Deixemos a amargura, o ressentimento.
Libertemo-nos do tormento.
Que pare o sofrimento.
As razões que acalento?!
O silêncio e a paz.
Deixemos a amargura, o ressentimento.
Libertemo-nos do tormento.
Que pare o sofrimento.
As razões que acalento?!
O silêncio e a paz.
Não se entende como há pessoas que, em caso de dúvida, e tratando-se de vidas humanas, ainda assim defendam avançar em vez de esperar, como manda a precaução.
Certos liberalóides que nem sabem o que uma escola é, opinaram
com toda a ligeireza, que deveriam permanecer abertas, na dúvida em relação ao
mal que tal decisão pudesse causar a quem nela trabalha, estuda, aos seus
familiares e à sociedade inteira. Como se na escola não laborasse um dos grupos
profissionais mais envelhecidos de todos, constituído por muitos e velhos
professores, para não falar dos excelentes auxiliares de acção educativa, afadigados
a toda a hora, a limpar tampos de mesas, cadeiras, teclados de computadores,
baldes do lixo e retretes e a lembrar aos alunos que cubram o rosto com a
máscara, ou a desinfectar-lhes as mãos à entrada da escola. Como se os novos
professores vivessem como monges, em missão e em mosteiros, isolados das suas
famílias e dos seus velhos. Como se as escolas fossem só constituídas por grupos
de alunos e crianças. E como se esses alunos estivessem sempre sentados a dois
metros uns dos outros. Não, não estão. Estão de ombro com ombro, lado a lado,
na mesma carteira, que a lei permite, muitas vezes numa sala abarracada e
apinhada, numa escola não intervencionada, e não no colégio de elite frequentado
pelos filhos deles, que forma elites e não ralés.
Liberalóides que se baseiam nas “sérias dúvidas sobre a
vantagem de tal decisão”, dizem eles, para sustentarem a defesa de uma escola
aberta, que assim é que o mundo avança. Nem que seja para o abismo, dizemos nós,
ou em direcção à doença.
Vantagem!?
A dúvida aqui era se a decisão de manter as escolas abertas poderia
levar ou não, facilmente, à contaminação e morte de mais alguns. O resto são balelas.
Uma dúvida destas não é para brincadeiras. O que manda o
princípio da precaução? Se há dúvidas relativas ao passo que se vai dar quanto
aos elevados danos que o mesmo possa causar, então mais vale estacar e aguardar.
Houve quem sugerisse atempadamente que se prolongasse a
interrupção das actividades lectivas do Natal por mais uma ou duas semanas. Não lhe deram ouvidos. Havia
que causar uma boa impressão, afinal éramos nós os que iriamos presidir,
vaidosamente, ao Conselho da União Europeia. Inchados e impantes anfitriões. Havia
que dar uma boa imagem aos dignatários estrangeiros que nos viriam visitar na
inauguração – um país de sucesso. Alguns saíram de cá contaminados e apoquentados.
Lá foram para o isolamento profiláctico nos seus países natais, acabrunhados.
A casa dos vizinhos (Reino Unido, França, Alemanha, Espanha
entre outros) já ardia e nós nem mangueira nem extintor. Não nos preparámos
atempadamente.
Estirpes inglesa, da África do Sul, do Brasil, anunciadas
aos quatro ventos e nós aguardando que por cá chegasse a inglesa para tomarmos
uma decisão. Que idiotas! Afinal a culpa é do Natal. Pois. Os portugueses
portaram-se mal, dizem eles. Fracos os governantes que culpam os governados. Correm
agora para as vacinas, os políticos.
Esta é a realidade: os decisores não foram prescientes, nem previdentes
e o princípio da precaução veio tarde – o passo já tinha sido por eles dado. Agora
deram o passo atrás, alegando exactamente, o princípio da precaução. Já
fecharam os corredores aéreos com o Reino Unido? Parece que é hoje. O Reino
Unido já fechou os corredores aéreos para Portugal há algum tempo. Prescientes.
O nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros reclamou outra vez, como sempre, da pronta
decisão inglesa. Fechámos os corredores aéreos para o Brasil? Fechámos????
Esta é a realidade: não foram proactivos. Foram sempre,
sempre, reactivos. Reagiram sempre, sempre por arrasto. E desde Março que é
assim.
Culpam agora portugueses, que se portaram mal. Que foram passear para a praia nos gélidos dias de Janeiro. Não gozem connosco.
E eis-nos agora aqui, no topo do mundo – “o país do mundo com mais mortes por milhão de habitantes (e continua o 1.º em novos casos)” anuncia o Expresso, a 22 de Janeiro. Aqui.
Tenham vergonha!
Os trabalhos têm superado os dias. E não há dias para tantos
trabalhos. Fardos pesados para carregar. Pouca liberdade sobra face a tantos
constrangimentos. Viver é sofrer, já sabíamos. Viver é morrer.
Que soe o coro dos escravos hebreus. Esse do Verdi.
Há falta de tempo por aqui. Tempo livre. Demasiada
preocupação. Demasiados “tenho de fazer isto e isto e isto e aquilo”, “tenho de fazer…”
Não sobra tempo para escrever com a cabeça livre e leve.
É assim que nos calam.
