quinta-feira, agosto 21, 2008

Nelson Évora

foto Thomas Kienzle/AP
[No Ninho de Pássaro]

Vejo que a Vitória te contemplou!

Que os teus alados pés se demorem no alto
E o voo seja longo,

No triplo salto.

Tempos perigosos


…A Grande Guerra de 1914 veio surpreender-me quando eu comentava Tucidides para estudantes de Literae Humaniores em Balliol, e foi então que, de súbito, o espírito se me iluminou. A experiência que então atravessávamos no nosso mundo já tinha sido vivida por Tucidides no dele.
Toynbee, Civilization on Trial

Se considerarmos que a história se repete nas suas macro formas então deveremos ficar apreensivos com os acontecimentos actuais, pela semelhança que apresentam com os que antecederam as grandes e prolongadas guerras do passado. Com efeito a sensação é de déjà vu face aos sinais da actual conjuntura internacional. Também nos assalta uma espécie de assombro; o mesmo que invadiu Toynbee quando se deparou com os acontecimentos que desencadearam a Iª Guerra Mundial. Esperamos que seja déjà vu apenas, que o tempo apague estes sinais e tudo volte à normalidade. Vejamos então as causas deste déjà vu.

A Rússia invade a Geórgia alegando a necessidade de proteger as minorias étnicas da ofensiva desencadeada por este país na região rebelde da Ossétia do Sul. A Geórgia pede, de seguida, auxílio aos EUA e este país assina com a Polónia um acordo visando a instalação de um escudo anti-mísseis. A assinatura deste acordo, já anteriormente anunciado, é realizada agora, como resposta à invasão russa do território da Geórgia. Os russos protelam a retirada e consideram a assinatura do acordo uma provocação e o momento em que se concretiza uma prova das reais intenções dos americanos em relação à Rússia.

Onde é que reside a sensação de déjà vu neste caso? Também a guerra entre Esparta e Atenas relatada por Tucidides começou assim, num território periférico (a ilha de Córcira), e no desencadear de um jogo de alianças e atritos entre cidades-estado que conduziu à guerra entre as duas superpotências de então. A Guerra do Peloponeso durou quase 30 anos e terminou com a derrota de Atenas. Mas existem também semelhanças com outras épocas, mais próximas de nós: Hitler, antes de mandar invadir a Polónia e desencadear a IIª Guerra Mundial em 1939, mandou anexar a Checoslováquia com o pretexto de estar “preocupado” com as minorias alemãs dos montes Sudetas. Preocupações humanitárias portanto.

Mas existem outros sinais preocupantes na Ásia Central e no Médio Oriente: o agudizar do conflito no Afeganistão com o reacender de combates entre talibãs, ainda apoiados nas montanhas do Paquistão, e as forças da NATO – com a recente morte de 10 pára-quedistas franceses nestes recontros - num momento em que se regista um enfraquecimento da situação política no Paquistão, com a recente demissão do presidente pró-Washington, Pervez Musharraf.

A animosidade crescente entre o Irão e os EUA é por seu turno outro foco de tensão na região.

Esta conjugação de acontecimentos remete-nos para o Verão de 2001, pouco antes dos atentados do 11 de Setembro: também nessa altura os combates no Afeganistão entre os talibãs e a Aliança do Norte atingiam uma grande virulência, com a morte, a 9 de Setembro, do carismático líder da Aliança do Norte, Ahmad Shah Massoud. Dois dias depois ocorriam os atentados do 11 de Setembro e iniciava-se a guerra contra o terrorismo a pretexto da qual os EUA invadiram o Iraque.

Vivemos portanto tempos perigosos.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Usain Bolt

O homem mais rápido do mundo. Pequim, 2008.

Felizes aqueles a quem cerca a fama gloriosa!

