

Todos os rendimentos, superiores ou iguais ao salário mínimo nacional, serão alvo do imposto extraordinário, excepto os rendimentos de capitais. Cá está a justa repartição dos sacrifícios de que falava o nosso Presidente! É justo!
Argumento de um comentador na SIC Notícias: assim é, pois caso contrário, os investidores poderiam fugir com o dinheiro para o estrangeiro, o que prejudicaria a economia nacional. Brilhante!
O trabalho, infelizmente, não tem o mesmo grau de mobilidade do capital financeiro. Não pode circular com a mesma celeridade. Consequência: taxa-se o trabalho, ficando livre o capital financeiro.
Isto está mesmo a pedir uma bernarda.
Ah plácido povo que a tudo te submetes!
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Outra:
Tudo isto é revoltante.

| «CITY of ships! | |
| (O the black ships! O the fierce ships! | |
| O the beautiful, sharp-bow’d steam-ships and sail-ships!) | |
| City of the world! (for all races are here; | |
| All the lands of the earth make contributions here;) | |
| City of the sea! city of hurried and glittering tides! | |
| City whose gleeful tides continually rush or recede, whirling in and out, with eddies and foam! | |
| City of wharves and stores! city of tall façades of marble and iron! | |
| Proud and passionate city! mettlesome, mad, extravagant city! | |
| Spring up, O city! not for peace alone, but be indeed yourself, warlike! | |
| Fear not! submit to no models but your own, O city! | |
| Behold me! incarnate me, as I have incarnated you! | |
| I have rejected nothing you offer’d me—whom you adopted, I have adopted; | |
| Good or bad, I never question you—I love all—I do not condemn anything; | |
| I chant and celebrate all that is yours—yet peace no more; | |
| In peace I chanted peace, but now the drum of war is mine; | |
| War, red war, is my song through your streets, O city!» |
Walt Whitman, Leaves of Grass
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Cidade de navios!
(Oh, navios negros! Oh, navios ferozes!
Oh, belos vapores e veleiros de afiadas proas!)
Cidade do mundo!, (pois todas as raças estão aqui,
Todas as terras do mundo deram o seu contributo);
Cidade do mar! Cidade de apressadas e resplandecentes marés!
Cidade cujas jubilosas marés avançam continuamente ou retrocedem para dentro e para fora em remoinhos de espuma!
Cidade de cais e armazéns - cidade de altas fachadas de mármore e ferro!
Altiva e apaixonada cidade - cidade revolta, louca, extravagante!
Ergue-te, ó cidade, não só pela paz, mas pelo que é realmente, pela guerra!
Não temas - não te submetas a modelos que não sejam os teus, ó cidade!
Contempla-me - encarna-me como eu te encarnei!
Não recusei nada do que me ofereceste - aquilo que adoptaste eu adoptei,
Bom ou mau, nunca te questionei -amo tudo - não condeno nada,
Canto e celebro tudo o que é teu - mas basta de paz,
Na paz cantei a paz, mas agora o tambor da guerra é meu,
A guerra, a guerra vermelha é o meu canto através das tuas ruas, ó cidade!
Walt Whitman, Folhas de Erva - Antologia, Assírio & Alvim, 2003, pp. 263tradução de José Agostinho Baptista
É uma hipocrisia falar-se da justa distribuição dos sacrifícios sem que se defenda uma auditoria à dívida portuguesa. Sem se saber quem são os responsáveis pela dívida, quem viveu acima das suas possibilidades, quem contraiu dívida e quais os valores contraídos, não se pode falar em distribuição justa dos sacrifícios. Enquanto Cavaco Silva não vier defender uma auditoria à dívida portuguesa, não nos convencerão as suas palavras de que “é preciso ter muito cuidado na distribuição justa desses sacrifícios". Soarão a hipocrisia.
Fazer pagar a todos a dívida contraída por alguns é uma injustiça. Tornar a todos devedores quando apenas alguns se endividaram é uma injustiça. Mesmo que uma parte dessa dívida seja atribuível à gestão danosa do Estado.
Por isso, Sr. Presidente, defenda lá a auditoria à dívida portuguesa e deixe-se de tretas.

