domingo, Setembro 21, 2014

Ciência e interesses

Não há uma ciência independente, que procure desinteressadamente a verdade. Também a ciência e o cientista precisam de ganhar o seu pão. Também o cientista tem os seus patrões.

Assim, enquanto determinados campos da ciência são desbravados de forma mais célere, para dar resposta às encomendas dos interesses e dos poderes instalados, ao serviço dos quais os cientistas laboram, outros existem que continuam por desbravar, ainda ocultos pelos matagais misteriosos do desconhecido.

sábado, Setembro 20, 2014

"Quem está na educação por outra razão que não seja a educação, não pode ser consentido na educação."


Gostei de ler o texto de Helena Damião no blogue Rerum Natura.

A educação não deve ser um negócio ou estar dependente de um negócio. Mas a educação também não deve estar ideológica e unicamente dependente das orientações doutrinárias de um Estado, de uma política partidária ou de uma religião.

Não há filosofia, ciência, cultura ou arte, e até desporto, totalmente independentes de correntes ideológicas ou de outros poderosos interesses, mas é aí, na independência da educação, que reside o ideal educativo. Uma educação unicamente do Estado e para o Estado deseduca (basta que nos lembremos da educação que os nazis "ministravam" nas escolas e universidades - eram muito educados os senhores nazis, não?!). Temos também universidades religiosas que educam à revelia da verdade científica. Na verdade não educam: deseducam! Na verdade nem deviam chamar-se universidades.

A Revolução Industrial e a guerra contra a Terra

Desde a revolução industrial nascida das minas de ferro britânicas, a metalização da sociedade adquiriu ainda uma nova dimensão. Simultaneamente, a exploração do interior da terra dá um salto. Nascem então minas gigantescas que descem até às profundidades mais negras das entranhas da terra. Os mineiros tornam-se o exército-fantasma da civilização industrial – exploradores explorados; os operários da siderurgia tornam-se a tropa de elite do ataque capitalista contra a crosta «avara» da terra. Finalmente, a economia moderna capitaliza todas as riquezas naturais do subsolo e, por milhões de penetrações, de perfurações e de extracções, faz avançar a guerra mineralógica contra a crosta da terra para queimar as riquezas extraídas ou para as transformar em utensílios e em sistemas de armamento. Quotidianamente, as civilizações industriais condenam à morte milhões e milhões de seres vivos e milhões de toneladas de substâncias. Nelas de consuma a relação mantida com a terra pelos senhores saqueadores das civilizações ocidentais.

Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D’Água, 2011, p. 444.

 ***

A difusão planetária da industrialização generalizou a guerra contra a Terra. Já não é apenas uma questão entre as civilizações ocidentais e a Terra. Os saqueadores estão por todo o lado e o saque realiza-se já em todos os espaços civilizacionais, incluindo os das civilizações não ocidentais, emuladoras do Ocidente. Com a Revolução Industrial, o saque, que já antes se iniciara, agudizou-se, tornou-se virulento e pandémico. 

domingo, Setembro 07, 2014

"...e robots heróicos assim como máquinas infernais «capazes de pensar» saltarão uns sobre os outros..."



Com informação técnica: aqui. ("The big dog future looks bright!")
Progressos recentes: aqui

sexta-feira, Setembro 05, 2014

E aí, onde aparece, começa a noite escura

No «projéctil capaz de pensar», chegámos ao ponto extremo da moderna dissimulação do sujeito, pois o que se chama sujeito na época moderna é na verdade esse eu da autoconservação que se está a retirar passo a passo da vida até ao auge paranóico.
(…)
A próxima grande guerra já só verá como combatentes pessoas esquizofrénicas e máquinas. Homunculi, representantes do Estado, gerentes-lémures desdobrados das forças destrutivas, premirão, quando «for preciso», os botões decisivos, e robots heróicos assim como máquinas infernais «capazes de pensar» saltarão uns sobre os outros – o experimentum mundum estará terminado: o ser humano era um falhanço. O Iluminismo só pode extrair a seguinte conclusão: não se pode iluminar, esclarecer [al. aufklären] o ser humano, pois este era já em si a falsa premissa do Iluminismo. O ser humano não basta. Encerra em si o princípio obscurecente da dissimulação, e aí onde aparece o seu eu não pode luzir o que foi prometido por todos os Iluminismos: a luz da Razão.

Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D’Água, 2011, pp. 446-447.

***

Estamos perante outra versão do dito heideggeriano segundo o qual só um deus poderá salvar-nos. Para Sloterdijk, nem a Ciência nem a Razão podem salvar-nos. Para ele o Homem é uma experiência falhada: “o ser humano era um falhanço”. O ser humano é a “falsa premissa do Iluminismo”. “O ser humano não basta”, diz ele, nem se basta a si mesmo, para se salvar: só um deus, caso exista, o poderá salvar.

Até lá a loucura prossegue, enredada no mais profundo desespero.

A coisa-para-ti.

Aquilo que destinámos ao inimigo – a sua aniquilação numa grande superfície por consumpção, contaminação, atomização -, temos de começar por o fazer sofrer à própria arma. No fundo, mais não é do que a nossa mensagem para o nosso adversário, transmite as nossas intenções a seu respeito. Por esta razão, as armas são os representantes do inimigo no nosso próprio arsenal. Quem forja uma arma dá a perceber ao seu inimigo que será tão impiedoso a seu respeito como a respeito da moca, do bloco de ferro, do obus e da ogiva. A arma é já o adversário maltratado; ela é a coisa-para-ti. Quem se arma está sempre já em guerra. De facto, esta opera continuamente segundo alternâncias de quente e de frio e chamamos abusivamente paz à fase fria. Na óptica do ciclo polémico, a paz significa tempo do armamento, quer dizer, transferência das hostilidades para os metais; a guerra é, por conseguinte, a utilização e consumo dos produtos de armamento; a actualização das armas contra o adversário. 

Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D’Água, 2011, p. 445.
(escrito em 1983, destaques nossos)

*** 

A paz é mais do que um estado em que se ganha fôlego e músculo para a guerra seguinte. A paz é já a fase fria da guerra incessante. De acordo com esta acepção vivemos sempre num estado de guerra. Guerra contra a Natureza, guerra contra os outros, guerra contra nós próprios.

sábado, Agosto 23, 2014

A Criação e a Expulsão do Paraíso

Giovanni di Paolo, A Criação e a Expulsão do Paraíso (detalhe), c. 1445
Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

quinta-feira, Agosto 21, 2014

Notícias da queda

De George Steiner, sobre o pensamento de Claude Levy-Strauss:

A queda do homem não apagou de uma penada todos os vestígios do Jardim do Éden. Os viajantes do século XVIII sucumbiram a uma espécie de ilusão premeditada quando pensaram ter encontrado raças humanas inocentes no paraíso dos Mares do Sul ou nas florestas do Novo Mundo. Mas as suas idealizações tinham uma certa validade. Os homens primitivos, que existiam, por assim dizer, fora da história, seguindo usos sociais e mentais dos primórdios e possuindo uma certa intimidade com as plantas e os animais, encarnavam efectivamente uma condição mais natural. O seu divórcio cultural com a natureza ocorrera evidentemente centenas, milhares de anos atrás, mas fora menos drástico que o do homem branco: em termos mais precisos, os seus usos culturais, os seus rituais, mitos, tabus, técnicas de recolha de alimentos eram calculados para aplacar a natureza, para confortá-la, para viver com ela, para tornar a divisão entre natureza e cultura em algo menos violento, menos dominante.

Ao encontrar estas sombras de vestígio do Éden, o homem ocidental dispôs-se a destruí-las. Massacrou inúmeros povos inocentes. Derrubou as florestas e queimou as savanas. Então, a sua fúria de destruição virou-se para as espécies animais. Uma após outra, foram perseguidas até à extinção ou à sobrevivência factícia dos jardins zoológicos. Esta devastação foi muitas vezes deliberada: era o resultado directo da conquista militar, da exploração económica, da imposição de tecnologias uniformes aos modos de vida autóctones. Milhões pereceram ou perderam a sua identidade e património étnicos. Alguns observadores calculam que, só no Congo, tenham morrido vinte milhões de vítimas desde o início da colonização belga. Linguagens, cada uma das quais codificava uma única visão do mundo, foram cilindradas e lançadas no esquecimento. A garça-real e a baleia foram caçadas quase até à extinção. Muitas vezes, a destruição era acidental ou mesmo devido a benevolência. As dádivas trazidas pelo homem branco – dádivas médicas, materiais, institucionais – mostraram-se fatais para os seus receptores. Como conquistador, explorador ou médico, o homem ocidental trazia sempre a destruição. Aparentemente possuídos por alguma ira arquetípica pela nossa exclusão do Jardim do Paraíso, por alguma recordação torturante dessa desgraça, revirámos a Terra em busca de vestígios do Éden e arrasámo-los sempre que os encontrámos.

George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Relógio D’Água, 2003, pp 45-47

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Post scriptum:

O texto supracitado, da autoria de George Steiner, faz parte de um conjunto de palestras que ele proferiu na rádio em 1974. Então não se falava de países emergentes. Hoje, o homem ocidental, o branco de que ele fala, está longe de ser o único a causar a devastação planetária (*). Chineses, hindus, malaios, africanos, enfim, brancos, pretos, amarelos, homens de todas as cores, muito para além do homem branco, caucasiano, devastam alegremente os últimos vestígios edénicos do planeta.

Deixemo-nos de lirismos.

Virámo-nos contra esses vestígios do Éden primordial e contra nós mesmos. No fim, não irá restar pedra sobre pedra.

Nesta visão apocalíptica compreendemos Heidegger que disse um dia numa entrevista que só um deus poderia salvar-nos. O ser humano entregue a si mesmo está perdido, é a ilação que se tira de tudo isto. Trata-se de um voto de desconfiança cruel no ser humano.

Não subscrevemos essa ideia porque não a queremos subscrever. Só a Ciência pode salvar-nos, só o Homem pode salvar-se. É preciso acreditar ainda na Ciência e no Homem. Contra todas as evidências.

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(*) Hoje, o homem ocidental já não é apenas o homem branco caucasiano. Entre as sociedades dos países ocidentais convivem homens de todas as cores.

quarta-feira, Agosto 20, 2014

Novo mundo

Na segunda metade do século XX foi criado um novo universo, um novo mundo que se amplia, para além do universo exterior e do universo interior: o universo cibernético.


Os autistas, perdidos ou aprisionados no universo interior, aparentemente, estabelecem ténues relações com o universo exterior e nenhuma com o universo cibernético. Por outro lado, certos seres humanos, vivem sem saber conscientemente que vivem, e estabelecem ténues relações com o universo interior. Aparentemente fazem pouco uso da consciência, como certos animais não humanos. Agem instintiva e irreflectidamente. Como rezava a canção do Zeca Afonso: “Há quem viva sem dar por nada. Há quem morra sem tal saber”. Tal não significa que estejam doentes. São mais seres de acção do que de reflexão. Mas hoje, o universo cibernético em expansão pode levar-nos cada vez mais à alienação do mundo exterior e do mundo interior. Ao extremo, um indivíduo pode encontrar-se de tal forma alienado pela “vida” nesse mundo cibernético, que não repara na existência desse outro mundo, lá fora. Ao extremo, pode até o edifício que o abriga ruir, que ele não repara.  

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