***

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Fernando pessoa


Portugal chora, já não os seus náufragos perdidos no mar, mas o fim do seu mar. E o fim do seu mar é o seu fim.

É Portugal que naufraga.

segunda-feira, novembro 25, 2013

Adeus, clara visão do mundo!

Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 6ª ed., 2013, pág. 240

Ver claro é não agir?! Bom, às vezes esfregamos os olhos, estremunhados, para ver melhor ao longe, pra enxergar o que vem lá. E quando constatamos que é um touro furibundo vindo em nossa direcção, então ver claro é agir. Caso contrário, adeus clara visão do mundo!

***

Consta que muitos filósofos e poetas da Antiga Grécia - à excepção do poeta Arquíloco, diga-se de passagem - na sua juventude tinham sido soldados notáveis. Homens de acção, portanto.  


De que serve a contemplação, se não for para melhor agir? Para mero deleite dos sentidos? Mas nem sempre os sentidos se deleitam com o que contemplam. É preciso agir então, transformando o mundo para depois o contemplarmos melhor e é preciso contemplar o mundo, para depois agirmos melhor. Como um escultor que vai criando a sua obra – esculpindo e contemplando, avançando e recuando, frente à sua obra, como Rodin.

domingo, novembro 24, 2013

E agora, o mercado interno chinês: consumir é glorioso!

«O que parece ser novo neste domínio [da globalização da economia] é o aumento exponencial da exportação da cultura de massas produzida no centro para a periferia e com ela das “estruturas de preferências” pelos objectos de consumo ocidental. Está-se a criar assim uma ideologia global consumista que se propaga com relativa independência em relação às práticas concretas de consumo de que continuam arredadas as grandes massas populacionais da periferia. Estas estão duplamente vitimizadas por este dispositivo ideológico: pela privação do consumo efectivo e pelo aprisionamento do desejo de o ter. Pior do que reduzir o desejo ao consumo é reduzir o consumo ao desejo do consumo.
Esta dupla vitimização é também uma dupla armadilha. Por um lado, nem o desenvolvimento desigual do capitalismo, nem os limites do eco-sistema planetário permitem a generalização a toda a população mundial dos padrões de consumo que são típicos dos países centrais

Boaventura Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª ed., Almedina, 2013, Pág. 269
(os sublinhados são nossos)

Dizia bem Boaventura Sousa Santos, que “as grandes massas populacionais da periferia” estavam “arredadas” das práticas de consumo vigentes no centro, mas não da publicidade suscitadora de novos desejos e de insuspeitas "necessidades", individuais e colectivas. Pois bem, essa realidade, que já muda, irá alterar-se rápida e profundamente. A China ao decidir aprofundar mais a sua política económica no sentido de “mais mercado e menos Estado”, alargando-a ao seu mercado interno, abraça definitivamente a biopolítica. Mais mercado, mais consumo interno, mais população (a China vai relaxar a sua política demográfica antinatalista), mais consumidores, mais contribuintes - esses novos escravos a formar… Mas também, mais poluição, mais consumo de energia, mais consumo de recursos naturais, mais ameaça à biodiversidade, mais, mais, mais… Se enriquecer era glorioso, é agora o consumo que passa a sê-lo. E assim se vai imiscuindo o deus mercado, insidiosamente, em todas as esferas da vida (e da Vida).

O mercado é o fetiche da China, esse país mutante. Comunista e capitalista, neoliberal e consumista.

terça-feira, novembro 12, 2013

O sonho português

O desprezo a que é votado o mercado interno é evidenciado pela orientação política e económica destes que nos dizem governar, ao privilegiarem exclusivamente as exportações e o turismo como os motores do crescimento económico nacional (coisa que, curiosamente, mal se vê, ainda que andem já por aí a falar em milagres). Para esta gente, os consumidores estão lá fora. Os de dentro que se resignem ao trabalho mal pago, à exploração, aos baixos salários, que o consumo, esse, não é para cafres. Os da “piolheira”, se quiserem, que emigrem, ou então, que aguardem o crescimento do investimento directo estrangeiro, pois nem Governo, nem empresas nacionais exportadoras, estão preocupados com as suas aflições. Neste país, paradoxo dos paradoxos, empobrece-se a trabalhar. É o sonho português, no seu melhor. Arbeit macht frei.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Delinquentes

Após visionar uma reportagem na RTP 1 sobre o estado de degradação a que a Escola Secundária da Anadia chegou (e esta escola não é a única escola pública nesta situação degradada - há muitas Anadias por aí), uma palavra ecoou na minha cabeça: “delinquentes!” (isso mesmo, a proferida por Soares). Tem razão Soares: somos governados por um bando de delinquentes e presididos pelo chefe da quadrilha. Soares esquece porém que o caminho para a chegada desta gente à governação do país foi preparado por aquela “terceira via” "socialista" e socrática, comprometida com o neoliberalismo, pioneira na organização das escolas por agrupamentos, o que virá a facilitar o posterior passo no sentido da privatização das escolas; a mesma via que precarizou o vínculo dos funcionários públicos ao Estado, tornando-os, a maioria, em “contratados de trabalho por tempo indeterminado”, rebaixando o estatuto social dos professores, a meros “ocupadores” de alunos – passavam a tratar da famosa ocupação plena dos tempos livres, quando o seu papel não é, meramente, ocupar alunos, mas sim ensinar saberes relevantes, divulgar cultura, ciência, arte e desporto; congelou-lhes as carreiras; deixou de  lhes pagar pela correção de exames, ao contrário do que se faz nos outros países; transferiu custos para muitos professores ao fazer com que tivessem de circular entre várias escolas de um mesmo agrupamento. Em curtas palavras, o ministério educativo de Sócrates tentou arrastar os professores para a lama. Tentou, debalde, rebaixá-los socialmente. Não conseguiu porque eles lutaram, e bem, e a maioria dos portugueses os tem em grande consideração.

