domingo, fevereiro 27, 2011

Razões para ser crítico

Ser descontente é ser homem.

Fernando Pessoa, Mensagem


Como podemos nós estar contentes com o mundo, tal qual se nos apresenta hoje? Há mil razões para ser crítico. Não compreendo por isso os contentes deste mundo. Os alinhados do capitalismo. Os felizes com tanta infelicidade, quando caminhamos cada vez mais rapidamente para o precipício. Esse precipício que nos chama e ao qual hipnoticamente respondemos, avançando paulatinamente na sua direcção. É preciso travar a lenta marcha que a ele nos conduz. É preciso ser crítico. Há fortes razões, económicas, sociais e ambientais que reforçam o nosso descontentamento.


Podemos sentir-nos contentes quando destroem florestas equatoriais inteiras para as transformar em lucrativos palmeirais ou em extensos desertos verdes de soja?

Podemos sentir-nos contentes com o aumento das desigualdades socioeconómicas ao nível planetário, com o depauperamento de vastas camadas da população mundial, com o desemprego, só para alimentar a injusta concentração de riqueza nuns poucos?

Podemos sentir-nos contentes com a extinção das espécies e das tribos das florestas sempre verdes, com a sua rica cultura?

Podemos sentir-nos contentes com a transformação em mercadoria do planeta inteiro e de tudo o que ele contém?

Podemos sentir-nos contentes com a continuada exploração do Homem pelo Homem?

Podemos sentir-nos contentes com o aquecimento global e com as alterações climáticas?

Enfim, poderia continuar, ad aeternum, com estas questões. Mas sabem que mais? Há quem esteja contente. É contra esses e contra o sistema que defendem – o neoliberalismo - que deveremos dirigir o nosso descontentamento e assestar as nossas armas. É preciso desacreditá-los. Há que ser crítico portanto.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

A avançada neoliberal sobre a educação

A ideologia neoliberal defende que deverá ser o mercado a ditar as regras da sociedade e não o contrário (Encyclopedia of Human Geography, Sage, 2006, pág. 330).

Neste momento a educação universitária está na mira de grupos de interesses neoliberais, em particular, nos países do Ocidente, com destaque para a Itália e Reino Unido. A grande questão que se coloca é a seguinte: quem deverá suportar os custos com a educação dos jovens universitários e investigadores: os contribuintes, ou seja, a sociedade no geral, ou os próprios estudantes e investigadores? Acontece que esta segunda hipótese – a de serem os próprios estudantes e suas famílias a terem de suportar os custos dos seus estudos – vem acentuar as desigualdades de oportunidade entre estudantes ricos e estudantes pobres e veda o acesso ao ensino superior a muitos jovens dos grupos socialmente mais desfavorecidos que não terão outra escolha a fazer senão a de trabalhar, abandonando dessa forma os estudos. Além disso, contribui para perpetuar uma estrutura social desigual e para obstaculizar a mobilidade social.

Aventa-se a hipótese, no Reino Unido e em Itália, dos estudantes das famílias sem condições financeiras contraírem dívidas juntos dos bancos para prosseguirem estudos. À entrada da vida profissional, estes estudantes, ao contrário dos mais abastados, terão de suportar o fardo da dívida, mais os juros, a pagar aos bancos, como se fossem escravos ou servos da gleba.

Neste domingo que passou (20-02-2011), na TVI, o professor Marcelo Rebelo de Sousa foi questionado por três estudantes de 18 anos sobre o prosseguimento de estudos, a uma das quais o professor disse que actualmente a licenciatura de três anos equivale a um antigo bacharelato, tendo-a aconselhado a realizar o mestrado, dado que esse grau, actualmente, equivale a uma antiga licenciatura. Ora tal significa uma coisa muito simples: o ensino superior degradou-se na sua qualidade a partir do momento em que o Tratado de Bolonha implicou a redução do período da licenciatura para três anos e os Estados se furtaram a terem de suportar a educação superior dos estudantes por mais um ano.

Mas o que é mais significativo foi o professor ter dito à estudante que, se não tivesse condições financeiras para realizar o mestrado, então teria de trabalhar em simultâneo, ou então, uma outra hipótese, dizemo-lo agora nós, passaria pela contracção de uma dívida junto a um banco ou instituição financeira para poder pagar os seus estudos. Pressupõe-se, por outro lado, que se a estudante, ou a sua família, tivessem condições financeiras, ou seja, se pertencessem às elites ou a “boas famílias”, então a jovem poderia dedicar 100% do seu tempo ao estudo e à investigação, o que a colocaria em vantagem relativamente aos jovens que não se encontram a estudar a tempo inteiro, por terem de trabalhar.

