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Lizandro, lizardo, lagarto. Cá pra mim é Foz do Lizardo.
O terceiro rio mais extenso do planeta, o mais extenso da Ásia, convertido num ribeiro seco. O que está a acontecer não é um fenómeno local ou regional, frequente nas regiões desérticas ou mediterrânicas, no Verão. É um fenómeno planetário. É preocupante. Mas estaremos verdadeiramente tão preocupados como deveríamos estar?
Cinco estrelas. 1025 páginas em 20
dias. Não aconselhável a menores de 18 anos nem a pessoas hipersensíveis ou com
os nervos em franja. Bolinha vermelha no canto superior direito. Demasiado gráfico
e, por vezes, pornográfico, por vezes com uso recorrente do baixo calão. O horror
dos desaparecimentos, das moscas e dos cadáveres violados. Onírico, misterioso,
diabólico. Prende o leitor. A ler com muita cautela, ou a não ler.
Ali se encontram Poe, no suspense em que nos coloca, McCarthy no ambiente hostil do Meridiano de Sangue, Eco e o ambiente misterioso do Nome da Rosa nos diabólicos episódios do Penitente, profanador de igrejas, e David Lynch, que Bolaño refere, e muitos muitos outros que escapam ao nosso alcance, ou não, e que seriam demasiados para aqui enumerar.
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Três dias depois da profanação da Igreja de Santa
Catalina, o Penitente introduziu-se a altas horas da noite na Igreja de Nuestro
Señor Jesuscristo, no bairro da Reforma, a igreja mais antiga da cidade,
construída em meados do século XVIII, e que durante algum tempo serviu de sede
episcopal de Santa Teresa. No edifício adjacente, situado na esquina das ruas
Soler e Ortiz Rubio, dormiam três padres e dois jovens seminaristas índios da
etnia papago que frequentavam os estudos de Antropologia e História na
Universidade de Santa Teresa. (…) De repente, um barulho de vidros
partidos acordou-o. Primeiro pensou, coisa estranha, que estava a chover, mas
logo se apercebeu de que o barulho provinha da igreja e não de fora,
levantou-se e foi investigar. Quando chegou à reitoria ouviu gemidos e pensou
que alguém tinha ficado fechado num dos confessionários, coisa totalmente
improvável pois as portas destes não fechavam. O estudante papago,
contrariamente ao que se dizia das pessoas da sua etnia, era medroso e não se
atreveu a entrar sozinho na igreja.
Roberto Bolaño, op. cit., p. 426.
A Conduta da
Guerra é
Uma Conduta de Enganos.
Quando posicionares as tuas tropas,
Age como se não fosse o caso.
Quando perto,
Finge-te longe.
Quando longe,
Finge-te perto.
Lança o engodo;
Desfere um ataque pronto.
Sun
Tzu (séc. IV a.C.), A Arte da Guerra
Edições
Quasi, 2008, p. 10
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Foi o que os russos fizeram em Fevereiro, ou tentaram fazer. A conduta da guerra é uma conduta de enganos.
Manobras que não são manobras, mas o prelúdio de uma invasão.
Quando os chineses invadirem a Formosa, pouco antes, farão “manobras”.
«A ideia de cultura contemporânea pouco tem a ver com cultura. Esta ideia também veio camuflar um problema fundamental das sociedades humanas: o falhanço da redistribuição da riqueza e a relevância da vida digna.
Esqueçamos as desigualdades económicas, a questão da distribuição
da riqueza, os trabalhadores, o povo, a luta de classes. Estas foram
substituídas pelas questões do sexo, da raça, da orientação sexual e de
qualquer ideia de eventual subalternidade.»
João Maurício Brás, Os Novos Bárbaros - A Moral de Supermercado, Opera Omnia, 2021, p. 223.
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Um marxista que se preze não prescinde da divisão da sociedade em classes. A luta de classes para ele é imorredoura e motivada por esse “problema fundamental das sociedades humanas”, problema também ele perene porque jamais haverá uma sociedade sem classes, sem pobres e sem ricos. Isso é um ideal, para não lhe chamar uma utopia. Haverá, por essa razão, sempre chão para a sua luta.
Um marxista que se preze não
confunde o fundamental com o acessório. Não confunde a luta de classes com
outras lutas, acessórias, fracturantes e rendidas ao capital. Para o marxista,
no centro estará sempre o trabalhador e o valor do seu trabalho apropriado pelo
capitalista, e nunca o consumidor. Daqui surge o grande desajustamento com a actual
sociedade de consumo, em que o trabalhador, camuflado pela novilíngua em
“colaborador”, é cada vez mais um consumidor e o capitalista um “empreendedor”.
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P.S. O marxismo cultural é uma contradição nos termos.