



«Só quem podia olhar para o futuro sem sobressaltos gozava o presente de consciência tranquila.»
Ao ler Bauman lembrei-me de Aristides de Sousa Mendes.![]() |
| Operárias surpreendidas pelo fecho da fábrica. |

Diz-se muitas vezes “amigos, amigos, negócios à parte”, quando na realidade se quer dizer, “negócios, negócios, amigos à parte”. É que “nos negócios não existem nem amigos, nem vizinhos (embora o «sentido dos negócios» possa levar a que se declare o contrário)” (Bauman, 1995, pág. 266).
Esta é a “ética dos negócios”, que de ética nada tem.
Zygmunt Bauman (1995). A Vida Fragmentada, Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna. Relógio de Água, 2007.

A resposta está com o polvo Paul. Ele é o dono do oráculo pós-moderno que todos escutam. Ele é o apontador do destino, esse destino que nem os deuses são capazes de iludir.
E assim, mais uma vez, contra os deuses venceu o destino. E venceu o polvo Paul.
Estes são os factos que o primeiro-ministro não referiu, entre outros, no debate sobre o Estado da Nação.
Regozijou-se pela redução em poucas décimas das desigualdades sociais, mas, por ser tão ínfima, não tem qualquer significado nem retira o nosso país “socialista” e "social democrata”, se atendermos aos partidos que nos têm governado desde o 25 de Abril, do lugar cimeiro que ocupa no vergonhoso ranking das desigualdades sociais.
O nosso artificioso primeiro-ministro, mais uma vez, enfatiza o que é insignificante e desvaloriza o que é significativo.
***
Nota: Estes são os dados mais recentes disponíveis e como é óbvio não podem reportar-se a 2010 na medida em que existe sempre um hiato entre o levantamento de dados no terreno, o seu tratamento, organização e publicação.
(*) – O.N.U. - Human Development Report 2009 [publicado em 2010], pág. 195-196.
(**) – O.N.U. - Human Development Report 2009 [publicado em 2010], pág. 167.
(***) - Eurostat - The Social Situation in the European Union, 2009, pág. 38.

A diferença entre o espaço controlado e o espaço incontrolado é a diferença entra a civilidade e a barbárie.»
(…)
«Em primeiro lugar, ao longo da história da modernidade, a fronteira entre a civilidade e a barbárie nunca coincidiu com as fronteiras do Estado-nação e, menos ainda, com a circunferência partilhada da “parte civilizada do mundo” no seu conjunto. Hiroshima varreu os bárbaros “lá fora”, mas Auschwitz e o Gulag, os bárbaros “cá dentro”. (…) Em nenhum momento da história moderna foi permitido aos bárbaros ficarem em paz “ficando à porta”: eram objecto de desprezo, espiados e desenraizados de uma maneira razoavelmente caprichosa que não deixava de evocar o carácter caprichoso que lhes era, a eles, atribuído por definição.»
(…)
«Bem vistas as coisas, e talvez originariamente, houve sempre um selvagem aprisionado no íntimo de cada ser humano civilizado.»
(…)
«Em segundo lugar, também não é rigorosamente verdade que “a fronteira entre civilidade e violência já não pode ser encontrada no limite do espaço territorial soberano”. As guerras ortodoxas e passadas de moda “entre nós e eles” são travadas e continuarão a ser travadas durante algum tempo mais sob as bandeiras da santa cruzada da civilização contra a barbárie, da paz contra a violência.»
Zygmunt Bauman (1995). A Vida Fragmentada, Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna. Relógio de Água, 2007. Páginas 150-153.
