sábado, dezembro 27, 2008

O porto ou a morte

O Mar de Gelo, c. 1824 (Friedrich, Caspar David)
Nenhum grupo de ascetas sobre os mares pôde, porém, sentir com mais acuidade a lei do mar, «o porto ou a morte», do que os que procuravam os pontos de travessia mais difíceis da Terra, a via nordeste entre o Mar do Norte europeu e a Sibéria Oriental e a via noroeste entre a Gronelândia e o Alasca.

Peter Sloterdijk, Palácio de Cristal, Relógio D'Água, pág. 86

terça-feira, dezembro 23, 2008

El Niño Dios ha nacido en Belén

A Sagrada Família com Santa Ana, c 1600 - El Greco

A imagem do Menino Jesus a levar nalgadas da Virgem Abençoada, ainda por cima, perante três testemunhas (como o pintou Max Ernst), não é digna desta quadra natalícia. Por isso, deixamos um quadro mais cordato do Menino Jesus a ser amamentado pela Virgem. Agora, perante duas testemunhas (São José e Santa Ana).

Feliz Natal para todos os que acidentalmente ou incidentalmente encalharam neste blogue e para todos os que o visitaram intencionalmente. Espero que se tenham divertido de algum modo.

Boas Festas.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Max Ernst em Málaga

A Virgem Abençoada Castigando o Menino Jesus Perante Três Testemunhas, 1926 - Max Ernst

No Museu Picasso em Málaga, descobrimos outro vulto da arte do século XX. Max Ernst (1891-1976). Em exposição até 01/03/2009, a sua obra integrada na colecção Würth pode ser apreciada nas galerias do museu. Pelas galerias acompanhou-nos a estranheza e o espanto da descoberta. Um louco pintando, não o mundo exterior, mas as paisagens do espírito interior. Pinturas, colagens, esculturas. Uma cabeça monumental dominando uma grande sala, omnipresente: o Big Brother. Gravuras representando figuras semi-humanas, semi-animais. O Espírito da Bastilha: um pequeno homenzinho erigido no cimo de um totem de pedra. A Horda – uma colagem de figuras antropomórficas ameaçadoras. Mas o quadro que mais nos chamou a atenção foi o Século XX ou Versatilidade, pintado em 1961. Há quem veja optimismo no quadro!? Optimismo!? Pintado em 1961, no auge da Guerra Fria e do equilíbrio do terror nuclear por um homem que sofrera na pele duas guerras mundiais (lutou na Primeira tendo recuperado de uma morte clínica e foi enviado para campos de concentração na Segunda), o quadro é a imagem da desolação ou da versatilidade das formas de destruir o mundo: uma descrença total no Homem, o destruidor de mundos. Trata-se na verdade de uma paisagem de escombros fumegantes, sobre o vermelho vivo de sangue, e um azul frio de morte. Um apocalipse. Não foi o século XX, um século de campos de batalha sem fim, de cidades arrasadas e cogumelos atómicos? Que futuro se pressentia para o século XX, em 1961?

O Século XX ou Versatilidade não o encontrámos na Internet. Fica a imagem da Virgem Abençoada Castigando o Menino Jesus Perante Três Testemunhas (que se encontra em exibição no The Metropolitan Museum of Art).

domingo, dezembro 21, 2008

Málaga em Dezembro

Na margem do Mediterrâneo, Málaga é uma cidade digna de ser visitada em Dezembro, pelas suas gentes, pela sua alegria e pelo seu calor. Málaga é uma cidade viva. À noite o seu centro anima-se de jovens e famílias que se passeiam pelas calles iluminadas e enfeitadas (as ruas nunca são abandonadas ao frio e ao silêncio). As jovens espanholas embelezam-se e perfumam-se. Caminham animadamente em direcção a uma qualquer fiesta. No centro da cidade destaca-se a avenida Marqués de Larios (uma espécie de Rua Augusta, mas ao contrário desta, a multidão invade-a quando a noite se instala). O centro histórico é também constituído por numerosas pequenas praças e ruas estreitas, polvilhadas de bodegas, onde se comem tapas, bebe-se cerveja e convive-se animadamente. Os mais devotos formam filas à entrada das igrejas e da catedral, para assistirem a rituais nocturnos. A cidade respira o ar cálido do Mediterrâneo por todos os poros.

Mas com o aprofundar da noite, resistem nas ruas hordas ruidosas de adolescentes que, organizadamente, se foram embriagando. A vozearia e a gritaria é intensa na Plaza da Marina, fronteira ao porto, e dura até ao raiar da alba.

sábado, dezembro 20, 2008

O Cabo das Tormentas

A criatura resiste. Recorre neste momento de aflição, a todos os seus esbirros colocados em altos cargos governamentais e outros de grande alcance social. Move todas as suas influências. Tenta escapar ao naufrágio no mar tormentoso do mundo. Mar tenebroso, o que agora atravessamos. Os governos não nacionalizam, não propõem o fim de paraísos fiscais e zonas francas, e continuam a apostar na concessão de crédito para financiar o investimento, mas na sociedade de consumo já não é a poupança que suporta o crédito, mas antes a produção monetária nas rotativas. Usam agora os contribuintes endividados como fiadores e financiadores de bancos falidos e de empresas mal geridas. E ainda nos querem fazer crer que estão realmente indignados porque os bancos não fazem chegar os financiamentos às empresas. Será que somos assim tão ingénuos?

