domingo, abril 29, 2007

Um segundo para Deus pode ser uma eternidade para o Homem. Uma eternidade para Deus pode ser um segundo para o Homem.

sábado, abril 28, 2007

Apeiron

Onde estiver a origem do que é aí também deve estar o seu fim, segundo o decreto do destino. Porque as coisas têm de pagar umas às outras castigo e pena, conforme a sentença do tempo.
Anaximandro, séc. VI a.C.

domingo, abril 22, 2007

50 Anos de Paz

Lamentam-se os opinion makers*, mais uma vez, acerca do estado a que chegou a União Europeia, da críse da Europa, das suas incapacidades e limitações, do facto de ficar aquém dos EUA em quase todos os domínios, da sua dificuldade em constituir-se como federação, do facto de não ter futuro, de que o futuro morreu, etc.., etc., etc. É só ler o Público deste domingo.
Parece que não lhes bastam os 50 anos de paz na Europa Ocidental. Um facto sem precedentes nesta região. Será que se esqueceram dos primeiros 50 anos do século XX? (para não ir mais atrás no tempo)
O que é que queriam? Guerra na Europa Ocidental?
Iludidos e mergulhados na actual conjuntura, estes "velhos do Restelo" consideram a paz como um dado adquirido e por isso não a valorizam devidamente. Talvez só quando ela se perder então lamentem o facto.
E não se diga que só há paz porque os europeus não sabem fazer a guerra, ou não se podem dar a esse "luxo" por terem perdido a IIª Guerra Mundial, ou por os "polícias americanos" o não permitirem. Foram os europeus ocidentais que construíram a comunidade europeia. Foram os europeus que trataram de assegurar o prevalecimento da paz entre si.
Os 50 anos de paz, por si bastam, para tornar o projecto europeu um sucesso sem precedentes desde os tempos do Império Romano.
Trata-se de um feito notável e necessário para que não desfaleça a esperança no futuro da União Europeia.
(*) - Vasco Pulido Valente; Eduardo Lourenço; Teresa de Sousa

domingo, abril 15, 2007

A Sobra do Mundo


Ortega e Gasset disse um dia que os EUA tinham sido construídos com a sobra da Europa. Na verdade, foram construídos com a sobra do mundo. Em pouco tempo se tornaram uma espécie de Novo Mundo, construído com a sobra do mundo. Um micromundo. Talvez na diversidade dos povos que os compõem resida a sua maior riqueza. Os EUA são uma subcivilização da civilização Ocidental, mas a tender para a formação de uma nova civilização.

sábado, março 24, 2007

Há uma única maneira convincente de fazer o elogio da Europa: é falar da sua cultura.

Folco Quilici

segunda-feira, março 19, 2007

Das multidões...

29. Os melhores escolhem um só bem em troca de todos os outros, a glória eterna em troca das coisas mortais. A multidão sacia-se como as manadas.

Heraclito, Fragmentos
Com efeito, nada há de mais insensato do que uma multidão inútil, nada há de mais insolente.
Heródoto, Histórias (livro 3º)

domingo, março 18, 2007

Da espuma dos dias...

- Com tudo isso te faço saber, irmão Pança - replicou dom Quixote -, que não há memória que o tempo não acabe nem dor que a morte não consuma.

Cervantes, Dom Quixote
Tudo flui, tudo se apaga, tudo se dissolve no maelstrom do tempo.
Mas apetece responder como César no poema de Alfonso Canales, no seu "Discurso de César às Legiões":
...quando tudo se suma num longo silêncio, e não haja um só sinal para decifrar, TEREI VIVIDO.

Algumas interrogações

Hoje acordei com algumas interrogações:

Poderá um comunista ser um liberal?

Poderá um liberal ser um comunista?

O interesse colectivo não se opõe, a partir de determinado limite, à liberdade individual?

Até que ponto podem coabitar a liberdade e a igualdade?

E o Estado, representante do interesse colectivo, não poderá tornar-se opressor frente ao indivíduo?

Não pode o Estado ser protector sem ser opressor?

E qual é o interesse colectivo?