Todos sabemos que o trabalho não liberta. Ou liberta? Claro
que não liberta. Se for em excesso mata. Morrer a trabalhar é absurdo. Viver para
trabalhar é absurdo. Já trabalhar para viver é uma necessidade do homem comum e
de todo o bicho que vive sobre a Terra (não do esclavagista nem do burguês). Ou
acreditam nessa dos pássaros: “Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não
colhem, nem guardam em celeiros.” Semeiam de outra forma, colhem de outra
forma, guardam de outra forma – têm de alimentar-se, têm de caçar minhocas e
insectos, têm de alimentar as crias, de zelar por elas, de as guardar, de as
criar.
Enfim, há burgueses que trabalham o quanto baste e ainda
lhes sobra tempo livre para escrevinharem. Há burgueses da escrita. Jornalistas
que querem monopolizar esse privilégio de dar ideias ao mundo (por isso passam o dia a carpir das redes sociais - os Uber desses taxistas da escrita). E há escravos do
trabalho, a quem é vedado por formas enviesadas a liberdade da escrita. Uma
espécie de biopolítica. Coisas do poder, coisas de quem pode para oprimir quem não pode.
Já percebemos por que nos carregam de trabalho. É assim que
nos calam. É assim que nos calcam. É assim que nos escravizam. Enfim, não
durará muito.
Virá o dia da carta de alforria.
Então veremos.
Conto com todos os poetas e profetas anacoretas,
Atletas das palavras,
Lançadores de discos, riscos e asteriscos.
Retiram das aljavas flechas de palavras
E montam cercos às cidades.
E com as suas catapultas as suas palavras arremessadas e catapultadas,
Derrubam muralhas.
Conto com todos os poetas e profetas anacoretas,
Atletas das palavras,
Para erguer este muro
Incontornável, insondável muralha,
Com todas as palavras do mundo.
É profundo o mundo.
Diego Armando Maradona (1960-2020)
Foi uma alegria vê-lo jogar no Campeonato Mundial do México de 1986. E antes e depois.
Ficará para sempre na memória.
As histórias que sobrevivem mais tempo são as que nunca foram e sempre serão - os mitos.
Ann Druyan
Ann Druyan, Cosmos, Mundos Possíveis, Gradiva/National Geographic, 2020, Pág. 365
«O que é afinal a União Europeia senão esse trabalho de
desconstrução dos fundamentos identitários, um espaço liberto de todos os
traços culturais de um território, das soberanias, dos valores e costumes, das
tradições, dos gostos e valores, das questões religiosas e civilizacionais? O
alargamento europeu é um modo de expansionismo ideológico e político através de
uma visão economicista do homem e da destruição maciça de identidade para a
construção de um grande supermercado.»
João Maurício Brás, Os
Democratas que Destruíram a Democracia, Opera Omnia, 2019, pág. 95.
Aqui discordamos. Discordamos profundamente. O projecto europeu é o muro onde têm esbarrado todos os movimentos extremistas que se querem alçar ao poder nas suas nações. Quando colocam, abertamente ou veladamente, na sua agenda, a saída da União, perdem massa crítica, perdem votos. Isto porque se há um projecto do qual os povos não abdicam (exceptua-se aqui cerca de metade dos britânicos) é o da União Europeia. E com razão. Recordam o que foi a Europa durante séculos até 1945: uma guerra contínua intervalada por breves momentos de paz, momentos de preparação para a guerra seguinte. Nem a Belle Époque escapou, também ela culminando num período de rearmamento de cada um contra o seu vizinho. A Europa foi um eterno campo de batalha entre nações inimigas, agrupadas ou isoladas. Os solos da Europa estão pejados de reminiscências de sangue e de cadáveres de soldados e de civis, de bombas e de canhões. É bom não o esquecer. Ainda hoje, quando se fazem obras em certas cidades da Europa, encontram-se enterradas bombas de guerras pretéritas, que não rebentaram só por milagre, mas que ainda ameaçam rebentar e matar.
Se a União Europeia é “esse trabalho de desconstrução dos
fundamentos identitários” a que João Maurício Brás se refere, então como
explica ele a persistente presença das identidades nacionais, incólumes, ostentadas
pelos povos que a integram, colocando muitas vezes em causa o objectivo da
solidariedade entre os Estados-membros, como se viu recentemente? E as tensões entre
Estados-membros na União Europeia, que impõem longas negociações até se conseguirem cedências de
parte a parte? Ainda bem que as há. E ainda bem que são dirimidas por dentro.
“Um espaço liberto de todos os traços culturais”? Não. Pertencemos à mesma
civilização, mas as culturas, diversas, estão lá todas, enriquecendo-se umas às
outras, colhendo o que de melhor há em cada uma delas sem se descaracterizarem por
isso: estarão os lisboetas a dançar a sevilhana ou os andaluzes a cantar o
fado?
Vivemos como sempre temos vivido, lado a lado, mas agora unidos.
Também não somos ingénuos ao ponto de acreditar que não há na União Europeia quem procure trabalhar no sentido da desconstrução dos fundamentos identitários e queira impor uma ideologia pós-moderna, pós-identitária, com a conivência do neoliberalismo dominante. Aqui João Maurício Brás indigna-se com razão. Essa gente está aí. Mas também há outra gente, como ele, que pensa de modo diferente.
A União Europeia não é um projecto estático e unidireccional. Pode ser transformada por dentro sem ser destruída. Pode ser melhorada. Há uma Ideia de Europa (George Steiner) que é preciso não deixar morrer.
Estamos fartos de guerras.