terça-feira, março 19, 2019

O “fascismo nunca mais”


Tivesse Madeleine Albright escrito o seu livro um pouco mais tarde e haveria outro fascista a acrescentar ao rol*. Por certo um capítulo sobre aquele que preside ao país com maior número de falantes de língua portuguesa (cerca de 209 milhões de pessoas): Jair Bolsonaro. Sucede que escreveu Fascismo: Um Alerta, antes da eleição de Bolsonaro.

Paradoxalmente as democracias continuam a eleger fascistas.

O “fascismo nunca mais” era um sonho de Abril.

domingo, fevereiro 17, 2019

A essência da Escola

A escola foi inventada no tempo dos antigos Gregos como uma relação entre mestre e discípulos, tendo como horizonte o conhecimento, e, apesar de essa relação ter sofrido muitas mudanças, a escola continua a ser na sua essência, essa relação.

Carlos Fiolhais, David Marçal, A Ciência e os Seus Inimigos, Gradiva, 2017, pág. 225.

***

É isto a Escola. O resto é política, ideologia e “Ciência” da Educação. Sempre houve muita gente a querer meter o bedelho na Educação por motivos ideológicos e políticos, em particular a gente dos partidos políticos. Querem pôr a mão no futuro, para tentar moldá-lo a seu contento. Querem, de forma sub-reptícia, colocar a juventude nos seus próprios carris ideológicos. E a verdade é que a ideologia tem conseguido imiscuir-se nos programas escolares. Os professores, por sua vez, vão paulatinamente sendo convertidos em meros aplicadores de “conteúdos”, que se querem bem controladinhos, muito bem controladinhos… Hoje é a essência da escola que está a ser posta em causa.

A escola é demasiado importante para ser deixada a outros que não os professores.

Infelizmente os professores têm ido na cantiga daqueles que dizem que a escola é demasiado importante para ser deixada apenas aos professores.

sábado, janeiro 12, 2019

O novo mantra político do ano


O novo mantra político do ano – vamos ouvi-lo muitas vezes, porque é preciso repeti-lo até à exaustão para que se inculque no comum dos mortais a necessidade de privatizar tudo: “O Estado falhou”.

Os privados nunca falham.

Onde estão aqueles que determinaram a privatização dos CTT, em 2014? O que terão agora a dizer às populações que residem em concelhos onde se anuncia o encerramento do único balcão de correios, passando para as juntas de freguesia – para o Estado, portanto – os serviços e funções que são atributo das estações de correio?

Ei-los aqui, rejubilando. 

Uns amigalhaços!

A lógica do lucro assim o determina, não é verdade?


Fantástico Mike!

Foto: daqui.

segunda-feira, dezembro 31, 2018

Livros do Ano, lidos no ano



















Us vs. Them: The Failure of Globalism
Ian Bremmer
Portfolio/Penguin
2018


















The Way We Live Now
from The Age of American Unreason in a Culture of Lies
Susan Jacoby
Vintage Books
2018

*** 

Ainda em leitura:

Enlightenment Now: The Case for Reason, Science, Humanism, and Progress
Steve Pinker
Viking
2018

Nunca será o meu livro do ano, por muitas e múltiplas razões. Por exemplo, o autor contorna habilmente a sexta extinção de espécies que está a ocorrer e dá voz aos que questionam a injustiça das desigualdades sociais, chegando a considerar a desigualdade virtuosa. Está errado. 

Ainda que se concorde com a defesa da Ciência, e do Iluminismo e até do Progresso e do Humanismo, não se pode concordar com as cedências que faz ao neoliberalismo.

Palavras do ano

Não constam nos dicionários.

“Uberização” e “bugar”.

