Esquece o dia!
Esquece-o! Como se fosse apenas mais um dia numa longa existência.
Dias melhores virão.
Hoje tive um mau dia.
quarta-feira, novembro 21, 2007
sábado, novembro 17, 2007
The God Delusion*
Dawkins, como qualquer ateu, crê "piamente" na inexistência de Deus. Um crente, qualquer crente, crê piamente na existência de Deus.
É certo que não se pode - pelo menos nenhum ser humano até agora o conseguiu - provar cientificamente a existência de Deus. Mas, da mesma forma, também ninguém pode provar científicamente, a inexistência de Deus.
São na verdade questões de fé, mas de pólos opostos. Não se podem provar. Qualquer ateu não pode provar a inexistência de Deus, da mesma forma que não pode provar a Sua existência. Qualquer crente não pode provar a existência de Deus. Apenas acredita. Tem fé. E se o crente tem fé na existência divina, o ateu tem fé na sua inexistência.
A questão na verdade é antiga, muito antiga. E muito séria, pois as nossas crenças acerca do que existe para além dos limites da vida, afectam directamente a forma como vivemos aquém desses limites.
Miguel de Unamuno aborda esta questão no sua obra Do Sentimento Trágico da Vida, onde confronta filosoficamente a fé com a razão. Miguel de Unamuno recusa-se a acreditar que a existência é apenas um relâmpago entre duas eternidades de trevas. Nesse caso não há nada mais execrável do que a existência, diz ele.
Estou com Unamuno quando afirma que "a razão e a fé são duas inimigas que não podem manter-se uma sem a outra" e também que, "a razão não nos prova que Deus exista, mas também não prova que não possa existir".
E partilho o seu sentimento quando afirma que "há que sentir e comportarmo-nos como se nos estivesse reservada uma continuação sem fim da nossa vida terrena depois da morte; e, se é o nada que nos está reservado, não fazer que isto seja uma justiça, segundo a frase de Obermann".
Dawkins, não deve ter lido Miguel de Unamuno. Pelo menos não consta da bibliografia da obra em causa. Julga que o saber ou o conhecimento humano acerca do Universo e da Vida já é suficientemente sólido e vasto, para sustentar essa "evidência" da inexistência de Deus. Acaba por cair no erro em que caem certos "sábios" - a falta de humildade. Consideram grande o campo do conhecimento já desbravado pela ciência. Tão grande, julgam, que nos podemos comparar com deuses e dispor da vida e da morte, e do Universo inteiro. Parecem ignorar o ilimitado campo do saber ainda por desbravar. Ignoram que, por muito que se saiba, nada se sabe. Só sei que nada sei, disse Sócrates. E disse bem. Estes novos sábios, ébrios com os novos saberes alcançados pela ciência, tomam a atitude oposta - pensam que tudo sabem, sem nada saberem, ou sabendo muito pouco.
(*) - Título original da obra de Richard Dawkins, A Desilusão de Deus, editada em Portugal pela Casa das Letras.
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sexta-feira, novembro 16, 2007
O Menino da Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -.
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo
A brancura embainhada
De um lenço…Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
Poema de Fernando Pessoa
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quinta-feira, novembro 15, 2007
Inferno de Dante
E o silêncio soprou nas searas ondulantes...
Sereias sussurrantes, de assombrosos cânticos, perseguiram-me,
E perderam-me.
Perdi-me,
E perderam-se.
Nas searas ondulantes...
Oh! Vil! Inferno de Dante!
Sereias sussurrantes, de assombrosos cânticos, perseguiram-me,
E perderam-me.
Perdi-me,
E perderam-se.
Nas searas ondulantes...
Oh! Vil! Inferno de Dante!
sábado, outubro 20, 2007
quinta-feira, outubro 18, 2007
Sócrates revisitado
Se não sabemos alguma coisa, não saberíamos que é insuficiente, que é incompleto, que nos faltam outros algos pedidos por aquele que já temos. Isto é consciência do problema. É saber que não sabemos bastante, é saber que ignoramos. E tal foi, em rigor, o sentido profundo do «saber o não saber» que Sócrates atribuía a si próprio como único orgulho. Claro!, como que é o começo da ciência: a consciência dos problemas.
