quarta-feira, outubro 05, 2011

Jovens, acordem!

Setecentos indignados, como esta jovem da fotografia, foram detidos no sábado passado quando protestavam em Wall Street, o olho do furacão financeiro que varre as economias mundiais. As novas gerações e as mulheres encontram-se entre as primeiras vítimas da actual crise económica. Se não se mobilizarem, se não lutarem, então o mundo em que terão de viver será mais adverso que o dos seus pais e avós. Serão mais pobres.

Segundo a revista Courrier Internacional do presente mês, “actualmente 20,4% dos europeus entre os 15 e os 24 anos continua sem emprego. É mais de um terço do que em 2008. Esta taxa, no entanto, é apenas a média europeia. Esconde números ainda mais preocupantes. Como os 42% de jovens desempregados em Espanha, 30% nos Países Bálticos, Grécia e Eslováquia e 20% na Polónia, Hungria, Itália e Suécia.” (Courrier Internacional, Outubro 2011, pág. 26). E em Portugal? Mais de 50% dos assalariados com menos de 25 anos trabalham com contratos prazo, de acordo com a mesma revista.

A vida nem sequer está fácil para os mais bem qualificados academicamente e cientificamente. Hoje pode ler-se no jornal Público que os dois jovens investigadores portugueses que participaram numa das equipas que ganhou o Prémio Nobel da Física (!), se encontram, um deles, a trabalhar fora do país, e a que resolveu ficar, trabalha numa área que não está relacionada com a ciência (Público, quarta-feira, 5 de Outubro, pág. 15). Em Portugal nem sequer existem oportunidades para os mais qualificados e os bolseiros dos estudos pós-graduados são atirados para uma situação precária. Ora isto tem de mudar.

É hora das novas gerações começarem a abrir os olhos, sob pena de, se não o fizerem e se não lutarem por outra organização social e económica, serem paulatinamente empurrados para as novas hordas de explorados, sem sequer se darem conta. E quando se derem conta poderá ser tarde demais. Os jovens americanos, esses, estão a acordar.

domingo, outubro 02, 2011

A Virgem Negra da Fome


(Pascal Maitre/Cosmos)

Esta jovem mulher chama-se Howa Ali e faz parte de um grupo de uma centena de famílias somalis recentemente chegadas a Mogadíscio após uma marcha de vinte dias que custou a vida a trinta dos seus filhos. Olhando para cima, ela claramente não espera nada dos homens, nem mesmo aqueles que vêm a este abrigo improvisado para distribuir alguns alimentos ou para dar testemunho da imensidão das suas angústias. Instalados nas ruínas da catedral - destruída por militantes islâmicos em 1990 após o assassinato do bispo - os refugiados dormem sobre os escombros, sem instalações sanitárias ou tecto, e muitos deles sofrem de sarampo.
Le Figaro (tradução minha)
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Tanto sofrimento estampado nos rostos. Onde está o brilho irradiante, como nas aparições salvíficas? Ali, vislumbramos apenas a sombra da morte.
Pobres mulheres, pobres crianças.

sexta-feira, setembro 30, 2011

quinta-feira, setembro 22, 2011

Portugal no pântano

Comigo não há risco. Tenho bastante de Barca D’Alva e de Porto, de América Latina e de África, de Nagasaqui e de Macau e de Timor, para que me dê qualquer tentação de afogar-me nos pântanos de leite da sobredita Europa.” (Agostinho da Silva, Caderno de Lembranças, Zéfiro, 2006, pág. 71).

Agostinho da Silva sabia que a adesão à C.E.E. nos iria ficar cara. Que muito provavelmente nos iríamos afogar num oceano de dívidas devido a um consumismo para o qual não estávamos historicamente vocacionados. Na frase que imediatamente antecede a supracitada, Agostinho termina dizendo que não nos esquecesse-mos “de ir o País de Camões entrar no supermercado da C.E.E. e ir ser consumista sem dinheiro, o que quero ver”.

Volvidos 25 anos, um quarto de século, o resultado está à vista. Acabámos por consumir com o dinheiro que não tínhamos, recorrendo ao crédito. Portugal está agora afogado, não num pântano de leite, mas num mar de dívidas. Chegámos então a um impasse: ou nos emancipamos e voltamos ao escudo, ou nos federamos, nos Estados Unidos da Europa, e então, Portugal passará a ser outra coisa, directamente governado a partir de uma cidade distante, no centro político e económico dessa federação.

Como estamos, agonizamos.

