Um velho axioma keynesiano da Economia, se assim o podemos chamar, determina que numa economia simples o investimento é também igual à poupança. Numa economia ligeiramente mais sofisticada os investidores financiam o seu investimento através do recurso a empréstimos de indivíduos que poupam (Dornbush, Fisher, Startz, 1998). Logo, para que o equilíbrio se mantenha e para que a identidade seja satisfeita, o crédito concedido deve igualar a poupança. Nas sociedades de consumo, fundadas cada vez mais no crédito ao consumo, esta premissa deixou de se verificar. Os indivíduos passaram a afectar a maior parte do seu rendimento, se não todo, ao consumo. O crédito concedido deixa de ter correspondência com a poupança. Os bancos, contudo, em vez de apelarem à poupança, continuam no entanto a apelar à contracção de crédito aumentando o desequilíbrio no “sistema”económico. O crédito concedido passa então a fundamentar-se, não nas poupanças, mas na produção de dinheiro nas rotativas dos bancos centrais e no endividamento dos estados. Mas esse crédito tem de ser ressarcido através de um acréscimo do investimento. Tem de haver crescimento económico. E o que faz o investidor? A necessidade aguça o engenho. O investidor vira-se para o mundo e parte em busca do capital necessário ao pagamento do juro e que lhe garanta simultaneamente o lucro que almeja. É desta forma que florestas inteiras desaparecem no Paraguai para darem lugar a vastas extensões de campos de soja: os desertos verdes.------------------------------------------------------------------
Dornbush, R.; Fischer S.; Startz R. (1998); Macroeconomia; McGraw Hill, 7ª edição, pág. 28.




Três anos de neoliberalismo e um para tirar apressadamente o “socialismo” da gaveta, que os tempos mudaram. São estes os nossos “socialistas” e o seu “socialismo” já bichoso de tanta traça.
O desemprego alastra como uma peste e nós agora, nem sequer podemos abandonar a cidade e procurar lugares mais sadios, como noutros tempos. A praga é geral. Eis o fruto do capitalismo tardio, essa forma de organização económica e social que já nos trouxe paz, prosperidade e segurança, em tempos idos, quando tinha sido corrigido nas suas crises cíclicas, após a de 1929. Chegados os anos 70 do século XX, apagou-se a memória, abraçou-se o neoliberalismo e o monetarismo. Resultado: voltámos às velhas crises cíclicas. Os governantes dos países desenvolvidos estão em pânico: já não conseguem assegurar os interesses dos poderosos que os colocaram nos governos dos Estados. Utilizam agora os contribuintes como fiadores e transferem avultadas quantias para esse buraco negro, insaciável e ganancioso, que se tornou o mundo da alta finança e da especulação bolsista.


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A criatura resiste. Recorre neste momento de aflição, a todos os seus esbirros colocados em altos cargos governamentais e outros de grande alcance social. Move todas as suas influências. Tenta escapar ao naufrágio no mar tormentoso do mundo. Mar tenebroso, o que agora atravessamos. Os governos não nacionalizam, não propõem o fim de paraísos fiscais e zonas francas, e continuam a apostar na concessão de crédito para financiar o investimento, mas na sociedade de consumo já não é a poupança que suporta o crédito, mas antes a produção monetária nas rotativas. Usam agora os contribuintes endividados como fiadores e financiadores de bancos falidos e de empresas mal geridas. E ainda nos querem fazer crer que estão realmente indignados porque os bancos não fazem chegar os financiamentos às empresas. Será que somos assim tão ingénuos?
Em democracia, politicamente, não existem revoluções, mas podem haver rebeliões.