
«O que é afinal a União Europeia senão esse trabalho de
desconstrução dos fundamentos identitários, um espaço liberto de todos os
traços culturais de um território, das soberanias, dos valores e costumes, das
tradições, dos gostos e valores, das questões religiosas e civilizacionais? O
alargamento europeu é um modo de expansionismo ideológico e político através de
uma visão economicista do homem e da destruição maciça de identidade para a
construção de um grande supermercado.»
João Maurício Brás, Os
Democratas que Destruíram a Democracia, Opera Omnia, 2019, pág. 95.
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Aqui discordamos. Discordamos profundamente. O projecto
europeu é o muro onde têm esbarrado todos os movimentos extremistas que se
querem alçar ao poder nas suas nações. Quando colocam, abertamente ou
veladamente, na sua agenda, a saída da União, perdem massa crítica, perdem
votos. Isto porque se há um projecto do qual os povos não abdicam (exceptua-se
aqui cerca de metade dos britânicos) é o da União Europeia. E com razão.
Recordam o que foi a Europa durante séculos até 1945: uma guerra contínua
intervalada por breves momentos de paz, momentos de preparação para a guerra
seguinte. Nem a Belle Époque escapou, também ela culminando num período
de rearmamento de cada um contra o seu vizinho. A Europa foi um eterno campo de
batalha entre nações inimigas, agrupadas ou isoladas. Os solos da Europa estão pejados
de reminiscências de sangue e de cadáveres de soldados e de civis, de bombas e de
canhões. É bom não o esquecer. Ainda hoje, quando se fazem obras em certas
cidades da Europa, encontram-se enterradas bombas de guerras pretéritas, que
não rebentaram só por milagre, mas que ainda ameaçam rebentar e matar.
Se a União Europeia é “esse trabalho de desconstrução dos
fundamentos identitários” a que João Maurício Brás se refere, então como
explica ele a persistente presença das identidades nacionais, incólumes, ostentadas
pelos povos que a integram, colocando muitas vezes em causa o objectivo da
solidariedade entre os Estados-membros, como se viu recentemente? E as tensões entre
Estados-membros na União Europeia, que impõem longas negociações até se conseguirem cedências de
parte a parte? Ainda bem que as há. E ainda bem que são dirimidas por dentro.
“Um espaço liberto de todos os traços culturais”? Não. Pertencemos à mesma
civilização, mas as culturas, diversas, estão lá todas, enriquecendo-se umas às
outras, colhendo o que de melhor há em cada uma delas sem se descaracterizarem por
isso: estarão os lisboetas a dançar a sevilhana ou os andaluzes a cantar o
fado?
Vivemos como sempre temos vivido, lado a lado, mas agora unidos.
Também não somos ingénuos ao ponto de acreditar que não há na
União Europeia quem procure trabalhar no sentido da desconstrução dos
fundamentos identitários e queira impor uma ideologia pós-moderna,
pós-identitária, com a conivência do neoliberalismo dominante. Aqui João
Maurício Brás indigna-se com razão. Essa gente está aí. Mas também há outra
gente, como ele, que pensa de modo diferente.
A União Europeia não é um projecto estático e
unidireccional. Pode ser transformada por dentro sem ser destruída. Pode ser
melhorada. Há uma Ideia de Europa (George Steiner) que é preciso não
deixar morrer.
Estamos fartos de guerras.