Canalizam-se os recursos dos contribuintes para o benefício de alguns accionistas, num processo de concentração sem precedentes, de poder e riqueza. Mas o contexto não deixa de ser agónico. Algumas ruas gregas já perceberam e gritam contra a plutocracia. É só o começo da bernarda.

Virão dias de bonança, quando menos esperarmos. Restará saber se o navio neoliberal ainda navegará ou se terá sido tragado para as profundezas do oceano. O capitalismo assumirá então novas formas.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Sem futuro não há presente.

Para muitos, não há presente sem passado. Mas é mera ilusão.

O presente constrói-se de futuro.

sábado, novembro 29, 2008

Em democracia

Em democracia, politicamente, não existem revoluções, mas podem haver rebeliões.

Em democracia não se reforma contra o povo, reforma-se com o povo e para o povo. Caso contrário, o governante aproxima-se do tirano.

Nestas democracias de maioria absoluta, o tempo parece iludir os governantes, que no decurso do seu mandato vão manifestando, aqui e ali, comportamentos tirânicos. As nossas secretarias de Estado e direcções gerais e regionais acumulam tiranetes prontos a "trucidar" quem ouse questionar as suas decisões ou a dos seus superiores, a quem prestam uma fidelidade canina.

Compreendo aqueles que ironicamente dão a entender que, se se quer governar contra o povo, então que se suspenda a democracia.

Dizia Aristóteles há cerca de 2400 anos que “o governante trabalha em prol dos outros” (Ética a Nicómaco, Livro V, cap. VI). Esta ética parece ter sido esquecida por muitos com cargos de governação.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Tudo é possível (dentro de determinados limites)

E se te disser, Horácio, que tudo é possível dentro de determinados limites?
E que a vida é um instante de eternidade? Ou, se quiseres, um eterno instante.

Não se fará luz no teu espírito?

Não perceberás que em vão sondaste os limites da vida? E que toda essa parafernália científica que inventaste jamais nos poderá servir para esse fim?
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A propósito das palavras de Agostinho da Silva:

…e aqui temos numerosas horas de conversa ou os dias se comprimem num momento, que o tempo nem sempre dura, e ao que não dura mesmo chamamos nós instante de eternidade…

Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações, Outros textos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994, pág. 106

sexta-feira, novembro 07, 2008

Sempre, Agostinho

E ainda lhe chamam místico.

Pois, diz ele, e a nosso ver bem, que uma Nação só se realiza com “governos que mais fossem de coordenar que de mandar” e com “escolas que preparassem para o mundo a desenvolver inclusive o interno”.

Por isso dizemos: basta! Basta de “governos de mandar”. Queremos governos que coordenem; governos que não se demitam. Basta de prepotências e de desmandos (em Portugal isso está a acontecer na Educação). Queremos coordenação. O governo na Educação mais não tem feito do que impor, impor e impor. Basta! Que coordene!

Mas voltando ainda ao pensamento de Agostinho, dele ressoa uma ideia: a de união e de reconciliação. Dessa forma se cumprirá um novo Portugal, unido o velho com o do porvir. Só unidas as Nações e os povos empreendem com êxito. Não foi assim na Atenas de Péricles: velhos e novos, ricos e pobres, agricultores e marinheiros, todos unidos? Não é a união de um povo que ressalta nos Painéis de São Vicente?

Enquanto as querelas e as divisões subsistirem, as nações definharão: a desunião predominará sobre qualquer tentativa de reconciliação.

Mas deixamos-vos com as palavras de Agostinho. Sempre, Agostinho [os sublinhados são nossos].

«Só realizada uma Nação de frutos de terra e de frutos de mar, de pequena indústria transformadora livre de cadências, de escolas que preparassem para o mundo a desenvolver inclusive o interno, cooperadores excelentes, de concelhos que a si próprios se governassem, sem mutiladoras dependências do poder central, de propriedade comunitária, mesmo no fabril e no comércio - comunitária de liberdade partilhada e não de sofrida opressão, e de governos que mais fossem de coordenar que de mandar, e assim mesmo pela região passando -, só então Portugal se deveria lançar a nova revoada, sendo seu primeiro voto o de poder aliar esforços com o vizinho que durante séculos temera e que devia ser agora um esplendor de nações livres, também livres de novo seus antigos cidadãos de Maomé e Moisés, por tantos anos afastados ou odiados ou temidos.