Mas no ministério educativo de Sócrates nem tudo foi mau: distribuiu computadores pelos alunos e professores - os famosos Magalhães, entre outros -, inclusive a alguns que nunca tinham utilizado um, e equipou escolas. Diminuiu o número máximo de alunos por turma e abriu a escola aos adultos – os famosos Cursos de Educação e Formação e os cursos de Educação e Formação de Adultos, enquadrados pelo programa Novas Oportunidades. Introduziu o ensino do Inglês no Primeiro Ciclo, alargou a rede pública de educação Pré-escolar. Além disso, investiu nalgumas escolas reparando-as, modernizando-as, dotando-as de novos equipamentos, …Pelo menos era essa a intenção, até chegarem os delinquentes.

Os delinquentes chegaram e pararam tudo – não havia dinheiro, diziam – e ao invés de investirem na Escola Pública, desinvestiram. Agravaram as condições de trabalho nas escolas públicas, aumentaram o número de tempos lectivos nos horários dos docentes, aumentaram o número máximo de alunos por turma (quando o Governo anterior, o tinha diminuído). E, contrariando as orientações do memorando da troika (porque aqui lhes convinha), aumentaram a transferência de dinheiros públicos para os colégios privados – para isto já havia dinheiro.

São delinquentes, pois claro, porque a sua intenção evidente é a de favorecer negócios privados, que envolvem empresas de amigos, conhecidos, influentes e grupos de interesse dos colégios privados. Para estes delinquentes é preciso que a Escola Pública e a Universidade Pública se degradem, para que a Privada se torne mais apelativa, apetecível e lucrativa. Para estes delinquentes, o ensino e a educação escolar são ainda um rico filão à espera de ser explorado. Há que prepará-lo para a rapina.

Um bando de delinquentes! É o que são. Uma cambada!

domingo, novembro 10, 2013

A comercialização da estética e a prostituição publicitária

A comercialização da estética, a sua redução a kitsh, contam-se entre os traços marcantes das culturas capitalistas. Shakespeare e Kant servem para vender sabonetes. Um tema de Haydn é convertido em refrão que acompanha o lançamento de um novo modelo de peúgas. Os textos, a música em causa, prestar-se-iam, em certo sentido, a uma tal prostituição? As ironias aqui são profundas.

George Steiner, Gramáticas da Criação


Muito antes desta constatação de Steiner, Fernando Pessoa tinha sido alertado por um amigo para o possível destino que a sua obra – Mensagem – teria, caso lhe desse o nome inicialmente pensado, “Portugal”. É que nem “Portugal”, nem a sua maior Dinastia, escapavam já à prostituição publicitária da cultura capitalista da época e ao kitsh (curiosamente, tal como Steiner, também Pessoa relaciona esse uso publicitário, por ser mais do que abusivo e empobrecedor, à prostituição).





Fernando Pessoa, AQUI

Em suma, a relação entre o capitalismo e a cultura equipara-se à relação entre o proxeneta e a prostituta, “em certo sentido”. A cultura só ao capitalismo interessa na medida em que ele pode ganhar dinheiro com a sua comercialização. Fernando Pessoa não queria que a sua “Mensagem” se prestasse a tal tratamento.

domingo, novembro 03, 2013

Desarmadilhar o futuro

Diz o caro Rogério, do blogue Conversa Avinagrada, em comentário ao post anterior, que o futuro virá atrás de um punho cerrado, se cerrarmos os punhos.


O futuro virá atrás de um murro de revolta se não for desarmadilhado, ou de um ruidoso murro dado numa mesa, por algum Sebastião iluminado, populista, que gritará “Basta!”, um ditador... Estaremos ainda a tempo de o evitar?


O futuro, longe de ser uma pomba, parece ser uma bomba. Uma bomba nuclear, demográfica, ambiental, económica, social...São essas as ameaças que pairam sobre as nossas cabeças e que se têm acumulado. O futuro já vai explodindo por aí, por esse mundo fora e por aqui, por Portugal. Que futuro mora no Bairro do Lagarteiro, ou noutros bairros como esse, só para dar um exemplo? O futuro poderia ser uma pomba, mas armadilharam-no como uma bomba. 

sábado, novembro 02, 2013

O futuro

Nunca esteve tanto nas nossas mãos, mas as nossas mãos nunca foram tão ignorantes sobre se afagam uma pomba ou uma bomba.


Boaventura Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª ed. Afrontamento, 2013, p.54

quarta-feira, outubro 16, 2013

Enquanto isso, na América

Enquanto isso, na América trava-se uma batalha épica, uma espécie de contra-ofensiva desesperada, uma “Batalha das Ardenas” contra a vaga neoliberal que tudo invade. Obama, contra a corrente principal que se faz sentir no mundo, e também em Portugal, que visa a desagregação do Estado Providência, tenta impor o ObamaCare, e, dessa forma, democratizar o sistema de saúde Norte-americano, abrindo a prestação de cuidados de saúde aos que no actual sistema se veem privados desses cuidados, em suma, aos mais pobres e classes médias endividadas, aos que não têm dinheiro para pagar às poderosas seguradoras pelos tratamentos necessários.

