quarta-feira, dezembro 31, 2008

O Dever de Ser Feliz

«O que se desenha no horizonte? – Um século das horas extraordinárias, da dúvida, da fuga massiva. Mas não vale a pena lamentar-se e é indecoroso baixar a cabeça. O dever de ser feliz é mais válido do que nunca em tempos como os nossos. O verdadeiro realismo da espécie consiste em não esperar menos da inteligência do que se exige dela.»

Peter Sloterdijk (1993), O Estranhamento do Mundo, Relógio D’Água, pág. 220.

Seria fácil demais virar o olhar para o lado sombrio dos nossos tempos e relembrar todas as desgraças. Seria fácil demais embrenharmo-nos na noite escura e questionar a ousadia da nossa festa. Festejemos! Iluminemos a noite com os nossos fogos, fátuos ou não. Lancemos alguma luz no céu sombrio e dancemos até ao raiar da aurora.

sábado, dezembro 27, 2008

O porto ou a morte

O Mar de Gelo, c. 1824 (Friedrich, Caspar David)
Nenhum grupo de ascetas sobre os mares pôde, porém, sentir com mais acuidade a lei do mar, «o porto ou a morte», do que os que procuravam os pontos de travessia mais difíceis da Terra, a via nordeste entre o Mar do Norte europeu e a Sibéria Oriental e a via noroeste entre a Gronelândia e o Alasca.

Peter Sloterdijk, Palácio de Cristal, Relógio D'Água, pág. 86

terça-feira, dezembro 23, 2008

El Niño Dios ha nacido en Belén

A Sagrada Família com Santa Ana, c 1600 - El Greco

A imagem do Menino Jesus a levar nalgadas da Virgem Abençoada, ainda por cima, perante três testemunhas (como o pintou Max Ernst), não é digna desta quadra natalícia. Por isso, deixamos um quadro mais cordato do Menino Jesus a ser amamentado pela Virgem. Agora, perante duas testemunhas (São José e Santa Ana).

Feliz Natal para todos os que acidentalmente ou incidentalmente encalharam neste blogue e para todos os que o visitaram intencionalmente. Espero que se tenham divertido de algum modo.

Boas Festas.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Max Ernst em Málaga

A Virgem Abençoada Castigando o Menino Jesus Perante Três Testemunhas, 1926 - Max Ernst

No Museu Picasso em Málaga, descobrimos outro vulto da arte do século XX. Max Ernst (1891-1976). Em exposição até 01/03/2009, a sua obra integrada na colecção Würth pode ser apreciada nas galerias do museu. Pelas galerias acompanhou-nos a estranheza e o espanto da descoberta. Um louco pintando, não o mundo exterior, mas as paisagens do espírito interior. Pinturas, colagens, esculturas. Uma cabeça monumental dominando uma grande sala, omnipresente: o Big Brother. Gravuras representando figuras semi-humanas, semi-animais. O Espírito da Bastilha: um pequeno homenzinho erigido no cimo de um totem de pedra. A Horda – uma colagem de figuras antropomórficas ameaçadoras. Mas o quadro que mais nos chamou a atenção foi o Século XX ou Versatilidade, pintado em 1961. Há quem veja optimismo no quadro!? Optimismo!? Pintado em 1961, no auge da Guerra Fria e do equilíbrio do terror nuclear por um homem que sofrera na pele duas guerras mundiais (lutou na Primeira tendo recuperado de uma morte clínica e foi enviado para campos de concentração na Segunda), o quadro é a imagem da desolação ou da versatilidade das formas de destruir o mundo: uma descrença total no Homem, o destruidor de mundos. Trata-se na verdade de uma paisagem de escombros fumegantes, sobre o vermelho vivo de sangue, e um azul frio de morte. Um apocalipse. Não foi o século XX, um século de campos de batalha sem fim, de cidades arrasadas e cogumelos atómicos? Que futuro se pressentia para o século XX, em 1961?

O Século XX ou Versatilidade não o encontrámos na Internet. Fica a imagem da Virgem Abençoada Castigando o Menino Jesus Perante Três Testemunhas (que se encontra em exibição no The Metropolitan Museum of Art).

domingo, dezembro 21, 2008

Málaga em Dezembro

Na margem do Mediterrâneo, Málaga é uma cidade digna de ser visitada em Dezembro, pelas suas gentes, pela sua alegria e pelo seu calor. Málaga é uma cidade viva. À noite o seu centro anima-se de jovens e famílias que se passeiam pelas calles iluminadas e enfeitadas (as ruas nunca são abandonadas ao frio e ao silêncio). As jovens espanholas embelezam-se e perfumam-se. Caminham animadamente em direcção a uma qualquer fiesta. No centro da cidade destaca-se a avenida Marqués de Larios (uma espécie de Rua Augusta, mas ao contrário desta, a multidão invade-a quando a noite se instala). O centro histórico é também constituído por numerosas pequenas praças e ruas estreitas, polvilhadas de bodegas, onde se comem tapas, bebe-se cerveja e convive-se animadamente. Os mais devotos formam filas à entrada das igrejas e da catedral, para assistirem a rituais nocturnos. A cidade respira o ar cálido do Mediterrâneo por todos os poros.

Mas com o aprofundar da noite, resistem nas ruas hordas ruidosas de adolescentes que, organizadamente, se foram embriagando. A vozearia e a gritaria é intensa na Plaza da Marina, fronteira ao porto, e dura até ao raiar da alba.

sábado, dezembro 20, 2008

O Cabo das Tormentas

A criatura resiste. Recorre neste momento de aflição, a todos os seus esbirros colocados em altos cargos governamentais e outros de grande alcance social. Move todas as suas influências. Tenta escapar ao naufrágio no mar tormentoso do mundo. Mar tenebroso, o que agora atravessamos. Os governos não nacionalizam, não propõem o fim de paraísos fiscais e zonas francas, e continuam a apostar na concessão de crédito para financiar o investimento, mas na sociedade de consumo já não é a poupança que suporta o crédito, mas antes a produção monetária nas rotativas. Usam agora os contribuintes endividados como fiadores e financiadores de bancos falidos e de empresas mal geridas. E ainda nos querem fazer crer que estão realmente indignados porque os bancos não fazem chegar os financiamentos às empresas. Será que somos assim tão ingénuos?

Canalizam-se os recursos dos contribuintes para o benefício de alguns accionistas, num processo de concentração sem precedentes, de poder e riqueza. Mas o contexto não deixa de ser agónico. Algumas ruas gregas já perceberam e gritam contra a plutocracia. É só o começo da bernarda.

Virão dias de bonança, quando menos esperarmos. Restará saber se o navio neoliberal ainda navegará ou se terá sido tragado para as profundezas do oceano. O capitalismo assumirá então novas formas.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Sem futuro não há presente.

Para muitos, não há presente sem passado. Mas é mera ilusão.

O presente constrói-se de futuro.

sábado, novembro 29, 2008

Em democracia

Em democracia, politicamente, não existem revoluções, mas podem haver rebeliões.

