quinta-feira, setembro 03, 2015

Nem um deus


Só um deus pode salvar-nos. 
Heidegger.


Será que não aprendemos nada com Aristides de Sousa Mendes? Estamos com medo?

Não seremos capazes de nos salvar? Será que é mesmo verdade? Que só um deus pode salvar-nos? Será que é mesmo assim?

De que temos medo?

É hora de abrir portas e janelas. Que entre uma lufada de ar fresco.

Que venham. Podemos acolhê-los. Já chega deste horrível cheiro a morte.

Se isso não nos salvar, então nada nos salvará.

Nem um deus.

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Please don't you ever forget to treat others the way you want to be treated
Remember your days are full in number. (Benjamin Clementine, Nemesis)

sexta-feira, agosto 21, 2015

Os roubados do BES

Ah, país de eufemismos... Lesados do BES, dizem eles, os repórteres, os pivots, os jornalistas. Quais lesados?!

Receiam proferir palavras duras? Porque não dizem “os roubados do BES”? É verdade que alguns, provavelmente poucos desses roubados, se tenham perdido pela cobiça, pois sabiam que estavam a comprar dívida e a arriscar capital na mira de uma remuneração mais elevada. (Esses agora juntam-se à maioria dos roubados e vigarizados, nos coros de indignação, fazendo-se ingénuos). Mas não tenhamos ilusões: a maioria foi roubada.

O roubo aos nossos compatriotas emigrados é um crime de lesa pátria. Algo que nos envergonha a nós, que cá ficámos e nunca tivemos de partir.

Muitos dos que partiram tiveram de o fazer porque neste país lhes foi vedada a ascensão social e um papel a desempenhar condicente com as suas capacidades e méritos. Muitos dos melhores de entre nós estiveram e estão entre os que partiram. Não nos esqueçamos, Portugal é um país que desbarata e desaproveita os seus recursos, principalmente os recursos humanos. Há uma elite terratenente e apaniguados que se conserva, ocupando os lugares de topo, impedindo que os melhores de entre nós possam assumir o papel que lhes caberia por mérito e direito. Escusado será dizer que tais elites se fazem valer dos seus jogos de influências e apadrinhamentos. Muitos dos “subalternos” neste país são mais sábios e mais cultos do que os que mandam. Já é assim há muito tempo. Uma velha tradição. Por isso nos admiramos do trabalho e dos feitos dos nossos conterrâneos nas sociedades estrangeiras que os acolhem. Pois bem, muitos desses que partiram, ainda assim, continuaram a amar Portugal. Enviavam para cá as suas remessas. Colocavam as suas poupanças em bancos portugueses, muitos com sacrifício de uma vida que poderia ter sido um pouco mais confortável, pois pensavam num regresso e no futuro de filhos e netos. Contribuíam dessa forma para o desenvolvimento do nosso país e das regiões, cidades, vilas e aldeias de onde eram originários.

Por isso, o roubo das poupanças dos emigrantes é um crime de lesa pátria e uma vergonha. Vergonha que se adensa mais ainda quando pensamos nos culpados, nos responsáveis e nos facilitadores do embuste, estes últimos os mais altos responsáveis da Nação, pois tentaram sempre lavar as suas mãos como Pilatos, escudando-se nas declarações do Governador do Banco de Portugal e nas declarações uns dos outros. Facilitadores sim, porque confiaram em vez de desconfiar, dada a informação privilegiada de que dispunham, e porque induziram os outros, dessa forma, a confiar também. Enfim são estas as elites que nos guiam. Uns incompetentes!


Epílogo

Neste Verão, temos viajado muito pelo Minho. São muitos os emigrantes portugueses com os quais nos cruzamos. Muitos estão felizes por cá estar – afinal é o seu querido mês de Agosto. Oiço-os alegres com as suas famílias, na rua, nos restaurantes, nas praças e nos arraiais. Mas muitos não estão alegres. São numerosas as casas à venda em Terras de Bouro, por exemplo. Casas de emigrantes. E hoje no Porto, cidade onde escrevemos, percorremos a Avenida dos Aliados e passámos frente ao Novo Banco, mas não muito perto pois não nos era permitido. Fitas de plástico limitando o passeio frente à entrada e a presença de polícias em grande número obrigaram-nos a passar ao largo. Alguns trabalhadores do banco conversavam no exterior enquanto nas paredes ainda pingavam amarelas, as gemas de ovos recentemente lançados pelos roubados do BES.

***

Post scriptum -  Também nós somos roubados do BES, ainda que não tenhamos lá depositado um cêntimo. Como portugueses e como contribuintes. Como contribuintes portugueses. E já estamos a pagar. Estranho país este em que são as vítimas e não os criminosos a espiar pelos crimes.

quarta-feira, agosto 05, 2015

Retrato

Tigre adormecido,
coração do dia.
Rosto semeado
de melancolia.

Noite transparente,
Primavera escura.
Sombra rodeada
de mar e brancura.

Tigre adormecido,
coração do dia.
Puro e violento
incêndio de alegria.