Walt Whitman é o poeta das transfigurações. É o poeta sem medo. O poeta da Natureza. Transfigura-se no mundo visível e invisível. Não desafia a morte porque a aceita sem temer. O seu espírito deambula, desde os lugares mais luminosos aos mais sombrios. Nas estradas e ruas das cidades. No meio dos regimentos em batalha. Entre as árvores. Sobre a relva. Voando como um falcão. Sentindo o pulsar do coração dos veados. Whitman torna-se o grande sentido do mundo. É panteísta. Sente Deus em todo o lado e em si. E não aceita que lhe venham dizer quem Deus é e onde está.
Eis um hino à própria música. A vitória da derrota e a derrota da vitória. “Também te digo que é bom perder, as batalhas perdem-se com o mesmo espírito com que se vencem”. Tudo se torna mais sereno. Cessou o medo da derrota. Os vencidos fazem parte da festa. Todos são saudados. O conjunto de vitoriosos e vencidos é o mais importante. Sem uma parte a outra perderia significado. A evolução é um jogo de vida e de morte. Que soe a música da vida! Bem sonora! Honras aos vencedores e vencidos (ergamos as nossas taças). Ambos são a face de uma mesma moeda.
Song of Myself
18
«With music strong I come, with my cornets and my drums,
I play not marches for accepted victors only, I play marches for
conquer'd and slain persons.
Have you heard that it was good to gain the day?
I also say it is good to fall, battles are lost in the same spirit
in which they are won.
I beat and pound for the dead,
I blow through my embouchures my loudest and gayest for them.
Vivas to those who have fail'd!
And to those whose war-vessels sank in the sea!
And to those themselves who sank in the sea!
And to all generals that lost engagements, and all overcome heroes!
And the numberless unknown heroes equal to the greatest heroes
known!»
Walt Whitman, Leaves of Grass, Song of Myself, XVIII
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Tradução:

«Com que direito, não os homens, mas certos homens se arrogam o poder de impor a sua única verdade à comunidade de todos os homens, na diversidade dos seus pensamentos e das suas culturas, justificando a exclusão e depois a extinção das espécies mais próximas de nós?
Não se trata de relativismo, mas de sublinhar mais uma vez que, mesmo no pensamento ocidental, existem outras sensibilidades abertas a um humanismo comprometido com a alteridade e acompanhado de uma interrogação fecunda que procura permanentemente não excluir. Os inquisidores que se tranquilizem! Ao ritmo a que se processam as destruições dos habitats naturais dos grandes macacos, todos eles terão desaparecido antes de 2050. Três mil anos depois de Aristóteles, estamos aqui. Em lugar de nos conduzir ao céu devido à elevação do nosso pensamento, a escala natural das espécies mergulha nos abismos da destruição sob o peso insustentável do antropocentrismo.»
Pascal Picq, Nova História do Homem, Círculo de Leitores, 2009. Pág. 114
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Prossegue a sexta extinção de massas. Neste excerto da obra de um paleoantropólogo filósofo, deparo-me com uma terrível notícia: no ano 2050, já os grandes macacos terão desaparecido. Talvez os vejamos depois, embalsamados, por detrás das vitrinas de algum museu de história natural. Glorioso antropocentrismo!
Oh, como somos felizes, nós que procuramos o conhecimento, se não quebrarmos o silêncio prematuramente!...Nietzsche, A Genealogia da Moral
Feliz o caçador que consegue aproximar-se furtivamente da sua presa, contra o vento e sem fazer estalar um galho.
A impaciência paga-se caro.
Qualquer precipitação pode deitar tudo a perder. Até o conhecimento pode fugir como uma presa assustada, antes de ser alcançado.