Em democracia não se reforma contra o povo, reforma-se com o povo e para o povo. Caso contrário, o governante aproxima-se do tirano.

Nestas democracias de maioria absoluta, o tempo parece iludir os governantes, que no decurso do seu mandato vão manifestando, aqui e ali, comportamentos tirânicos. As nossas secretarias de Estado e direcções gerais e regionais acumulam tiranetes prontos a "trucidar" quem ouse questionar as suas decisões ou a dos seus superiores, a quem prestam uma fidelidade canina.

Compreendo aqueles que ironicamente dão a entender que, se se quer governar contra o povo, então que se suspenda a democracia.

Dizia Aristóteles há cerca de 2400 anos que “o governante trabalha em prol dos outros” (Ética a Nicómaco, Livro V, cap. VI). Esta ética parece ter sido esquecida por muitos com cargos de governação.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Tudo é possível (dentro de determinados limites)

E se te disser, Horácio, que tudo é possível dentro de determinados limites?
E que a vida é um instante de eternidade? Ou, se quiseres, um eterno instante.

Não se fará luz no teu espírito?

Não perceberás que em vão sondaste os limites da vida? E que toda essa parafernália científica que inventaste jamais nos poderá servir para esse fim?
-------------------------------------------------------------
A propósito das palavras de Agostinho da Silva:

…e aqui temos numerosas horas de conversa ou os dias se comprimem num momento, que o tempo nem sempre dura, e ao que não dura mesmo chamamos nós instante de eternidade…

Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações, Outros textos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994, pág. 106

sexta-feira, novembro 07, 2008

Sempre, Agostinho

E ainda lhe chamam místico.

Pois, diz ele, e a nosso ver bem, que uma Nação só se realiza com “governos que mais fossem de coordenar que de mandar” e com “escolas que preparassem para o mundo a desenvolver inclusive o interno”.

Por isso dizemos: basta! Basta de “governos de mandar”. Queremos governos que coordenem; governos que não se demitam. Basta de prepotências e de desmandos (em Portugal isso está a acontecer na Educação). Queremos coordenação. O governo na Educação mais não tem feito do que impor, impor e impor. Basta! Que coordene!

Mas voltando ainda ao pensamento de Agostinho, dele ressoa uma ideia: a de união e de reconciliação. Dessa forma se cumprirá um novo Portugal, unido o velho com o do porvir. Só unidas as Nações e os povos empreendem com êxito. Não foi assim na Atenas de Péricles: velhos e novos, ricos e pobres, agricultores e marinheiros, todos unidos? Não é a união de um povo que ressalta nos Painéis de São Vicente?

Enquanto as querelas e as divisões subsistirem, as nações definharão: a desunião predominará sobre qualquer tentativa de reconciliação.

Mas deixamos-vos com as palavras de Agostinho. Sempre, Agostinho [os sublinhados são nossos].

«Só realizada uma Nação de frutos de terra e de frutos de mar, de pequena indústria transformadora livre de cadências, de escolas que preparassem para o mundo a desenvolver inclusive o interno, cooperadores excelentes, de concelhos que a si próprios se governassem, sem mutiladoras dependências do poder central, de propriedade comunitária, mesmo no fabril e no comércio - comunitária de liberdade partilhada e não de sofrida opressão, e de governos que mais fossem de coordenar que de mandar, e assim mesmo pela região passando -, só então Portugal se deveria lançar a nova revoada, sendo seu primeiro voto o de poder aliar esforços com o vizinho que durante séculos temera e que devia ser agora um esplendor de nações livres, também livres de novo seus antigos cidadãos de Maomé e Moisés, por tantos anos afastados ou odiados ou temidos.

De todos precisaria como irmãos para então, com segurança e promoção alheia e própria, ir de novo àquela Europa em que por pouco acabar, de Mercado, a que tanto o queriam prender e passando a Paraíso, e a reconhecendo como península da Ásia sobre um mar de porvir, ocidente em futuro de nascente, sem fronteiras de leste e oeste que artificiosamente a dividissem.
»

Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações, Outros textos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994, pág. 137

quarta-feira, novembro 05, 2008

Ridículo

É ridículo o argumento dos neoliberais que agora apontam o dedo acusador às entidades reguladoras por não terem estado atentas às falhas do mercado e aos que nele irresponsavelmente actuaram. É tão ridículo como o argumento que culpa as distracções dos polícias pelas acções dos ladrões. É que o problema, na realidade, não são os polícias, são os ladrões. O problema não são as entidades reguladoras, mas a política que sempre defendeu a mínima intervenção do Estado.

O mercado falhou porque, ao contrário do que sempre defenderam os neoliberais, tem de ser fortemente regulado pelo Estado. Curiosamente, vêm agora culpar o Estado e as entidades reguladoras pelas falhas do mercado e pelas irresponsabilidades dos directores executivos e quadros dirigentes. O mesmo Estado que, segundo os neoliberais, deveria intervir o mínimo nos mercados, financeiros ou não, e na economia.

Poupem-nos!

sábado, novembro 01, 2008

São Jerónimo

São Jerónimo (1521) – Albrecht Dürer

O dedo afaga o crânio, liso e frio como a morte. Um pensamento vago parece perpassar-lhe a mente esgotada de tanto pensar. Até a ordem das palavras é um mistério…

A Vida, o Espírito: para onde vão após o último sopro? Para o Paraíso, é certo. Mas isso é uma questão de Fé. A Razão contudo, teima em questionar, ainda que a resposta cabal seja pronunciada mil vezes.

A presença de Cristo, Aquele que venceu a Morte, é um eterno desafio.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Alcácer do Sal, Alcácer do Sul

Alcácer do Sal (1983), Maluda

Às portas do Sul, a primeira cidade.

(Cálido Sul, onde o olhar se afunda.
Largo horizonte azul.)

Quieta e muda adormece,
Embalada pela brisa.
----------------------------------------------------------------------------------
Ao entardecer,
o tinir das espadas,
Melodias de citaras,
E mouras encantadas.
Cânticos de cigarras,
Legiões nas calçadas.
As tardes são romanas.
As noites são amadas.

Às portas do Sul,
a cidade adormece,
vetusta guerreira,
que nunca fenece.
---------------------------------------------------------------------------------

segunda-feira, outubro 27, 2008

Alcácer do Sal

Alcácer do Sal (1983), Maluda

O olhar de Maluda sobrevoa Alcácer, como uma cegonha, e dirige-se para o Sul. É assim que Alcácer deve ser olhada. A primeira cidade do Sul.

O olhar de Maluda é o olhar de quem chega, vindo do Norte, e num só relance, abarca telhados e açoteias, o Sado e os arrozais, a planura e o horizonte. É o olhar de uma forasteira arguta, uma viajante que sente o apelo do horizonte. Nem podia ser de outra forma: a cidade induz-nos, como se nos pegasse pela mão e apontasse: é ali o Sul. Maluda sentiu Alcácer. E em Alcácer sente-se sempre o apelo do Sul.

