sábado, janeiro 23, 2021

Tenham vergonha!

Não se entende como há pessoas que, em caso de dúvida, e tratando-se de vidas humanas, ainda assim defendam avançar em vez de esperar, como manda a precaução.

 

Certos liberalóides que nem sabem o que uma escola é, opinaram com toda a ligeireza, que deveriam permanecer abertas, na dúvida em relação ao mal que tal decisão pudesse causar a quem nela trabalha, estuda, aos seus familiares e à sociedade inteira. Como se na escola não laborasse um dos grupos profissionais mais envelhecidos de todos, constituído por muitos e velhos professores, para não falar dos excelentes auxiliares de acção educativa, afadigados a toda a hora, a limpar tampos de mesas, cadeiras, teclados de computadores, baldes do lixo e retretes e a lembrar aos alunos que cubram o rosto com a máscara, ou a desinfectar-lhes as mãos à entrada da escola. Como se os novos professores vivessem como monges, em missão e em mosteiros, isolados das suas famílias e dos seus velhos. Como se as escolas fossem só constituídas por grupos de alunos e crianças. E como se esses alunos estivessem sempre sentados a dois metros uns dos outros. Não, não estão. Estão de ombro com ombro, lado a lado, na mesma carteira, que a lei permite, muitas vezes numa sala abarracada e apinhada, numa escola não intervencionada, e não no colégio de elite frequentado pelos filhos deles, que forma elites e não ralés.

 

Liberalóides que se baseiam nas “sérias dúvidas sobre a vantagem de tal decisão”, dizem eles, para sustentarem a defesa de uma escola aberta, que assim é que o mundo avança. Nem que seja para o abismo, dizemos nós, ou em direcção à doença.

 

 Vantagem!?

 

A dúvida aqui era se a decisão de manter as escolas abertas poderia levar ou não, facilmente, à contaminação e morte de mais alguns. O resto são balelas.

 

Uma dúvida destas não é para brincadeiras. O que manda o princípio da precaução? Se há dúvidas relativas ao passo que se vai dar quanto aos elevados danos que o mesmo possa causar, então mais vale estacar e aguardar.

 

Houve quem sugerisse atempadamente que se prolongasse a interrupção das actividades lectivas do Natal por mais uma ou duas semanas. Não lhe deram ouvidos. Havia que causar uma boa impressão, afinal éramos nós os que iriamos presidir, vaidosamente, ao Conselho da União Europeia. Inchados e impantes anfitriões. Havia que dar uma boa imagem aos dignatários estrangeiros que nos viriam visitar na inauguração – um país de sucesso. Alguns saíram de cá contaminados e apoquentados. Lá foram para o isolamento profiláctico nos seus países natais, acabrunhados.

 

A casa dos vizinhos (Reino Unido, França, Alemanha, Espanha entre outros) já ardia e nós nem mangueira nem extintor. Não nos preparámos atempadamente.

 

Estirpes inglesa, da África do Sul, do Brasil, anunciadas aos quatro ventos e nós aguardando que por cá chegasse a inglesa para tomarmos uma decisão. Que idiotas! Afinal a culpa é do Natal. Pois. Os portugueses portaram-se mal, dizem eles. Fracos os governantes que culpam os governados. Correm agora para as vacinas, os políticos.

 

Esta é a realidade: os decisores não foram prescientes, nem previdentes e o princípio da precaução veio tarde – o passo já tinha sido por eles dado. Agora deram o passo atrás, alegando exactamente, o princípio da precaução. Já fecharam os corredores aéreos com o Reino Unido? Parece que é hoje. O Reino Unido já fechou os corredores aéreos para Portugal há algum tempo. Prescientes. O nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros reclamou outra vez, como sempre, da pronta decisão inglesa. Fechámos os corredores aéreos para o Brasil? Fechámos????

Esta é a realidade: não foram proactivos. Foram sempre, sempre, reactivos. Reagiram sempre, sempre por arrasto. E desde Março que é assim.

Culpam agora portugueses, que se portaram mal. Que foram passear para a praia nos gélidos dias de Janeiro. Não gozem connosco.

E eis-nos agora aqui, no topo do mundo – “o país do mundo com mais mortes por milhão de habitantes (e continua o 1.º em novos casos)” anuncia o Expresso, a 22 de Janeiro. Aqui.