Ortega Y Gasset, O que é a filosofia?, Biblioteca Editores Independentes, pág. 103
Ouvi uma vez dizer alguém, supostamente citando Espinoza, que a humildade é a impotência dos fracos. Fiquei a pensar naquilo (e com muitas comichões). Então essa suposta virtude é afinal um defeito? Então a humildade não consiste no reconhecimento do quanto se é pequeno ou ignorante, ante a grandiosidade e os mistérios do universo e da existência?
Não foi Sócrates humilde, quando declarou que só sabia que nada sabia? E na verdade ao assumir essa sua ignorância, não demonstrou ele grande saber, e por isso, grandiosidade, força e magnificência? Talvez seja que a humildade nos fracos derive da impotência, e nos fortes, do saber. Mas o que é isso de ser fraco ou ser forte? Não é isso ser humano?
Um dia Karl Popper disse que “Seria desejável que por vezes nos lembrássemos que é precisamente no pouco que sabemos que somos diferentes, já que somos todos iguais na nossa ilimitada ignorância.” (*)
(*) – Karl Popper, Em Busca de um Mundo Melhor, Editorial Fragmentos, 1989, pág. 59
Portanto, ó intelectuais sapientíssimos! Ficai lá com a vossa altiva sapiência, que eu cá me fico com a minha ilimitada ignorância.
E boa noite!
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quarta-feira, outubro 17, 2007
Do saber que não se sabe
Ode a um ministro qualquer
Ora, arvoram-se do alto dos seus palanques,
doutos sobre a turba.
Aturdem-nos com o dedo em riste
nos seus distendidos discursos.
Esmagam-nos com tanta sapiência,
A nós, os ignaros que os escutamos,
Homens sem ciência, mas com muita paciência.
Que sabemos apenas que nada sabemos.
E curvamo-nos ante o senhor doutor professor juiz,
Homo sapiens sapiens,
que sabe que sabe! Mas não sabe que não sabe!
Homem falho na humildade,
Homem morto na acção.
sábado, outubro 13, 2007
Manadas de bisontes empurradas pelo vento.
ODE A WALT WHITMAN (de Garcia Lorca)Pelo East River e pelo Bronx
os rapazes cantavam mostrando as cinturas.
Com a roda, o óleo, o coiro e o martelo
noventa mil mineiros arrancavam a prata das rochas
e os garotos desenhavam escadas e perspectivas.
Porém nenhum adormecia,
nenhum queria ser rio,
nenhum amava as grandes folhas,
nenhum, a língua azul da praia.
Pelo East River e pelo Queensborough
os rapazes lutavam com a indústria,
os judeus vendiam ao fauno do rio
a rosa da circuncisão
e o céu desembocava por pontes e telhados
manadas de bisontes empurradas pelo vento.
Porém nenhum se detinha,
nenhum queria ser nuvem,
nenhum procurava os fetos
nem a roda do tamboril.
Quando a lua nascer,
as polés rodarão para turvar o céu;
um limite de agulhas cercará a memória
e ataúdes serão levados aos que não trabalham.
Nova Iorque de lama,
Nova Iorque de arame e de morte:
Que anjo levas oculto na tua face?
Que voz perfeita dirá as verdades do trigo,
o sonho terrível das tuas anémonas manchadas?
Nem um só momento, velho e formoso Walt Whitman,
deixei de olhar a tua barba cheia de borboletas,
os teus ombros de bombazina gastos pela lua,
as tuas coxas de Apolo virginal,
a tua voz como coluna de cinza;
ancião formoso como a bruma,
que gemias como um pássaro
com o sexo atravessado por uma agulha.
Inimigo do sátiro.
Inimigo da vide
e amante dos corpos ocultos por tecidos grosseiros.
Nem um só momento, formosura viril,
que em montes de carvão, vias-férreas e anúncios,
sonhavas ser um rio e dormir como um rio
com aquele camarada que poria no teu peito
uma pequena dor de ignorante leopardo.