Para lá do horizonte, outro mundo se adivinha: a infinda planície, o vinho tinto quente, manjares antigos, terra de cante e de ouro, terras de outra gente, lugar de praias serenas e além-mar, mundos de águas cálidas e serenas, por vezes revoltas, e África.
O Sul é o nosso permanente deslumbramento: plenitude dos mistérios. Adamastores e sereias, costas distantes, reinos perdidos, outros ritos, ouro, prata e especiarias, rios antigos, araras e catatuas, florestas e desertos, mares de azul turquesa, calmarias e corais, a vil pirataria, ilhas de amotinados e a Ilha dos Amores…

É em Alcácer que tudo começa. Na cidade, ao entardecer, a brisa transporta melodias de citaras encantadas e o tinir de sabres e espadas. Passeiam-se os fantasmas à sombra das oliveiras e das laranjeiras, entre as videiras e nos pinhais. Nos arrozais assolados pelas sombras planantes das cegonhas, rebentam bandos de pássaros espantados.

Quando a noite cai, os homens recolhem-se nas tabernas. E nas ruas solitárias, marcham fantasmas de passo cadenciado, legiões romanas, centuriões e soldados. Ali ouve-se o fado. Além soa o cante.

Em Alcácer, à luz das estrelas, todas as mulheres são belas.

É impossível não se amar esta terra.

sábado, outubro 25, 2008

A retoma da economia

Quem se lembra da "retoma" no discurso dos políticos? Agora já ninguém fala dela. A retoma do "para o ano é que é".
Afinal onde está a retoma que nos prometeram?

E diz o Zé Povinho: "Queres a retoma? Ora toma!"

"E para a próxima, não vás no discurso dos políticos."

sexta-feira, outubro 24, 2008

Quixotesco

Talvez aos vossos olhos vos pareça um louco esfarrapado, de cabelos desgrenhados, esbracejando e vociferando impropérios contra o neoliberalismo, numa praia deserta, numa ilha perdida no oceano da Internet. E o neoliberalismo, qual navio, passa ao longe, alheio ao louco e à ilha, lento na sua rota, rumando a um naufrágio certo.

Pois bem, esse é o navio que vos transporta.

terça-feira, outubro 21, 2008

O Estado do Ambiente na UE


A economia é a força mais poderosa e rápida de transformação do planeta. Florestas inteiras desaparecem ante os nossos olhos, vigorosas montanhas são corroídas e aplanadas, calotes polares fundem-se aceleradamente e são liquefeitos oceanos de gelo. A economia está a mudar o mundo. A economia está a destruir o mundo.

Contudo, há um conjunto de macacos vestidos, que do alto da sua suposta (i)razão, continua a colocar a economia acima do mundo. Assumem o seu verdadeiro papel estes símios, encabeçados pelo governo de Berlusconi: o de parasitas que se estão nas tintas para o destino do mundo.

E não nos venham falar em desenvolvimento sustentável.

segunda-feira, outubro 20, 2008

É a hora!

Agora a economia real anda a reboque da economia financeira. As decisões dos políticos são reacções pavlovianas às oscilações da bolsa. Eis o momento em que o casino virtual comanda a economia real e a política. É o fim...

É a hora!

domingo, outubro 19, 2008

Governos verdadeiramente preocupados

Preocupam-se os governos, com as empresas em primeiro lugar e, com as empresas em último lugar. As famílias são um ornato dos discursos dos políticos: a sua verdadeira e única preocupação são as empresas. E a verdadeira e única preocupação das empresas é o lucro.

Estão a tentar enganar-nos com a inclusão das famílias nos discursos.

É preciso tirar esta gente dos governos. Pela via democrática, preferencialmente.

sábado, outubro 18, 2008

A nova condição do homem pós-moderno

Eis a nova condição do homem pós-moderno: escravo fiador. Escravo dos bancos e seu fiador. Ou será um servo da gleba roubado pelo seu senhor?

Momento publicitário

«Eu, já sou fiador do meu banco. E você?»

(Na zona Euro, agora somos todos fiadores. Mesmo que o não queiramos. É democrático!)

sexta-feira, outubro 17, 2008

O Devedor Fiador

«Acordei um dia destes e, pasme-se, descobri que era fiador de bancos com o aval do governo e o beneplácito da presidência.

Quando o Estado fia, fiamos todos.»

segunda-feira, outubro 13, 2008

A quem servem os que nos governam?

Em primeiro lugar, servem-se a eles mesmos: servem depois os seus partidos, o que significa que servem os financiadores da sua política e das suas campanhas eleitorais, grupos que detêm o poder económico e financeiro, grupos de interesses que, não estando no poder político, o querem condicionar, de forma a que se mantenha o status quo que assegura a sua dominância na sociedade.

O Estado e a intervenção pública nunca se opuseram à especulação financeira. Raramente o Estado protegeu o interesse da maioria dos cidadãos, sempre que este se confrontou com os interesses de poderosos grupos financeiros, dos especuladores e das multinacionais.

Após as eleições, rapidamente são esquecidas as promessas eleitorais e quem governa passa a decidir de acordo com os interesses dos poderosos que os apoiaram ou financiaram o seu partido na campanha eleitoral.

Os governos exigiram durante anos consecutivos, sacrifícios aos eleitores, aos contribuintes, preocupados, diziam, com a contenção do deficit orçamental. As suas políticas, diziam, eram principalmente determinadas pela preocupação em conter a despesa pública. Os serviços públicos deterioraram-se, alguns encerraram, outros perderam qualidade. Os serviços privados aproveitaram essa perda de qualidade para conquistarem novos mercados. E eis que, ao primeiro tropeção do sistema financeiro, à primeira aflição dos lucrativos bancos, chovem milhões de euros em seu apoio. O Estado português garante-lhes agora milhões, mais concretamente, 11,7% do PIB nacional! Aparecem milhões, como quem tira magicamente coelhos de uma cartola!

Os milhões de euros que vão ser injectados no mercado moribundo, para agrado dos especuladores, poderiam ter melhor aplicação: por exemplo, na construção de escolas, hospitais, estradas, formação e qualificação profissional, melhoria dos serviços públicos em geral, apoio aos desempregados, idosos e deficientes, no combate à pobreza, na melhoria do ambiente, na investigação científica, na redução da dependência energética, etc.

Em vez disso, apoiam-se os bancos e os especuladores financeiros.
Afinal, a quem servem os que nos governam?!

domingo, outubro 12, 2008

A quem servem os governos dos Estados?

