sexta-feira, novembro 21, 2008

Tudo é possível (dentro de determinados limites)

E se te disser, Horácio, que tudo é possível dentro de determinados limites?
E que a vida é um instante de eternidade? Ou, se quiseres, um eterno instante.

Não se fará luz no teu espírito?

Não perceberás que em vão sondaste os limites da vida? E que toda essa parafernália científica que inventaste jamais nos poderá servir para esse fim?
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A propósito das palavras de Agostinho da Silva:

…e aqui temos numerosas horas de conversa ou os dias se comprimem num momento, que o tempo nem sempre dura, e ao que não dura mesmo chamamos nós instante de eternidade…

Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações, Outros textos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994, pág. 106

sexta-feira, novembro 07, 2008

Sempre, Agostinho

E ainda lhe chamam místico.

Pois, diz ele, e a nosso ver bem, que uma Nação só se realiza com “governos que mais fossem de coordenar que de mandar” e com “escolas que preparassem para o mundo a desenvolver inclusive o interno”.

Por isso dizemos: basta! Basta de “governos de mandar”. Queremos governos que coordenem; governos que não se demitam. Basta de prepotências e de desmandos (em Portugal isso está a acontecer na Educação). Queremos coordenação. O governo na Educação mais não tem feito do que impor, impor e impor. Basta! Que coordene!

Mas voltando ainda ao pensamento de Agostinho, dele ressoa uma ideia: a de união e de reconciliação. Dessa forma se cumprirá um novo Portugal, unido o velho com o do porvir. Só unidas as Nações e os povos empreendem com êxito. Não foi assim na Atenas de Péricles: velhos e novos, ricos e pobres, agricultores e marinheiros, todos unidos? Não é a união de um povo que ressalta nos Painéis de São Vicente?

Enquanto as querelas e as divisões subsistirem, as nações definharão: a desunião predominará sobre qualquer tentativa de reconciliação.

Mas deixamos-vos com as palavras de Agostinho. Sempre, Agostinho [os sublinhados são nossos].

«Só realizada uma Nação de frutos de terra e de frutos de mar, de pequena indústria transformadora livre de cadências, de escolas que preparassem para o mundo a desenvolver inclusive o interno, cooperadores excelentes, de concelhos que a si próprios se governassem, sem mutiladoras dependências do poder central, de propriedade comunitária, mesmo no fabril e no comércio - comunitária de liberdade partilhada e não de sofrida opressão, e de governos que mais fossem de coordenar que de mandar, e assim mesmo pela região passando -, só então Portugal se deveria lançar a nova revoada, sendo seu primeiro voto o de poder aliar esforços com o vizinho que durante séculos temera e que devia ser agora um esplendor de nações livres, também livres de novo seus antigos cidadãos de Maomé e Moisés, por tantos anos afastados ou odiados ou temidos.

De todos precisaria como irmãos para então, com segurança e promoção alheia e própria, ir de novo àquela Europa em que por pouco acabar, de Mercado, a que tanto o queriam prender e passando a Paraíso, e a reconhecendo como península da Ásia sobre um mar de porvir, ocidente em futuro de nascente, sem fronteiras de leste e oeste que artificiosamente a dividissem.
»

Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações, Outros textos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994, pág. 137

quarta-feira, novembro 05, 2008

Ridículo

É ridículo o argumento dos neoliberais que agora apontam o dedo acusador às entidades reguladoras por não terem estado atentas às falhas do mercado e aos que nele irresponsavelmente actuaram. É tão ridículo como o argumento que culpa as distracções dos polícias pelas acções dos ladrões. É que o problema, na realidade, não são os polícias, são os ladrões. O problema não são as entidades reguladoras, mas a política que sempre defendeu a mínima intervenção do Estado.

O mercado falhou porque, ao contrário do que sempre defenderam os neoliberais, tem de ser fortemente regulado pelo Estado. Curiosamente, vêm agora culpar o Estado e as entidades reguladoras pelas falhas do mercado e pelas irresponsabilidades dos directores executivos e quadros dirigentes. O mesmo Estado que, segundo os neoliberais, deveria intervir o mínimo nos mercados, financeiros ou não, e na economia.

