
Pieter Bruegel "o Velho", A Dança do Casamento (c. 1566)

Pieter Bruegel "o Velho", A Dança do Casamento (c. 1566)


Esgotadas as especiarias da Índia.
Esgotado o ouro do Brasil, o marfim, o ouro e os diamantes de África
Esgotados os subsídios da União Europeia. Foi então hora de partir ao assalto do crédito. Endividaram-se. Endividaram-nos.
Esgotado agora o crédito, as elites, mal habituadas, continuam a precisar de dinheiro, muito dinheiro. Estão mais dependentes de dinheiro do que os demais, para quem meia pataca já é muito.
É uma história antiga.
Pudera!

Começou o assalto. Alguns elementos dos partidos que ao longo da última década enterraram Portugal, já andam para aí a ponderar um “entendimento”*. Eles, que são o problema, querem agora apresentar-se como solução.
Mas a realidade é que o terreno foi adubado e preparado para a incursão neoliberal que se avizinha. Quem governa já o lavrou, empurrado pela União Europeia. Só falta o semeador, ou melhor, o privatizador.
Serão despedidos funcionários públicos e privatizados serviços do Estado, como as escolas e os hospitais, esses focos de despesa, essas ineficiências. No desespero, saqueia-se o Estado.
A maioria dos cidadãos, se quiser educar-se, tratar-se ou curar-se, terá de pagar às empresas fornecedoras de tais serviços. Os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres (processo que já teve o seu início). O Estado social recuará em toda a linha (aliás, esse recuo também já começou há algum tempo).
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(*) – Pires de Lima no congresso do CDS.

Há uns anos atrás, o então Ministro da Educação, David Justino, avisou que as portas do Ensino iriam fechar-se. Avisou que haviam demasiados professores e que era preciso reduzir o número de entradas nessa profissão. Posteriormente, Sócrates prossegue nessa via, tentando limitar ao máximo o acesso à profissão por novos candidatos, chegando a introduzir mecanismos de barragem à entrada da carreira de professor, como a prestação de provas escritas selectivas, e desincentivos, como a retirada da remuneração aos grupos de estágio profissionalizante nas escolas. Simultaneamente, promovia-se a política baseada no princípio de “por cada duas saídas da função pública, apenas uma entrada”. Os sinais estavam portanto aí para quem os quisesse ver.
O Ensino nas escolas básicas e secundárias deixou de funcionar como válvula de escape para as “fornadas” de licenciados que todos os anos saíam das universidades e politécnicos. Simultaneamente, o Tratado Bolonha reduziu o período de formação de licenciados de 4 anos para 3, ou seja, num curto período o número habitual de licenciados à saída das universidades aumentou consideravelmente, quando se reduziam as oportunidades de trabalho no sector Estado.
O resultado está à vista agora em 2011: a “deolindalização” de uma geração.

David Harvey, um dos marxistas mais determinados e esclarecidos da nossa época, já em 1987 parecia adivinhar o que aí vinha:
“There abundant cracks in the shaky edifice of modern capitalism, not a few of them generated by the stresses inherent in flexible accumulation. The world’s financial system – the central power in the present regime of accumulation – is in turmoil and weighed down with an excess of debt that puts such huge claims on future labour that is hard to see any way to work out of it except through massive defaults, rampant inflation, or repressive deflation.”
David Harvey (1987), ‘Flexible Accumulation through Urbanization: Reflections on “post-modernism” in the
Parece que Marx se enganou, mas não em tudo. Não se enganou, por exemplo, na questão das crises cíclicas do capitalismo e as suas consequências na economia das nações.