Esta gente contra a qual Obama actualmente se bate – os do Tea Party do Partido Republicano - não brinca em serviço na defesa das classes mais ricas (move-os na verdade uma visão de classe). Recentemente votaram uma lei que implica a retirada das senhas de alimentação do programa Federal a mais de 3,4 milhões de pobres em 2014. Outro insulto aos pobres noticiava o editorial do New York Times de 20 de Setembro.

O desfecho deste braço-de-ferro é de extrema importância, pois não é só o ObamaCare que está em causa. É a própria sobrevivência da democracia, na verdadeira acepção da palavra.

terça-feira, outubro 15, 2013

O novo colonizador

Sonhais ainda com guerras coloniais, José Eduardo?
Eram outros portugais, José Eduardo.
Por muito que secretamente o desejes, já não nos encontrarás nesse mister de matar e morrer. Estamos curados disso e muito tempo passou. 
Aí já não nos encontrarás.

Agora tu, José Eduardo,
Numa irónica reviravolta do destino,
tornaste-te o vil colonizador do teu próprio povo,
que jamais medrará

sob a tua cleptocrática sombra.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Ainda por cumprir e já noutro filme

«Assim, como atrás referi, as duas mais importantes promessas da modernidade ainda por cumprir são, por um lado, a resolução dos problemas da distribuição (ou seja, das desigualdades que deixam largos estratos da população aquém da possibilidade de uma vida decente ou sequer da sobrevivência); por outro lado, a democratização política do sistema político democrático (ou seja, a incorporação tanto quanto possível autónoma das classes populares no sistema político, o que implica a erradicação do clientelismo, do personalismo, da corrupção e, em geral, da apropriação privatística da actuação do Estado por parte de grupos sociais ou até por parte dos próprios funcionários do Estado).»

Boaventura Sousa Santos, Pela Mão de Alice, O Social e o Político na Pós-Modernidade, 8ª ed., Edições Afrontamento, 2002, (na página 88).

Desconheço se Sousa Santos já o teria escrito aquando da primeira edição, em 1994. Se o fez, passaram então dezanove anos. Neste ínterim o mundo mudou, para pior, e, em vez de nos aproximarmos progressivamente do cumprimento das promessas por cumprir da modernidade, afastámo-nos delas à velocidade da luz. Volvidos estes anos, em Portugal, semiperiferia (sempre semiperiferia!) cada vez mais periférica, a conversão das elites governantes e dos seus partidos à doutrina neoliberal pós-moderna, agravou os problemas da distribuição e afastou-nos da democratização política do sistema político democrático, ao ponto de se voltarem a ouvir por aí as famosas grandoladas (inclusive na Assembleia da República, a Casa da Democracia).

A modernidade ficou por cumprir neste país e a modernização é uma gargalhada.


A pós-modernidade abalroou as promessas incumpridas da modernidade como uma locomotiva abalroa um camião.

domingo, outubro 06, 2013

Tangerinas de Tânger, laranjas de Portugal

Quanta história se cruza nas ruas de Tânger – até a fruta que recebeu nome da cidade fala de séculos de intercâmbios comerciais e choques culturais. E por causa das frutas, e da geografia cultural que representam, vem-me à memória uma conversa uma vez num mercado do Irão. Eu que explicava que era de Portugal. O vendedor de fruta mostrou-me uma laranja e sorriu: “Ah, portugália”. O nome para “laranja” em persa era “portugália”.


Tangerinas de Tânger, laranjas de Portugal – e pelo meio um estreito de mar com a largura de um milénio de desconfianças, preconceitos, ódios e guerras. Que estúpidos que são os homens e as coisas em que acreditam.

Gonçalo Cadilhe, África Acima, Oficina do Livro, 2007, pp. 197-198

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O livro de Gonçalo Cadilhe é para ler com o auxílio de um bom atlas ou mapa e de uma lupa, para podermos acompanhá-lo no seu percurso e localizarmos as cidades que atravessa. Li-o num ápice. Consegue transportar-nos para África, é divertido e faz pensar. Agradeço ao autor.

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Curiosamente acabei de ler o livro numa semana marcada pela tragédia (mais uma) que se abateu sobre centenas de africanos que tentavam alcançar a ilha de Lampedusa num barco que ardeu e se afundou. Morreram centenas de imigrantes, incluindo mulheres grávidas. Prenhes de África, esperançosas de Europa. Que problema este. Que tragédia.


Estamos pois, muito longe desse tão apregoado mundo plano, aplanado pela globalização, onde supostamente existiria igualdade de oportunidades para todos. A globalização capitalista não é solução porque gera enormes desigualdades socio-económico-espaciais – polarizações, chamam-lhe os sociólogos - e são estes diferenciais que estão na origem de todos fluxos, no caso, fluxos de desesperados que pagam muitas vezes com a vida, a ousadia de sonharem com outra existência, mais promissora do que a que lhes é oferecida nos poeirentos campos de África.

sábado, outubro 05, 2013

O acelerador de partículas da história

A guerra é uma espécie de acelerador de partículas na transformação da história.

