Fala-se muito do recuo
espectacular da taxa de mortalidade infantil em Portugal, tendo o nosso Sistema
Nacional de Saúde conseguido fazê-la regredir para valores situados entre os
mais baixos do mundo – no período de 2007-2011, foi de 3,2‰, segundo o INE – mas
esquece-se o esforço realizado pelo Sistema Educativo português, que em poucas décadas
conseguiu debelar as elevadas taxas de analfabetismo, tendo funcionado como um
motor de ascensão social para muitos portugueses. Maria Filomena Mónica, no
Expresso desta semana (19-01-2013), honra lhe seja feita, não esquece esse
facto. Afirma ela:
Alguém
deveria ter recordado a estes cérebros [os técnicos do FMI que redigiram o
relatório do Governo que propõe o despedimento de 50 000 docentes do Ensino
Básico e Secundário e a entrega das escolas à iniciativa privada] que a
evolução da taxa de analfabetismo em Portugal não tem paralelo na Europa. Em
vésperas da Revolução de 1974, a percentagem de analfabetos ainda era de 26%. É
difícil imaginar um país onde o número de factores adversos à escolarização
fosse tão elevado. O resultado está à vista. Muitos dos alunos contemporâneos
têm avós analfabetos e pais que não passaram da 4ª classe.
Sei do que Maria Filomena Mónica fala. Sou um dos muitos portugueses
que tem avós analfabetos e pais que não frequentaram o Ensino Superior e sinto
que muito devo ao Sistema Educativo português, à Escola Pública, às
Universidades públicas e ao Instituto também público, que frequentei. Muito
devo aos meus professores, pagos com “dinheiros públicos” e por isso aos contribuintes
e ao Estado social português. Foram os professores que me deram a conhecer
a existência de universos que desconhecia, como o da Filosofia, da Ciência, da
Arte e da Cultura, da Literatura, da Educação Física, entre outros. A minha
dívida para com eles não tem preço.
Custa-me por isso ver agora esses profissionais serem apontados,
conjuntamente com os profissionais da saúde, como uma espécie de bodes
expiatórios da crise que atravessamos. É bom não esquecer, no entanto, que foi José
Sócrates quem iniciou o processo de tentativa de estigmatização social dos
professores e preparou o terreno para o que agora este governo se prepara para
fazer. No momento de realizar “cortes” na Função Pública, são esses os
profissionais que estão entre os primeiros, no rol dos sacrificados. Há muito
que o primeiro-ministro os vinha visando (bastava atentar nas suas entrevistas,
ora sugerindo que emigrassem para países lusófonos, ora afirmando que na
Educação ainda tinha margem para “cortar”). Tudo para agrado dos mercados,
ávidos por novas áreas de negócio, como o da Educação que querem ver
privatizada, e contentamento deste governo lacaio.
Ao atacar-se o Sistema Educativo ataca-se o elevador social que
permitiu a ascensão, no espaço de uma geração, dos portugueses ao mundo da
Cultura*, para não falar de outros mundos. Foi também através desse elevador
que os portugueses foram levantados do chão, para utilizar a realista fórmula
de José Saramago. E é para o chão que este governo os quer novamente lançar.
Que os portugueses não tenham espírito crítico, que sejam dóceis, submissos e
facilmente exploráveis, que regressem à incultura, de onde nunca deveriam ter
saído, é o que secretamente parecem desejar as reaccionárias “elites” políticas que nos
governam. E o pior de tudo isto é que, ao atacar-se o Sistema Educativo público,
é a própria democracia que é atacada nas suas fundações.
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(*) Em relação à importância da Cultura é sempre bom lembrar o
matemático e grande professor, Bento de Jesus Caraça, nascido em Vila Viçosa e
filho de trabalhadores rurais que, em 1933, na conferência “A cultura integral do indivíduo – problema
central no nosso tempo”, responde à questão, “o que é um homem culto?” da
seguinte forma:
«É aquele que: 1.º - Tem
consciência da sua posição no cosmos e, em particular na sociedade a que
pertence. 2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é
inerente à existência como ser humano. 3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu
interior a preocupação máxima e fim último da vida». Ver AQUI.
É isto um homem culto. É também por isto que nos temos de bater. Não podemos perder a nossa dignidade.
É isto um homem culto. É também por isto que nos temos de bater. Não podemos perder a nossa dignidade.