A primeira é um processo que se está a impor e a alterar o funcionamento das sociedades e suas instituições. As redes sociais, as aplicações informáticas e as plataformas digitais têm conduzido à uberização de tudo. Não são só os táxis, é também, por exemplo, a forma de dar notícias ou as novas formas de organizar e apoiar as greves, que agora podem ser patrocinadas anonimamente nas redes sociais, quer por amigos da causa, quer por amigos doutras causas. Dúvidas? Perguntem aos enfermeiros. Até a política está a ser uberizada, que o diga Bolsonaro.

“Bugar” é um verbo que quase todo o jovem conhece. Antes tinham brancas, bloqueavam nos exames. Agora, bugam. “Então menina, porque demora tanto tempo a responder?” “Oh professor, desculpe. Buguei!”. LOL

Bom Ano!

terça-feira, outubro 16, 2018

Leslie à passagem



© AMCD    


                                                                                                                         © AMCD     

terça-feira, outubro 02, 2018

Outono


   Luigi Garzi, Alegoria de Outono, c.1680

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«Já, o outono! – Mas porque desejar um sol eterno, se partimos à descoberta da claridade divina – longe daqueles que florescem e morrem com as estações.
O outono. A barca ascendida à imobilidade das brumas regressa agora ao porto da miséria, cidade imensa, imenso céu traçado de fogo e de lama. Ah! os farrapos podres, o pão encharcado de chuva, a bebedeira, os mil amores que me crucificaram! Então não findará jamais este vampiro, este tirano de milhões de almas e de corpos mortos que serão julgados! Revejo-me: a pele roída pela peste e pela lama, a cabeça e os sovacos repletos de piolhos, não tão gordos, não tantos como os que me roíam o coração, deitado entre desconhecidos de idade incerta, de sentimentos incertos…Podia ter ficado ali…Pavorosa evocação! Detesto a miséria.
E temo o inverno por ser a estação do conforto!»

Rimbaud (1873), Une Saison en Enfer
(tradução Mário Cesariny de Vasconcelos)


in Jean Arthur Rimbaud, Uma Época no Inferno, Portugália Editora, 1960.


segunda-feira, outubro 01, 2018

Vertigens


«Ao princípio, era apenas um exercício. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Captava vertigens.

Alugando pássaros, pedaços de pele, povoados,
Que busco eu, alheio ao sossego e à esteira?
Em ondas de ternura bebo afogados
Séculos de murmúrio, ajoelhado na areia.

Que piolho eu beberia noutro rio marata?
-  Copo de oiro sem voz, flores de gás, céu alvar! –
Beber por calabaças, fora da minha cubata?
Só se for o licor que a terra faz ao mar.

Ergui minha choupana em foz daninha.
- Rosa de areia! Sangue! Jubileus! –
A água do rio levou-me oiro e vinha,
(Nos lameiros, passava a mão de Deus)

E eu chorava, eu via – oiros! – nunca sereis meus!»

*
Às quatro horas o mastro de neve
Descansa do amor entre brandas avenas.
Na nudez de Bocácio Eva escreve
Uma noite de veias serenas.

Lasso, baço, num vasto coral
De rugas e olhos e sóis improfícuos
Sobe o rio o clamor matinal
            Dos carros Oblíquos.

Para o festim de chocolate, ébrios de claridade,
Eles vestem antecipadamente lambris pré-celestes
                                Cidade
De pão, bandeiras, declives, homens.

Para estes operários, veículo de tantos
Rios interiores a um rei da Babilónia,
Ó Vénus, deixa por momentos as almas
Estagnadas como pântanos no coração do Ródano.

Ó Guia dos pastores
Dá aos trabalhadores a ode viva.
Que a sua força seja como seda pacífica

- Um acto no caminho do amargo banho ao meio-dia.»

Rimbaud (1873), Une Saison en Enfer
(tradução Mário Cesariny de Vasconcelos)


in Jean Arthur Rimbaud, Uma Época no Inferno, Portugália Editora, 1960.

sábado, setembro 29, 2018

Hegel

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831)

Pintura de Jakob Schlesinger, 1831

Nationalgalerie, Staatliche Museen zu Berlin

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