João Gouveia Monteiro

No programa da Antena 2, Quinta Essência, de João Almeida, o historiador João Gouveia Monteiro, com grande vivacidade e detalhe, conseguiu fazer com que este ouvinte presenciasse, em directo, a Batalha de Gaugamela, que opôs o exército de Alexandre Magno da Macedónia ao de Dário III da Pérsia, em 331 a. C.


O excelente programa pode ser ouvido AQUI.

Entretanto aguarda-se já a próxima grande batalha.

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Um livro adquirir:


João Gouveia Monteiro, Grandes Conflitos na História da Europa, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

quinta-feira, outubro 03, 2013

Civilização e religião

Abro o Livro do Desassossego e leio:

Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas. Nós perdemos essa, e às outras também.”

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio e Alvim, 2013, p. 259

E não era sociólogo.

No cerne de cada civilização encontramos uma religião, se escavarmos bem fundo. Os que estudam as civilizações sabem-no. Fernando Pessoa, que não estudava civilizações, sabia-o. Desestrutura-se aquela civilização cujos membros vão abandonando paulatinamente a linha íntima da religião civilizacional.


É por aqui que podemos tomar o pulso da decadência civilizacional. Qualquer
que seja a civilização.

domingo, setembro 29, 2013

Turista não: viajante!

Duane Hanson, Tourists II, 1988

O principal desígnio do turista consciente é não ser confundido com um turista. Esses que constituem as hordas invasoras de cidades, campos e praias e que tudo conquistam com o olhar, o vociferar e a presença. Uma praga!

O principal desígnio de um turista consciente é ser tomado por viajante.

O turista inconsciente está-se nas tintas.

sábado, setembro 28, 2013

Sobre as alterações climáticas: duas leituras.


Expresso: “Relatório da ONU. Aquecimento global abrandou. A subida das temperaturas abrandou e nos últimos 15 anos até estabilizou. (…) É a primeira vez desde o relatório de 1990 que o IPCC não apresenta um cenário alarmista, apesar das emissões de CO2 continuarem a aumentar.” (pág. 2, Primeiro Caderno).


Parece que, pelo tom, a notícia do Expresso esteve ao cuidado de algum céptico das alterações climáticas e do aquecimento global.

África abaixo

Os países são feitos de pessoas, e eu acredito que a maioria das pessoas é feita bem. É feita de valores universais, que permitem a qualquer viajante sentir-se em casa quando se sente rodeado desses valores. O sorriso, a solidariedade, o bom-senso, a alegria, a música e a amizade valem mais que a corrupção, a desonestidade, o ódio, os preconceitos raciais, os estereótipos sociais. Viajarei com o primeiro grupo de valores na bagagem, para trocá-los por outros iguais ao longo da viagem. E como não os quero só para mim, depois de trocá-los, irei partilhar tudo.”

Gonçalo Cadilhe, África Acima, Oficina do Livro, 2007, p. 19


Conforta-me saber que existem viajantes experimentados que, depois de terem visto o mundo, ainda assim guardam uma confiança incondicional no ser humano, esse perigoso animal mais imprevisível do que um tubarão.

***

Não é que Gonçalo acredite viver no melhor dos mundos, como o doutor Pangloss, na história de outro grande optimista. Gonçalo não é ingénuo. Mas sabe que pode aventurar-se pelo mundo com relativa segurança, uma vez que sempre existem ilhas com bons ancoradouros onde poderá abrigar-se das tempestades.


Depois de ter lido as desventuras de Serpa Pinto pelas terras da África Austral no final do século XIX, e a história da travessia de Paul Theroux no século XX, do Cairo ao Cabo, sinto curiosidade em saber como se sairá Gonçalo Cadilhe nesse continente que é encanto e desencanto, que é sonho e pesadelo, que é tudo e o seu contrário.

Vou ler.

domingo, setembro 15, 2013

Um criminoso contra a humanidade, à solta.


Assad é um criminoso contra a humanidade. É Ban Ki-Moon, o Secretário-geral das Nações Unidas que o diz, e não um perigoso imperialista desejoso por alargar a esfera de influência do seu império. O que se deve fazer então em relação ao criminoso? Cruzar os braços e deixá-lo à solta? Vamos advogar que é um problema sírio, eles que se entendam? Que se matem uns aos outros? Parece-me que não: é um problema da humanidade, um problema planetário e portanto, um problema nosso. Já não vivemos no tempo do Rei Creso, nem na Idade Média europeia, em autarcia, fechados nos nossos feudos.

Quando nem uma só bala tinha ainda sido disparada e um só corpo tombado nas ruas de Damasco, quando o exército da Síria estava unido e o conflito não se tinha avolumado como uma bola de neve, Assad, por ter toda a força do seu lado, tinha o dever moral de evitar a guerra. Preferiu outro caminho e deixou que se avolumasse o conflito. O resultado está à vista.

Estou perplexo com a posição das esquerdas portuguesas, contra Obama, aparentemente por cegueira ideológica: parece que, para as nossas esquerdas, todo o vento que sopra da América é mau, independentemente das razões que lhe assistem, quer sejam justas ou não. Como se Obama fosse um falcão ávido de sangue, um Bush. Curiosamente as posições das esquerdas assemelham-se às posições da extrema-direita fascista, basta ler as opiniões dos blogues dessa área, que defendem os regimes de Assad e de Putin. Ironias da história.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Estátuas







As estátuas altaneiras das velhas cidades imperiais miram-nos de cima, sobranceiras.