De todos precisaria como irmãos para então, com segurança e promoção alheia e própria, ir de novo àquela Europa em que por pouco acabar, de Mercado, a que tanto o queriam prender e passando a Paraíso, e a reconhecendo como península da Ásia sobre um mar de porvir, ocidente em futuro de nascente, sem fronteiras de leste e oeste que artificiosamente a dividissem.
»

Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações, Outros textos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994, pág. 137

quarta-feira, novembro 05, 2008

Ridículo

É ridículo o argumento dos neoliberais que agora apontam o dedo acusador às entidades reguladoras por não terem estado atentas às falhas do mercado e aos que nele irresponsavelmente actuaram. É tão ridículo como o argumento que culpa as distracções dos polícias pelas acções dos ladrões. É que o problema, na realidade, não são os polícias, são os ladrões. O problema não são as entidades reguladoras, mas a política que sempre defendeu a mínima intervenção do Estado.

O mercado falhou porque, ao contrário do que sempre defenderam os neoliberais, tem de ser fortemente regulado pelo Estado. Curiosamente, vêm agora culpar o Estado e as entidades reguladoras pelas falhas do mercado e pelas irresponsabilidades dos directores executivos e quadros dirigentes. O mesmo Estado que, segundo os neoliberais, deveria intervir o mínimo nos mercados, financeiros ou não, e na economia.

Poupem-nos!

sábado, novembro 01, 2008

São Jerónimo

São Jerónimo (1521) – Albrecht Dürer

O dedo afaga o crânio, liso e frio como a morte. Um pensamento vago parece perpassar-lhe a mente esgotada de tanto pensar. Até a ordem das palavras é um mistério…

A Vida, o Espírito: para onde vão após o último sopro? Para o Paraíso, é certo. Mas isso é uma questão de Fé. A Razão contudo, teima em questionar, ainda que a resposta cabal seja pronunciada mil vezes.

A presença de Cristo, Aquele que venceu a Morte, é um eterno desafio.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Alcácer do Sal, Alcácer do Sul

Alcácer do Sal (1983), Maluda

Às portas do Sul, a primeira cidade.

(Cálido Sul, onde o olhar se afunda.
Largo horizonte azul.)

Quieta e muda adormece,
Embalada pela brisa.
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Ao entardecer,
o tinir das espadas,
Melodias de citaras,
E mouras encantadas.
Cânticos de cigarras,
Legiões nas calçadas.
As tardes são romanas.
As noites são amadas.

Às portas do Sul,
a cidade adormece,
vetusta guerreira,
que nunca fenece.
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segunda-feira, outubro 27, 2008

Alcácer do Sal

Alcácer do Sal (1983), Maluda

O olhar de Maluda sobrevoa Alcácer, como uma cegonha, e dirige-se para o Sul. É assim que Alcácer deve ser olhada. A primeira cidade do Sul.

O olhar de Maluda é o olhar de quem chega, vindo do Norte, e num só relance, abarca telhados e açoteias, o Sado e os arrozais, a planura e o horizonte. É o olhar de uma forasteira arguta, uma viajante que sente o apelo do horizonte. Nem podia ser de outra forma: a cidade induz-nos, como se nos pegasse pela mão e apontasse: é ali o Sul. Maluda sentiu Alcácer. E em Alcácer sente-se sempre o apelo do Sul.

Para lá do horizonte, outro mundo se adivinha: a infinda planície, o vinho tinto quente, manjares antigos, terra de cante e de ouro, terras de outra gente, lugar de praias serenas e além-mar, mundos de águas cálidas e serenas, por vezes revoltas, e África.
O Sul é o nosso permanente deslumbramento: plenitude dos mistérios. Adamastores e sereias, costas distantes, reinos perdidos, outros ritos, ouro, prata e especiarias, rios antigos, araras e catatuas, florestas e desertos, mares de azul turquesa, calmarias e corais, a vil pirataria, ilhas de amotinados e a Ilha dos Amores…

É em Alcácer que tudo começa. Na cidade, ao entardecer, a brisa transporta melodias de citaras encantadas e o tinir de sabres e espadas. Passeiam-se os fantasmas à sombra das oliveiras e das laranjeiras, entre as videiras e nos pinhais. Nos arrozais assolados pelas sombras planantes das cegonhas, rebentam bandos de pássaros espantados.

Quando a noite cai, os homens recolhem-se nas tabernas. E nas ruas solitárias, marcham fantasmas de passo cadenciado, legiões romanas, centuriões e soldados. Ali ouve-se o fado. Além soa o cante.

Em Alcácer, à luz das estrelas, todas as mulheres são belas.

É impossível não se amar esta terra.

sábado, outubro 25, 2008

A retoma da economia

Quem se lembra da "retoma" no discurso dos políticos? Agora já ninguém fala dela. A retoma do "para o ano é que é".
Afinal onde está a retoma que nos prometeram?

E diz o Zé Povinho: "Queres a retoma? Ora toma!"

"E para a próxima, não vás no discurso dos políticos."

sexta-feira, outubro 24, 2008

Quixotesco

Talvez aos vossos olhos vos pareça um louco esfarrapado, de cabelos desgrenhados, esbracejando e vociferando impropérios contra o neoliberalismo, numa praia deserta, numa ilha perdida no oceano da Internet. E o neoliberalismo, qual navio, passa ao longe, alheio ao louco e à ilha, lento na sua rota, rumando a um naufrágio certo.

Pois bem, esse é o navio que vos transporta.

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