Ora este sistema favorece os mais ricos e penaliza os mais pobres. O filho do rico, tem o caminho aberto e o do pobre (aquele a que a nossa sociedade apelidou tristemente de “borra botas”, porque os que borravam as botas trabalhavam a terra e eram rudes) só tem pela frente obstáculos e está condenado a ser pobre e endividado.

Quem ganha com tudo isto? É simples: as elites, que perpetuam desta forma a sua posição no topo da estrutura social, e os bancos, que ganham novos mercados, à custa destes novos escravos do século XXI que são os endividados.

Quem perde? Os pobres e a maior parte da sociedade.

[Ao que um neoliberal responderá: A sociedade? O que é isso? Isso existe? Para a neoliberal Margaret Tatcher a sociedade era uma construção artificial, ou seja, não existia.]

domingo, fevereiro 13, 2011

A cidade moderna e a modernidade

A Spring Morning, Haverstock Hill, George Clausen, 1881

Diferentes grupos sociais partilham os novos espaços construídos da cidade em modernização.

A cidade moderna era uma “cidade de mobilidade social, lugar de contrastes entre riqueza e privação, das residências espectaculares dos burgueses noveaux riches aos cidadãos que contavam apenas consigo próprios para viverem entre os detritos da vida urbana. Era também uma cidade caracterizada pela perpétua transformação, com novas ideias, tecnologias e práticas que constantemente transformavam a relação entre as pessoas bem como o seu lugar, situado num ambiente de rápida transformação urbana.”

Phil Hubbard, The City, Routledge, 2006, pág. 12.

«Ser moderno é encontrarmo-nos num ambiente que nos promete aventura, poder, regozijo, crescimento, transformação de nós mesmos e do mundo – e, ao mesmo tempo, que ameaça destruir tudo o que possuímos, tudo o que conhecemos, tudo o que somos. Os ambientes e experiências modernas atravessam todas as fronteiras geográficas e de etnicidade, de classe e de nacionalidade, de religião e de ideologia: neste sentido, a modernidade, pode dizer-se, une toda a humanidade. Mas é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade; lança-nos a todos num turbilhão de perpétua desintegração e renovação, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno é fazer parte do universo acerca do qual Marx disse: “tudo o que é sólido dissolve-se no ar”.»

Berman, All That is Solid Melts into Air: The Experience of Modernity. Verso. 1983 [citado por Phil Hubbard, The City, Routledge, 2006, pág. 13.]

sábado, fevereiro 05, 2011

O outro lado do Mediterrâneo

Nos idos anos 90, mais precisamente em 1990, a revista Nação e Defesa reproduzia um artigo de José Manuel Nazareth em que o demógrafo já alertava para os tempos que se avizinhavam no Norte de África. A região, nessa altura, enchia-se de gente jovem, à custa de índices de fecundidade elevadíssimos, da ordem dos seis filhos por mulher, e o emprego e a qualidade de vida eram (e continuam a ser) comparativamente menores em relação ao Norte do Mediterrâneo. Estavam então reunidos os ingredientes para que daí a uns anos ocorresse a explosão social a que agora se assiste.


Volvidos 20 anos, e num momento de crise económica, quando a válvula de escape da emigração já não funciona, o Norte de África transforma-se numa panela de pressão social em explosão. Tunísia e Egipto já explodiram, mas para quando a Argélia, Marrocos e a Líbia? É preciso lembrar também que há muito, a margem oriental do Mediterrâneo fervilha de agitação, no Líbano, na faixa de Gaza (Palestina) afectando também o estado vizinho de Israel. Mas agita-se também a Jordânia e o Iémen, este na península Arábica.


Toda esta importante região projecta ondas de choque que alastram ao mundo. E é para esta região que se voltam os olhares do mundo.

***

Encontrado o artigo de José Manuel Nazareth, cá vai um excerto:

«A Europa ainda não tomou consciência da evolução demográfica contrastada que existe de um lado e de outro do Mediterrâneo. Existe um autêntico colapso demográfico no norte (a fecundidade da Europa dos doze é de 1,6 filhos por mulher) e uma expansão sem precedentes no lado sul (em média seis filhos por mulher).

