É a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.
Eça de Queiroz, Contos
É a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.
Eça de Queiroz, Contos
Não serei daqueles que, vendo aproximar-se o seu fim, dizem que é o fim do mundo que se aproxima, que tudo decai, interiorizando que depois deles será o caos.
Vêem então decadência em todo o lado, apocalipses em aproximação, quando são eles que decaem.
Não, o meu fim não será o fim do mundo.
Olhar jocoso e sobranceiro, o dos ingleses anglicanos e protestantes. Excessivamente ousados no diagnóstico do atraso deste país, quando o deles avançava a todo o vapor, nos séculos XVIII e XIX. Entre eles há, contudo, excepções.
Gostei mais do olhar metódico e quase científico, certeiro até, dos alemães e do dinamarquês. É mais fácil gostar de quem gosta de nós ou até nos considera bem.
A escrita fluída permite uma leitura fluída.
Não existe um grande equilíbrio na dimensão dos vários
relatos, isto é, alguns são breves outros longos, embora sejam todos bem
enquadrados por notas biográficas que ajudam a contextualizar os olhares.
Ainda assim, de MFM, gostei mais do seu Bilhete de Identidade.
Ouvimos na TV que estamos numa luta contra o tempo, entre a vacinação e a transmissão. Pasmo.
Então não estávamos numa luta contra o tempo aquando dos
festejos da vitória do Sporting no campeonato de futebol? Não estávamos numa
luta contra o tempo aquando da final da Liga dos Campeões, no Porto? Não
estávamos numa luta contra o tempo, nos festejos do São João?
Agora estamos numa luta contra o tempo!
Há para aí uns comentadores neoliberais que falam grosso quando
os números da pandemia estão em baixo e piam fino (nem os ouvimos), quando os
números estão altos ou crescem. Nota-se que o tom e a intensidade não são os
mesmos, ou será impressão minha?
Frank Herbert, Duna, Relógio D'Água, 2020
«
- Os homens e as suas obras têm sido até agora uma doença à superfície dos seus mundos - disse o pai. - A natureza tende a compensar as doenças, removendo-as ou isolando-as, incorporando-as no sistema à sua maneira.
Frank Herbert, Duna, Relógio D'Água, 2020, pág. 361
Hervé Le Tellier, A Anomalia, Editorial Presença, 2021
«
A religião é um peixe carnívoro das profundezas. Emite
uma ínfima luz e, para atrair a sua presa, precisa de muita escuridão.
Hervé Le Tellier, A
Anomalia, pág. 251
Mas todos o sabem: o universo, virtual ou não, é todo ele regido por leis, cada vez mais conhecidas a fundo.
Hervé Le Tellier, A
Anomalia, pág. 255
Se a escuridão é ignorância,
ainda vivemos nela, com a ilusão de que conhecemos cada vez mais a fundo as
leis que regem o universo.
E contra Heidegger, que dizia que só um deus poderia salvar-nos:
Não haverá um salvador supremo. Temos de ser nós próprios a salvar-nos.
Hervé Le Tellier, A
Anomalia, pág. 260
Estamos perdidos.

«Obedientes e sem mais delongas, num mergulho de alcatrazes, atirámo-nos então daquela rocha branca ao abismo azul. E descobrimo-nos. Encontrámo-nos universais em toda a parte do globo, mas, sobretudo, dentro da nossa própria perplexidade. (…)
E a História celebra com justiça os melhores dessa superação
mental. Chamam-se Pedro Nunes, Duarte Pacheco Pereira, D. João de Castro,
Garcia da Orta, João de Barros, Diogo de Couto, Pêro Vaz de Caminha, Fernão
Mendes Pinto, Luís de Camões. Sem falar doutros menos dotados que, modestamente,
se desmediram. (…)
Enquanto os vizinhos da Europa, sem descanso, continuaram a
ser pioneiros nas empresas que a vida lhes confiava, nós, enxutos da grande
maratona oceânica, ficámos em cima da penedia a ver passar ao longe, a fumegar,
as embarcações alheias, e a cantar, ao som de uma guitarra, loas à fatalidade.»
Tim Marshall, Prisioneiros da Geografia, Desassossego/Saída de Emergência, 2017
«
A Geografia continua a contar, por muito virtual que seja o espaço onde muitos passem já os dias, alheios à materialidade da vida.