Nem um só momento, Adão de sangue, Macho,
homem sozinho no mar, velho e formoso Walt Whitman,
porque nas esplanadas,
agrupados nos bares,
saindo em cachos das sargetas,
tremendo entre as pernas dos chauffeurs
ou girando nas plataformas do absinto,
os maricas, Walt Whitman, apontam-te.
Também esse! Também! E despenham-se
na tua barba luminosa e casta,
loiros do Norte, negros das areias,
multidões de gritos e ademanes,
como os gatos e as serpentes,
os maricas, Walt Whitman, os maricas
turvos de lágrimas, carne para chicote,
bota ou mordedura de domadores.
Também esse! Também! Dedos pintados
apontam a margem do teu sonho,
quando o amigo come a tua maçã
com um leve sabor a gasolina,
e o sol canta nos umbigos
dos rapazes que brincam sob as pontes.
Mas tu não procuravas olhos arranhados
nem o pântano sombrio onde afogam os garotos,
nem a saliva gelada,
nem as curvas feridas como panças de sapos
que levam os maricas em carros às esplanadas
enquanto os fustiga a lua pelas esquinas do terror.
Tu procuravas um nu que fosse como um rio.
Toiro e sonho que junte a roda à alga,
pai de tua agonia, camélia da rua morte
e gemesse nas chamas do teu Equador oculto.
Porque é justo que o homem não procure o prazer
na selva de sangue da manhã mais próxima.
O céu tem praias onde evitar a vida
e há corpos que não devem repetir-se na Aurora.
Agonia, agonia, sonho, fermento e sonho.
Assim é o mundo, amigo, agonia, agonia.
Apodrecem os mortos sob o relógio das cidades,
passa a guerra chorando com um milhão de ratas cinzentas,
os ricos dão às suas amantes
pequenos moribundos iluminados,
e a Vida não é nobre, nem boa, nem sagrada.
Pode o homem, se quiser, conduzir o desejo
por veia de coral ou nu celeste;
amanhã todo o amor será rocha, e o Tempo
uma brisa que chega adormecida pelos ramos.
Por isso não ergo a minha voz, velho Walt Whitman,
contra o garoto que escreve
um nome de menina na sua almofada,
nem contra o jovem que se veste de noiva
na penumbra da sua alcova,
nem contra os solitários dos casinos
que bebem com nojo a água da prostituição,
nem contra os homens de olhar verde
que amam outro homem queimando os lábios em silêncio.
Mas sim contra vós, maricas das cidades,
de carne apodrecida e pensamento imundo.
Mães de lodo. Harpias. Inimigos sem o sonho
do Amor que reparte grinaldas de alegria.
Contra vós sempre, que aos rapazes dais
gotas de suja morte com veneno amargo.
Sempre contra vós,
Faeries da América,
Pájaros de Havana,
Jotos do México,
Sarasas de Cádis,
Apios de Sevilha,
Cancos de Madrid,
Floras de Alicante,
Adelaides de Portugal.
Maricas de todo o mundo, assassinos de pombas!
Escravos da mulher, cadelas de seus toucadores,
abertos nas praças com febre de leque
ou emboscados em hirtas paisagens de cicuta.
Não haja trégua! A morte
irrompe dos vossos olhos
e junta flores de cinza na margem do lodo.
Não haja tréguas! Alerta!
Que os confundidos, os puros,
os clássicos, os predestinados, os suplicantes
vos fechem as portas da bacanal.
E tu, belo Walt Whitman, dorme nas margens do Hudson
com a barba virada ao pólo e as mãos abertas.
Argila branca ou neve, a tua língua chama
Camaradas que velem tua gazela sem corpo.
Dorme, não fica nada.
Uma dança de muros agita as pradarias
e a América afoga-se em máquinas e pranto.
Quero que o ar forte da noite mais profunda
tire flores e letras do arco onde dormes
e um garoto negro anuncie aos brancos do oiro
a chegada do reino das espigas.
os rapazes cantavam mostrando as cinturas.