Alguns números absolutos começam a ser preocupantes sob o ponto de vista europeu…a Europa dos doze tem anualmente 3,8 milhões de nascimentos para 321 milhões de habitantes, ou seja, o mesmo número de nascimentos da Turquia e do Egipto, que totalizam apenas 97 milhões de habitantes. Em 1950, a parte Norte do Mediterrâneo tinha um total de 140 milhões de habitantes, ou seja, metade dos habitantes da região que se estende de Marrocos ao Bósforo. Nos dias de hoje estas duas regiões têm o mesmo número de habitantes – cento e setenta milhões de habitantes de cada lado – mas já está escrito o que será o futuro, ou seja, o início do próximo século, quando nascem por ano cerca de dois milhões de crianças ao norte e mais de sete milhões no sul. Ficaremos amanhã com cento e setenta milhões de habitantes para fazer face a trezentos e sessenta milhões de habitantes “do outro lado do Mediterrâneo” aos quais se juntará a pressão dos restantes povos do continente africano, que será superior a um milhar de milhão de habitantes nos próximos trinta anos.

É neste enquadramento que teremos de situar a Europa, a CEE e o nosso país face à África do Norte. Esta última região, considerada no seu todo, tem por ano mais um milhão de nascimentos do que a Europa dos Doze, numa população que globalmente representa um terço. Dentro de algumas dezenas de anos a sua população ultrapassará a da Comunidade.

Evolução da População da Comunidade Económica Europeia e da África do Norte, de 1960 ao ano 2025 (em milhões)

Ano

CEE

África do Norte

1960

1975

1985

2000

2025

279,9

312,2

321,6

323,8

306,4

51,8

93,8

123,0

175,6

260,8

Fonte: Ramsés 87/88

Também são igualmente preocupantes os contrastes estruturais…que podem conduzir à tentação da complementaridade forçada: por um lado, temos um excedente enorme de idosos em relação às capacidades de financiamento dos sistemas de segurança social; por outro lado, temos, no Norte de África, um excedente de jovens em relação à capacidade de absorção do sistema produtivo.

(…)

Se, nos dias de hoje, a região de maior imigração é os Estados Unidos da América do Norte, amanhã essa região poderá ser a Europa. Não é uma novidade. Porém, a pressão demográfica será incomparavelmente superior devido à disparidade existente nos níveis de vida.»

José Manuel Nazareth, “A problemática demográfica portuguesa no contexto europeu”, Nação e Defesa, Agosto, 1990


domingo, janeiro 30, 2011

"Enfim, livres!"

O que se está a passar agora no Norte de África, mais precisamente na Tunísia e no Egipto, não nos surpreende. Há muito que demógrafos e geopolíticos nos vinham avisando desta eventualidade. Recordo-me de um texto de José Manuel Nazareth, na revista Nação e Defesa, do início dos anos 90 (que infelizmente não encontro agora) em que o excelente demógrafo, agora jubilado, já então alertava para a futura instabilidade política do Norte de África, associando os elevados índices de fecundidade registados com as elevadas taxas de desemprego entre os jovens.

E não é que tudo agora começou com a auto-imolação de um licenciado desempregado na Tunísia, num momento de crise económica generalizada…

Mas observemos atentamente a foto acima: são os jovens que seguram as bandeiras da revolução. “Enfim, livres!”, escrevem eles nas paredes. Esperemos que desta vez os revolucionários não sejam tragados pela sua própria revolução.

Atentemos.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Ainda Sevilha

Sevilha, 15 de Janeiro de 2011

domingo, janeiro 16, 2011

Sevilha é uma torre

Sevilha, 15 de Janeiro de 2011

Laranjas de Sevilha

Sevilha, 15 de Janeiro de 2011


Poema de la saeta: Sevilla

Sevilla es una torre
llena de arqueros finos.

Sevilla para herir.
Córdoba para morir.

Una ciudad que acecha
largos ritmos,
y los enrosca
como laberintos.
Como tallos de parra
encendidos.

¡Sevilla para herir!

Bajo el arco del cielo,
sobre su llano limpio,
dispara la constante
saeta de su río.

¡Córdoba para morir!