Píndaro, VIIª Ode Olímpica, (Séc. VI - V a. C.)

terça-feira, agosto 05, 2008

Cold Winter

Willem van de Velde the Younger, 1633-1707
É preciso recuperar energias.
A tempestade vai começar em Setembro e já se avistam nuvens no horizonte.

domingo, agosto 03, 2008

sábado, agosto 02, 2008

Babel Pós-moderna, ou, A Falar é que a Gente se Desentende

A história teima em repetir-se.

As torres do World Trade Center implodiram ante os nossos olhos estupefactos. E mais uma vez, a confusão das línguas, das religiões, das civilizações...

Mas se o embargo da torre primordial teve origem divina, a derrocada das torres pós-modernas de Nova Iorque teve origem humana. Nem podia ser de outra forma, pois Deus já não se encontra entre nós, (morreu, não é verdade?!).

Neste mundo abandonado à cacofonia das línguas já ninguém se entende.

quarta-feira, julho 30, 2008

O "medium" é a mensagem, ou, o mensageiro é a mensagem

Os media assumem-se como veículo da condenação moral do terrorismo e da exploração do medo com fins políticos, mas simultaneamente, na mais completa ambiguidade, difundem o fascínio bruto do acto terrorista, são eles próprios terroristas, na medida em que caminham para o fascínio (eterno dilema moral, ver Umberto Eco: como não falar do terrorismo, como encontrar bom uso dos media – ele não existe).

Baudrillard, Simulação e Simulacro

Quando os media difundem as mensagens dos terroristas tornam-se os media terroristas. Isto não é um mero jogo de palavras.

Desta forma os terroristas entram pelas nossas casas, mesmo com as portas trancadas.

E assim o mensageiro é a mensagem.

Neste contexto, é preciso desligar o mensageiro.
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Leituras posteriores:

- Baudrillard, Jean (1981). Simulacres et simulation. Éditions Galilée.

- Biernatzki, Williams (2002). “Terrorism and Mass Media”, Communication Research Trends, Vol. 21, n.º 1.

- Eco, Umberto (1968). La Struttura Assente. Milan: Bompiani.

- McLuhan, Marshall (1962). The Guttenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. London: Routledge & Kegan Paul.

- Rantanen, Terhi (2005). “The message is the medium – An interview with Manuel Castells”, Global Media and Communication, Vol. 1 (2): 135 – 147.

terça-feira, julho 29, 2008

A Exclusividade dos Médicos

Os contribuintes, através dos impostos e do Estado, pagam anualmente milhões de euros para a formação dos médicos nas universidades públicas. É bom que os médicos formados nestas universidades se habituem a servir os contribuintes, em exclusividade, pelo menos durante algum tempo (no mínimo, o necessário para que a despesa do Estado na sua formação seja coberta).

Há que salvaguardar as necessidades dos contribuintes pobres (os tais que não têm dinheiro para irem fazer uma operação cara a Londres, numa boa clínica privada) em relação aos interesses dos utilizadores abastados.

PS: E quem diz os médicos diz outros quaisquer profissionais formados nas mesmas condições. Pois se é injusto uma empresa despender na formação dos seus empregados e estes depois saiam logo a seguir para trabalhar noutra concorrente, também é injusto para o Estado pagar a formação de profissionais e funcionários, para estes, finda a sua formação, irem trabalhar para empresas privadas.

sábado, julho 19, 2008

Tocado pela Graça

La gracia (1915)
Julio Romero de Torres (1874-1930)

sexta-feira, julho 18, 2008

Tomado pela(s) Graça(s)

As três Graças (1505)

Rafael (1483-1520)


As filhas de Zeus e de Eurínome


As três Graças de belas faces gerou-lhas Eurínome,

de aspecto gracioso, filha de Oceano,

Aglaia, Eufrósine e a amável Tália.

Hesíodo, Teogonia

Tempo de festa: é preciso não baixar os braços pois a crise vem aí

A Dança do Casamento (c. 1566)

Pieter Bruegel "o Velho" (1525-1569)

Este quadro encontra-se na colecção do Detroit Institute of Arts e pode ser analisado detalhadamente com uma lupa no excelente site desse instituto.