Criticámos aqui, muitas vezes, as políticas neoliberais do Estado mínimo ou do “menos Estado, melhor Estado”, que vai dar ao mesmo. Contudo nem sempre a maior intervenção do Estado significa maior promoção da justiça social. Basta que, quem esteja ao leme, adopte políticas que favoreçam grupos minoritários poderosos, elites dominantes ou nomenklaturas instaladas, em desfavor da maioria dos cidadãos, que vai sendo dessa forma, desapossada pelos governos dos Estados. O processo é sempre o mesmo: as receitas dos impostos e o património do Estado são colocados ao dispor desses grupos em detrimento das necessidades da maioria. É que o “melhor Estado” do chavão dos neoliberais é o Estado que os serve. A isto chamam alguns empoderamento pelo desempossamento. Ocorre quando os governos colaboram no saque realizado à generalidade dos contribuintes e ao património do Estado, que é de todos os cidadãos, para o canalizarem para grupos sociais dominantes minoritários, concentrando a riqueza e aumentando o seu poder. Temos aqui portanto, uma crise de democracia (*).

(*) Também os nazis parasitaram a democracia para tomarem conta do Estado e o colocarem ao seu serviço (e ao serviço dos grandes empresários alemães da época). Como verdadeiros parasitas que foram, acabaram por matar o hospedeiro.

sábado, outubro 11, 2008

O que se seguirá?

Primeiro foi o imobiliário, depois os bancos e os seguros, agora a indústria automóvel, que já se ressente, fechando fábricas e despedindo operários. Que sector se seguirá?

Tal como em certos concursos de televisão, em que os vencedores que podiam escolher o prémio, desejavam a casa, e depois, assegurada a casa, passavam a solicitar o automóvel, e finalmente, assegurado tudo isso, passava a ser uma viagem o prémio mais desejado, assim são os sectores da economia real, afectados pela economia de casino.

Os sectores da economia real mais atingidos são os que estão relacionados com os produtos e serviços mais valorizados pela classe média e que esta agora sente dificuldade em comprar: as casas, os automóveis. Seguir-se-ão por certo, as viagens. Por fim serão os bens de consumo e os de primeira necessidade.

Instalam-se os cavaleiros do apocalipse da economia: a recessão, a falta de confiança nas instituições... Seguir-se-ão por certo, o desemprego e a inflação, esta desencadeada pela baixa das taxas de juro e pelas injecções maciças de dinheiro (liquidez) no mercado. É só aguardar que façam efeito as medidas desproporcionadas tomadas no momento de pânico.

O mercado livre e não intervencionado só funciona bem nos abstractos modelos dos livros de economia. Já não é credível. Os acólitos do neoliberalismo correm agora, pateticamente, em direcção ao Estado e gritam por planos salvadores que os retirem da alhada em que se meteram.

Apetece dizer: pois o sacro mercado livre que os salve! Desenrasquem-se!

segunda-feira, outubro 06, 2008

No money, no trust!

Afadigam-se os políticos em manter ou elevar a confiança dos consumidores. São agora cautelosos nas palavras, não vá a confiança resvalar. Estão a esquecer-se do essencial: a confiança dos consumidores é directamente proporcional ao volume das suas carteiras. Palavras, leva-as o vento.

Não existem consumidores confiantes, sem dinheiro. Não existem consumidores confiantes, com o desemprego no horizonte. Não existem consumidores confiantes, com trabalho precário. A confiança atinge-se com estabilidade e segurança, seja no trabalho, seja na vida.

As políticas prosseguidas até aqui minaram os fundamentos da confiança e conduziram-nos à actual crise. Grassa a desconfiança na economia, nos políticos e nos partidos. Tenhamos esperança em que a desconfiança não se instale em relação à democracia e à liberdade.

sábado, outubro 04, 2008

Derrocadas económicas: sinais

É curioso.

Pouco antes do colapso da economia soviética, as lojas estavam vazias de mercadorias e os consumidores faziam filas à entrada. Actualmente, com a crise da economia capitalista, as lojas estão repletas de mercadorias e vazias de consumidores.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Algo mais que uma crise financeira

Reportar a conjuntura económica actual a uma crise financeira é considerar a questão com demasiada superficialidade. É necessário cavar mais fundo e afastar o pó do pânico bolsista, para que se possam vislumbrar os verdadeiros fundamentos da crise, ou a crise que se esconde por detrás da crise.
Por outras palavras, é necessário ir à origem do verdadeiro problema. E na origem da crise, o que encontramos? Por um lado, aqueles que contraíram empréstimos para a aquisição de uma residência, e que, por vicissitudes várias, não foram capazes de satisfazer os seus compromissos junto dos credores. Por outro lado, os credores sobrestimaram a capacidade de endividamento daqueles a quem concederam empréstimos e que, por vicissitudes várias, acabaram por não receber as prestações que lhes eram devidas. Ora temos aqui um problema de avaliação e de vicissitudes várias, e não de “produtos tóxicos”, como agora alguns lhes chamam para sua conveniência.

O problema reside portanto nas “vicissitudes várias” e não nos mercados financeiros que se limitaram a receber e reflectir as ondas de choque de uma crise mais profunda. E que vicissitudes várias são essas? A perda de capacidade aquisitiva da maioria das famílias e dos consumidores, num sistema económico que sempre se organizou em torno do consumo e da capacidade de consumir.

Quando Henry Ford começou a produzir em série o modelo “Ford T”, engenhosamente, fê-lo a um custo suficientemente baixo para que os seus próprios operários pudessem adquirir o automóvel que estavam a produzir. E o “Ford T” vendeu-se bem para os padrões da época.

Em 1929, a crise foi de superprodução. E embora inicialmente houvesse capacidade aquisitiva, a oferta rapidamente ultrapassou em muito a procura e a crise desencadeou-se.

Actualmente, a crise coloca-se na perda de capacidade aquisitiva da maioria das famílias nos países desenvolvidos, ou seja, há oferta quanto baste, mas a procura está a minguar. Resultado: o escoamento da produção não se faz, porque não há quem a compre. O sector do mercado imobiliário foi o primeiro a ressentir-se, com repercussões no sistema financeiro. Seguir-se-ão os outros sectores da actividade económica.

Ao fomentar a concentração da capacidade aquisitiva em poucos, em detrimento da maioria, o actual sistema económico capitalista (e existem muitas formas de capitalismo) torna-se autodestrutivo e antidemocrático. E ainda que poucos tenham uma grande capacidade aquisitiva, não têm capacidade nem necessidade de consumir tudo o que se produz.

Com o actual sistema económico, capitalista neoliberal, vai engrossando a multidão daqueles que perdem poder de compra, dessapossados, endividados e incumpridores, ao mesmo tempo que a riqueza e o poder se vão concentrando nas mãos de poucos, cada vez mais poderosos, mas incapazes de alimentar um sistema económico que se baseou sempre no consumo de massa.

Pode portanto continuar a produzir-se e a colocar-se à venda no mercado os mais diversos artigos, produzidos a baixo custo em fábricas longínquas, mas está a chegar o dia em que as lojas estarão cheias de produtos e vazias de consumidores. É que já não haverá cá ninguém com capacidade para comprar.

