sexta-feira, março 15, 2013

O pensamento económico encurralado


Uma agenda económica para o crescimento, eis a solução, dizem eles (Barroso incluído). Todos eles. Da direita à esquerda (deixemos agora a hemiplegia moral do Ortega y Gasset). Até a esquerda se deixou encurralar pelo pensamento do crescimento-económico-que-não-vem-e-que-é-preciso-que-venha-para-que-se-gere-emprego. Primeiro crescimento, depois emprego. O crescimento precede sempre o emprego nos discursos dos políticos e da ortodoxia económica vigente. Aguardamos portanto o crescimento que não vem, como quem aguarda por Dom Sebastião. Eis onde está o actual pensamento económico encurralado. O mesmo reduto do qual não conseguia sair no final dos anos 20 do século passado. O resultado é conhecido: a Grande Crise Económica de 1929, com prolongamento na década seguinte.

Como é que se sai deste reduto de pensamento?

Pois bem, e sem mais delongas: ao invés de uma agenda económica para o crescimento, é necessária uma agenda social para o emprego. A criação de emprego em primeiro lugar. O crescimento económico que venha depois.

Na realidade, o grande desafio dos tempos que atravessamos consiste na criação de emprego em contexto de recessão. Soa a quimera, não?! A verdade é que o crescimento por si só, não é garante de criação de emprego, como muitos nos querem fazer crer.

Houve épocas, na história, em que o crescimento não foi acompanhado pela geração de emprego. Houve épocas em que foi o emprego o gerador do crescimento.

segunda-feira, março 11, 2013

sábado, março 09, 2013

É uma escola sob uma ponte

Altaf Qadri / AP
Uma escola sob uma ponte. AQUI.

Da mesma forma que um antigo general grego afirmou, e bem, que uma cidade são os seus cidadãos, podemos afirmar que a essência da escola são os seus alunos e professores e as relações pedagógicas que entre eles se estabelecem. Ou melhor, a essência da escola é a relação entre quem aprende e quem aprende. Todos aprendem. Aprende-se a aprender e aprende-se a ensinar.

É uma escola sem dúvida. Não é a Escola de Atenas, mas é uma escola. Podia ser à sombra de uma árvore, numa palhota ou numa praia...

Platão, contudo, fundou a Academia num lugar mais aprazível, mais dado à reflexão, numa área arborizada nos arredores de Atenas, junto ao túmulo de Academo.

Já esta escola está muito distante de Atenas, embora exista uma ténue ligação entre elas.

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P.S. - Levado ao extremo, este é o sonho dos neoliberais que nos governam: uma escola livre, sob uma ponte, sem quaisquer custos para o Estado.

O comandante embalsamado


Pobre comandante idolatrado,
O teu corpo, embalsamado,
E não em cinzas cremado
e no Orinoco libertado.
(Como por certo desejarias)
Ou simplesmente, sepultado.

Que gente é esta que idolatra restos mortais
Como se isso importasse mais que imorredouros ideais?
(Que por certo defendias)

Ignaros é o que são!

O teu corpo já serviu
E brilho já não tem.
Será apenas uma imagem,
Exibida à passagem
Numa urna de cristal.

Para sempre exposto num mausuléu
Para consumo de massas e romarias,
E turistas noutros dias.

É o culto da imagem.
E ainda lhe chamam homenagem...

Triste fado,
O do comandante empalhado.

terça-feira, março 05, 2013

Da legitimidade

As political systems develop, recognition is transferred from individuals to institutions—that is, to rules or patterns of behavior that persist over time, like the British monarchy or the U.S. Constitution. But in either case, political order is based on legitimacy and the authority that arises from legitimate domination. Legitimacy means that the people who make up the society recognize the fundamental justice of the system as a whole and are willing to abide by its rules. In contemporary societies, we believe that legitimacy is conferred by democratic elections and respect for the rule of law.