É curioso: todos estão a divertir-se menos um sujeito misterioso que se encontra na sombra, no limite do lado direito do quadro, por detrás dos tocadores de gaita-de-foles. Será um desmancha-prazeres?

Não há festa sem descontentes. Apre! (Se calhar é ele que vai pagar a boda.)

quarta-feira, julho 16, 2008

Serenity

A Landscape at Sunset (1773)

Claude-Joseph VERNET , 1714 - 1789

terça-feira, julho 15, 2008

O neoliberalismo no seu melhor

A Reserva Federal vai apoiar financeiramente um banco californiano falido - o IndyMac - , assim como duas imobiliárias falidas, reponsáveis por grande parte do crédito imobiliário concedido nos EUA - a Fanny Mae e o Freddie Mac.

Com Estado a colaborar a favor dos interesses dos especuladores financeiros, pagam os contribuintes americanos e ganham os especuladores.

Privatiza-se o lucro e nacionaliza-se o prejuizo. É o neoliberalismo no seu melhor e para exportação.

terça-feira, julho 08, 2008

Navegação de Verão

Dependura o timão, bem lavrado por sobre a lareira
e tu próprio espera que chegue a estação navegável.
Então arrasta a rápida nau para o mar e nela coloca
A carga adequada, para que regresses a casa com lucro.
(...)
Cinquenta dias depois de volver o sol
quando chega ao fim do verão, fadigosa estação,
propícia se apresenta a navegação aos mortais: nem tu o barco
despedaças, nem o mar arruina os teus homens,
se, benévolo, Poséidon ou Zeus, rei dos imortais, os não quiserem destruir,
pois neles se encontra o fim quer de bens quer de males.


Hesíodo, Trabalhos e Dias

domingo, julho 06, 2008

Se isto é socialismo e social-democracia...


Using a population-weighted average for EU-25 Member States in survey year 2004 (income reference year 2003) the top (highest income) 20% of a Member State's population received 4.8 times as much of the Member State's total income as the bottom (poorest) 20% of the Member State's population. This gap between the most and least well-off people is smallest in Slovenia (3.1), Hungary (3.3), Czech Republic (3.4) and the Nordic Member States (3.3–3.5). It is widest in Portugal (7.2), Latvia (6.1), Greece (6.0), Estonia (5.9) and Slovakia (5.8).

European Commission (2007), The social situation in the European Union, 2005-2006, página 35.

O “prestígio nacional”, pelas declarações dos nossos governantes, é de capital importância para o país. Estão preocupados com a nossa imagem. Mas uma imagem para ser credível tem de fundar-se em factos reais, caso contrário, não passará de um simulacro enganador, que com o tempo será desmascarado.

Ora não adianta muito referirem que diminuíram umas décimas as desigualdades sociais entre os 20% mais ricos da nossa população e os 20% mais pobres (considerando o rendimento disponível das famílias reflectido no índice de Gini) e ocultarem que o nosso país ainda é o que regista as maiores desigualdades sociais de entre os 27 estados membros da União Europeia. Mas é exactamente isso que os nossos governantes andam a fazer: ocultam a enorme disparidade preferindo salientar a insignificante redução.

Tal facto não é bom, nem para a qualidade de vida do povo português, nem para o “prestígio nacional”, que tanto os preocupa.

O “prestígio nacional” está estampado nos relatórios internacionais como o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas de 2008, ou no Relatório Anual do Banco Mundial, ou ainda no supracitado relatório da Comissão Europeia de 2007, quando neles o país é apontado como o possuidor dos maiores índices de desigualdade entre ricos e pobres na União Europeia. Mas os nossos governantes sabem que o povo tem mais que fazer do que ler relatórios e o facto não parece incomodá-los.

O país da Revolução de 25 de Abril de 1974, volvidos mais de 34 anos de governações sociais-democratas e socialistas, chegou a este estado e não se desenvolve. Argentiniza-se, brasileiriza-se…

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