Com a roda, o óleo, o coiro e o martelo
noventa mil mineiros arrancavam a prata das rochas
e os garotos desenhavam escadas e perspectivas.
Porém nenhum adormecia,
nenhum queria ser rio,
nenhum amava as grandes folhas,
nenhum, a língua azul da praia.
Pelo East River e pelo Queensborough
os rapazes lutavam com a indústria,
os judeus vendiam ao fauno do rio
a rosa da circuncisão
e o céu desembocava por pontes e telhados
manadas de bisontes empurradas pelo vento.
Porém nenhum se detinha,
nenhum queria ser nuvem,
nenhum procurava os fetos
nem a roda do tamboril.
Quando a lua nascer,
as polés rodarão para turvar o céu;
um limite de agulhas cercará a memória
e ataúdes serão levados aos que não trabalham.
Nova Iorque de lama,
Nova Iorque de arame e de morte:
Que anjo levas oculto na tua face?
Que voz perfeita dirá as verdades do trigo,
o sonho terrível das tuas anémonas manchadas?
Nem um só momento, velho e formoso Walt Whitman,
deixei de olhar a tua barba cheia de borboletas,
os teus ombros de bombazina gastos pela lua,
as tuas coxas de Apolo virginal,
a tua voz como coluna de cinza;
ancião formoso como a bruma,
que gemias como um pássaro
com o sexo atravessado por uma agulha.
Inimigo do sátiro.
Inimigo da vide
e amante dos corpos ocultos por tecidos grosseiros.
Nem um só momento, formosura viril,
que em montes de carvão, vias-férreas e anúncios,
sonhavas ser um rio e dormir como um rio
com aquele camarada que poria no teu peito
uma pequena dor de ignorante leopardo.
Nem um só momento, Adão de sangue, Macho,
homem sozinho no mar, velho e formoso Walt Whitman,
porque nas esplanadas,
agrupados nos bares,
saindo em cachos das sargetas,
tremendo entre as pernas dos chauffeurs
ou girando nas plataformas do absinto,
os maricas, Walt Whitman, apontam-te.
Também esse! Também! E despenham-se
na tua barba luminosa e casta,
loiros do Norte, negros das areias,
multidões de gritos e ademanes,
como os gatos e as serpentes,
os maricas, Walt Whitman, os maricas
turvos de lágrimas, carne para chicote,
bota ou mordedura de domadores.
Também esse! Também! Dedos pintados
apontam a margem do teu sonho,
quando o amigo come a tua maçã
com um leve sabor a gasolina,
e o sol canta nos umbigos
dos rapazes que brincam sob as pontes.
Mas tu não procuravas olhos arranhados
nem o pântano sombrio onde afogam os garotos,
nem a saliva gelada,
nem as curvas feridas como panças de sapos
que levam os maricas em carros às esplanadas
enquanto os fustiga a lua pelas esquinas do terror.
Tu procuravas um nu que fosse como um rio.
Toiro e sonho que junte a roda à alga,
pai de tua agonia, camélia da rua morte
e gemesse nas chamas do teu Equador oculto.
Porque é justo que o homem não procure o prazer
na selva de sangue da manhã mais próxima.
O céu tem praias onde evitar a vida
e há corpos que não devem repetir-se na Aurora.
Agonia, agonia, sonho, fermento e sonho.
Assim é o mundo, amigo, agonia, agonia.
Apodrecem os mortos sob o relógio das cidades,
passa a guerra chorando com um milhão de ratas cinzentas,
os ricos dão às suas amantes
pequenos moribundos iluminados,
e a Vida não é nobre, nem boa, nem sagrada.
Pode o homem, se quiser, conduzir o desejo
por veia de coral ou nu celeste;
amanhã todo o amor será rocha, e o Tempo
uma brisa que chega adormecida pelos ramos.
Por isso não ergo a minha voz, velho Walt Whitman,
contra o garoto que escreve
um nome de menina na sua almofada,
nem contra o jovem que se veste de noiva
na penumbra da sua alcova,
nem contra os solitários dos casinos
que bebem com nojo a água da prostituição,
nem contra os homens de olhar verde
que amam outro homem queimando os lábios em silêncio.
