sexta-feira, outubro 01, 2010

A cobardia da política

No país com as maiores desigualdades sociais da União Europeia o governo “socialista” decide aumentar o IVA, um imposto indirecto e cego à condição socioeconómica de cada um: ricos e pobres pagarão exactamente o mesmo, independente da sua condição económica e social. Ora isto é uma grande injustiça e uma cobardia.

É uma injustiça porque cada um devia pagar imposto na mesma proporção da sua riqueza, ou seja os ricos deviam pagar mais e os pobres menos. É uma cobardia porque com tal medida os governantes não ousam enfrentar os poderosos e as elites. Além disso, esta medida política veda aos pobres o acesso a alguns bens de consumo mais comuns. Um euro na carteira de um rico tem um peso diferente de um euro na carteira de um pobre. Os nossos “socialistas” esqueceram-se deste facto.

Não aumentaram o IRC dos bancos para níveis iguais ao das demais empresas; não reorganizaram empresas públicas, como a CP, que tem um chefe para cada dezassete trabalhadores; não extinguiram institutos públicos cuja principal função é assegurar o sustento dos que lá foram instalados pelos seus influentes amigos, bem colocados na política ou nos quadros da administração pública. Nem ao menos aumentaram o IRS dos escalões mais elevados. Preferiram aumentar o IVA, mais uma vez.

É uma política cobarde porque sacrifica quem não tem poder reivindicativo: os reformados e os idosos, os desempregados, os beneficiários do rendimento social de inserção, as famílias numerosas, etc.

Realmente, é de dar os parabéns ao Partido “Socialista”, tão preocupado com o interesse nacional, como se o interesse nacional não fosse o interesse da maior parte dos portugueses.

sábado, setembro 25, 2010

Surpreendam-nos! Taxem os bancos como as demais empresas.

Neste momento de aperto económico e financeiro o que esperam os nossos governantes para taxar os bancos a níveis percentuais iguais às demais empresas? Seria justo, não? Afinal os bancos, ao contrário das outras empresas, têm asseguradas múltiplas protecções contra a falência, a maior parte delas garantidas pelo próprio Estado com o dinheiro dos contribuintes. A necessidade de cumprimento rigoroso do défice e de obtenção de receitas, para além da redução da despesa, exige-o, mas os nossos governantes nem ousam tocar no assunto.

Será que o poder político está assim tão refém do poder económico e financeiro?

A esses, aos bancos, não atingem os “pacotes de austeridade”.

sexta-feira, setembro 03, 2010

O medo de ficar para trás

«Quando a competição substitui a solidariedade, as pessoas vêem-se abandonadas aos seus próprios recursos, dolorosamente escassos e manifestamente insuficientes. A deterioração e a decomposição dos laços colectivos convertem-nas, sem o seu consentimento, em indivíduos de jure, mas um destino opressivo e ingovernável conspira no sentido de lhes negar o ingresso na categoria de indivíduos de facto. Se nas condições de modernidade sólida, a desgraça mais temida era a impossibilidade para o indivíduo de se adequar à norma geral, hoje em dia, com o advento da modernidade líquida, o fantasma mais aterrador é o representado pelo medo de ficar para trás.»

Zygmunt Bauman (2006 [2005]), Confiança e Medo na Cidade, Relógio D’Água, pág. 17-18.

quinta-feira, setembro 02, 2010

O eterno retorno

Quando Agosto se encerra o país regressa à cidade. É este o momento de abandonar a cidade.

Post scriptum:

Na verdade, terminado o mês de Agosto é a cidade que regressa a si mesma porque, por definição, a cidade são os que nela habitam.

quinta-feira, agosto 26, 2010

A Grande Máquina


Quanto mais o cidadão metropolitano perdeu a intimidade com os outros, quanto mais se tornou incapaz de olhar os seus semelhantes nos olhos, mais consoladora se torna a intimidade com o dispositivo, que aprendeu a perscrutar-lhe a retina: quanto mais se desprendeu de qualquer identidade e qualquer pertença real, mais gratificante se torna para ele ser reconhecido pela Grande Máquina, nas suas infinitas e minuciosas variantes, da barreira giratória do acesso ao metro à caixa multibanco, da telecâmara que o observa benévola enquanto entra no banco ou anda pela rua, ao dispositivo que lhe abre a porta da garagem, e ao futuro cartão de identidade obrigatório que o reconhecerá, sempre e em qualquer parte, inexoravelmente como aquele que é. Existo se a Máquina me reconhece ou, pelo menos, me vê; estou vivo se a Máquina, que não conhece sono ou vigília, mas se mantém eternamente desperta, garante que estou vivo; não estou esquecido se a Grande Máquina regista os meus dados numéricos ou digitais.

Giorgio Agamben, Nudez, Relógio D’Água, 2010, Pág. 69.

Da Grande Máquina ao Big Brother se traça o caminho para o totalitarismo. Imperceptivelmente vamos cedendo a nossa liberdade à Grande Máquina e tudo pelas melhores razões.

terça-feira, agosto 24, 2010

Where? Middle Age. When? Portugal.




Às vezes, o lugar é o tempo e o tempo o lugar.

Um período, um espaço de tempo; um lugar, um tempo de espaço.

domingo, agosto 22, 2010

«Pode muito bem acontecer que alguém pense bem, mas não seja capaz de exprimir com correcção aquilo que pensa; mas isto de uma pessoa pôr por escrito as suas reflexões, quando não sabe dar-lhes ordem nem brilho, nem aliciar o leitor com um certo encanto, é de quem abusa desmedidamente do vagar que tem e das letras.»