Antes que se escureça o sol, a luz, a lua e as estrelas


Preparo-me para deixar o Algarve após uma longa estadia de mais de meia década. Vou rumar para outras paragens. Algo em mim morre. Quando aqui cheguei o meu pai era vivo. À chegada ajudou-me a erguer um grande móvel para colocar os livros e a instalar-me. Agora que abalo, já não está entre nós. O Algarve mudou, e quando regressar, porque regressarei, decerto não o encontrarei como o deixo. Também quando cheguei, não foi o velho Algarve, o da minha infância, que encontrei. 

Ainda escrevo no silêncio nocturno da serra que em breve abandonarei. A casa e o quintal ficarão vazios. Talvez por isso, hoje, têm ecoado no meu pensamento umas palavras que em tempos li a uma velha tia analfabeta e devota, também já falecida, que se comprazia em ouvir-me ler a Bíblia:

«Lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que venham os dias maus e cheguem os anos, dos quais dirás: “Não sinto prazer neles”;
antes que se escureça o sol, a luz, a lua e as estrelas,
e voltem as nuvens depois da chuva;
quando os guardas da tua casa começarem a tremer,
e os homens robustos a vergar,
quando as mós deixarem de moer porque são poucas
e se obscurecerem os que olham pela janela;
quando se fecharem as portas sobre a rua,
quando enfraquecer o ruído do moinho,
quando se calar a voz do pássaro
e humedecerem as canções.
Então, também terão medo de subir aos lugares altos,
e temerão os sobressaltos no caminho.
A amendoeira florescerá,
o gafanhoto engordará
e a alcaparra perderá as suas propriedades,
porque o homem encaminhar-se-á para a casa
da sua eternidade,
enquanto os carpidores percorrem as ruas;
antes que se quebre o cordão de prata
e se desperdice a lâmpada de oiro,
e se parta a bilha na fonte,
e se desfaça a roldana sobre a cisterna,
e o pó volte à terra donde saiu,
e o espírito volte para Deus que o deu.
Vaidade das vaidades, dizia o Eclesiastes, e tudo é vaidade.»

Livro do Eclesiastes, Ecle. 12

***

Estou a ficar velho. Apenas isso.

segunda-feira, agosto 19, 2013

...

     Charles Conder, A holyday at Mentone, 1888

sábado, agosto 17, 2013

Deve o Estado ser gerido como uma empresa?

Obviamente que não. O Estado não é uma empresa, nem deve ser gerido como tal. O Estado não se gere. Governa-se! Ao contrário de uma empresa, não é objectivo do Estado o lucro ou a maximização da receita.

Agora vão lá dizer isso ao Primeiro-ministro.

"Passos Coelho admitiu, ao comparar o Estado com uma empresa, que o objectivo é reduzir/despedir funcionários públicos para equilibrar as contas, o que, todos sabemos, a Constituição não permite." AQUI.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Se

Evolução da taxa de variação do PIB de Portugal, em termos homólogos

Em relação ao crescimento trimestral do PIB faço minhas as palavras de Medeiros Ferreira no Córtex Frontal e acrescento uns “se”. Nada contra o crescimento, com certeza, se esse crescimento implicar a redução do desemprego, da pobreza e das desigualdades sociais. Crescimento sim, se não for à custa da degradação ambiental nem de atentados à Vida e às culturas locais, ameaçadas em todo o espaço planetário.

Afinal, como olhar para um degrau que se subiu, quando se desceram tantos degraus (dez trimestres consecutivos)?

Fizeram bem os que observam este crescimento trimestral do PIB com cautela, inclusive os ministros do Governo que não embandeiraram em arco, há que dizê-lo. Este crescimento ainda não é de fiar.

O crescimento é um meio para atingir o desenvolvimento. De nada nos servirá, se não atingir esse fim.
***
Adenda: na verdade se observarmos a evolução da taxa de variação do PIB, em termos homólogos, constatamos que o Produto Interno Bruto diminuiu 2,0% em volume no 2º trimestre de 2013, como refere aqui o INE.

terça-feira, agosto 13, 2013

O triunfo da imoralidade

Thomas Couture, The Romans of the Decadence, 1847

«Durante décadas, os fundos de pensões dos seguros e da banca privada foram constituídos pela capitalização das contribuições das próprias empresas, entidade patronal, e dos seus funcionários, não onerando o Estado. O Estado não era responsável pelas pensões nem pela capitalização desses fundos.
(...)
Em 1980, durante o primeiro governo da AD, com Cavaco Silva, as pensões de reforma passam a ser atribuídas a beneficiários no fim do exercício de certas funções independentemente de estarem ou não em idade da reforma. Uma pessoa podia exercer o cargo de administrador do Banco de Portugal ou da CGD durante um ou meio mandato, e tinha direito à reforma por inteiro a partir do momento em que saía da instituição.
(...)
A partir de agora, as pensões da banca privada passaram, simplesmente, a ser responsabilidade pública. Tolerando-se, como se vê pelos exemplos, a acumulação de pensões de reforma públicas com funções executivas privadas e concorrentes.»

Clara Ferreira Alves, “Os Reformados da Caixa”, Expresso (Revista), 10 de Agosto de 2013

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Há muito que se anda a baixar as possibilidades, para agora se dizer que vivemos acima das nossas possibilidades.

