sábado, março 09, 2013

O comandante embalsamado


Pobre comandante idolatrado,
O teu corpo, embalsamado,
E não em cinzas cremado
e no Orinoco libertado.
(Como por certo desejarias)
Ou simplesmente, sepultado.

Que gente é esta que idolatra restos mortais
Como se isso importasse mais que imorredouros ideais?
(Que por certo defendias)

Ignaros é o que são!

O teu corpo já serviu
E brilho já não tem.
Será apenas uma imagem,
Exibida à passagem
Numa urna de cristal.

Para sempre exposto num mausuléu
Para consumo de massas e romarias,
E turistas noutros dias.

É o culto da imagem.
E ainda lhe chamam homenagem...

Triste fado,
O do comandante empalhado.

terça-feira, março 05, 2013

Da legitimidade

As political systems develop, recognition is transferred from individuals to institutions—that is, to rules or patterns of behavior that persist over time, like the British monarchy or the U.S. Constitution. But in either case, political order is based on legitimacy and the authority that arises from legitimate domination. Legitimacy means that the people who make up the society recognize the fundamental justice of the system as a whole and are willing to abide by its rules. In contemporary societies, we believe that legitimacy is conferred by democratic elections and respect for the rule of law.


Francis FukuyamaThe Origins of Political Order: From Prehuman Times to the French Revolution, Farrar, Straus and Giroux2011, p. 56 

Tradução livre:

«À medida que os sistemas políticos se desenvolvem, o reconhecimento é transferido dos indivíduos para as instituições – ou seja, para regras e padrões de comportamento que persistem no tempo, como a monarquia britânica ou a Constituição americana. Mas em ambos os casos, a ordem política é baseada na legitimidade e na autoridade que brota da dominação legitimada. Legitimidade significa que as pessoas que compõem a sociedade reconhecem a justiça fundamental do sistema no seu todo e estão dispostas a respeitar as suas regras. Nas sociedades contemporâneas, acreditamos que a legitimidade é conferida por eleições democráticas e pelo respeito pelo Estado de Direito.»

***

A legitimidade de um governo deixa de existir quando se estabelece um estado de excepção infundado aos olhos dos cidadãos, em detrimento do Estado de Direito, ainda que esse governo se tenha constituído pela via de eleições democráticas. O desrespeito por direitos e garantias constitucionais por parte de um governo é motivo suficiente para que se considere que este tenha perdido a legitimidade.

Hasta siempre, Comandante Hugo Chávez.

Hugo Chávez (1954-2013)

Uma amabilidade de viagem


Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros, uma amabilidade de viagem.

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

domingo, março 03, 2013

Mais um importante sinal foi dado.

Manifestação "Que se lixe a troika", Faro.


Seria bom que a troika e o Governo deixassem agora de tratar os cidadãos com desprezo e cinismo, ou como simples números, quando anunciam as suas sinistras medidas disseminadoras de desemprego, insegurança e desespero. Seria bom que atentassem nos sinais. Hoje cantou-se a Grândola Vila Morena. A democracia está viva e não se limita às urnas. Melhor ainda seria que a troika e o Governo se fossem embora de vez e o Presidente convocasse novas eleições. Está preocupado com o prestígio nacional? Pois o prestígio nacional neste momento é irrisório. Ninguém nos respeita lá fora porque não nos respeitamos. Quem se coloca numa posição de subserviência não se respeita a si próprio e Portugal encontra-se nessa posição, devido às decisões dos políticos que nos governaram e governam.

Mas atenção, saiba a troika e o Governo que este povo de “brandos costumes” que hoje cantou a Grândola do pacífico Zeca, é também o povo que tem inscrito no seu Hino apelos às armas e marchas contra elas. Não é um povo tão brando assim, e os historiadores sabem-no bem.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A barbárie


Um trabalhador imigrante acorda pela manhã, longe de imaginar que nesse dia será algemado pela polícia à traseira de uma carrinha e arrastado por quilómetros até desfalecer e morrer. Ninguém imagina sequer ao acordar, que irá morrer nesse dia. Muito menos assim.