Cícero, Tusculanas, 45 a.C.

Citado por Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, II Volume – Cultura Romana, 3ª Edição, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. Pág. 130.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Pardon?

Incêndio no Alijó (19-08-2010)

"Estava a cumprir uma pena de prisão em regime de dias livres." (Noticiado na TV a propósito da captura de um pirómano, suspeito de atear um fogo no centro do país).

quinta-feira, agosto 19, 2010

Calamidades naturais e desigualdades sociais


«In particular, there is no natural equality when it comes to ‘natural’ risks but, instead, social inequality in intensified form, the privileged and the non-privileged. Whereas some countries or groups are able to some degree to absorb the consequences of tornadoes or floods, others, the non-privileged on the scale of social vulnerability, experience the collapse of societal order and the escalation of violence.»
Beck, Ulrich (2010), “Remapping social inequalities in an age of climate change”, Global Networks 10, 2, p. 175
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Em curtas palavras, as catástrofes ambientais ampliam as desigualdades sociais entre os países e entre grupos privilegiados e não privilegiados, e embora todos sejam susceptíveis aos mesmos riscos naturais, é o seu maior ou menor grau de vulnerabilidade social que determina a intensidade do impacto sofrido pelos membros de uma determinada sociedade.

quarta-feira, agosto 18, 2010

Do desespero

Há grandeza no tormento de É desesperante ver uma criança desesperada porque o mundo ruiu à sua volta, ao contrário do desespero de uma criança que berra num centro comercial porque lhe negaram o sorvete que exigia.

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terça-feira, agosto 17, 2010

sábado, agosto 14, 2010

As alterações climáticas e o aquecimento global


Título: Cenários de aumento da temperatura global. Legenda: Ano de referência - 2000
O Die Welt publicou uma excelente reportagem sobre o aquecimento global e as alterações climáticas. (Clicar aqui).

Os cenários não são promissores.

Aguarda-nos mais calor, mais incêndios, mais seca, desflorestação, alterações climáticas e a submersão de áreas estuarinas e costas baixas. A nós, aos nossos filhos e aos nossos netos.

Título: Variação da precipitação em percentagem para 2080-2099 tendo como base os valores da década de 1980-1999.

No nosso país, o Algarve e o Alentejo encontram-se entre as regiões do planeta que irão sofrer as maiores reduções percentuais de precipitação no final deste século. É por aqui que o deserto vai entrar na Europa.

O desafio que iremos enfrentar (se é que já não o estamos a enfrentar) será enorme.

Talvez os nossos filhos e netos tenham de lutar contra os espanhóis pela água.

Mas ainda há quem não acredite na evidência do aquecimento global. É tão estúpido como não acreditar que o Homem pisou a Lua.

quinta-feira, agosto 12, 2010

terça-feira, agosto 10, 2010

Uma lição de Chesterton ou a Era dos Bezerros de Ouro

Nos tempos que correm, os mortais ocidentais agarram-se a todo o tipo de bizarrias - consomem todo o tipo de estranhas e velhas novidades, qualquer coisa que lhes aplaque a inquietação que lhes vai na alma - e apenas porque a sua referência, Deus, morreu. Deambulam assim perdidos e procuram agarrar-se a tudo o que lhes pareça uma bóia de salvação, um rochedo seguro entre as águas revoltas de um rio. Mas afinal tais bóias, tais rochedos - cedo descobrem surpreendidos -, são apenas meras ilusões. E são arrastados pelas águas, desesperados e perdidos, olhando em volta à procura, enquanto se aproximam rapidamente do mar que os há-de engolir.

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«People readily swallow the untested claims of this, that, or the other. It's drowning all your old rationalism and scepticism, it's coming in like a sea; and the name of it is superstition." He stood up abruptly, his face heavy with a sort of frown, and went on talking almost as if he were alone. "It's the first effect of not believing in God that you lose your common sense, and can't see things as they are. Anything that anybody talks about, and says there's a good deal in it, extends itself indefinitely like a vista in a nightmare. And a dog is an omen and a cat is a mystery and a pig is a mascot and a beetle is a scarab, calling up all the menagerie of polytheism from Egypt and old India; Dog Anubis and great green-eyed Pasht and all the holy howling Bulls of Bashan; reeling back to the bestial gods of the beginning, escaping into elephants and snakes and crocodiles; and all because you are frightened of four words: `He was made Man.'"»

Chesterton (1926)

Tradução:


«- As pessoas engolem de boa vontade afirmações sem provas disto, daquilo ou de outra coisa qualquer. É como um mar que avança e submerge todo o nosso velho racionalismo e cepticismo, é aquilo a que se chama superstição. – Levantou-se bruscamente, mostrando uma espécie de preocupação na expressão carregada do rosto, e continuou a falar como se estivesse a sós consigo mesmo. – O primeiro efeito de não acreditarmos em Deus é perdermos o senso comum e deixarmos de ser capazes de ver as coisas tal como elas são. Qualquer coisa que qualquer pessoa diga, e declare coisa corrente, ganha uma extensão indefinida como um panorama de pesadelo. E um cão é um portento, e um gato é um mistério, e um porco é um talismã, e um escaravelho é um deus, e temos de novo todo o jardim zoológico do politeísmo do Egipto e da velha Índia; o cão Anúbis e a Leoa Pachet e os clamorosos Touros de Bashan; eis de regresso os deuses bestiais do início, que se confundem com elefantes e serpentes e crocodilos; e tudo isto, porque nos assustam as palavras que dizem: “Ele fez-se Homem”.»

Chesterton citado por Slavoj Zizek, Violência, Relógio D’Água, 2008, pág. 160.

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