Mas sim contra vós, maricas das cidades,
de carne apodrecida e pensamento imundo.
Mães de lodo. Harpias. Inimigos sem o sonho
do Amor que reparte grinaldas de alegria.
Contra vós sempre, que aos rapazes dais
gotas de suja morte com veneno amargo.
Sempre contra vós,
Faeries da América,
Pájaros de Havana,
Jotos do México,
Sarasas de Cádis,
Apios de Sevilha,
Cancos de Madrid,
Floras de Alicante,
Adelaides de Portugal.
Maricas de todo o mundo, assassinos de pombas!
Escravos da mulher, cadelas de seus toucadores,
abertos nas praças com febre de leque
ou emboscados em hirtas paisagens de cicuta.
Não haja trégua! A morte
irrompe dos vossos olhos
e junta flores de cinza na margem do lodo.
Não haja tréguas! Alerta!
Que os confundidos, os puros,
os clássicos, os predestinados, os suplicantes
vos fechem as portas da bacanal.
E tu, belo Walt Whitman, dorme nas margens do Hudson
com a barba virada ao pólo e as mãos abertas.
Argila branca ou neve, a tua língua chama
Camaradas que velem tua gazela sem corpo.
Dorme, não fica nada.
Uma dança de muros agita as pradarias
e a América afoga-se em máquinas e pranto.
Quero que o ar forte da noite mais profunda
tire flores e letras do arco onde dormes
e um garoto negro anuncie aos brancos do oiro
a chegada do reino das espigas.
Por Garcia Lorca
Traduzido por Eugénio de Andrade
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sexta-feira, outubro 12, 2007
Epílogo – Resposta a Marx
O que Marx escreveu não se encontra escrito na pedra. Afinal, dividir as sociedades em classes de oprimidos e opressores, não deixa de ser uma forma maniqueísta e simplista de as considerar. A realidade é um pouco mais complexa e é sabido que muitas vezes os oprimidos de hoje, se tornam os opressores de amanhã, ainda que aconteça muitas vezes a um homem, manter a condição de oprimido ou de opressor durante a maior parte da sua vida, senão na sua totalidade. Em cada oprimido há um potencial opressor e vice-versa, e o homem é na verdade lobo do homem, como referia Thomas Hobbes. Talvez essa reviravolta, de oprimido em opressor, ocorra quando o oprimido se apercebe que a maior arma do opressor é a sua própria cabeça (a do oprimido). Por outro lado, que dizer daqueles a quem não cabe nem a condição de oprimido, nem a condição de opressor? Serão esses os homens verdadeiramente livres? Os que nem oprimem nem são oprimidos? Será tal condição sequer possível?
O opressor por sua vez torna-se vítima da sua opressão, muitas vezes sem tomar consciência disso, ou por outras palavras, o opressor é oprimido pela sua própria acção de oprimir. É como refere Steiner: “O carrasco tortura a sua vítima e condena-se desse modo a ser uma eterna vítima.”*
E há ainda outra questão (para dizer a verdade, há muitas questões), que é essa ideia de a religião ser o ópio do povo. Ainda que possamos considerar que assim seja, o mesmo não o poderemos referir relativamente à religiosidade. Pois se religiosidade e religião forem consideradas a mesma coisa, então o homem anda entorpecido na dormência do ópio, desde o momento em que se tornou homem. É que a religiosidade é uma dimensão do ser humano. Ela é apenas o terreno (solo) de onde brotam as religiões. Por isso encontramos religiões por todo o planeta, cada uma com o seu deus ou os seus deuses, paradoxalmente, únicos e omnipresentes. Mas o facto de o homem possuir a religiosidade como uma das suas dimensões, tal não significa que tenha de professar necessariamente uma religião. E se as religiões são formas de apropriação da dimensão religiosa de cada homem visando atingir relações de dominação ou prevalência de uns sobre outros (todas as religiões têm os seus sumo-sacerdotes, xamãs, curandeiros, mediadores entre o mundo de além e o mundo de aquém, supostamente detentores de informação privilegiada, e informação é poder, e daqui à dominação e à opressão são dois passos), a religiosidade inerente a cada homem não é disso que se trata. Sabendo isto, é um erro querer negar a religiosidade potencial e inerente a cada homem, para dessa forma se anularem os efeitos perversos das religiões – um dos quais, dividir os homens, antagonizando posições. O objectivo perene do ecumenismo é a prova das eternas divisões. Ora, nesta questão da religião ser o ópio do povo, confundiu-se a religião com a religiosidade. E assim muitos querem despir a sua religiosidade como quem despe um casaco, como se isso fosse possível, quando a religiosidade lhes está entranhada na sua própria humanidade. É que podemos não professar uma religião, mas não podemos negar a nossa religiosidade.