E chegámos ao cúmulo de as primeiras figuras do Estado preferirem receber as pensões de reforma em vez dos respectivos salários. Ao que isto chegou…

Como foi possível tudo isto? Onde estavam os mecanismos de controlo democrático, as instituições vigilantes? Como pôde e pode a democracia tolerar isto?

Receber a reforma sem estar na idade da reforma. Dizem que é legal. É legal mas não é moralmente, nem eticamente admissível (também era legal, muito legal, denunciar judeus no tempo do nazismo, na Alemanha, ou enviá-los para campos de concentração, e era ilegal ajudá-los, que o diga Aristides de Sousa Mendes).

São as leis que servem os homens, não são os homens que servem as leis. Mas há homens que se servem das leis, quando as leis são demasiado imperfeitas, propositadamente assim elaboradas para que alguns habilidosos delas se possam servir.

E por favor, não nos venham dizer que o mundo é injusto e que é assim o mundo. Não podemos compactuar com as injustiças deste mundo, sob pena de nos tornamos uns canalhas.

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«O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade, de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. Como não é possível converter em sã normalidade o que na sua essência é criminoso ou anormal, o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido, fazendo-se totalmente homogéneo com o crime ou a irregularidade que arrasta.»

Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

sábado, agosto 10, 2013

O Grande Canal

     Frederico del Campo, Vista do Grande Canal de Veneza, 1913

A Corda do Enforcado. Comentários de um leitor crítico.

Lido o longo livro de Nuno Rogeiro, 652 páginas (!), há ideias e pontos de vista com as quais concordamos e outros acerca dos quais discordamos. Mas nem poderia ser doutra forma quando se realiza uma leitura crítica. Para dizer a verdade, embora não sendo uma bíblia, são vários livros num, pois o autor deambula por vários temas com toda a liberdade, indisciplinadamente, e a seu contento, aprofundando mais aqui e menos ali, o que dá um certo desequilíbrio aos subcapítulos – por exemplo, só às questões que se prendem com a política de defesa, questões militares e geopolítica, são dedicadas 108 páginas integradas num capítulo reservado a políticas sectoriais de 181 páginas (em suma, a Defesa ocupa 60% das páginas desse capítulo). Mas Nuno Rogeiro escreve sobre aquilo de que gosta e fá-lo de forma fundamentada, como se pode atestar pelas inúmeras referências a que recorre, indicadas em rodapé. Escreve com grande erudição, existindo muitas outras referências implícitas no texto, para além das que indica em rodapé – por exemplo, Céline[1], Jean-Paul Sartre[2], Hayek[3], são citados, entre muitos outros, se o leitor estiver atento.

Em abono do autor está também o facto de ter resistido à ideia de colocar a sua cara na capa ao contrário destes aqui, referidos no Malomil.

Mas vamos às discordâncias e embirrações (ficamo-nos apenas por três para não sermos maçudos, pois outras haveria).

sexta-feira, agosto 09, 2013

Medusa

Caravaggio, Medusa (1598-99), Galleria degli Uffizi, Florença

De Fórcis, por sua vez, Keto deu à luz as Greias de belas faces
- cobertas de cãs desde o seu nascimento, chamam-lhes Velhas
os deuses imortais e os homens que caminham sobre a Terra,
Penfredo de belos peplos e Enio de peplos cor de açafrão –
e também as Górgonas, que habitam para lá do oceano ilustre,
na fronteira com a noite, na morada das Hespérides de voz cristalina,

Esteno, Euríale e Medusa de fatídico destino.
Esta era mortal, enquanto eram imortais e isentas de velhice
as outras duas. Mas, só a ela conheceu o deus dos cabelos anilados,
Na planície suave, entre as flores da primavera.

 Hesíodo, Teogonia

quinta-feira, agosto 08, 2013

Os exemplos vêm de cima

Cortes nas reformas deixam políticos de fora.  (Lido primeiro No Vazio da Onda que remete para aqui.)

Juízes e diplomatas escapam ao corte de pensões. É justo, é muito justo.

Faz lembrar o Titanic a afundar-se. Para alguns estavam reservados os melhores lugares nos barcos salva-vidas. Os outros que se lançassem ao mar e nadassem.

Mais palavras para quê?

Adenda: é certo e justo, diga-se de passagem, que pensionistas mais vulneráveis como os que vencem uma pensão inferior a 600 euros e os que possuem certos graus de deficiência, estejam isentos, mas parece que no meio deste grupo se imiscuem políticos, diplomatas e juízes. Parece uma daquelas situações em que se grita "mulheres e crianças primeiro" e no meio aparecem umas matronas e uns cobardes a quererem fazer passar-se por mulheres e crianças. 

sábado, agosto 03, 2013

Entretanto na Terra

       Um sapo, algures na Terra (Indonésia).                                 Foto de: Penkdix Palme et al.

«A humanidade não precisa de uma base lunar ou de uma viagem tripulada a Marte. Precisamos de uma expedição ao planeta Terra, onde provavelmente menos de 10 por cento das formas de vida são conhecidas da ciência e, delas, menos de 1 por cento foram estudadas para além de uma simples descrição anatómica e de algumas notas sobre a sua história natural.»


E. O. Wilson, A Criação, Um Apelo para Salvar a Terra, Gradiva, 2007, p. 155.

Water, water, everywhere

     Busca por água perto dos Vales do Tejo (nos desertos de Marte), ESA

Water, water, every where,
And all the boards did shrink;
Water, water, every where,
Nor any drop to drink.