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PS – É certo que uma saída da Zona Euro, e nisso os economistas menos ortodoxos também concordam, teria como resultado uma recessão prolongada e o País seria conduzido a uma depressão. Teríamos um efeito recessivo da queda da procura interna, diz Francisco Louçã (Louçã, Portugal Agrilhoado, Bertrand Editora, 2011 pág. 97). Mas sempre podemos colocar a questão: não estamos já aí? Como se pode aguentar uma Zona Euro, com 17 ministros das finanças e dezassete sistemas fiscais diferentes? A integração europeia foi profunda ao nível económico, ligeira ao nível político, mas não existiu ao nível social e financeiro. Por isso estamos num impasse, sem fim à vista.


quinta-feira, setembro 15, 2011

Desemprego jovem dispara no Reino Unido


Agora façam o favor de agradecer ao Sr. Camarão e à sua maravilhosa política.

O neoliberalismo é o horror económico.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Entretanto, entre os sonâmbulos das “nações afortunadas”

Quem poderia contestar que os alarmistas, como sempre, têm quase inteiramente razão? Os habitantes das nações afortunadas avançam o mais das vezes como sonâmbulos no pacifismo apolítico. Passam os dias numa insatisfação dourada. Entretanto, nas margens da zona de felicidade, os que nos importunam e até os seus verdugos virtuais mergulham nos manuais da química dos explosivos – requisitados às bibliotecas públicas dos seus países de acolhimento.

Peter Sloterdijk (2006), Cólera e Tempo, Relógio D’Água, 2010, pág. 60

domingo, setembro 11, 2011

Colectivos da cólera e das «civilizações» vexadas


"De acordo com tudo o que hoje sabemos das coisas que nos esperam, seremos forçados a supor que a primeira parte do século XXI será também ela marcada por imensos conflitos que serão desencadeados por colectivos da cólera e das «civilizações» vexadas."

Sloterdijk, Peter (2006), Cólera e Tempo, Relógio D' Água, 2010. Pág. 40

sábado, setembro 10, 2011

Ópera-bufa

Quando estão na oposição, tiram a rosa e põem o punho.

Quando estão na oposição proclamam a alta voz, batendo no peito: "As pessoas estão primeiro". Quando estão no Governo, esquecem-se rapidamente disso e são os mercados que tomam o lugar das pessoas.

Este é o nosso "socialismo" de opereta. Ópera-bufa.

quinta-feira, setembro 08, 2011

quarta-feira, setembro 07, 2011

Nem cruz, nem espada, nem ouro


Ali não há povos a converter ou a submeter pela espada, nem ouro sequer, para traficar. Nem cruz, nem espada, nem ouro.

Ali o Império tarda.

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Passaram 39 anos desde a Apolo 17.

quarta-feira, agosto 31, 2011

Top 10 dos factos reais mais deprimentes e como ficar feliz com os mesmos

Aproxima-se o momento das melancolias profundas. Afinal, no nosso hemisfério, os dias estão cada vez mais pequenos e, em breve, o Sol estará mais tempo abaixo do horizonte do que acima. Muitos, talvez a maior parte, regressam ao trabalho após as merecidas férias e começarão a sua luta quotidiana pela sobrevivência num ambiente cada vez mais hostil e competitivo. Pois bem. Abaixo listam-se dez factos verdadeiramente deprimentes, que poderão ser superados com felicidade se forem encarados da forma que se indica aqui: The Richard Dawkins Foundation - Discussions. Eis os dez factos deprimentes:

  1. Vamos todos morrer e não há nada que possamos fazer quanto a isso.
  2. Basicamente somos todos vassalos do nosso DNA.
  3. Não estamos sós (no universo), contudo estamos sós.
  4. Muito provavelmente não seremos milionários.
  5. As doenças são cada vez mais inteligentes.
  6. Existem demasiados estúpidos no mundo.
  7. O fim do mundo está próximo.
  8. Um meteorito pode atingir-nos a qualquer momento.
  9. As minhas crianças serão meio robôs.
  10. [A acrescentar pelo leitor – Não esquecer a resolução].

Reprodução e imortalidade

Li em tempos, não sei bem onde, talvez de Richard Dawkins, que nesta vida os vencedores são os que procriam. Sempre acreditei que a procriação poderia estar ligada, de alguma forma, à imortalidade. Afinal, são muitos os exemplos das espécies que, antes de morrer, gastam toda a energia vital na procriação. Os salmões por exemplo, a última coisa que fazem é subir um curso de água e desovar, ou seja, só morrem descansados após verem assegurada a sua descendência. Existem poucos casos, segundo sei, de salmões que tornam a descer o curso de água até ao mar. A maioria morre após a desova.

