sábado, dezembro 09, 2006

Os últimos operários do século (2)

Arrastam-se indolentes pela alba,
num mar de sirenes e ventos.
Arrastam o sono e os sonhos,
perdidos logo que o dia avança,
quando os transportes públicos avançam,
quando a vida avança.

Ao som de sirenes indolentes,
clamores fabris, chamadas ao trabalho,
aos gritos, os suburbanos...
avançam e acordam!

Os últimos operários do século.

Oiço o teu grito, manhã!
Oiço o teu grito.
Um grito estridente
de sirenes e ventos.
Anúncios distintos
de novos dias laborais.
Já arrastam o sono pela rua,
os últimos operários do século.

sábado, outubro 21, 2006

Quem fala a seu tempo...

Quem fala a seu tempo, limitando a poucas palavras o espaço de muitas, está menos atreito à censura humana.

Píndaro (Séc. VI-V a.C.), 1ª Ode Pítica

segunda-feira, outubro 02, 2006

A Crise na Educação

O amor dos filhos pelos seus pais tal como a ligação dos homens aos deuses é paralelo ao laço que nos une ao bem e ao que nos é superior. Na verdade, fizeram-lhes o melhor bem que lhes poderiam ter feito, são responsáveis pela sua existência e pela sua criação, e depois pela sua educação.
Aristóteles, Ética a Nicómaco, livro VIII, XII. (Séc. IV a.C.)
Já se disse anteriormente que a grande invenção do século XIX, a escola pública, tinha perdido a capacidade para aproximar as crianças da leitura. Os métodos utilizados para esse propósito, a absurda formação dos professores, a aversão ao trabalho duro, o amor pelos aparelhos electrónicos e os esforços para reproduzir e transformar o mundo exterior ditaram a ruína da educação em todo o Ocidente.
Barzun, Jacques, Da Alvorada à Decadência, 2000
Da dissolução e destruição das normas advém a debilidade, a falta de segurança e até a impossibilidade absoluta de qualquer acção educativa.
Jaeger, Werner, Paidéia, 1936

A actual crise na educação dos jovens reside em primeiro lugar na falência das instituições incumbidas desse papel: a família, a escola, o Estado (e poderemos incluir ainda o Mercado).
Aristóteles, o fundador do Liceu, já há 2400 anos atrás, reconhecia a importância da família, não só na criação dos filhos, mas também na sua educação. Ora a família tradicional desestruturou-se. Já não é o que era. Na maior parte dos casos, ambos os pais trabalham ou não estão presentes, isto quando a família não é monoparental, ou seja, só suportada por um dos pais. A tarefa de educar os filhos por parte da actual família, tornou-se portanto avassaladora. Confia-se agora o papel da educação das crianças a outras instituições, como se estas se pudessem substituir à família. A educação falha porque um dos seus pilares sucumbe, arrastando tudo o resto. Falha a educação, empobrece-se a cultura, dissolvem-se e degradam-se as regras, as normas e os valores. Torna-se impossível ou muito difícil levar a cabo qualquer acção educativa. Está aberto o ciclo da decadência civilizacional.

domingo, outubro 01, 2006

Incursão na Andaluzia. 120 Km/h.

Fervilham os mares e os pomares de amores.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

O carro galga e avança pelas estradas de Espanha.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

O teu corpo, num arrepio, mergulha no mar.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

No oceano do mundo, que não tem fundo.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

Veleiros trazem especiarias,

Já se pressentem os laranjais de Sevilha.

Ouro, prata e marroquinarias.

Já se pressentem os laranjais de Sevilha!

sábado, setembro 30, 2006

Cada homem, cada Colombo

Cada Colombo tem a sua América,

Sonhada mas não revelada,

Intocada.

Cada homem tem o seu sonho...

Continentes inteiros por alcançar.



Cristóvão Colombo (1451?-1506)

quinta-feira, setembro 28, 2006

Ulisses


O mundo em que se move, é todo o mundo.

O mar para onde alonga o olhar, é todo o mar.

A rota em que navega, são todas as rotas.

Ulísses é a glória do mundo,

A pátria que o amou.

Imorredouro Sul

Enquanto o Bóreas enfuna as velas impelindo a nau para o Sul,
Imorredouro Sul,
As ondas acariciam o casco e a proa.

O mar, afinal morada de todos os deuses,
É também o meu lar.

sábado, setembro 16, 2006

Tudo flui

Todos os dias há um Sol novo.

Heraclito
( frg. 6 Diels-Kranz)

domingo, setembro 10, 2006

A Roda da Fortuna


Um só dia faz baixar ou erguer de novo tudo o que é humano.
Sófocles, Ájax












terça-feira, agosto 15, 2006

Trabalho

Trabalho não é vileza, vileza é não trabalhar.

Hesíodo

sábado, agosto 05, 2006

Nascer é morrer.


Nascer é morrer.

Assim falava o velho marnoto, meu avô algarvio, encerrando em si uma cultura mediterrânica milenar. Uma cultura que sobrevive através dos tempos e do mar, transportada pelo Euro vindo de longe.

Em três palavras se resume o despertar e o crepúsculo da existência. Nascer é morrer.

Assim é! Desde o momento em que nascemos, somos marcados para o sofrimento. Viver é, acima de tudo, sofrer e morrer. Talvez por essa razão, quando questionado por Hesíodo, num certame, acerca de qual a melhor coisa para os mortais, Homero, o Poeta, respondeu:

Em primeiro lugar, o melhor para os mortais que habitam sobre a terra é não nascer; mas tendo nascido, ultrapassar sem demora os portões do Hades.
Certamen Homeri et Hesiodi

sexta-feira, agosto 04, 2006

Guerrilheiros ou Terroristas?

Guerrilheiros ou terroristas? Resistentes? Combatentes?

Atenção às palavras. Elas marcam as posições no espectro mediático. Denunciam as pendências. Revelam tendências. As guerras nunca são neutras. Há sempre outra guerra por detrás das guerras. A guerra de palavras e das palavras.

É por esta guerra que existem outras guerras.

O carrasco e a vítima

O carrasco tortura a sua vítima e condena-se desse modo a ser uma eterna vítima.

George Steiner, Quatro Entrevistas com George Steiner (por Ramin Jahanbegloo)

Insolentes os que fazem a guerra

«Creso, quem dentre os homens te convenceu a invadir o meu país e a fazer de ti um inimigo meu, em vez de um amigo?» E ele respondeu: «Ó rei, eu fiz isto para tua fortuna e meu infortúnio. O culpado disto foi o deus dos Helenos, que me induziu a entrar em guerra. Pois ninguém é tão insolente que a prefira à paz. Nesta os filhos enterram os pais, mas naquela são os pais que enterram os filhos. Mas talvez fosse grato a um deus que as coisas assim acontecessem».
(resposta de Ciro a Creso)
Heródoto, Histórias, livro 1º
Insolentes os que fazem a guerra, induzidos pelos deuses e pelas irracionais paixões dos homens. Acabam por tornar-se vítimas das suas acções, porém, não sem antes vitimizarem os inocentes.

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