Poupem-nos!

sábado, novembro 01, 2008

São Jerónimo

São Jerónimo (1521) – Albrecht Dürer

O dedo afaga o crânio, liso e frio como a morte. Um pensamento vago parece perpassar-lhe a mente esgotada de tanto pensar. Até a ordem das palavras é um mistério…

A Vida, o Espírito: para onde vão após o último sopro? Para o Paraíso, é certo. Mas isso é uma questão de Fé. A Razão contudo, teima em questionar, ainda que a resposta cabal seja pronunciada mil vezes.

A presença de Cristo, Aquele que venceu a Morte, é um eterno desafio.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Alcácer do Sal, Alcácer do Sul

Alcácer do Sal (1983), Maluda

Às portas do Sul, a primeira cidade.

(Cálido Sul, onde o olhar se afunda.
Largo horizonte azul.)

Quieta e muda adormece,
Embalada pela brisa.
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Ao entardecer,
o tinir das espadas,
Melodias de citaras,
E mouras encantadas.
Cânticos de cigarras,
Legiões nas calçadas.
As tardes são romanas.
As noites são amadas.

Às portas do Sul,
a cidade adormece,
vetusta guerreira,
que nunca fenece.
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segunda-feira, outubro 27, 2008

Alcácer do Sal

Alcácer do Sal (1983), Maluda

O olhar de Maluda sobrevoa Alcácer, como uma cegonha, e dirige-se para o Sul. É assim que Alcácer deve ser olhada. A primeira cidade do Sul.

O olhar de Maluda é o olhar de quem chega, vindo do Norte, e num só relance, abarca telhados e açoteias, o Sado e os arrozais, a planura e o horizonte. É o olhar de uma forasteira arguta, uma viajante que sente o apelo do horizonte. Nem podia ser de outra forma: a cidade induz-nos, como se nos pegasse pela mão e apontasse: é ali o Sul. Maluda sentiu Alcácer. E em Alcácer sente-se sempre o apelo do Sul.

Para lá do horizonte, outro mundo se adivinha: a infinda planície, o vinho tinto quente, manjares antigos, terra de cante e de ouro, terras de outra gente, lugar de praias serenas e além-mar, mundos de águas cálidas e serenas, por vezes revoltas, e África.
O Sul é o nosso permanente deslumbramento: plenitude dos mistérios. Adamastores e sereias, costas distantes, reinos perdidos, outros ritos, ouro, prata e especiarias, rios antigos, araras e catatuas, florestas e desertos, mares de azul turquesa, calmarias e corais, a vil pirataria, ilhas de amotinados e a Ilha dos Amores…

É em Alcácer que tudo começa. Na cidade, ao entardecer, a brisa transporta melodias de citaras encantadas e o tinir de sabres e espadas. Passeiam-se os fantasmas à sombra das oliveiras e das laranjeiras, entre as videiras e nos pinhais. Nos arrozais assolados pelas sombras planantes das cegonhas, rebentam bandos de pássaros espantados.

Quando a noite cai, os homens recolhem-se nas tabernas. E nas ruas solitárias, marcham fantasmas de passo cadenciado, legiões romanas, centuriões e soldados. Ali ouve-se o fado. Além soa o cante.

Em Alcácer, à luz das estrelas, todas as mulheres são belas.

É impossível não se amar esta terra.

sábado, outubro 25, 2008

A retoma da economia

Quem se lembra da "retoma" no discurso dos políticos? Agora já ninguém fala dela. A retoma do "para o ano é que é".
Afinal onde está a retoma que nos prometeram?

E diz o Zé Povinho: "Queres a retoma? Ora toma!"

"E para a próxima, não vás no discurso dos políticos."

sexta-feira, outubro 24, 2008

Quixotesco

Talvez aos vossos olhos vos pareça um louco esfarrapado, de cabelos desgrenhados, esbracejando e vociferando impropérios contra o neoliberalismo, numa praia deserta, numa ilha perdida no oceano da Internet. E o neoliberalismo, qual navio, passa ao longe, alheio ao louco e à ilha, lento na sua rota, rumando a um naufrágio certo.