            Samuel Taylor Coleridge, The Rime of the Ancient Mariner (excerto)


***
Buscamos avidamente por água.
Água, água, por todos os lados,
Mas nem uma gota para beber.
***

Em Marte, há vestígios de água por todo o lado, mas onde está a água? Tem de estar nalgum lado. Não há fumo sem fogo. Ou sob a forma líquida no subsolo, ou sob a forma gasosa - humidade atmosférica [impossível, pensando bem] -, ou ainda sob a forma sólida, escondida do nosso olhar, para além daquele gelo já descoberto nos pólos. Mas ela tem de estar nalgum lado. Afinal, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

terça-feira, julho 30, 2013

Foi o PS. É bom que se saiba, é bom que não se esqueça.

"Toda a oposição se prontificou a enviar os dois diplomas [as propostas de lei que alteram o período de trabalho dos funcionários públicos para 40 horas semanais sem qualquer acréscimo remuneratório, assim como o denominado "regime de mobilidade especial na administração pública"] para apreciação do Tribunal Constitucional, com especial realce para o PS que, na sua última passagem pelo Governo, desmantelou as carreiras na Administração Pública e substituiu o regime de nomeação definitiva pelo regime de contrato de trabalho em funções públicas. Foi o PS que criou as condições que possibilitaram a este Governo avançar sobre os funcionários públicos."
Filipe Tourais
(os destaques são nossos)

N’O Vento que Passa e n’O País do Burro

O PS lavrou o terreno, preparou-o para que o PSD e o CDS pudessem nele semear e colher. Os funcionários públicos estão agora prontos para serem ceifados e alimentar dessa forma as colheitas de desempregados que se acumulam de ano para ano.

E assim se dá prioridade à criação de emprego (dizem eles), desempregando. É fantástico.

sábado, julho 27, 2013

O caminho para a Islândia

A Islândia é um país curioso. Depois da falência dos bancos e do crescimento galopante do desemprego, da recessão e da dívida, levou menos de três anos a voltar à prosperidade, com um cocktail de medidas certas, esforço e bom senso.
A Islândia é um país curioso. Não há receio em levar a tribunal os políticos suspeitos de transgressões graves ou desastrosas.
(…)
Sondagens feitas no país mostram que os islandeses pretendiam sobretudo, que o julgamento servisse para duas coisas: como aviso aos políticos, para que não entendessem que só estavam sujeitos ao juízo das urnas, sempre impreciso nas sanções, e para que se expusesse a verdade sobre a falência de todos os grandes bancos nacionais, num curto espaço de tempo, sem alertas nem preparação.
(…)
Em suma, cada povo deve encontrar o seu caminho para a Islândia. Pode levar tempo. Mas é inevitável. Não se trata de pedir culpados à história, mas de evitar que o mal se repita. E de fazer justiça. A temporária, provisória, imperfeita, mas necessária justiça dos homens. “

Nuno Rogeiro (2013), A Corda do Enforcado, Análise Política das Críses (2017 -2013), D. Quixote, pp. 186, 187 e 188. (destaques nossos)


Palavras hoje lidas, do insuspeito “libertário já idoso, nacionalista, revolucionário, católico e republicano” Nuno Rogeiro. 

O povo não sabe onde é a Islândia


"Ao desprezar o factor BPN quando faz as suas escolhas, o que acontece pela segunda vez, o primeiro-ministro despreza também os contribuintes espoliados por essa fraude gigantesca até agora impune."

Fernando Madrinha, Expresso, 27 de Julho de 2013

Pois é assim que este contribuinte se sente: espoliado. Cada vez mais convencido de que é governado por um bando de cleptocratas, velhas famílias e oligarquias, que na falta das "especiarias da Índia, do ouro do Brasil, da riqueza das colónias, ou da generosidade europeia" (como refere outro cronista do mesmo jornal) vira-se para o último recurso que lhes resta: os parcos rendimentos da maioria dos contribuintes, seus conterrâneos.

Cada vez mais me convenço que só uma revolução à islandesa pode acabar com esta impunidade. Mas o povo não sabe onde é a Islândia.

Interlúdio barroco

       Antonio Canal, Vista de um jardim através de uma colunata barroca, (1760-1768)

sexta-feira, julho 26, 2013

É um papa pop

É disto que a minha gente gosta. Qual papa intelectual, qual carapuça. Um papa pop. É um papa pop.

Férias

Este é o país em que a contestação vai de férias, para regressar em Setembro, em força. Não é uma contestação genuína portanto.

Os decisores políticos há muito que se aperceberam disso (Sócrates era um perito), e vai daí, aproveitam a dormência e a lassidão dos governados para concretizar as medidas mais lesivas para estes e que seriam mais onerosas politicamente para quem as toma, caso fossem concretizadas noutro momento. Há que aproveitar, enquanto a turba está distraída ou vai a banhos, o rigor da canícula.

segunda-feira, julho 22, 2013

Cavaco, a imagem e o que se esconde por detrás dela

Há muito que o Presidente Cavaco Silva denota uma extrema preocupação com a imagem (efectivamente, estamos no século da imagem e uma imagem vale por mil palavras, mas as imagens também iludem, na medida em que, como escreveu Magritte ante a imagem de um cachimbo que ele mesmo pintou: “Ceci n'est pas une pipe. Pois não, a imagem de um cachimbo não é um cachimbo, ou por outras palavras, as imagens podem ser uma representação da realidade, mas não são a própria realidade). Pois bem, a preocupação com a imagem está omnipresente nas mensagens e nos discursos do Presidente, que parece sofrer da síndroma “o-que-irão-os-outros-pensar-de-nós-se-dermos-esta-imagem” quando deveria ser, “o-que-irá-ser-de-nós-se-persistirmos-neste-rumo”. A preocupação deveria incidir no “ser” e não no “parecer”, na realidade e não nas aparências.

