«Os europeus de 1500 não são mais ávidos, nem mais cruéis, nem mais capazes do que qualquer linhagem antes deles. Mas têm um gosto pelo risco – quer dizer, têm mais desejo de conceder crédito, do lado dos credores, e estão mais dependentes do crédito do lado dos devedores, o que corresponde a uma mudança de paradigma económico, que passa da exploração antiga e medieval dos recursos a economias mais fundadas no investimento. Com este tipo de acção económica, a ideia dos juros a pagar dentro do prazo é convertida em assunções de risco práticas e em invenções e técnica. A empresa é a poesia do dinheiro. Tal como a necessidade aguça o engenho, o crédito estimula a empresa.Ora, como o exterior é também o futuro e o futuro pode ser apresentado post mundum inventum como espaço de onde provém o saque, a riqueza e a bem-aventurança, os primeiros empresários comerciais excêntricos desencadearam essa tempestade de investimentos em direcção ao exterior que, no espaço de um milénio, havia de dar origem ao desenvolvimento do ecúmeno capitalístico-informático actual. (…) O lucro significa doravante [desde a época de Colombo] o dinheiro que alguém arriscou e que regressa à sua conta original após ter dado a volta aos oceanos.»
Peter Sloterdijk (2005), Palácio de Cristal, Para Uma Teoria Filosófica da Globalização, Relógio de Água, pág. 59.



Três anos de neoliberalismo e um para tirar apressadamente o “socialismo” da gaveta, que os tempos mudaram. São estes os nossos “socialistas” e o seu “socialismo” já bichoso de tanta traça.
O desemprego alastra como uma peste e nós agora, nem sequer podemos abandonar a cidade e procurar lugares mais sadios, como noutros tempos. A praga é geral. Eis o fruto do capitalismo tardio, essa forma de organização económica e social que já nos trouxe paz, prosperidade e segurança, em tempos idos, quando tinha sido corrigido nas suas crises cíclicas, após a de 1929. Chegados os anos 70 do século XX, apagou-se a memória, abraçou-se o neoliberalismo e o monetarismo. Resultado: voltámos às velhas crises cíclicas. Os governantes dos países desenvolvidos estão em pânico: já não conseguem assegurar os interesses dos poderosos que os colocaram nos governos dos Estados. Utilizam agora os contribuintes como fiadores e transferem avultadas quantias para esse buraco negro, insaciável e ganancioso, que se tornou o mundo da alta finança e da especulação bolsista.


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A criatura resiste. Recorre neste momento de aflição, a todos os seus esbirros colocados em altos cargos governamentais e outros de grande alcance social. Move todas as suas influências. Tenta escapar ao naufrágio no mar tormentoso do mundo. Mar tenebroso, o que agora atravessamos. Os governos não nacionalizam, não propõem o fim de paraísos fiscais e zonas francas, e continuam a apostar na concessão de crédito para financiar o investimento, mas na sociedade de consumo já não é a poupança que suporta o crédito, mas antes a produção monetária nas rotativas. Usam agora os contribuintes endividados como fiadores e financiadores de bancos falidos e de empresas mal geridas. E ainda nos querem fazer crer que estão realmente indignados porque os bancos não fazem chegar os financiamentos às empresas. Será que somos assim tão ingénuos?
Em democracia, politicamente, não existem revoluções, mas podem haver rebeliões.