Não são apenas os mercados financeiros que estão em crise, mas sim, o sistema económico capitalista e neoliberal.

terça-feira, setembro 23, 2008

A Propósito das Palavras do Presidente sobre a Derrocada dos Mercados Financeiros

Disse o Presidente Cavaco Silva que a economia de mercado é o pior dos sistemas económicos, à excepção de todos os outros; tal como a democracia relativamente aos outros sistemas políticos. Acontece que neste momento de crise financeira, não é a economia de mercado que está em causa. O que está em causa é uma certa concepção fundamentalista de que o mercado se basta a si mesmo, com o mínimo de regulação na prossecução do bem-estar social; a ideia de que o mercado tende para o equilíbrio se for deixado a si mesmo, funcionando livremente.

O que está em causa é a ideia de “menos Estado, mais mercado”, escondida sob o chavão de “Menos Estado, melhor Estado”.

O que está em causa é a agenda política neoliberal levada a cabo, quer por governos conservadores, quer por governos que se dizem socialistas, mas que há muito colocaram o socialismo na gaveta.

O que está em causa é o neoliberalismo: essa teoria político-económica que defende que o bem-estar social pode ser melhor alcançado através da livre empresa e do empreendedorismo individual, dentro de um quadro institucional caracterizado por fortes direitos de propriedade privada, mercados livres de regulação e comércio livre e desregrado.

Não é portanto a economia de mercado que está em causa. São as políticas assumidas desde o início dos anos 80 até hoje, baseadas na privatização dos lucros e na socialização dos prejuízos, que estão em causa.

Querer fazer-nos crer que o que está a ser posto em causa é a economia de mercado e não as políticas neoliberais, é querer iludir a questão e iludir-nos a todos.

Máximas

1. Não temos que tolerar os intolerantes.

2. O facto de um crime ser cometido por um menor, não faz desse crime, necessariamente, um crime menor.

domingo, setembro 21, 2008

O Desnorte Neoliberal

Assestam agora as suas baterias contra as entidades reguladoras, os que antes defendiam um mercado, o mais possível livre de amarras reguladoras, fosse do Estado, fosse dessas entidades. Os que sempre defenderam o mercado sem qualquer impedimento, vêm agora, em momento de crise financeira, apontar responsabilidades às entidades reguladoras, que segundo dizem, se distraíram e deixaram passar. Mas afinal, onde está o “laissez faire, laissez passer” que defendiam antes? Onde está o princípio neoliberal dos sacrossantos mercados intocáveis?

É evidente que num ambiente que respira os princípios neoliberais do mercado livre, as entidades reguladoras passaram a ter um papel meramente ornamental. Exactamente porque estas entidades defendem o “bom funcionamento” dos mercados, que pela via da doutrina dominante, se querem “livres”. É evidente que as entidades reguladoras se deixaram adormecer na defesa dos interesses dos especuladores que actuam no mercado e não na defesa dos interesses dos cidadãos, que sofrem no bolso os efeitos colaterais das crises financeiras, ainda que não participem nas transacções bolsistas. As entidades reguladoras não têm como vocação a defesa dos interesses dos cidadãos, ao contrário do Estado.

Os responsáveis que encabeçam estas entidades reguladoras, também eles, acabam por adoptar os princípios neoliberais, ao defenderem o meio onde livre campeie a especulação de mercado e os que nele actuam.

Incorre-se contudo num erro ao apontar o dedo às entidades reguladoras que supostamente não funcionaram, quando a responsabilidade deve ser imputada a uma doutrina económica que grassa pelo planeta: a doutrina do "laissez faire, laissez passer" – o neoliberalismo, e aos que, ao abrigo das suas “leis” engordam à custa do incremento exponencial das desigualdades sociais e das disparidades territoriais.

Querem iludir-nos também os que defendem que a ênfase do papel regulador deve ser colocada nas entidades reguladoras e não no Estado, acusando de desnorte os que querem ver no Estado esse papel. Acontece que o interesse das entidades reguladoras são o bem-estar de quem actua nos mercados – os especuladores - e o interesse do Estado deveria ser o bem-estar de todos os cidadãos, a liberdade e a justiça social.

Infelizmente alguns governos jogam também o jogo neoliberal, e acabam por contribuir para uma desigual distribuição da riqueza e para a sua concentração, retirando a todos, através dos impostos, e atribuindo imerecidamente a alguns, através de privatizações (privatização do lucro, claro está). E quando lhes convém, recorrem às nacionalizações para sobrecarregarem toda a sociedade com o prejuízo de alguns (socialização dos prejuízos).

Esta é uma das razões da falácia do neoliberalismo enquanto doutrina económica promotora do bem-estar das sociedades. O neoliberalismo é apenas uma via que leva à transferência da riqueza colectiva para os bolsos de alguns poderosos. Uma espécie de empoderamento pelo desempossamento. O empoderamento de alguns através do desempossamento de todos. Isto tem um nome antigo.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Porto de Abrigo

Repousará,
Junto ao grande rio do Sul,
de águas calmas e aconchegantes,
(sempre frescas, mas nunca frias),
Já próximo do mar infinito.

segunda-feira, setembro 15, 2008

O repouso do Verão





O Verão repousa à sombra das figueiras,
Na margens do grande Rio do Sul.

domingo, setembro 14, 2008

O lugar que o Verão nunca abandona


Felizes os que aqui residem, pois deles o Verão nunca se aparta.

Quem por aqui se passear, entre a Foz e o Álamo, sentirá a sua presença.
Ele aqui permanece, numa indolência sem fim.
Retirado de todos os lugares, mas não deste.

Já prepara agora, a sua cama...

Repousará,
à sombra das figueiras de largas folhas,
Entre os renques das videiras,
E em todas as vinhas.

Repousará,
À sombra das oliveiras divinas.

Repousará,
Junto ao grande rio do Sul,
de águas calmas e aconchegantes,
(sempre frescas, mas nunca frias).

Repousará,
Junto das alfarrobeiras, dos gatos e dos homens,
(que com gestos antigos acarinham a terra).

Já próximo do mar infinito,
Repousará.

E em Junho, por fim,
Quando soar o solstício,
Sairá,
Mas sem nunca abandonar este lugar.

Os que aqui residem,
Entre a Foz e o Álamo,
Têm no calor da sua presença,
A permanente alegria da sua vida.

