quarta-feira, julho 08, 2009

Ao correr do marfim...


A devastação iniciada em África no século XIX continua, agora com a conivência e até a participação de governos corruptos, opressores do seu próprio povo. O fim do colonialismo não foi o início da liberdade, antes pelo contrário... Em África ainda não se respira liberdade e todos de lá querem sair.
E assim continua a correr o marfim... a madeira, o petróleo, o ouro, os diamantes, os animais...Tudo é consumido à velocidade da luz.
Prossegue a devastação no coração das trevas.

terça-feira, julho 07, 2009

A Nossa Força...


«Não eram colonizadores; desconfio que o seu governo se limitava a extorquir e nada mais. Eram conquistadores, e para isso bastava a força bruta - nada que seja motivo de vanglória, quando a temos, porque a nossa força não passa de um acaso decorrente da fraqueza dos outros. Apoderavam-se do que podiam só pelo prazer de se apoderarem. Tratava-se apenas de roubo com violência, assassínio agravado em grande escala e homens que se entregavam a isso às cegas, como aliás é próprio daqueles que enfrentam as trevas. A conquista da terra, que significa, sobretudo, tirá-la àqueles que têm uma cor da pele diferente ou o nariz ligeiramente mais achatado que o nosso, não é coisa bonita de se ver, se repararmos bem.»

Joseph Conrad, O Coração das Trevas

quarta-feira, julho 01, 2009

terça-feira, junho 30, 2009

A Leitura

A Leitura, 1870

Henri Fantin-Latour (1836-1904)


Ela observa-nos quando a observamos. A sua mão desnuda revela uma aliança e o laço azul destaca-se nas cores sombrias… Escuta com uma face inexpressiva. O que estará a ouvir? Parece ausente e a leitora, mergulhada na leitura, não se apercebe. Teremos sido nós que lhe captámos a atenção? Então rapidamente partimos para outro quadro.

As flores ao fundo são uma das marcas de Fantin-Latour, também um grande pintor de naturezas mortas do século XIX.

Quadro observado em Lisboa no Museu Calouste Gulbenkian em 28-06-2009.

sábado, junho 20, 2009

O Desnorte

«É já possível, depois de quatro anos de governação, determinar algumas linhas marcantes da política do Governo: 1. Por um lado, e por razões económicas, segue-se claramente uma orientação que se poderia chamar neoliberal. (…)

Mas neste período de eleições, e no contexto da crise nacional e internacional, o Governo é levado a contrariar parcialmente esta tendência neoliberal, insistindo em medidas próprias de um “Estado-Providência” (contra o desemprego, a pobreza, ajudando financeiramente empresas privadas (PME), nacionalizando bancos), o que torna menos clara a tendência para “desengordar” o Estado. 2. Por outro lado, e, aparentemente, em direcção contrária, a modernização da sociedade e do Estado impõe a máxima centralização dos serviços, a regulação mais económica das instituições públicas, a fusão de sectores idênticos até agora dispersos por vários sectores institucionais.
»

José Gil (2009), Em Busca da Identidade – O Desnorte, Relógio D’Água, pp. 44-45

quarta-feira, maio 27, 2009

Só seja marinheiro...

The Gust (c. 1680)

Willem van de Velde the Younger, 1633-1707
Só seja marinheiro quem esteja decidido a que no mar se afogue e nem dele reste memória. Senão até depois é capaz de haver monumento ou, pelo menos, sarcófago à parte.
Agostinho da Silva
Carta Vária, Relógio D'Água, 1990, pág. 70

sexta-feira, maio 22, 2009

Viva El Pelo

"Viva el pelo"
Julio Romero de Torres (1874-1930)

quarta-feira, maio 20, 2009

A Ponte de Ucanha

Ponte de Canga de Onis (Astúrias)

Ponte de Ucanha (Portugal)

Ponte e Torre de Ucanha

No tabuleiro da ponte de Ucanha

A boca da Torre

Em Ucanha há uma ponte medieval (século XII) parecida com a de Cangas de Onis nas Astúrias. Ambas possuem a meio do tabuleiro um ângulo mais ou menos pronunciado, mas a de Ucanha é mais baixa, menos angulosa e declivosa que a de Cangas, e, além disso, tem a particularidade de possuir uma torre que servia entre outras coisas, para a cobrança de portagens. Velho costume medieval que não nos abandonou.