Y loca de horizonte,
mezcla en su vino
lo amargo de Don Juan
y lo perfecto de Dioniso.

Sevilla para herir.
¡Siempre Sevilla para herir!

Frederico Garcia Lorca

***

Poema da seta: Sevilha

Sevilha é uma torre
plena de arqueiros finos.

Sevilha para ferir.
Córdova para morrer.

Uma cidade que espreita
por longos ritmos,
e os enrosca
como labirintos.
Como talos de parra
acesos.

Sevilha para ferir!

Debaixo do arco do céu,
sobre o seu plaino limpo,
dispara a constante
seta do seu rio.

Córdova para morrer!

E louca de horizonte,
mistura no seu vinho
a amargura de Don Juan
e a perfeição de Dioniso.

Sevilha para ferir.
Sempre Sevilha para ferir!

Frederico Garcia Lorca

terça-feira, janeiro 11, 2011

Floresceram, uma vez mais

Ouvi!

Soturnos homens das cidades

Que avançais cabisbaixos,

Temerosos com o F.M.I.


As amendoeiras que povoam o vosso solo pátrio

Ousaram florescer uma vez mais,

À revelia dessas coisas banais

Que vos atormentam a alma.


Em breve,

Os campos do Sul

Explodirão em flores multicolores.

Só faltarão os amores.


Pois que venham também

Passear entre as flores...

Antes que cheguem os homens

Do F.M.I.


domingo, janeiro 09, 2011

O FMI, os credores e as boas notícias do PM

Penso que toda a gente já percebeu que os credores de Portugal, os especuladores financeiros, os “mercados”, farão tudo o que estiver ao seu alcance para forçar a entrada do FMI no país, nem que para isso tenham de fabricar um aumento artificial das taxas de juro da dívida. É a forma que têm de ver garantido o pagamento dessa mesma dívida, com o menor risco possível e atempadamente. Se Portugal ameaça não poder pagar, então que pague o FMI e Portugal depois que se entenda com o FMI. E é óbvio que se estão nas tintas para as “boas notícias” que o primeiro-ministro deu no Parlamento.

Eles querem é o dinheirinho e rapidamente.

São uns pândegos, estes credores de Portugal.

domingo, janeiro 02, 2011

Pôr-de-Sol, Primeiro de Janeiro, Cabo Raso

Não te deixarei só.

Agora que o mundo exulta

E os sinos dobram

E os relógios marcam a hora

De um novo amanhecer.

No quarto vazio, (se estiveres num quarto vazio),

Observa a lua da tua janela (mesmo que não tenhas uma janela).

Asseguro-te daqui:

Não estarás só ao dobrar da hora.

Também eu estarei por aqui.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Grandes aberturas: Ilíada


Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.”

Homero, Ilíada, Edições Cotovia, 2005

A cólera, como bem notou Sloterdijk*, vem no princípio desse poema-força que é a Ilíada, logo no “início da primeira frase do património europeu”. É ela que move as acções dos heróis, que, por ela possuídos, se lançam na fogueira da violência extrema. É ela que move Aquiles, um prodígio em combate. O herói, na verdade, é a cólera personificada. Mas não só Aquiles: Ajax, outro herói de Tróia, é um Quixote da Era Clássica que degola os animais saqueados pelo exército, num acesso de loucura colérica, julgando ver neles os chefes gregos que lhe negaram a herança de Aquiles, como nos conta Sófocles na sua tragédia.

***

Pois bem, a cólera nunca abandonou a Europa. Sempre viveu aqui. Que o digam as vítimas dos conflitos do século XX, por exemplo, quando ela tomou novamente conta dos povos e os lançou, uns contra os outros. Que o digam as vítimas da Revolução Francesa e as vítimas de todas as revoluções e rebeliões. As explosões revolucionárias são movidas pela cólera: mais uma vez, como nos lembra Sloterdijk, “não são os seres humanos que possuem as suas paixões, mas antes as paixões que possuem os seus seres humanos” (p. 19).

Na Europa, por vezes, a cólera mantém-se durante um longo tempo adormecida, é certo, mas torna sempre a acordar ou é acordada pelos homens, inadvertidamente. Agora que 2011 se aproxima, receio que estejamos ante um desses momentos. Poderá ser um ano de rebeliões (porque em democracia), porque os europeus estão a ser empurrados para a acção e para o desespero, resultado de políticas neoliberais abraçadas pelos seus governos e impostas por um directório não democrático com sede em instituições não democráticas da União Europeia.