Francis FukuyamaThe Origins of Political Order: From Prehuman Times to the French Revolution, Farrar, Straus and Giroux2011, p. 56 

Tradução livre:

«À medida que os sistemas políticos se desenvolvem, o reconhecimento é transferido dos indivíduos para as instituições – ou seja, para regras e padrões de comportamento que persistem no tempo, como a monarquia britânica ou a Constituição americana. Mas em ambos os casos, a ordem política é baseada na legitimidade e na autoridade que brota da dominação legitimada. Legitimidade significa que as pessoas que compõem a sociedade reconhecem a justiça fundamental do sistema no seu todo e estão dispostas a respeitar as suas regras. Nas sociedades contemporâneas, acreditamos que a legitimidade é conferida por eleições democráticas e pelo respeito pelo Estado de Direito.»

***

A legitimidade de um governo deixa de existir quando se estabelece um estado de excepção infundado aos olhos dos cidadãos, em detrimento do Estado de Direito, ainda que esse governo se tenha constituído pela via de eleições democráticas. O desrespeito por direitos e garantias constitucionais por parte de um governo é motivo suficiente para que se considere que este tenha perdido a legitimidade.

Hasta siempre, Comandante Hugo Chávez.

Hugo Chávez (1954-2013)

Uma amabilidade de viagem


Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros, uma amabilidade de viagem.

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

domingo, março 03, 2013

Mais um importante sinal foi dado.

Manifestação "Que se lixe a troika", Faro.


Seria bom que a troika e o Governo deixassem agora de tratar os cidadãos com desprezo e cinismo, ou como simples números, quando anunciam as suas sinistras medidas disseminadoras de desemprego, insegurança e desespero. Seria bom que atentassem nos sinais. Hoje cantou-se a Grândola Vila Morena. A democracia está viva e não se limita às urnas. Melhor ainda seria que a troika e o Governo se fossem embora de vez e o Presidente convocasse novas eleições. Está preocupado com o prestígio nacional? Pois o prestígio nacional neste momento é irrisório. Ninguém nos respeita lá fora porque não nos respeitamos. Quem se coloca numa posição de subserviência não se respeita a si próprio e Portugal encontra-se nessa posição, devido às decisões dos políticos que nos governaram e governam.

Mas atenção, saiba a troika e o Governo que este povo de “brandos costumes” que hoje cantou a Grândola do pacífico Zeca, é também o povo que tem inscrito no seu Hino apelos às armas e marchas contra elas. Não é um povo tão brando assim, e os historiadores sabem-no bem.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A barbárie


Um trabalhador imigrante acorda pela manhã, longe de imaginar que nesse dia será algemado pela polícia à traseira de uma carrinha e arrastado por quilómetros até desfalecer e morrer. Ninguém imagina sequer ao acordar, que irá morrer nesse dia. Muito menos assim.

Os "gastos" na Educação


Gráfico retirado daqui.

Basta ignorar os números relativos que nos querem impingir, como se retratassem verdades absolutas, e passar a atender aos absolutos, e a realidade torna-se mais clara. Os números relativos, (percentuais, por exemplo), utilizados para comparar diferentes realidades, se interpretados de uma certa forma, servem também para iludir e mistificar.

Já os números absolutos, se usados com o devido cuidado e rigor, podem servir também para comparar e para desmistificar um conjunto de mentiras que também nos querem impor.

E é muitas vezes assim com as estatísticas relativas à Educação. A utilização de valores absolutos faz sentido quando é de seres humanos e das suas necessidades que falamos. Afinal não são absolutas as necessidades básicas de um alemão e as de um português, só para dar um exemplo? Não tem o alemão boca, dois braços, duas pernas e uma cabeça, como nós? Não precisamos de nos alimentar, educar, trabalhar, habitar, e zelar pela nossa saúde, tal como ele?

Não faz assim mais sentido atender ao gasto absoluto por aluno, em vez de apresentar esse valor relativizado ao PIB ou à despesa pública, que diferem nos diversos países, enquanto as necessidades básicas dos cidadãos e dos alunos são absolutas e não relativas?

Pois bem, faz todo o sentido apresentar o "gasto" anual por aluno em valores absolutos. E, observando os números, lá está: gastamos muito menos por aluno do que os países mais desenvolvidos da Zona Euro (quase metade do que eles gastam!).

Já em termos relativos, de acordo com os gráficos, por cada 100 euros do PIB (por sinal reduzido), Portugal investe 4,9 em educação, enquanto na zona Euro, por cada 100 euros de PIB investe-se 6,2.