Pois bem, esse é o navio que vos transporta.

terça-feira, outubro 21, 2008

O Estado do Ambiente na UE


A economia é a força mais poderosa e rápida de transformação do planeta. Florestas inteiras desaparecem ante os nossos olhos, vigorosas montanhas são corroídas e aplanadas, calotes polares fundem-se aceleradamente e são liquefeitos oceanos de gelo. A economia está a mudar o mundo. A economia está a destruir o mundo.

Contudo, há um conjunto de macacos vestidos, que do alto da sua suposta (i)razão, continua a colocar a economia acima do mundo. Assumem o seu verdadeiro papel estes símios, encabeçados pelo governo de Berlusconi: o de parasitas que se estão nas tintas para o destino do mundo.

E não nos venham falar em desenvolvimento sustentável.

segunda-feira, outubro 20, 2008

É a hora!

Agora a economia real anda a reboque da economia financeira. As decisões dos políticos são reacções pavlovianas às oscilações da bolsa. Eis o momento em que o casino virtual comanda a economia real e a política. É o fim...

É a hora!

domingo, outubro 19, 2008

Governos verdadeiramente preocupados

Preocupam-se os governos, com as empresas em primeiro lugar e, com as empresas em último lugar. As famílias são um ornato dos discursos dos políticos: a sua verdadeira e única preocupação são as empresas. E a verdadeira e única preocupação das empresas é o lucro.

Estão a tentar enganar-nos com a inclusão das famílias nos discursos.

É preciso tirar esta gente dos governos. Pela via democrática, preferencialmente.

sábado, outubro 18, 2008

A nova condição do homem pós-moderno

Eis a nova condição do homem pós-moderno: escravo fiador. Escravo dos bancos e seu fiador. Ou será um servo da gleba roubado pelo seu senhor?

Momento publicitário

«Eu, já sou fiador do meu banco. E você?»

(Na zona Euro, agora somos todos fiadores. Mesmo que o não queiramos. É democrático!)

sexta-feira, outubro 17, 2008

O Devedor Fiador

«Acordei um dia destes e, pasme-se, descobri que era fiador de bancos com o aval do governo e o beneplácito da presidência.

Quando o Estado fia, fiamos todos.»

segunda-feira, outubro 13, 2008

A quem servem os que nos governam?

Em primeiro lugar, servem-se a eles mesmos: servem depois os seus partidos, o que significa que servem os financiadores da sua política e das suas campanhas eleitorais, grupos que detêm o poder económico e financeiro, grupos de interesses que, não estando no poder político, o querem condicionar, de forma a que se mantenha o status quo que assegura a sua dominância na sociedade.

O Estado e a intervenção pública nunca se opuseram à especulação financeira. Raramente o Estado protegeu o interesse da maioria dos cidadãos, sempre que este se confrontou com os interesses de poderosos grupos financeiros, dos especuladores e das multinacionais.

Após as eleições, rapidamente são esquecidas as promessas eleitorais e quem governa passa a decidir de acordo com os interesses dos poderosos que os apoiaram ou financiaram o seu partido na campanha eleitoral.

Os governos exigiram durante anos consecutivos, sacrifícios aos eleitores, aos contribuintes, preocupados, diziam, com a contenção do deficit orçamental. As suas políticas, diziam, eram principalmente determinadas pela preocupação em conter a despesa pública. Os serviços públicos deterioraram-se, alguns encerraram, outros perderam qualidade. Os serviços privados aproveitaram essa perda de qualidade para conquistarem novos mercados. E eis que, ao primeiro tropeção do sistema financeiro, à primeira aflição dos lucrativos bancos, chovem milhões de euros em seu apoio. O Estado português garante-lhes agora milhões, mais concretamente, 11,7% do PIB nacional! Aparecem milhões, como quem tira magicamente coelhos de uma cartola!

Os milhões de euros que vão ser injectados no mercado moribundo, para agrado dos especuladores, poderiam ter melhor aplicação: por exemplo, na construção de escolas, hospitais, estradas, formação e qualificação profissional, melhoria dos serviços públicos em geral, apoio aos desempregados, idosos e deficientes, no combate à pobreza, na melhoria do ambiente, na investigação científica, na redução da dependência energética, etc.

Em vez disso, apoiam-se os bancos e os especuladores financeiros.
Afinal, a quem servem os que nos governam?!

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