Duas citações:
Pensa-se que cerca de 25 por cento dos brasileiros vivam nos infames bairros de lata chamados favelas. Quando uma pessoa em cada quatro na população de um estado vive na mais abjecta pobreza, é difícil que esse estado enriqueça.
Tim Marshall, Prisioneiros
da Geografia, 2017, pág. 215
A palavra «árctico» vem do grego artikos, que significa «perto do urso», e é uma referência à constelação da Ursa Maior, cujas últimas duas estrelas apontam para a Estrela Polar.
Tim Marshall, Prisioneiros
da Geografia, 2017, pág. 224
Cinco estrelas para esta magnífico livro de Geografia e, dentro dela, Geopolítica.
O Reino Unido retirou Portugal da lista “verde” de destinos para viajar. Que espanto! Que admiração?! Que injustiça?! Que irrazoabilidade?! Já se queixa, mais uma vez, o Silva dos Negócios Estrangeiros.
Onde é que já vimos este filme?
Tirar lições para quê?
Não aprendem nem aprenderam nada.
Vamos então dar os parabéns ao Medina, ao Costa, ao Cabrita, ao Moreira, ao Sousa e ao Silva da Federação, pela magnífica gestão do desconfinamento e pela ajuda que estão a dar ao sector do turismo deste país, pelos eventos que promoveram e apadrinharam.
Não conseguiam fazer um desconfinamento sóbrio, sem espavento? Não. Era preciso um desconfinamento bêbado.
Um jogo, que deveria ser realizado em Inglaterra, será cá realizado, que os ingleses não querem bombas biológicas em terras de sua majestade, mesmo que as equipas oponentes sejam de Manchester e de Londres.
Cá na república, é o meu reino por uma libra.
António Costa ainda teve a lata de dizer que não há provas da correlação entre estes eventos (referia-se aos festejos sportinguistas) e o aumento das contaminações, contra todas as evidências espaciais e temporais.
E o Presidente, com a sua voz melíflua, chegou a sugerir um possível relaxamento dos limites traçados na matriz de risco, antes da reunião no Infarmed.
É bom saber que, chegada a reunião do Infarmed, os especialistas não foram em cantigas: "Grupo de peritos recomenda manter actual matriz de risco" (Público, 28 de Maio)
Entretanto aumenta o índice de transmissão no Reino Unido (Expresso, 28 de Maio).
Em países próximos do nosso, as vítimas mortais continuam a ser mais do que uma centena como é o caso da Alemanha (195, ontem), Itália (126), França (107) [dados da Worldometer] Tudo países muito menos desenvolvidos do que o nosso, como é bom de ver. Nós somos especiais.
Não. Não seremos todos responsáveis se as contaminações aumentarem na sequência destes eventos autorizados por políticos, edis incluídos. Os responsáveis têm nome e cargo político.
Meu país, meu penico.
Penico à beira-mar plantado.
E viva a Inglaterra!
Lido o livro em tempo record, Maria Filomena Mónica não se cansa de nos lembrar o quanto somos pequenos e tacanhos, mas com sonhos de grandeza. Para ela, grandes são os ingleses e a Universidade de Oxford onde estudou.
Dá muito crédito ao historiador Rui Ramos: “Ao contrário do que muitos defendem, Salazar nunca foi fascista” (pág. 157). No entanto, “O Estado Novo ajudou – de forma modesta, é certo – as tropas de Franco” (pág. 162), um fascista “ideologicamente próximo” de Salazar, acaba por referir.
O Meu País, Notas Sobre o Nacionalismo é a visão de uma burguesa liberal da “classe alta”, de um país onde, nas suas palavras, o amor à liberdade não medrou: “O que me dói é o facto de o amor à liberdade não ter encontrado, em Portugal, um solo onde pudesse medrar” (pág. 204), ao contrário da grande Inglaterra, por certo. E ainda assim, é no “pequeno” Portugal onde encontra, agora que lhe “foge a curta vida”, a oportunidade de “pensar, falar e escrever livremente” (pág. 209).

Como sopra o
vento alheio
À solidão das
areias,
dos mares e das teias.
(A vila ao longe é Monte Gordo)
Caminho só à beira do mar,
Incansável e perplexo
Pela pandemia dos dias.
Que importa a fúria do mar
Se estou com o vento
E a solidão pela mão.