Pois, diz ele, e a nosso ver bem, que uma Nação só se realiza com “governos que mais fossem de coordenar que de mandar” e com “escolas que preparassem para o mundo a desenvolver inclusive o interno”.
Por isso dizemos: basta! Basta de “governos de mandar”. Queremos governos que coordenem; governos que não se demitam. Basta de prepotências e de desmandos (em Portugal isso está a acontecer na Educação). Queremos coordenação. O governo na Educação mais não tem feito do que impor, impor e impor. Basta! Que coordene!
Mas voltando ainda ao pensamento de Agostinho, dele ressoa uma ideia: a de união e de reconciliação. Dessa forma se cumprirá um novo Portugal, unido o velho com o do porvir. Só unidas as Nações e os povos empreendem com êxito. Não foi assim na Atenas de Péricles: velhos e novos, ricos e pobres, agricultores e marinheiros, todos unidos? Não é a união de um povo que ressalta nos Painéis de São Vicente?
Enquanto as querelas e as divisões subsistirem, as nações definharão: a desunião predominará sobre qualquer tentativa de reconciliação.
Mas deixamos-vos com as palavras de Agostinho. Sempre, Agostinho [os sublinhados são nossos].
«Só realizada uma Nação de frutos de terra e de frutos de mar, de pequena indústria transformadora livre de cadências, de escolas que preparassem para o mundo a desenvolver inclusive o interno, cooperadores excelentes, de concelhos que a si próprios se governassem, sem mutiladoras dependências do poder central, de propriedade comunitária, mesmo no fabril e no comércio - comunitária de liberdade partilhada e não de sofrida opressão, e de governos que mais fossem de coordenar que de mandar, e assim mesmo pela região passando -, só então Portugal se deveria lançar a nova revoada, sendo seu primeiro voto o de poder aliar esforços com o vizinho que durante séculos temera e que devia ser agora um esplendor de nações livres, também livres de novo seus antigos cidadãos de Maomé e Moisés, por tantos anos afastados ou odiados ou temidos.
De todos precisaria como irmãos para então, com segurança e promoção alheia e própria, ir de novo àquela Europa em que por pouco acabar, de Mercado, a que tanto o queriam prender e passando a Paraíso, e a reconhecendo como península da Ásia sobre um mar de porvir, ocidente em futuro de nascente, sem fronteiras de leste e oeste que artificiosamente a dividissem.»
Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações, Outros textos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994, pág. 137

.jpg)
.jpg)
.jpg)
"E para a próxima, não vás no discurso dos políticos."
Talvez aos vossos olhos vos pareça um louco esfarrapado, de cabelos desgrenhados, esbracejando e vociferando impropérios contra o neoliberalismo, numa praia deserta, numa ilha perdida no oceano da Internet. E o neoliberalismo, qual navio, passa ao longe, alheio ao louco e à ilha, lento na sua rota, rumando a um naufrágio certo.
Em primeiro lugar, servem-se a eles mesmos: servem depois os seus partidos, o que significa que servem os financiadores da sua política e das suas campanhas eleitorais, grupos que detêm o poder económico e financeiro, grupos de interesses que, não estando no poder político, o querem condicionar, de forma a que se mantenha o status quo que assegura a sua dominância na sociedade.
Criticámos aqui, muitas vezes, as políticas neoliberais do Estado mínimo ou do “menos Estado, melhor Estado”, que vai dar ao mesmo. Contudo nem sempre a maior intervenção do Estado significa maior promoção da justiça social. Basta que, quem esteja ao leme, adopte políticas que favoreçam grupos minoritários poderosos, elites dominantes ou nomenklaturas instaladas, em desfavor da maioria dos cidadãos, que vai sendo dessa forma, desapossada pelos governos dos Estados. O processo é sempre o mesmo: as receitas dos impostos e o património do Estado são colocados ao dispor desses grupos em detrimento das necessidades da maioria. É que o “melhor Estado” do chavão dos neoliberais é o Estado que os serve. A isto chamam alguns empoderamento pelo desempossamento. Ocorre quando os governos colaboram no saque realizado à generalidade dos contribuintes e ao património do Estado, que é de todos os cidadãos, para o canalizarem para grupos sociais dominantes minoritários, concentrando a riqueza e aumentando o seu poder. Temos aqui portanto, uma crise de democracia (*).