
Aqui.


Esgotadas as especiarias da Índia.
Esgotado o ouro do Brasil, o marfim, o ouro e os diamantes de África
Esgotados os subsídios da União Europeia. Foi então hora de partir ao assalto do crédito. Endividaram-se. Endividaram-nos.
Esgotado agora o crédito, as elites, mal habituadas, continuam a precisar de dinheiro, muito dinheiro. Estão mais dependentes de dinheiro do que os demais, para quem meia pataca já é muito.
É uma história antiga.
Pudera!

Começou o assalto. Alguns elementos dos partidos que ao longo da última década enterraram Portugal, já andam para aí a ponderar um “entendimento”*. Eles, que são o problema, querem agora apresentar-se como solução.
Mas a realidade é que o terreno foi adubado e preparado para a incursão neoliberal que se avizinha. Quem governa já o lavrou, empurrado pela União Europeia. Só falta o semeador, ou melhor, o privatizador.
Serão despedidos funcionários públicos e privatizados serviços do Estado, como as escolas e os hospitais, esses focos de despesa, essas ineficiências. No desespero, saqueia-se o Estado.
A maioria dos cidadãos, se quiser educar-se, tratar-se ou curar-se, terá de pagar às empresas fornecedoras de tais serviços. Os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres (processo que já teve o seu início). O Estado social recuará em toda a linha (aliás, esse recuo também já começou há algum tempo).
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(*) – Pires de Lima no congresso do CDS.

Há uns anos atrás, o então Ministro da Educação, David Justino, avisou que as portas do Ensino iriam fechar-se. Avisou que haviam demasiados professores e que era preciso reduzir o número de entradas nessa profissão. Posteriormente, Sócrates prossegue nessa via, tentando limitar ao máximo o acesso à profissão por novos candidatos, chegando a introduzir mecanismos de barragem à entrada da carreira de professor, como a prestação de provas escritas selectivas, e desincentivos, como a retirada da remuneração aos grupos de estágio profissionalizante nas escolas. Simultaneamente, promovia-se a política baseada no princípio de “por cada duas saídas da função pública, apenas uma entrada”. Os sinais estavam portanto aí para quem os quisesse ver.
O Ensino nas escolas básicas e secundárias deixou de funcionar como válvula de escape para as “fornadas” de licenciados que todos os anos saíam das universidades e politécnicos. Simultaneamente, o Tratado Bolonha reduziu o período de formação de licenciados de 4 anos para 3, ou seja, num curto período o número habitual de licenciados à saída das universidades aumentou consideravelmente, quando se reduziam as oportunidades de trabalho no sector Estado.
O resultado está à vista agora em 2011: a “deolindalização” de uma geração.

David Harvey, um dos marxistas mais determinados e esclarecidos da nossa época, já em 1987 parecia adivinhar o que aí vinha:
“There abundant cracks in the shaky edifice of modern capitalism, not a few of them generated by the stresses inherent in flexible accumulation. The world’s financial system – the central power in the present regime of accumulation – is in turmoil and weighed down with an excess of debt that puts such huge claims on future labour that is hard to see any way to work out of it except through massive defaults, rampant inflation, or repressive deflation.”
David Harvey (1987), ‘Flexible Accumulation through Urbanization: Reflections on “post-modernism” in the
Parece que Marx se enganou, mas não em tudo. Não se enganou, por exemplo, na questão das crises cíclicas do capitalismo e as suas consequências na economia das nações.


O filósofo francês Gilles Lipovetsky lá tenta pôr água na fervura ao analisar a sociedade hipermoderna. Afirma ele que “a depreciação dos valores supremos não continuará sem limites, o futuro continua aberto” (2011 [2004], pág. 106). Ou seja, ainda há esperança, ainda é possível inverter o rumo que nos arrasta para o fim. Como se não houvessem pontos de não retorno. Como se os limites a não transpor, e a partir dos quais não se pode voltar atrás, se fossem afastando sempre à nossa frente. Como se fosse possível trazer à vida as culturas tribais com todo o seu património perdido, a sua arte, a sua língua…perdidos para todo o sempre. Como se fosse possível voltar a ver os dodós nas ilhas Maurícias.
Não se trata só de uma “depreciação” de valores. Trata-se de uma destruição de valores.
Lipovetsky esquece a geografia. Como se todas as sociedades do mundo fossem hipermodernas. A maior parte delas não é. O mundo está longe de ser plano. Se há sociedades que são realmente hipermodernas, conforme lhes chama, outras ainda vivem na Era Moderna, outras na Idade Média e outras na Idade da Pedra - sociedades de caçadores recolectores encontradas nas selvas, ameaçadas agora pelas sociedades hipermodernas, hiperconsumistas, hiperdestrutivas.
Esta é uma visão pessimista e niilista, quase apocalíptica, eu sei. Mas assim é. O mundo transforma-se, sempre se transformou, na verdade. Mas esta transformação, hoje, abeira-se da destruição. Estamos cada vez está mais longe de um paraíso na Terra. Estamos cada vez mais longe do Paraíso.
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Fica a citação completa de Lipovetsky:
“Ninguém negará que o mundo, tal como está, provoca mais inquietação do que um optimismo desenfreado: alarga-se o abismo Norte-Sul, as desigualdades sociais aumentam cada vez mais, o mercado mundializado reduz o poder que as democracias têm para se governarem. Mas será que isto nos autoriza a diagnosticar um processo de «rebarbarização» do mundo, no qual a democracia não é mais do que uma «pseudo-democracia» e um «espectáculo comemorativo»? Seria subestimar o poder de autocrítica e de auto-correcção que continua a habitar no universo democrático liberal. A era presentista está tudo menos fechada, encerrada em si mesma, dedicada a um niilismo exponencial. Porque a depreciação dos valores supremos não continuará sem limites, o futuro continua em aberto. A hipermodernidade democrática e mercantil não disse a sua última palavra: ela apenas está no início da sua aventura histórica.”