Será 2011, um ano de rebeliões na Europa e de revoluções fora dela?

Aguardemos placidamente que o vento comece a soprar.
_____________________________________________________________
(*) Peter Sloterdijk, Cólera e Tempo, Relógio D’Água, 2010

quarta-feira, dezembro 29, 2010

O último tratado de Tony Judt (1948-2010)

Como cidadãos de uma sociedade livre, temos o dever de olhar o mundo criticamente.

Toni Judt, Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, Edições 70, 2010, p. 219

Um pequeno livro. Um portento!

Obrigado Tony Judt.

Que descanse em paz.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Grandes aberturas: Viagem ao Fim da Noite


«Isto começou assim. Eu não tinha dito nada. Nada. Foi Artur Ganate quem me fez falar. Artur, estudante de medicina, como eu, um camarada. Encontrámo-nos, por sinal, na Praça de Clichy. Depois do almoço. Quer-me falar. Escuto-o. «Não fiquemos cá fora! – diz-me. – Entremos!» E pronto, entro com ele. «É que esta esplanada, sabes, é para gente bem! Vamos por aqui!» Nesse momento reparamos ainda que as ruas estão desertas por causa do calor. Nem um carro, nada. Quando faz muito frio também não se vê ninguém nas ruas. Fora ele próprio, lembro-me bem, a dizer a tal respeito: «Os habitantes de Paris dão-me sempre a impressão de estarem ocupados, mas na verdade passeiam de manhã à noite; a prova disso é que logo que o tempo não está bom para passear, muito frio ou muito quente, ninguém mais os vê, todos eles recolhidos a tomar cafés-creme ou cervejas. É como te digo. O século da velocidade! – afirmam. Onde está ela? Grandes transformações! – anunciam. Onde? Na realidade nada mudou. Continuam todos a admirar-se mutuamente e pronto. E também isto não é novo. As palavras, e assim mesmo não muitas, é que mudaram! Duas ou três aqui e ali, insignificantes…» Então, muito orgulhosos por termos feito repicar estas úteis verdades, ali continuámos sentados e encantados a olhar as mulheres, dentro do café.»
(…)
«A guerra aproximava-se de nós sem que tivéssemos dado conta disso, e a minha cabeça também já não estava muito boa.»
(…)
«Foi então que mesmo ali à frente do café onde estávamos sentados começou a passar um regimento, com o coronel à frente, a cavalo, e por sinal tinha esse coronel um ar simpático e bastante folgazão! Senti logo um impulso de entusiasmo.»
(…)
«Depois marchámos durante muito tempo. Havia ruas e mais ruas e também, dentro das casas, os civis e as suas mulheres que nos gritavam encorajamentos, que nos atiravam flores, das esplanadas, das estações e das igrejas repletas. Quantos patriotas por ali havia! Mas depois passou a haver menos patriotas…A chuva começou a cair, e então cada vez menos e por fim nenhum encorajamento, nem um só pelo caminho.
E não é que estávamos já sozinhos? Uns atrás dos outros? A música parou. «Em resumo – disse para mim próprio quando vi como a coisa estava a correr -, já não tem graça! É mesmo de voltar para trás!» Ia safar-me, porém demasiado tarde! Haviam tornado a fechar a porta de mansinho atrás de nós, civis. Fôramos apanhados que nem ratos.»

Céline, Viagem ao Fim da Noite, Círculo de Leitores, 1989

***

Céline e a sua grande obra introduzem-nos no espírito do tempo pouco antes do início da Grande Guerra. A história começa nos cafés de Paris, na iminência de uma guerra para onde marcharam alegremente os jovens soldados da velha Europa, entre os quais Bardamu. Nem sabiam o que os esperava. Caíram na guerra, como quem cai numa ratoeira. Desta forma, foi fácil entrar na guerra; difícil foi sair dela. O século XX, confirmou-se depois, foi também o século da velocidade e das grandes mudanças. Após a Grande Guerra o mundo jamais seria o mesmo, tal foi a mudança induzida. Mas nos primeiros anos da Grande Guerra, os soldados e os carros atolavam-se nos lamaçais e nas trincheiras. Só com a entrada da América na guerra é que a velocidade chegou e o impasse das trincheiras foi vencido.

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