14 de Setembro de 2008



quarta-feira, setembro 10, 2008

Karl Polanyi e a Liberdade

Nos anos 40 do século XX, Karl Polanyi teve a ousadia de questionar a liberdade, num momento em que se morria por ela nos campos de batalha da Europa, África e Ásia. O geógrafo David Harvey, na sua Breve História do Liberalismo (2005) refere-se a Polanyi da seguinte forma (a tradução é minha):

«Na sua análise [Polanyi] notou que existem dois tipos de liberdade, uma boa e outra má. Esta última manifesta-se através da “liberdade para explorar o semelhante, ou a liberdade para realizar ganhos incomensuráveis não proporcionais aos serviços prestados à comunidade, a liberdade para esconder invenções e inovações tecnológicas de modo a não serem utilizadas para benefício público, ou a liberdade para se lucrar com calamidades públicas secretamente engendradas para vantagem de privados”. Mas Polanyi prossegue afirmando que “na economia de mercado onde prosperam aquelas liberdades produzem-se também liberdades altamente prezadas. Liberdade de consciência, liberdade de expressão, liberdade de reunião, liberdade de associação, liberdade de escolher o nosso próprio trabalho.” Enquanto acarinhamos estas liberdades para nosso próprio benefício - e certamente muitos de nós o fazem – existe uma larga extensão de by-products da mesma economia que são também responsáveis pelas más liberdades.» (Harvey, 2005)

Polanyi (1954) responde a este dualismo da seguinte forma:

«The passing of [the] market economy can become the beginning of an era of unprecedented freedom. Juridical and actual freedom can be made wider and general than ever before; regulation and control can achieve freedom not only for the few, but for all. Freedom not as appurtenance of privilege, tainted at the source, but as a prescriptive right extending far beyond the narrow confines of the political sphere into the intimate organization of society itself. Thus will old freedoms and civic rights be added to the fund of new freedoms generated by the leisure and security that industrial society offers to all. Such a society can afford to be both and free. (Polanyi, 1954, [citado por Harvey, 2005])

Infelizmente, Polanyi notou que a passagem a tal futuro é bloqueada pelo “obstáculo moral” da utopia liberal (e mais do que uma vez cita Hayek como um exemplar daquela tradição):

Planning and control are being attacked as a denial of freedom. Free enterprise and private ownership are declared to be essentials of freedom. No society built on other foundations is said to deserve to be called free. The freedom that regulation creates is denounced as unfreedom; the justice, liberty and welfare it offers are decried as a camouflage of slavery. (Polanyi, 1954, [citado por Harvey, 2005])

O fundamentalismo neoliberal que apenas considera livres as sociedades fundadas no princípio da livre empresa, da propriedade privada e isentas de qualquer regulação, constitui-se como um “obstáculo moral” à constituição de sociedades justas e reguladas, verdadeiramente livres e geradoras de bem-estar social.

Referências

Harvey, David (2005); A brief history of neoliberalism; Oxford University Press

Polanyi, Karl (1954); The great transformation; Boston, Beacon Press.

terça-feira, setembro 09, 2008

Justiça social: algures entre a liberdade e a igualdade

A liberdade e a igualdade, em certa medida, encontram-se em pólos opostos. Ou dito de outra forma: não cabem no mesmo saco. A Revolução Francesa, ao querer juntá-las, arranjou-nos um bom sarilho. Sistemas económicos e políticos que promovem a igualdade ou a liberdade individual estão longe de serem socialmente justos. É preciso pois encontrar um sistema que promova a justiça social, algures entre a liberdade e a igualdade.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Freedom! What freedom?

The freedom of the market that Bush proclaims as the high point of human aspiration turns out to be nothing more than the convenient means to spread corporate monopoly power and Coca Cola everywhere without constraint.

David Harvey (2005); A brief history of neoliberalism; Oxford University Press, pág.38

domingo, setembro 07, 2008

Liberdade! Que liberdade?

Todos nós amamos a liberdade. Amamo-la tanto que daríamos a vida por ela. Colocamos a liberdade acima da nossa própria vida. “Antes morrer de pé que viver de joelhos” dizem as paredes revolucionárias. Contudo, há que questionar a liberdade, tal como a questionou Polanyi nos anos 40. Por uma razão muito simples: o neoliberalismo, fomentador da injustiça social, escuda-se na liberdade sempre que se vê acossado pelos que o contestam.
A liberdade, tal como a justiça, é, enquanto valor universal, inatacável. As massas são assim impelidas para a causa neoliberal sempre que a mesma é posta em questão. O neoliberalismo explora o anseio do Homem por liberdade individual, para se impor, tal como as religiões instituídas exploram a religiosidade inerente a cada ser humano, para se sustentarem. Assegurado o consentimento da maioria, os neoliberais partem depois para a defesa da liberdade individual a qualquer preço, e passam a integrar o chavão da “liberdade” no seu jargão neoliberal para justificarem tudo, desde a invasão de países soberanos, à exploração do homem pelo homem e à destruição de ecossistemas.

E assim se destrói em nome da liberdade.

sábado, agosto 30, 2008

Portugal, o Hino e o Porvir

“Embora não pareça, o homem, naquilo que tem de criador, não provém do passado e sim do futuro. Provém do futuro, provém da sua expectativa, e dirige-se dele ao presente, isto é, rumo ao presente a partir da convocação que lhe fazem os seus projectos.”

Santiago Kovadloff, “A construção do Presente. Feições filosóficas do conceito de Trauma” in O Estado do Mundo, FCG, Tinta da China, 2006.

Todas as novas nações se fundam no porvir. Quando nascem estão prenhes de futuro, esperança e projectos. Os seus vagidos são gritos do Ipiranga. E enquanto o presente for vivido em função do porvir, tudo avança. (“O mundo pula e avança como uma bola nas mãos de uma criança”, não é verdade?!) E enquanto os Homens viverem o seu presente em função do porvir, os escolhos no caminho serão desafios a transpor. O problema coloca-se a partir do momento em que se enfatiza um passado comum em detrimento de um futuro partilhado. Quando as vozes do passado soam mais forte e as nações se enleiam nas teias da Saudade, os obstáculos no caminho passam a ser considerados problemas e não, desafios. Adquirem uma dimensão quase intransponível. Hesitamos. Quando a Esperança se alicerça nos feitos do passado, vive com a face voltada para trás. O fatalismo instala-se e transforma-se em Fado. O futuro passa a ser constantemente abortado. Vive-se à espera de Dom Sebastião, “quer venha ou não”. Assim é connosco, portugueses. Oiçamos a letra do Hino. Enleados nas teias da Saudade, fatalistas, sem futuro…

É preciso refundar Portugal. Precisamos viver um novo presente, já não em função do passado, mas fundado no porvir.


Discover Carlos Paredes!

sexta-feira, agosto 29, 2008

Quanto à Rússia, afinal o Ocidente pode estar tranquilo


Enquanto a Rússia for governada por oligarcas neoliberais e cleptocratas, o Ocidente pode estar tranquilo. Por um lado, é possível comprar a paz receptando os recursos resultantes do saque que estão a realizar em solo russo; por outro lado, os oligarcas russos têm como último interesse o seu próprio poder e riqueza, e estes dependem em grande parte da manutenção dos seus clientes ocidentais: não vão, por isso, matar a “galinha dos ovos de ouro”. Os americanos já o perceberam e ameaçam tudo fazer para retirar a Rússia do G7 e da Organização Mundial de Comércio, caso os russos mantenham a ocupação da Geórgia. Os dirigentes russos já vieram dizer que não temem o isolamento mundial, mas estão completamente desarmados face aos seus reais interesses. Estão a fazer “bluff”.

