segunda-feira, agosto 09, 2010

Eira do Serrado


Tony Judt: nem neoliberalismo, nem marxismo


Partiu o historiador que não acreditava nem no neoliberalismo nem no marxismo. Mas acreditava na democracia e no Estado social.

«Os que festejam o triunfo do mercado e o recuo do Estado, e que gostariam de nos fazer celebrar o alcance sem regras da iniciativa económica no mundo «plano» contemporâneo, esqueceram-se do que sucedeu da última vez que aqui passámos.
(...)
Quanto aos que sonham voltar a exibir a cassete marxista, remasterizada digitalmente e limpa de irritantes ruídos comunistas, fariam bem em perguntar-se, mais cedo do que tarde, o que é que se passa com os «sistemas» de pensamento totalmente abrangentes que conduzem inexoravelmente a «sistemas» de poder totalmente abrangentes.»

Tony Judt, O Século XX Esquecido, Lugares e Memórias, Edições 70, pág. 153

segunda-feira, agosto 02, 2010

domingo, agosto 01, 2010

O neoliberal


Vendedor de Ratos, Malawi, 2009


«Com efeito, quando o pirata desembarca em terra, que projectos de crimes traz ele nos bolsos? Onde escondeu as armas? Com que argumentos sedutores promove as suas especulações? Sob que máscaras humanitárias esconde as más intenções? Quando os assaltantes se apresentam na boa sociedade, os seus sofistas, os seus conselheiros, não se encontram longe. Desde há duzentos anos, os burgueses seleccionam as suas angústias: uma vez em terra firme, o anarco-marítimo torna-se, no melhor dos casos, um Raskólnikov* (que faz o que quer, mas que o lamenta), num caso menos favorável, um marquês de Sade (que faz o que quer mas nega o remorso), no pior dos casos, um neoliberal (que faz o que quer, mas citando Ayn Rand, se autoproclama homem do futuro).»


Peter Sloterdijk, Palácio de Cristal, Para Uma Teoria Filosófica da Globalização, Relógio de Água, 2008, pág.124.

(*) - Personagem principal do romance de Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo.

sábado, julho 31, 2010

O amor esculpido atravessa as eras

Sarcófago dos Esposos ou Sarcófago de Cerveteri, c. 530-520 a.C.




A visão da perfeição absoluta

Auguste Rodin, O Beijo, 1886

sexta-feira, julho 30, 2010

Rodin

«E ele trabalhava, trabalhava, trabalhava com toda a paixão e toda a energia do seu corpo pesado e poderoso; de cada vez que avançava ou recuava impetuosamente, o soalho estalava. Mas ele não ouvia. Não reparava que, atrás de si, se encontrava um jovem silencioso, coração preso na garganta, felicíssimo por poder ficar a observar no seu trabalho um mestre tão excepcional. Tinha-se esquecido completamente de mim. Para ele, eu não estava ali. Só a figura, só a obra existia e para lá dela, invisível, a visão da perfeição absoluta.»

Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2005, pág. 168.

quinta-feira, julho 29, 2010

Aristóteles vs Emerson

Aparentemente, ninguém se torna médico apenas pela leitura de compêndios de medicina.

Aristóteles, Ética a Nicómaco, Quetzal Editores, 2004, pág. 253


Os bons livros substituem as melhores das universidades.”

Emerson citado por Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2005, pág. 113.


Afinal, em que ficamos?

terça-feira, julho 27, 2010

Um por todos e todos por um.


Viver e deixar viver

Viena, cerca de 1900, Mercado de Flores

«Viver e deixar viver» era a célebre máxima vienense, uma máxima que ainda hoje me parece mais humana do que todos os imperativos categóricos, e que se impôs de forma irresistível no seio de todas as camadas sociais. Ricos e pobres, checos e alemães, judeus e cristãos viviam juntos em paz, apesar de alguns dichotes esporádicos, e os próprios movimentos políticos e sociais estavam desprovidos daquele terrível ódio que só penetrou na circulação sanguínea da época como sequela venenosa da Primeira Guerra Mundial.

Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2005, pág. 38.

segunda-feira, julho 26, 2010

domingo, julho 25, 2010

O auge da modernidade, contado por quem a viveu

Viena, 1902

«Os sacerdotes da ciência substituíram os sacerdotes da divindade, e a sociedade conduzida pelo progresso deveria agora cumprir o que a sociedade guiada por uma ordem pré-fixada não conseguira alcançar.»

Zygmunt Bauman (1995). A Vida Fragmentada, Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna. Relógio de Água, 2007. Pág. 31.

«Convencionalmente, nas ciências sociais, uma série de termos como secularismo, democracia, o estado-nação, cidadania, industrialização, urbanização, vêm à ideia para qualificar o que se entende por modernidade. Pode ainda acrescentar-se a esta lista de ideias a superioridade epistemológica da ciência, a autonomia da razão e da lei, a existência da esfera pública, os direitos humanos, uma série de liberdades fundamentais, a posse de propriedade individual e o individualismo.»

Couze Venn and Mike Featherstone, “Modernity”, Theory Culture Society, 2006; 23; page 459

Acresce ainda uma fé inusitada no progresso científico e tecnológico. Tal progresso contudo, não foi acompanhado por um progresso moral, facto que constituiu o calcanhar de Aquiles da modernidade. O colapso da modernidade decorreu assim entre 1914, data do início da Iª Guerra Mundial e 1945, data do fim da IIª Guerra Mundial, entre matanças industriais e uma depressão económica profunda, acontecimentos muito longe do espírito de quem vivia nas capitais dos impérios, no final do século XIX ou no início do século XX.

O auge desta época moderna, que já não é a nossa, foi muito bem descrita por Stefan Zweig que a viveu na sua juventude, em Viena:

«No seu idealismo liberal, o século XIX estava sinceramente convencido de se encontrar no caminho certo e infalível que levava ao “melhor de todos os mundos”. Era com desdém que se olhava para as épocas passadas, com as suas guerras, fomes e revoltas, como para um tempo em que a humanidade ainda era menor e insuficientemente esclarecida. Agora, porém, era apenas uma questão de décadas até terem sido definitivamente ultrapassados os últimos vestígios do mal e da violência, e a crença no “progresso” ininterrupto, imparável, tinha para essa época a força de uma verdadeira religião; já se acreditava mais nesse “progresso” do que na Bíblia, e o seu Evangelho parecia irrefutavelmente comprovado pelos novos milagres da ciência e da técnica. Efectivamente, para o final desse pacífico século, a prosperidade geral tornara-se cada vez mais visível, cada vez mais rápida, cada vez mais diversificada.»

Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2005, pág. 15

sábado, julho 24, 2010

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