Em suma, com menos recursos, Portugal consegue melhores resultados na leitura, na matemática e nas ciências do que a média dos países da Zona Euro, atendendo ao Relatório Pisa.

E agora venham dizer-nos que precisamos de cortar (poupar dizem eles) na Educação porque nesse sector gastamos demais.

É por estas e por outras que esta gente tem de ser removida do Governo.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Ainda a resignação do Papa Bento XVI


Obviamente que lamentamos a sua partida nestas circunstâncias. E logo agora que começávamos a ouvi-lo com mais atenção. Até parece de propósito.

Logo agora que começávamos a concordar com as suas palavras e com a sua denúncia clara do "liberalismo radical" que toma conta do mundo e que está a lançar na pobreza multidões inteiras, polarizando as sociedades entre uma minoria de abastados e uma maioria de desprezados, empobrecidos e humilhados. Terão os seus conselheiros julgado que ensandecia ao ouvi-lo proferir tais palavras?

"É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus", disse Cristo uma vez. É claro que sabia do que falava!

Que o Papa que vem, também se oponha às modernices do capitalismo tardio, que tudo quer converter em mercadoria, até a própria Vida, para não falar dos simples prazeres da vida.

Que o que vem não seja um alinhado com os poderes e os poderosos deste mundo, nem com os consumidores-reis, mimados, infantilizados, individualistas, hedonistas, estupidificados pelo mais abjecto materialismo, iludidos pelo ópio publicitário invasor de toda a privacidade e colectividade.

Que seja mais forte do que este Papa mas tão jovem quanto este, porque este era jovem de espírito.

É preciso dizer NÃO a muito e a muitos. É preciso coragem, combatividade e antagonismo.

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Agora, e mudando de assunto, que interessa que o Papa Emérito deixe as suas vestes douradas e passe a envergar brancas, e que passe a calçar sapatos castanhos em vez de vermelhos, e que o seu anel de ouro seja destruído?

É ao anunciar estas ninharias que a Igreja se trai. Parece comprazer-se em alimentar o habitual circo para entreter as massas, ávidas de banalidades, santinhos e velas.

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Cristiano Ronaldo e Sérgio Ramos em corrida triunfal, após mais uma estocada no touro catalão.

Barcelona: 1  - Real Madrid: 3 (Taça do Rei)

Curiosas as expressões dos rostos.

Ao fundo, um adversário (Puyol) contempla a bola dentro da baliza, incrédulo, enquanto outro (Busquets) chega já tarde.

Já nada podem fazer. CR afasta-se rapidamente, eufórico, triunfante, terrível...

Um herói dos nossos tempos.

Um Aquiles dos relvados.

sábado, fevereiro 23, 2013

Poupanças!


Talvez tenha passado despercebida a mudança quase imperceptível e delicada no discurso, habitualmente cínico, do Ministro das Finanças: agora já não são cortes, são poupanças. As poupanças das finanças. As nossas gastanças.

Disse agora Gaspar que, face à inesperada derrapagem no PIB (mais uma), está considerar a aplicação de medidas para controlo da execução orçamental. Segundo o ministro “a composição destas medidas será uma combinação de poupanças em execução orçamental ao longo de 2013 com os efeitos das poupanças orçamentais estruturais e permanentes decorrentes do processo de reforma do Estado".

Pois está claro! Não são cortes, são poupanças! Mais de 800 milhões de poupanças! Poupanças que não seriam realizadas se estas derrapagens (outro eufemismo) não tivessem ocorrido. Benditas derrapagens que permitem tão gordas poupanças.

Venham mais derrapagens que queremos poupanças.

Grande Gaspar! Tanta competência até já aborrece.

P.S. – No Expresso de hoje, já se anuncia que a “Recessão engoliu o plano B de Vítor Gaspar”, na página 8 do primeiro caderno. Aguardam-nos mais poupanças, portanto.

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E será que Manuela Ferreira Leite já deu com a "espiral recessiva"? Mas o que é a “espiral recessiva”? E a Ongoing? O que é a Ongoing?

E a retoma? Para quanto a retoma? Não era em 2013?

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