Os "gastos" na Educação


Gráfico retirado daqui.

Basta ignorar os números relativos que nos querem impingir, como se retratassem verdades absolutas, e passar a atender aos absolutos, e a realidade torna-se mais clara. Os números relativos, (percentuais, por exemplo), utilizados para comparar diferentes realidades, se interpretados de uma certa forma, servem também para iludir e mistificar.

Já os números absolutos, se usados com o devido cuidado e rigor, podem servir também para comparar e para desmistificar um conjunto de mentiras que também nos querem impor.

E é muitas vezes assim com as estatísticas relativas à Educação. A utilização de valores absolutos faz sentido quando é de seres humanos e das suas necessidades que falamos. Afinal não são absolutas as necessidades básicas de um alemão e as de um português, só para dar um exemplo? Não tem o alemão boca, dois braços, duas pernas e uma cabeça, como nós? Não precisamos de nos alimentar, educar, trabalhar, habitar, e zelar pela nossa saúde, tal como ele?

Não faz assim mais sentido atender ao gasto absoluto por aluno, em vez de apresentar esse valor relativizado ao PIB ou à despesa pública, que diferem nos diversos países, enquanto as necessidades básicas dos cidadãos e dos alunos são absolutas e não relativas?

Pois bem, faz todo o sentido apresentar o "gasto" anual por aluno em valores absolutos. E, observando os números, lá está: gastamos muito menos por aluno do que os países mais desenvolvidos da Zona Euro (quase metade do que eles gastam!).

Já em termos relativos, de acordo com os gráficos, por cada 100 euros do PIB (por sinal reduzido), Portugal investe 4,9 em educação, enquanto na zona Euro, por cada 100 euros de PIB investe-se 6,2.

Em suma, com menos recursos, Portugal consegue melhores resultados na leitura, na matemática e nas ciências do que a média dos países da Zona Euro, atendendo ao Relatório Pisa.

E agora venham dizer-nos que precisamos de cortar (poupar dizem eles) na Educação porque nesse sector gastamos demais.

É por estas e por outras que esta gente tem de ser removida do Governo.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Ainda a resignação do Papa Bento XVI


Obviamente que lamentamos a sua partida nestas circunstâncias. E logo agora que começávamos a ouvi-lo com mais atenção. Até parece de propósito.

Logo agora que começávamos a concordar com as suas palavras e com a sua denúncia clara do "liberalismo radical" que toma conta do mundo e que está a lançar na pobreza multidões inteiras, polarizando as sociedades entre uma minoria de abastados e uma maioria de desprezados, empobrecidos e humilhados. Terão os seus conselheiros julgado que ensandecia ao ouvi-lo proferir tais palavras?

"É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus", disse Cristo uma vez. É claro que sabia do que falava!

Que o Papa que vem, também se oponha às modernices do capitalismo tardio, que tudo quer converter em mercadoria, até a própria Vida, para não falar dos simples prazeres da vida.

Que o que vem não seja um alinhado com os poderes e os poderosos deste mundo, nem com os consumidores-reis, mimados, infantilizados, individualistas, hedonistas, estupidificados pelo mais abjecto materialismo, iludidos pelo ópio publicitário invasor de toda a privacidade e colectividade.

Que seja mais forte do que este Papa mas tão jovem quanto este, porque este era jovem de espírito.

É preciso dizer NÃO a muito e a muitos. É preciso coragem, combatividade e antagonismo.

***

Agora, e mudando de assunto, que interessa que o Papa Emérito deixe as suas vestes douradas e passe a envergar brancas, e que passe a calçar sapatos castanhos em vez de vermelhos, e que o seu anel de ouro seja destruído?

É ao anunciar estas ninharias que a Igreja se trai. Parece comprazer-se em alimentar o habitual circo para entreter as massas, ávidas de banalidades, santinhos e velas.

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