É na rambóia estudantil, nas liberdades e manigâncias estudantis que pensarão mais tarde esses senhores sérios ao afirmarem que também já foram jovens.
Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D'Água, 2011, pág. 165
É na rambóia estudantil, nas liberdades e manigâncias estudantis que pensarão mais tarde esses senhores sérios ao afirmarem que também já foram jovens.
A habitual unidade da China e a
perpétua desunião da Europa têm ambas uma longa história. As áreas mais
produtivas da China moderna foram politicamente unidas pela primeira vez em 221
a.C. e assim permaneceram pela maior parte do tempo desde então. A China teve
um só sistema de escrita desde os inícios da literacia, uma única língua
dominante por muito tempo e unidade cultural substancial durante dois mil anos.
Pelo contrário, a Europa nunca esteve,
nem de longe, perto da unificação política: ainda estava repartida por 1000
pequenos estados independentes no século XIV, em 500 estados em 1500 d.C.,
reduziu-se a um mínimo de 25 estados na década de 80 e, no momento em que
escrevo esta frase, já é de novo constituída por cerca de 40. A Europa ainda
tem 45 línguas, cada uma delas com o seu alfabeto modificado, e uma diversidade
ainda maior. Os desacordos que ainda
hoje continuam a frustrar até as mais modestas tentativas de unificação
europeia através da Comunidade Económica Europeia (CEE) são sintomáticos do
arreigado empenho da Europa na desunião.![]() |
| Fonte: The Guardian |
Os cidadãos britânicos decidiram
mal. A democracia directa tem destas coisas. Com o brexit poderão ter desencadeado o princípio do fim de um reino que
encerra quatro nações e quiçá o princípio da desunião europeia. O júbilo dos xenófobos, dos populistas, dos separatistas, dos racistas e dos fascistas é
a prova simples de que se tratou de uma má decisão. Rejubila Farage,
rejubila Trump, rejubila Le Pen, rejubila Wilders, rejubila Erdogan, e
até Jirinóvsky rejubila, lá do alto do assento
que tem na Duma. Também já se agitam os
separatistas ou independentistas, da Escócia à Catalunha, do País Basco à Lombardia, e em muitos outros lugares, na mira da criação de novos Estados que pretendem
governar. É a balcanização da Europa Ocidental que se prenuncia.