Se atentarmos na sua comunicação ao país no dia 10 de Julho de 2013, lá está ela, a imagem, logo na segunda frase: “Os efeitos fizeram-se sentir de imediato no aumento das taxas de juro e na deterioração da imagem externa de Portugal”.

Já na comunicação do dia 21 de Julho, a preocupação com a imagem não aparece no discurso de forma explícita, mas sim de forma implícita, na frase: “Aos agentes económicos e aos parceiros sociais, aos investidores nacionais e estrangeiros, às instituições internacionais e aos nossos parceiros da União Europeia, daríamos a perspetiva, num horizonte temporal alargado, de que somos um País dotado de estabilidade política, que segue uma estratégia coerente de desenvolvimento sustentável.” Cá está: é preciso dar a perspectiva - ou seja, dar a imagem -, é preciso causar boa impressão, é preciso transmitir uma imagem credível de que “somos um País dotado de estabilidade política”, ainda que a realidade o desminta.

Outra frase do mesmo discurso que denota o mesmo tipo de preocupação é a seguinte: “Dispondo o Executivo do apoio de uma maioria parlamentar inequívoca, como recentemente se verificou, deve ficar claro, aos olhos dos Portugueses e dos nossos parceiros europeus, que Portugal é um país governável. Mais uma vez, a imagem, pois que outra coisa poderia apresentar-se clara aos olhos, que não uma imagem?

É preciso manter as aparências.

O problema é a realidade.

Neoliberalismo e democracia

But the great number [of the Athenian Assembly] cried out that it was monstrous if the people were to be prevented from doing whatever they wished... Then the Prytanes, stricken with fear, agreed to put the question-all of them except Socrates, the son of Sophroniscus; and he said that in no case would he act except in accordance with the law.
Xenophon
Tradução:
Mas a maioria [da Assembleia Ateniense] clamou que seria monstruoso se o povo fosse impedido de fazer tudo o que desejava…Então o Prítanes, acometido pelo medo, concordou em colocar a questão – todos eles excepto Sócrates, o filho de Sofronísco; e ele disse que em caso algum actuaria excepto se fosse de acordo com a lei.

Xenofonte, Helénicas
(tradução nossa)

É com a citação de Xenofonte (431 a.C. – 355 a.C.) em epígrafe, que o austríaco Friedrich von Hayek, um dos papas do neoliberalismo, começa por visar criticamente a democracia num dos subcapítulos da obra The Political Order of a Free People (1979). O subcapítulo intitula-se “A progressiva desilusão com a democracia”. O recurso a Xenofonte, um fervoroso discípulo de Sócrates, não é despiciendo. Hayek procura apoio e patrocínio num dos filósofos mais sábios da antiga Grécia, para proceder a uma crítica à democracia - nas palavras de Churchill, a pior forma de governo, à excepção de todos as outras. Com efeito, se a democracia directa não for regrada, então todas as questões e decisões antipopulares não passarão na Assembleia, encontrando a oposição da maioria. O problema é quando, nas actuais democracias representativas, a maioria decide legislar contra o povo que a elegeu, e que era suposto representar, dizemos nós. Não é de espantar que o neoliberal Hayek critique a democracia neste ponto, na medida em que esta forma de governo, como sabemos hoje, não é o melhor terreno para o exercício das políticas neoliberais. A comprová-lo está o facto de a aplicação pioneira deste tipo de políticas ter ocorrido sob os auspícios do regime tirânico do general Pinochet, no Chile.


A democracia é um escolho no caminho dos que querem impor a via neoliberal aos povos que dirigem. Não admira que queiram suspendê-la.

***

O primeiro parágrafo da obra supracitada de Hayek reza assim:

When the activities of modern government produce aggregate results that few people have either wanted or foreseen this is commonly regarded as an inevitable feature of democracy. It can hardly be claimed, however, that such developments usually correspond to the desires of any identifiable group of men. It appears that the particular process which we have chosen to ascertain what we call the will of the people brings about results which have little to do with anything deserving the name of the 'common will' of any substantial part of the population.
Friedrich von Hayek (1979) - The Political Order of a Free People

Tradução:

Quando as actividades do moderno governo produzem resultados agregados que poucas pessoas desejavam ou previram, isso é comummente considerado como uma característica inevitável da democracia. Dificilmente se pode afirmar, contudo, que tais desenvolvimentos usualmente correspondem aos desejos de um grupo identificável de homens. Parece que o processo particular que escolhemos para determinar o que podemos chamar a vontade do povo traz resultados que pouco têm a ver com qualquer coisa que mereça o nome de “vontade comum” de qualquer parte substancial da população.
Friedrich von Hayek (1979) - The Political Order of a Free People
(tradução e sublinhados nossos)

Ao contrário do que refere Hayek, julgamos que hoje existe um grupo identificável, não maioritário, que quer impor as suas políticas, desígnios, desejos e interesses aos demais, contra a vontade destes e para benefício daqueles. E com efeito é possível consegui-lo. Basta ter o poder para suspender a democracia.

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