“Já Pascal formulara o imperativo de pensamento que urge introduzir hoje em todo o nosso ensino, a começar pelo jardim-escola: «Sendo todas as coisas causadas e causantes, ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e sustentando-se todas elas por um laço natural e insensível que liga as mais afastadas e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, bem como conhecer o todo sem conhecer as partes»”
Blaise Pascal citado por E. Morin, Os Problemas do Fim de Século, Editorial Notícias, 1991, pág. 201.
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No extremo, um especialista é aquele que sabe tudo sobre nada, e um generalista, é aquele que sabe um pouco sobre tudo.
É um erro apostar num ensino que enfatize a formação de especialistas que desconheçam o funcionamento do todo; da mesma forma é um erro apostar num ensino que enfatize a formação de generalistas que desconheçam o funcionamento das partes.
Difícil é encontrar o ponto de equilíbrio entre estas duas perspectivas, ou seja, formar especialistas generalistas e generalistas especialistas.

Neste blogue não se fazem ataques ad hominem, excepto em relação a criaturas rasteiras como aquela ali em cima. Hoje, neste dia em que morreram pelo menos 25 sírios em manifestações, também aqui somos sírios.
A NATO, por menos, decidiu intervir na Líbia. Era necessário salvaguardar os investimentos das multinacionais (o capital) em território líbio (e não nos venham cá agora dizer que estavam preocupados com a saúde e o bem-estar do povo líbio). A Síria não possui tantas riquezas nem recursos naturais como a Líbia e as multinacionais também não abundam por lá. E assim lá vai o povo sírio sofrendo às mãos do seu algoz, o seu presidente, enquanto o mundo assiste placidamente através dos ecrãs de televisão.


“As nossas sociedades liquidaram todos os valores sacrificiais, quer sejam determinados pela outra vida ou por finalidades profanas, a cultura quotidiana deixou de ser irrigada pelos imperativos hiperbólicos do dever e passou a sê-lo pelo bem-estar e pela dinâmica dos direitos subjectivos, deixámos de reconhecer a obrigação de nos ligarmos a qualquer coisa para além de nós próprios.
(…)
Sociedade pós-moralista: entenda-se uma sociedade que repudia a retórica do dever austero, integral, maniqueísta, e que, paralelamente, exalta os direitos individuais à autonomia, ao desejo, à felicidade.”
Gilles Lipovetsky, O Crepúsculo do Dever: A Ética Indolor dos Novos Tempos Democráticos, Publicações Dom Quixote, 2004.
“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do País com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.”
Cavaco Silva, Discurso do Presidente da República na Cerimónia de Homenagem aos Combatentes, por ocasião do 50º Aniversário do início da Guerra em África
Forte do Bom Sucesso, Lisboa, 15 de Março de 2011
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Quantos de nós estaremos hoje dispostos a sacrificar a vida pela pátria, pela liberdade, pelos nossos concidadãos, pelo nosso bairro e pelos nossos vizinhos? No passado não se hesitava: os homens sacrificavam-se quando um rei, um presidente, um primeiro-ministro (ou um presidente do conselho) os convocava em nome da pátria. Partiam, sem contestar, para a guerra, para o Ultramar, para os campos de batalha longínquos, para a morte. Muitas vezes partiam às ordens dum líder lunático, sem sequer questionarem os seus ditames. A defesa do solo pátrio, por exemplo, sobrepunha-se ao bem-estar pessoal e à “dinâmica dos direitos subjectivos”. No passado (não muito distante) as mentalidades e a escala de valores eram outras.
Numa sociedade “pós-moralista”, como a actual, que “repudia a retórica do dever austero, integral, maniqueísta”, os incitamentos à acção pela pátria são recebidos com desagrado, repulsa ou desprezo. “Os direitos individuais à autonomia, ao desejo, à felicidade” sobrepõem-se aos deveres para com o colectivo, sempre que estes ponham em causa o bem-estar individual.
Talvez por isso, quando o Presidente Cavaco Silva, no dia 15 de Março deste ano, incitou os jovens de hoje a empenharem-se com a mesma coragem, desprendimento e determinação dos jovens de ontem, no cumprimento de missões e causas essenciais ao futuro do País, muitos tenham ficado chocados com o apelo.
Vivemos em sociedades capitalistas e liberais, onde prevalece a mentalidade do “primeiro eu, depois o mundo” e “depois de mim, o dilúvio”, por isso o que esperávamos?