E quando o interesse colectivo é a liberdade do indivíduo?

sábado, março 03, 2007

Império

Em terceiro lugar, o poder do Império funciona a todos os níveis da ordem social, penetrando até às regiões mais profundas do mundo social. Não se limita a gerir um território e uma população, mas cria também o mundo real que habita. Não se limita a governar as interacções humanas, mas pretende também governar directamente a natureza humana. O objecto do seu poder é a totalidade da vida social e, por isso representa a forma paradigmática do biopoder.
Hardt, Michael; Negri, António (2000), Império, Livros do Brasil, pág. 15
No dia 2 de Março de 2007 jogaram no ring mediático, o poder das multidões contra o poder dos milhões (€). Venceu o Império dos milhões. A "importância" dos milhões em jogo, justificou a opção de serem eles a abrir os telejornais desta paróquia. É preciso criar o "mundo real" que o Império habita. E o "mundo real" é cada vez mais criado nos media - se a notícia não passou na televisão, então não aconteceu, dizem. Neste caso, valorizou-se mais a OPA que a manifestação dos descontentes - a maior desde o fim do Estado Novo. O Império mostrou quem manda. Os media e os seus representantes mostraram de quem são lacaios.

sexta-feira, março 02, 2007

O Império

Mais de 100 000 pessoas manifestaram-se hoje nas ruas de Lisboa e os telejornais abriram todos com a notícia do "Fim da OPA".

Ah! O Império, o Império...

Estamos todos a ser anastesiados pela comunicação social, ou então, estamos todos cegos.

Será que todos portugueses são agora especuladores bolsistas? Será que lhes interessam mais as venturas e desventuras das empresas cotadas na bolsa? Seremos todos accionistas?

domingo, fevereiro 25, 2007

O desenvolvimento enquanto desígnio

Trinta e três anos de democracia decorridos. Trinta e três anos de “Abril”. Estranhamos uma ausência: onde está o desenvolvimento? As promessas de desenvolvimento parecem ter passado de moda. Na verdade, nem parece ser, no momento, conveniente falar dele. A buzzword, mais proferida pelos políticos, agora com todos os soundbites, é a do "crescimento económico". Até a oposição lastima o retrocesso do “crescimento económico”, ao longo destes dois últimos anos. Porém, ninguém questiona o desenvolvimento. Será que todos pensam que o país se desenvolveu? Que já somos desenvolvidos?

O crescimento económico é apenas um meio para se atingir um fim: o desenvolvimento. Mas está a ser considerado pelos nossos políticos como se de um fim se tratasse. O desenvolvimento foi esquecido.

Porque foi abandonado tal conceito nos seus discursos e nas práticas governativas? Por que razão foi abandonado, enquanto desígnio?

Somos levados a pensar que os políticos deixaram de acreditar convictamente no desenvolvimento, porque sentem que são incapazes de promovê-lo ou então, porque são medíocres.
O Professor Simões Lopes, citando Dudley Seers, lembra que “as perguntas a formular acerca do desenvolvimento de um país, de uma região, são simplesmente estas: o que é que vem acontecendo com a pobreza? Com o desemprego? Com as desigualdades? Se os três se têm reduzido (a pobreza, o desemprego, as desigualdades), não pode duvidar-se de que houve desenvolvimento no país ou região em questão.” (1)
Decorridos trinta e três anos desde o 25 de Abril de 1974, período em que governaram principalmente sociais democratas e socialistas (!), nalguns casos com maioria absoluta, questionamo-nos então: como evoluíram no nosso país os indicadores de pobreza, de desemprego, e das desigualdades? As respostas infelizmente apontam para um agravamento. Os indicadores revelam claramente, o aprofundamento das desigualdades (económicas, sociais e territoriais), o aumento do desemprego (e degradação da qualidade do emprego) e o aumento do número de pobres. Basta consultar as estatísticas, contidas nos mais recentes Relatórios de Desenvolvimento Humano da ONU, do Eurostat e de outros organismos internacionais. Decorridos 33 anos, lamentamos dizer: eis o estado a que isto chegou.
_________________________________________
(1) Lopes, Simões (2006), "Encruzilhadas de desenvolvimento: Falácias, dilemas, heresias", Revista Crítica de Ciências Sociais, n.º 75, Outubro 2006, pp. 41-61.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