O melhor negócio do mundo

O melhor negócio do mundo é o que nunca vai à falência. De acordo com o economista Silva Lopes e com o analista e especulador financeiro George Soros - quando se pronunciaram acerca da actual crise financeira mundial - os grandes bancos não podem falir e o Estado tudo deve fazer para impedir a sua queda, nem que seja à custa dos contribuintes. É este o neoliberalismo em que vivemos mergulhados. Quando a coisa dá para o torto, que sejam os contribuintes a pagar as aventuras especulativas dos bancos na economia de casino que vai alastrando pelo globo. É este o sistema económico que alimenta a injustiça social através da transferência de recursos dos contribuintes para os especuladores. É assim que o Estado joga o jogo dos neoliberais. É assim que enriquecem homens como George Soros ou Joe Berardo, ainda que acenem com a bandeira da liberdade (cada vez mais utilizada como uma cenoura) ou pisquem o olho à populaça. É assim que a democracia se transforma em cleptocracia.

Se os grandes bancos não podem ir à falência, então que se nacionalizem.

quinta-feira, agosto 28, 2008

A Ideologia Dominante

Querem fazer-nos crer que a ideologia morreu, que já não marca os nossos dias. Nada mais falso. Hoje há uma ideologia dominante que respiramos quase sem nos darmos conta. E por ser única e generalizada, tende paradoxalmente a passar despercebida por muitos. Parecemos ignorá-la, da mesma forma que um peixe ignora o oceano em que está mergulhado. Tal como o marxismo, que teve os seus pais em Marx e Engels, a ideologia dominante tem os seus: Alfred Marshall, William Stanley Jevons e Leo Walras. Na segunda metade do século XX esta ideologia foi reavivada por homens como o filósofo político austríaco Friedrich von Hayek e o economista Milton Friedmann, que a fizeram emergir à primeira queda do keynesianismo. O neoliberalismo domina agora o nosso quotidiano e o nosso mundo e a sua pedra basilar é a liberdade individual, sendo o individualismo a sua expressão mais extremada. Daí a crise das ideologias que assentavam os seus princípios na igualdade, na solidariedade e na acção colectiva.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Alexis de Tocqueville e a industrialização da cultura

Alexis de Tocqueville calcorreou as estradas da América no século XIX, e fez uma análise acutilante da jovem democracia americana em contraposição às aristocracias europeias. A sua análise foi tão precisa que ainda hoje é valida. Na sua viagem, Toqueville assistiu à democratização de uma sociedade e à industrialização (massificação) da cultura. A massificação da cultura foi paralela à emergência das sociedades industriais. Sem menosprezar as qualidades da democracia, Tocqueville constatou que, no geral, se verificava um empobrecimento da cultura nas sociedades industriais e democráticas relativamente à das sociedades aristocráticas.

Desde então a cultura americana difundiu-se pelo mundo, tornou-se global. Ao nível cultural os resultados desta difusão são evidentes: um aumento exponencial da produção cultural e uma perda de qualidade que se aprofunda com o caminhar dos tempos. Se atentarmos ao caso da literatura em Portugal, por exemplo, basta uma simples comparação entre as actuais obras e as que eram escritas no aristocrático século XIX e nos séculos precedentes para verificar essa degradação. O mesmo se pode verificar em muitos outros países, alvos da massificação cultural trazida pela industrialização e pela mercantilização da cultura.

Abaixo transcreve-se a análise comparativa de Tocqueville entre a literatura dos tempos democráticos (e industriais) e a dos tempos aristocráticos. A profusão literária dos nossos dias reflecte o fenómeno descrito por Tocqueville.

«A democracia não somente faz estender o gosto pelas letras às classes industriais; ela introduz o espírito industrial no seio da literatura.


Nas aristocracias, os leitores são difíceis e pouco numerosos; nas democracias, é menos difícil agradar-lhes, e o seu número é prodigioso. Daqui decorre que, nos povos aristocráticos, não se deve esperar a celebridade literária sem o concurso de esforços enormes, e que tais esforços, que podem conferir muita glória, não trarão, no entanto muito dinheiro; ao passo que, nas nações democráticas, um escritor pode gabar-se de obter sem dificuldade um renome medíocre e uma grande fortuna. Para isso, não é necessário que o admirem bastando tão-somente que o aprovem.

A turba sempre crescente dos leitores e a sua necessidade contínua de novidades asseguram a venda de livros que de modo nenhum estimam.


Nos tempos de democracia, o público age frequentemente com os autores como de ordinário os reis com os seus cortesãos. De que mais precisam as almas banais que nascem nas cortes, ou que são dignas de aí viver?

As literaturas democráticas abundam sempre desses autores que não vêem nas letras mais que uma indústria, e, por um punhado de grandes escritores que aí se vislumbram, podem contar-se aos milhares os vendedores de ideias.»


Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, Capítulo III

segunda-feira, agosto 25, 2008

A maioria silenciosa e as minorias ruidosas

Contramanifestação da Direita a 31 de Maio de 1968.
A maioria silenciosa manifestou-se e a “revolução” terminou.
São as maiorias silenciosas que sustentam as minorias ruidosas. Não existem extremistas, radicais, revolucionários bem sucedidos, sem um núcleo pacífico que tacitamente os apoie. Paz não significa, necessariamente, neutralidade. Sem o apoio da maioria silenciosa, as minorias ruidosas perdem sustentação e as suas causas não vingam. Por essa razão, qualquer guerra contra o terrorismo estará condenada à partida se visar apenas as franjas e deixar incólume o grande cerne que as alimenta continuamente. O nazismo só foi derrotado quando a sociedade que o suportava foi violentamente desbaratada. A sociedade alemã que emergiu da IIª Guerra Mundial foi uma nova sociedade, embora feita com alguma massa da velha. Muitos dos funcionários que serviram a máquina burocrática nazi, passaram a laborar na nova sociedade, nascida das cinzas da antiga.

Contudo, aos revolucionários opor-se-ão sempre conservadores. Não há acção sem reacção e vice-versa.

sábado, agosto 23, 2008

Olímpicas

Nastia Liukin (EUA): a elegância de um cisne.


Yang Yilin (China): leve como um pássaro.

Shawn Johnson (EUA): agilidade felídia.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Jogos Olímpicos


Os bens passam de um para outro humano,

e, com a ajuda dos deuses, muitos são

os caminhos que levam à prosperidade.

Píndaro, Olímpicas, VIII

quinta-feira, agosto 21, 2008

Nelson Évora

foto Thomas Kienzle/AP
[No Ninho de Pássaro]

Vejo que a Vitória te contemplou!

Que os teus alados pés se demorem no alto
E o voo seja longo,

No triplo salto.