 

Tenham vergonha!

domingo, janeiro 17, 2021

Porque não se escreve mais por aqui? Um lamento.

Os trabalhos têm superado os dias. E não há dias para tantos trabalhos. Fardos pesados para carregar. Pouca liberdade sobra face a tantos constrangimentos. Viver é sofrer, já sabíamos. Viver é morrer.


Que soe o coro dos escravos hebreus. Esse do Verdi.

 

Há falta de tempo por aqui. Tempo livre. Demasiada preocupação. Demasiados “tenho de fazer isto e isto e isto e aquilo”, “tenho de fazer…” Não sobra tempo para escrever com a cabeça livre e leve.

 

É assim que nos calam.

 

Todos sabemos que o trabalho não liberta. Ou liberta? Claro que não liberta. Se for em excesso mata. Morrer a trabalhar é absurdo. Viver para trabalhar é absurdo. Já trabalhar para viver é uma necessidade do homem comum e de todo o bicho que vive sobre a Terra (não do esclavagista nem do burguês). Ou acreditam nessa dos pássaros: “Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem guardam em celeiros.” Semeiam de outra forma, colhem de outra forma, guardam de outra forma – têm de alimentar-se, têm de caçar minhocas e insectos, têm de alimentar as crias, de zelar por elas, de as guardar, de as criar.

 

Enfim, há burgueses que trabalham o quanto baste e ainda lhes sobra tempo livre para escrevinharem. Há burgueses da escrita. Jornalistas que querem monopolizar esse privilégio de dar ideias ao mundo (por isso passam o dia a carpir das redes sociais - os Uber desses taxistas da escrita). E há escravos do trabalho, a quem é vedado por formas enviesadas a liberdade da escrita. Uma espécie de biopolítica. Coisas do poder, coisas de quem pode para oprimir quem não pode.

 

Já percebemos por que nos carregam de trabalho. É assim que nos calam. É assim que nos calcam. É assim que nos escravizam. Enfim, não durará muito.

 

Virá o dia da carta de alforria.

 

Então veremos.

terça-feira, janeiro 12, 2021

Today

 



A praia. Sempre a praia.


Fonte da Telha.

quinta-feira, dezembro 31, 2020

Tocar a reunir

 

Conto com todos os poetas e profetas anacoretas,

Atletas das palavras,

Lançadores de discos, riscos e asteriscos.

Retiram das aljavas flechas de palavras

E montam cercos às cidades.

E com as suas catapultas as suas palavras arremessadas e catapultadas,

Derrubam muralhas.

 

Conto com todos os poetas e profetas anacoretas,

Atletas das palavras,

Para erguer este muro

Incontornável, insondável muralha,

Com todas as palavras do mundo.

 

É profundo o mundo.

quarta-feira, dezembro 30, 2020

Parabéns Patti

 Obrigado por iluminares a minha noite mais escura.

Because the night
Belongs to lovers
Because the night
Belongs to us

                Patti Smith/Bruce Springsteen


sábado, dezembro 26, 2020

Com efeito


     O mar mais azul, a areia mais dourada, a realidade mais sonhada.

     Arrábida ao fundo.

 

sexta-feira, dezembro 25, 2020

Feliz Natal 2020




Feliz Natal!

Ainda aqui estamos. Onde mais poderia ser? Na praia.



Fotografias de hoje, numa das praias mais magníficas da nossa costa. Praia do Carvalhal (Comporta).

quarta-feira, dezembro 02, 2020

Eduardo Lourenço (1923-2020)

 

Eduardo Lourenço (1923-2020)

quinta-feira, novembro 26, 2020

Adiós Maradona

 

Diego Armando Maradona (1960-2020)


Foi uma alegria vê-lo jogar no Campeonato Mundial do México de 1986. E antes e depois.

Ficará para sempre na memória.




sábado, novembro 14, 2020

Os mitos

 As histórias que sobrevivem mais tempo são as que nunca foram e sempre serão - os mitos.

Ann Druyan



Ann Druyan, Cosmos, Mundos Possíveis, Gradiva/National Geographic, 2020, Pág. 365

quarta-feira, novembro 11, 2020

Partidas: Gonçalo Ribeiro Telles

 

Gonçalo Ribeiro Telles (1922-2020)

Outro dos nossos melhores que parte.