Em Ucanha descobrimos a humilde casa onde nasceu e viveu o arqueólogo, filólogo e etnólogo José Leite de Vasconcellos (1858-1941). Foi uma agradável surpresa deparar com a casa de um Mestre cuja obra tanto apreciamos.

terça-feira, maio 12, 2009

Easy América!


A cultura americana tornou-se um fenómeno global. Massificou-se, difundiu-se. O mundo ficou mais pobre. O cinema de Hollywood funcionou como um difusor de cultura. Potente difusor. “Brad Pitt proibido de entrar na China”. Até os chineses se deixaram ludibriar pela tela. Ou, por outro lado, atribuem-lhe o seu real valor e levam muito a sério um actor de Hollywood no seu papel de difusor, não só de cultura, mas também de manifestos.

A América difunde o easy living, o easy way, mas a vida não é easy. Banaliza, melhor, difunde a idolatria do dinheiro em todas as suas formas, banaliza o sexo, o easy sex, banaliza o culto das armas…A cultura americana é uma cultura de morte e do espectáculo: a banalização da morte, mil vezes repetida, mil vezes encenada, mil vezes comunicada. A cultura do easy fuck. Easy América. A riqueza easy. American way of live. Infantilização de adultos.

A América está longe de ser uma tragédia. Na verdade é uma comédia.

segunda-feira, maio 04, 2009

quarta-feira, abril 29, 2009

Vasco da Gama e a arte de “bem tratar” as gentes do Índico


Nestes tempos de retorno da pirataria ao Índico, mais precisamente nas águas somalis, e face ao humanismo demonstrado por holandeses (que libertaram os piratas e os enviaram numa embarcação para terra) e pelos actuais portugueses (cuja lei nacional os impede de deter piratas naquelas águas) lembrei-me de Vasco da Gama. Cantado e idolatrado pelos nossos maiores poetas – Camões e Pessoa – Vasco da Gama não passa de um vilão aos olhos de historiadores e filósofos contemporâneos.

Talvez não tenha sido por acaso que os japoneses quando avistaram as velas dos nossos barcos pela primeira vez (fomos os primeiros europeus a demandar as suas costas), nos chamaram “bárbaros do Sul”.

Eis o que dizem historiadores e filósofos contemporâneos do comportamento do nosso Vasco a quem, segundo os poetas, os deuses abriram as portas do céu:

«Quando da sua primeira viagem à Índia, em 1497, Vasco da Gama, sem motivo especial, mandou incendiar e afundar, depois de o ter pilhado, um navio mercante árabe, a bordo do qual se encontravam duzentos peregrinos que se dirigiam para Meca, incluindo mulheres e crianças – prelúdio a uma “história do mundo” dos crimes externos

Peter Sloterdijk, Palácio de Cristal, Relógio D’Água, pág. 122.

«Em 30 de Outubro [de 1502], Vasco da Gama, agora ao largo de Calecute, ordenou ao samorim que se rendesse e exigiu a expulsão da cidade de todos os muçulmanos. Quando o samorim contemporizou e mandou enviados para negociar a paz, Vasco da Gama replicou sem ambiguidade. Capturou no porto, ao acaso, um certo número de negociantes e pescadores, enforcou-os imediatamente, depois esquartejou os corpos, atirou mãos, pés e cabeças para uma embarcação que mandou para terra com uma mensagem em arábico na qual sugeriu ao samorim que utilizasse aqueles bocados de corpos de gente para fazer um caril.»

Daniel Boorstin, Os Descobridores, Gradiva, pp. 170-171

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