Ora bem, hoje este mito pessoal, da imortalidade associada à reprodução, foi desmontado pela leitura do seguinte trecho da obra do próprio Dawkins, O Gene Egoísta:

"A Rainha Isabel II descende directamente de Guilherme-o-Conquistador. Contudo é bastante provável que ela não possua nem um dos genes do velho rei. Não devemos procurar a imortalidade na reprodução.

Mas, ao contribuir para o património cultural do mundo, tendo uma boa ideia, compondo uma melodia, inventando uma vela de ignição, escrevendo um poema, isso poderá sobreviver, intacto, até muito tempo depois de os seus genes se terem dissolvido no pool comum."

Richard Dawkins, O Gene Egoísta, Gradiva, 2003, pág. 272

Assim sendo, os que procriam não são necessariamente os vencedores. Na realidade, os vencedores, na história de Dawkins, são os genes, quando conseguem replicar-se ao longo de milhões de anos.

terça-feira, agosto 30, 2011

Contra as multidões

Os melhores escolhem um só bem em troca de todos os outros, a glória eterna em troca das coisas mortais. A multidão sacia-se como as manadas.”

Heraclito

in Simone Weil, A Fonte Grega, Cotovia. 2006. Pág. 145

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Findo o Verão, as multidões regressam. Paulatinamente, mas regressam. É então hora de abandonar a cidade e rumar para sul. É tempo de voltar a passear nas praias vazias e mergulhar nas suas águas, ainda cálidas. Contemplar o mar, encarar a brisa... Aguardar na glória eterna, imortal.



segunda-feira, agosto 29, 2011

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Ponte medieval da Mizarela © AMCD

«Os romanos confiavam na acção da gravidade, aquele aqueduto está de pé porquanto tem tendência para cair - o que em engenharia é uma coisa admirável, ter de pé algo com tendência para cair. É exactamente o que encontramos no gótico, ou mesmo no românico, há uma pedra na abóbada ou no arco que impede de cair. Quanto mais tende a cair, mais aquilo aperta a pedra e menos cai.»

Agostinho da Silva, Vida Conversável, Assírio & Alvim, 1994, pág. 16

domingo, agosto 28, 2011

A Ele que foi Crucificado


«Querido irmão, o meu espírito dirige-se ao teu,
Não te preocupes por muitos dos que pronunciam o teu nome não te compreenderem,
Eu não pronuncio o teu nome mas compreendo-te,
Menciono-te com alegria, camarada, saúdo-te e saúdo os que te acompanham desde então, e também os que virão amanhã,
Para que juntos transmitamos o mesmo encargo e legado,
Nós, um pequeno grupo de iguais, indiferentes às terras, indiferentes aos tempos,
Nós que reunimos todos os continentes, todas as castas, nós que aceitamos todas as teologias,
Compassivos, receptivos, narradores dos homens,
Caminhamos em silêncio entre as polémicas e as afirmações, sem rejeitar os polemistas nem nada do que afirmam,
Ouvimos os gritos e as vociferações, chegam-nos as disputas, os ciúmes, as recriminações
Que se atiram peremptoriamente sobre nós e nos rodeiam, camarada,
Mas continuamos desligados e livres a nossa viagem sobre a Terra, deixando a nossa marca indelével no tempo e nas eras,
Até saturar o tempo e as eras, para que os homens e as mulheres das futuras raças e gerações possam ser fraternais e amantes como nós.»
Walt Whitman, Folhas de Erva - Antologia, Assírio & Alvim, 2003, pp. 305
tradução de José Agostinho Baptista
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To Him that was Crucified

My spirit to yours, dear brother;
Do not mind because many, sounding your name, do not understand you;
I do not sound your name, but I understand you, (there are others also;)
I specify you with joy, O my comrade, to salute you, and to salute those who are with you, before and since—and those to come also,
That we all labor together, transmitting the same charge and succession;
We few, equals, indifferent of lands, indifferent of times;
We, enclosers of all continents, all castes—allowers of all theologies,
Compassionaters, perceivers, rapport of men,
We walk silent among disputes and assertions, but reject not the disputers, nor any thing that is asserted;
We hear the bawling and din—we are reach’d at by divisions, jealousies, recriminations on every side,
They close peremptorily upon us, to surround us, my comrade,
Yet we walk unheld, free, the whole earth over, journeying up and down, till we make our ineffaceable mark upon time and the diverse eras,
Till we saturate time and eras, that the men and women of races, ages to come, may prove brethren and lovers, as we are.

Walt Whitman (1819 - 1892). Leaves of Grass. 1900.

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