Tempos perigosos


…A Grande Guerra de 1914 veio surpreender-me quando eu comentava Tucidides para estudantes de Literae Humaniores em Balliol, e foi então que, de súbito, o espírito se me iluminou. A experiência que então atravessávamos no nosso mundo já tinha sido vivida por Tucidides no dele.
Toynbee, Civilization on Trial

Se considerarmos que a história se repete nas suas macro formas então deveremos ficar apreensivos com os acontecimentos actuais, pela semelhança que apresentam com os que antecederam as grandes e prolongadas guerras do passado. Com efeito a sensação é de déjà vu face aos sinais da actual conjuntura internacional. Também nos assalta uma espécie de assombro; o mesmo que invadiu Toynbee quando se deparou com os acontecimentos que desencadearam a Iª Guerra Mundial. Esperamos que seja déjà vu apenas, que o tempo apague estes sinais e tudo volte à normalidade. Vejamos então as causas deste déjà vu.

A Rússia invade a Geórgia alegando a necessidade de proteger as minorias étnicas da ofensiva desencadeada por este país na região rebelde da Ossétia do Sul. A Geórgia pede, de seguida, auxílio aos EUA e este país assina com a Polónia um acordo visando a instalação de um escudo anti-mísseis. A assinatura deste acordo, já anteriormente anunciado, é realizada agora, como resposta à invasão russa do território da Geórgia. Os russos protelam a retirada e consideram a assinatura do acordo uma provocação e o momento em que se concretiza uma prova das reais intenções dos americanos em relação à Rússia.

Onde é que reside a sensação de déjà vu neste caso? Também a guerra entre Esparta e Atenas relatada por Tucidides começou assim, num território periférico (a ilha de Córcira), e no desencadear de um jogo de alianças e atritos entre cidades-estado que conduziu à guerra entre as duas superpotências de então. A Guerra do Peloponeso durou quase 30 anos e terminou com a derrota de Atenas. Mas existem também semelhanças com outras épocas, mais próximas de nós: Hitler, antes de mandar invadir a Polónia e desencadear a IIª Guerra Mundial em 1939, mandou anexar a Checoslováquia com o pretexto de estar “preocupado” com as minorias alemãs dos montes Sudetas. Preocupações humanitárias portanto.

Mas existem outros sinais preocupantes na Ásia Central e no Médio Oriente: o agudizar do conflito no Afeganistão com o reacender de combates entre talibãs, ainda apoiados nas montanhas do Paquistão, e as forças da NATO – com a recente morte de 10 pára-quedistas franceses nestes recontros - num momento em que se regista um enfraquecimento da situação política no Paquistão, com a recente demissão do presidente pró-Washington, Pervez Musharraf.

A animosidade crescente entre o Irão e os EUA é por seu turno outro foco de tensão na região.

Esta conjugação de acontecimentos remete-nos para o Verão de 2001, pouco antes dos atentados do 11 de Setembro: também nessa altura os combates no Afeganistão entre os talibãs e a Aliança do Norte atingiam uma grande virulência, com a morte, a 9 de Setembro, do carismático líder da Aliança do Norte, Ahmad Shah Massoud. Dois dias depois ocorriam os atentados do 11 de Setembro e iniciava-se a guerra contra o terrorismo a pretexto da qual os EUA invadiram o Iraque.

Vivemos portanto tempos perigosos.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Usain Bolt

O homem mais rápido do mundo. Pequim, 2008.

Felizes aqueles a quem cerca a fama gloriosa!

Píndaro, VIIª Ode Olímpica, (Séc. VI - V a. C.)

terça-feira, agosto 05, 2008

Cold Winter

Willem van de Velde the Younger, 1633-1707
É preciso recuperar energias.
A tempestade vai começar em Setembro e já se avistam nuvens no horizonte.

sábado, agosto 02, 2008

Babel Pós-moderna, ou, A Falar é que a Gente se Desentende

A história teima em repetir-se.

As torres do World Trade Center implodiram ante os nossos olhos estupefactos. E mais uma vez, a confusão das línguas, das religiões, das civilizações...

Mas se o embargo da torre primordial teve origem divina, a derrocada das torres pós-modernas de Nova Iorque teve origem humana. Nem podia ser de outra forma, pois Deus já não se encontra entre nós, (morreu, não é verdade?!).

Neste mundo abandonado à cacofonia das línguas já ninguém se entende.

quarta-feira, julho 30, 2008

O "medium" é a mensagem, ou, o mensageiro é a mensagem

Os media assumem-se como veículo da condenação moral do terrorismo e da exploração do medo com fins políticos, mas simultaneamente, na mais completa ambiguidade, difundem o fascínio bruto do acto terrorista, são eles próprios terroristas, na medida em que caminham para o fascínio (eterno dilema moral, ver Umberto Eco: como não falar do terrorismo, como encontrar bom uso dos media – ele não existe).

Baudrillard, Simulação e Simulacro

Quando os media difundem as mensagens dos terroristas tornam-se os media terroristas. Isto não é um mero jogo de palavras.

Desta forma os terroristas entram pelas nossas casas, mesmo com as portas trancadas.

E assim o mensageiro é a mensagem.

Neste contexto, é preciso desligar o mensageiro.
-----------------------------------------------------------

Leituras posteriores:

- Baudrillard, Jean (1981). Simulacres et simulation. Éditions Galilée.

- Biernatzki, Williams (2002). “Terrorism and Mass Media”, Communication Research Trends, Vol. 21, n.º 1.

- Eco, Umberto (1968). La Struttura Assente. Milan: Bompiani.

- McLuhan, Marshall (1962). The Guttenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. London: Routledge & Kegan Paul.

- Rantanen, Terhi (2005). “The message is the medium – An interview with Manuel Castells”, Global Media and Communication, Vol. 1 (2): 135 – 147.

terça-feira, julho 29, 2008

A Exclusividade dos Médicos

Os contribuintes, através dos impostos e do Estado, pagam anualmente milhões de euros para a formação dos médicos nas universidades públicas. É bom que os médicos formados nestas universidades se habituem a servir os contribuintes, em exclusividade, pelo menos durante algum tempo (no mínimo, o necessário para que a despesa do Estado na sua formação seja coberta).

Há que salvaguardar as necessidades dos contribuintes pobres (os tais que não têm dinheiro para irem fazer uma operação cara a Londres, numa boa clínica privada) em relação aos interesses dos utilizadores abastados.

PS: E quem diz os médicos diz outros quaisquer profissionais formados nas mesmas condições. Pois se é injusto uma empresa despender na formação dos seus empregados e estes depois saiam logo a seguir para trabalhar noutra concorrente, também é injusto para o Estado pagar a formação de profissionais e funcionários, para estes, finda a sua formação, irem trabalhar para empresas privadas.

sábado, julho 19, 2008

Tocado pela Graça

La gracia (1915)
Julio Romero de Torres (1874-1930)

sexta-feira, julho 18, 2008

Tomado pela(s) Graça(s)

As três Graças (1505)

Rafael (1483-1520)


As filhas de Zeus e de Eurínome


As três Graças de belas faces gerou-lhas Eurínome,

de aspecto gracioso, filha de Oceano,

Aglaia, Eufrósine e a amável Tália.

Hesíodo, Teogonia

Etiquetas