O neoliberal século XXI e o Mediterrâneo

Sem qualquer nobreza, já não calcorreamos campos distantes, como soldados apartados da terra-mãe. Quentes nos nossos lares, confortáveis nas nossas poltronas, defronte das nossas lareiras, já não temos que lutar pela liberdade. Ela já nos foi oferecida (supostamente) numa bandeja de prata. Estamos agora demasiado acomodados, isolados e engordados, neste neoliberal século XXI. Não temos camaradas de armas com quem beber um copo e sonhar com lares distantes, deixados para trás. Não caminhamos já nas areias dos desertos, no Norte de África, de arma a tiracolo, como noutros tempos. Nem vigiamos o horizonte nas quentes ilhas do Mediterrâneo - esse mar navegado desde tempos imemoriais, por Ulisses, Eneias e outros antigos navegadores. O Mediterrâneo do passado ainda é porém, o dos nossos sonhos, e quem sabe, o do nosso futuro.

Século XX...Século XXI

O meu século XX teve início em 1968, após todas as tempestades do século. As guerras onde os nossos bisavôs se afundaram. O barco vogou após 1968 para águas mais tranquilas, climas quentes, mares tropicais. E hoje, perdidos neste mar, vogamos de ilha em ilha. Perdemos o tempo, ganhamos a vida...

Lassos corpos no convés, ao sol quente dos mares tropicais. Contemplamos o horizonte em busca de um ponto conhecido. O rumo da história trouxe-nos a estes mares nunca antes navegados. E por aqui velejamos, sem bússola e sem rumo. Aguardamos! Pode ser que o vento torne a soprar neste mar paradisíaco.

domingo, janeiro 21, 2007

Discurso de César às Legiões

Quando a mão cessar de agitar-se, e o lábio
de tentar falar; quando terminar
de organizar a minha destruição, e começar
a organizar meu esquecimento; quando for
coisa ou, menos ainda, a pegada de um gesto
ou, menos ainda, referência
de uma mancha muito zelosamente
apagada; quando acabem
as solúveis escórias, os destruídos
torrões, a fumarada,
de espalhar-se e afastar-se e ver-se
sumidos num fundo saco vazio; quando
nada estiver como está, como não esteve
nunca; quando já ninguém
entender nunca o que é nunca, e sempre
simule eternidades novas;
quando outros mordam o engano, ferido
o palato, e creiam a pés firmes
que estão e são, etcetera; e mais tarde,
quando já não haja nada que crer ou ninguém
que creia; quando não haja
ninguém; quando todas as récitas
acabem, se dispam os actores
de máscara e de pele, e o público
se retire e vá dormir, se apaguem
as luzes, e os ratos
busquem nas plateias
algum pedaço de chicle húmido; quando morrerem
também os ratos e os gulosos
vermes dos ratos e os pequenos
animais (ou plantas) que devoram
os vermes dos ratos; quando abatam
seu estriado prestígio os fustes; quando o brilho
se ensombre, e a sombra
se esfume; quando
tudo se suma num longo silêncio, e não haja um só
sinal para decifrar, TEREI VIVIDO.



(Alfonso Canales)

terça-feira, janeiro 02, 2007

Um Creso dos tempos modernos

Mais uma vez o passado assalta-nos a memória. Toda a glória é efémera! Essa é a lição de Creso, o rei Lídio que viveu em Sardes, no século VI a. C., e que pretendeu ser o mais feliz dos homens. Também Sadam teve destino quase semelhante. No auge do seu poder possuia esplendorosos palácios, tesouros valiosíssimos e tudo o que os seus desejos quisessem satisfazer. Nessa época julgava-se o mais feliz dos homens. Mas como narra a história, só no fim é que se faz o balanço. Só no fim um homem pode atestar da sua felicidade. A Creso salvaram-no, no último momento, da pira ardente, os deuses. O rei persa, Ciro, que o condenou, apiedou-se dele ao escutar os seus derradeiros lamentos. A Sadam, ninguém o escutou, nem os deuses vieram em seu auxílio. Fica a lição. Mais uma vez a história repete-se, ainda que, com ligeiras nuances.

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