Passearei sempre nos seus jardins. 

sábado, novembro 07, 2020

Long live to President Biden

 O mundo hoje tornou-se num lugar melhor. Há esperança.



sábado, outubro 31, 2020

.


Sean Connery (1930-2020)

sábado, outubro 10, 2020

Onde a extrema-direita e a extrema-esquerda esbarram

 

«O que é afinal a União Europeia senão esse trabalho de desconstrução dos fundamentos identitários, um espaço liberto de todos os traços culturais de um território, das soberanias, dos valores e costumes, das tradições, dos gostos e valores, das questões religiosas e civilizacionais? O alargamento europeu é um modo de expansionismo ideológico e político através de uma visão economicista do homem e da destruição maciça de identidade para a construção de um grande supermercado.»

 

João Maurício Brás, Os Democratas que Destruíram a Democracia, Opera Omnia, 2019, pág. 95.

 ⁂⁂⁂

Aqui discordamos. Discordamos profundamente. O projecto europeu é o muro onde têm esbarrado todos os movimentos extremistas que se querem alçar ao poder nas suas nações. Quando colocam, abertamente ou veladamente, na sua agenda, a saída da União, perdem massa crítica, perdem votos. Isto porque se há um projecto do qual os povos não abdicam (exceptua-se aqui cerca de metade dos britânicos) é o da União Europeia. E com razão. Recordam o que foi a Europa durante séculos até 1945: uma guerra contínua intervalada por breves momentos de paz, momentos de preparação para a guerra seguinte. Nem a Belle Époque escapou, também ela culminando num período de rearmamento de cada um contra o seu vizinho. A Europa foi um eterno campo de batalha entre nações inimigas, agrupadas ou isoladas. Os solos da Europa estão pejados de reminiscências de sangue e de cadáveres de soldados e de civis, de bombas e de canhões. É bom não o esquecer. Ainda hoje, quando se fazem obras em certas cidades da Europa, encontram-se enterradas bombas de guerras pretéritas, que não rebentaram só por milagre, mas que ainda ameaçam rebentar e matar.

Se a União Europeia é “esse trabalho de desconstrução dos fundamentos identitários” a que João Maurício Brás se refere, então como explica ele a persistente presença das identidades nacionais, incólumes, ostentadas pelos povos que a integram, colocando muitas vezes em causa o objectivo da solidariedade entre os Estados-membros, como se viu recentemente? E as tensões entre Estados-membros na União Europeia, que impõem longas negociações até se conseguirem cedências de parte a parte? Ainda bem que as há. E ainda bem que são dirimidas por dentro. “Um espaço liberto de todos os traços culturais”? Não. Pertencemos à mesma civilização, mas as culturas, diversas, estão lá todas, enriquecendo-se umas às outras, colhendo o que de melhor há em cada uma delas sem se descaracterizarem por isso: estarão os lisboetas a dançar a sevilhana ou os andaluzes a cantar o fado?

Vivemos como sempre temos vivido, lado a lado, mas agora unidos.

Também não somos ingénuos ao ponto de acreditar que não há na União Europeia quem procure trabalhar no sentido da desconstrução dos fundamentos identitários e queira impor uma ideologia pós-moderna, pós-identitária, com a conivência do neoliberalismo dominante. Aqui João Maurício Brás indigna-se com razão. Essa gente está aí. Mas também há outra gente, como ele, que pensa de modo diferente.

A União Europeia não é um projecto estático e unidireccional. Pode ser transformada por dentro sem ser destruída. Pode ser melhorada. Há uma Ideia de Europa (George Steiner) que é preciso não deixar morrer.

Estamos fartos de guerras.

Destino & Horizonte

 Não esperes alterar com preces o destino fixado pelos deuses!

Virgílio, Eneida (citado por Séneca)


Os destinos estão determinados de uma vez por todas, e prosseguem a sua marcha em obediência à lei eterna do universo; tu irás para onde vai tudo o mais! 

Séneca, Cartas a Lucílio, Livro IX, Carta 77 


Toda a vida é sempre breve.

Séneca, Cartas a Lucílio, Livro IX, Carta 77

 

***


É bom não perder a referência da linha do horizonte.

O que há para lá dele, escapa-nos.

E também ele nos escapa, sempre que vamos ao seu encontro.

Tal como a perfeição, da qual podemos sempre aproximar-nos mas sem nunca a alcançar.

Carpe diem

Horácio, Odes, I, 11, 8.

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