                          Eugénio de Andrade, Até Amanhã, 1956


E este Sal da Língua. Uma homenagem de Raquel Agra. Uma Ode a Eugénio.

terça-feira, julho 28, 2015

O mural da história

O desgraçado do lorde barão deixou-se filmar com prostitutas e cocaína. Dizem que era o presidente do Comité de Conduta e Privilégios da Câmara dos Lordes e que por vezes arengava para que os seus pares se pautassem por um bom comportamento e pelos bons costumes, não fosse tão nobre instituição ser desonrada.

Lembrei-me de uma frase escrita num mural algures, num grafiti bem grosseiro, informando que “O Morais foi às putas”, tout court.

É o mural da história.

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segunda-feira, julho 27, 2015

Trump e a sua muralha


Disse que construiria uma muralha impenetrável, colossal, a todo o comprimento da fronteira entre os EUA e o México. Três mil cento e quarenta e cinco quilómetros, do Golfo de México ao Pacífico! Quer impedir a entrada de migrantes e refugiados nas terras do sonho americano. A terra dos imigrantes. Eles que sonhem mas não ousem pisar a terra do Tio Sam. Ele já não os quer. Sonhos americanos são para os americanos. Nem os desertos de Sonora e do Mojave, onde muitos já se perdem, lhe bastam. Venha a muralha. Saberá Trump que não foi assim que a América se fez?

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domingo, julho 26, 2015

Plutão, o anão

A sonda detectou gelos exóticos constituídos por nitrogénio, monóxido de carbono e metano, but no water.

Plutão, Caronte e Terra, à mesma escala.

O tempo dos vendilhões

Em tempos foi aqui dito que a lógica do saqueador do pote seria vendê-lo caso nada mais restasse dentro dele. Pois assim foi nestes anos, com uma agravante: o saqueador do pote, antes de o vender, desfê-lo em cacos e vendeu-o em pedaços. Já pouco resta.

Este é o tempo dos vendilhões.  

sábado, julho 18, 2015

O novo Eixo


Os líderes da Alemanha e da França anteciparam-se um dia à cimeira dos líderes governamentais dos países da Zona Euro para decidirem o que é importante. Primeiro entre si, no dia seguinte com os demais. Como se o Eixo franco-germânico (há quem lhe chame directório) fosse uma instituição da União Europeia. 

Nos palanques, a bandeira da UE é simbolizada atrás das bandeiras dos dois países do Eixo, e nas costas de Merkel e Hollande, lá aparece, tímida a espreitar, também atrás das bandeiras da França e da Alemanha. O simbolismo diz tudo. Na Zona Euro há umas democracias mais importantes do que outras. O domínio do Eixo é exercido pelo soft power ao qual os outros países se submeteram mansamente.

Não admira a relutância dos ingleses em prosseguir numa U.E. assim, dominada pelo Eixo franco-germânico.


quinta-feira, julho 16, 2015

A parede

Brandida a espada num primeiro momento, rapidamente foi depois embainhada. No final Tsipras recuou até à parede. Sucumbiu ao discurso do “não há alternativa”.

Há alternativa, mas todas as alternativas têm um preço.


Jogou-se a cartada da Rússia – bem jogada, pois quer dizer que a posição geopolítica grega tem um preço, que o Ocidente terá de pagar se quiser a Grécia do seu lado. Dirigentes de instituições como o FMI cometem já o sacrilégio de pronunciar a palavra “reestruturação” e assumem a insustentabilidade da dívida grega. Não é por acaso.

A cartada do referendo foi inesperada, ousada e bem jogada, mas inconsequente. Apresenta-se agora como um bluff que não surtiu efeito. Alguns argumentaram que a democracia da Grécia não valia mais do que as restantes 18 democracias da Zona Euro, como se fosse essa a questão em cima da mesa. O valor das outras democracias nunca foi posto em causa por aquele referendo.

Mas curiosamente, um dos perdedores desta história foi Wolfgang Schäuble, que desejava a saída da Grécia da Zona Euro - teve até uma altercação com Mário Draghi por causas disso, segundo consta. Os outros perdedores foram os gregos e os contribuintes da Zona Euro.

Os vencedores foram, mais uma vez, os especuladores: irão colher os milhares de milhões despejados novamente em cima da Grécia. São eles quem continuará a beneficiar dos disfuncionamentos da Zona Euro.

sábado, junho 27, 2015

Nem espada, nem parede: democracia!

Tsipras, confrontado com as ingerências e pressões intoleráveis da parte das instituições europeias neoliberais, opta pelo caminho democrático: convoca o referendo. Nem disse sim às imposições (a parede), nem disse não (a espada). Respondeu às instituições não democráticas com democracia: o povo grego que escolha o seu destino.

Face a este inesperado balde cheio de democracia pela cabeça abaixo, como reagem os responsáveis do Eurogrupo? Reagem mal. Instituições pós-democráticas têm dificuldade em lidar com soluções democráticas.

Definitivamente, esta União Europeia não é a minha União Europeia.

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