Marx contudo, foi um verdadeiro filósofo, um cientista social, que, tal como Tocqueville, realizou uma análise certeira à sociedade do seu tempo, e adoptou uma concepção materialista da história que, em grande parte o levou a conclusões acertadas e a projecções que vieram, com efeito a verificar-se, tais como, a globalização alimentada pelo capitalismo insaciável, as causas das crises cíclicas do capitalismo ou as relações sociais e económicas determinadas pelo capitalismo – o sistema vigorante.
(*) – in Ramin Jahanbegloo, Quatro entrevistas com George Steiner, Fenda, pág.63
O opressor por sua vez torna-se vítima da sua opressão, muitas vezes sem tomar consciência disso, ou por outras palavras, o opressor é oprimido pela sua própria acção de oprimir. É como refere Steiner: “O carrasco tortura a sua vítima e condena-se desse modo a ser uma eterna vítima.”*
E há ainda outra questão (para dizer a verdade, há muitas questões), que é essa ideia de a religião ser o ópio do povo. Ainda que possamos considerar que assim seja, o mesmo não o poderemos referir relativamente à religiosidade. Pois se religiosidade e religião forem consideradas a mesma coisa, então o homem anda entorpecido na dormência do ópio, desde o momento em que se tornou homem. É que a religiosidade é uma dimensão do ser humano. Ela é apenas o terreno (solo) de onde brotam as religiões. Por isso encontramos religiões por todo o planeta, cada uma com o seu deus ou os seus deuses, paradoxalmente, únicos e omnipresentes. Mas o facto de o homem possuir a religiosidade como uma das suas dimensões, tal não significa que tenha de professar necessariamente uma religião. E se as religiões são formas de apropriação da dimensão religiosa de cada homem visando atingir relações de dominação ou prevalência de uns sobre outros (todas as religiões têm os seus sumo-sacerdotes, xamãs, curandeiros, mediadores entre o mundo de além e o mundo de aquém, supostamente detentores de informação privilegiada, e informação é poder, e daqui à dominação e à opressão são dois passos), a religiosidade inerente a cada homem não é disso que se trata. Sabendo isto, é um erro querer negar a religiosidade potencial e inerente a cada homem, para dessa forma se anularem os efeitos perversos das religiões – um dos quais, dividir os homens, antagonizando posições. O objectivo perene do ecumenismo é a prova das eternas divisões. Ora, nesta questão da religião ser o ópio do povo, confundiu-se a religião com a religiosidade. E assim muitos querem despir a sua religiosidade como quem despe um casaco, como se isso fosse possível, quando a religiosidade lhes está entranhada na sua própria humanidade. É que podemos não professar uma religião, mas não podemos negar a nossa religiosidade.
Marx contudo, foi um verdadeiro filósofo, um cientista social, que, tal como Tocqueville, realizou uma análise certeira à sociedade do seu tempo, e adoptou uma concepção materialista da história que, em grande parte o levou a conclusões acertadas e a projecções que vieram, com efeito a verificar-se, tais como, a globalização alimentada pelo capitalismo insaciável, as causas das crises cíclicas do capitalismo ou as relações sociais e económicas determinadas pelo capitalismo – o sistema vigorante.
(*) – in Ramin Jahanbegloo, Quatro entrevistas com George Steiner, Fenda, pág.63
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