Neste momento o Estado não é o
problema, é a solução. O problema é continuar a colocar o Estado de um lado e a
economia do outro, como se o Estado não fizesse parte da economia. O dualismo
entre Estado e economia constitui um enviesamento na visão e no discurso de
muitos comentadores e jornalistas como José Gomes Ferreira e outros devotos dos
mercados. Em suma, partem de uma falácia.
quinta-feira, julho 11, 2013
quarta-feira, julho 10, 2013
A ditadura dos mercados
O Presidente na sua comunicação
de hoje ao País, brandiu vários argumentos, um dos quais a necessidade de
mobilizar em 2014, 14 mil milhões de euros para pagar aos credores por dívidas
contraídas no passado. Precisamos de empréstimos para pagar dívidas, ou seja,
precisamos de continuar a endividar-nos.
Não se suspendem portanto as
transferências das "parcelas dos empréstimos que nos foram
concedidos", suspende-se a possibilidade de eleições antecipadas a breve
trecho.
Ainda que a realização de
eleições não equivalha necessariamente a democracia (no Estado Novo, por
exemplo, haviam eleições), podemos concluir que a democracia não está a ser
respeitada nesta história pois os nossos credores não são favoráveis a que os eleitores
se pronunciem. E os credores falam mais alto do que os eleitores aos ouvidos do
Presidente.
O Presidente deseja a minimização
dos antagonismos* inerentes à própria dinâmica democrática, para evitar a ira
dos mercados, que, segundo afirma, colocaria os portugueses perante a iminência
de mais “duros sacrifícios”. Para ele o ideal será trazer o maior partido da
oposição para a esfera da governação, juntando-o em acordo de "salvação
nacional" ao CDS e ao PSD. Para ele o ideal será limitar as vozes
incómodas aos dois partidos minoritários da oposição.
Como é evidente, neste momento
estamos sob uma nova forma de ditadura: a ditadura dos mercados.
Quem nos garante que uma semana
antes das eleições, ou da saída da troika
de Portugal, os juros da dívida portuguesa a dez anos não dispararão novamente
para taxas superiores a 7,5% e a bolsa não se afundará? Suspenderemos então a
realização das eleições?
Manda a situação que prevaleça o bom
senso.
Mas não será uma insensatez
prosseguir neste rumo? Onde queremos chegar?
-------------------------------
(*) Nota: antagonismo (luta entre inimigos); agonismo (luta entre adversários).
-------------------------------
(*) Nota: antagonismo (luta entre inimigos); agonismo (luta entre adversários).
Etiquetas:
Política,
Portugal,
Presidente Cavaco
Impalas voadoras
Aepyceros melampus, Parque Kruger, África do Sul Foto: Barcroft Media/Abaca
PS - Um destes impalas em fuga, refugiou-se num automóvel. Ver AQUI.
terça-feira, julho 09, 2013
Dilemas
«Cícero (106 a.C. – 43 a.C.)
viveu um dos períodos mais gloriosos e perigosos da história. Por todo o mundo
romano, os homens tiveram de enfrentar o maior dos problemas políticos, nomeadamente,
como viver simultaneamente em paz e liberdade. À maioria dos romanos parecia,
durante o transcendental meio século que precedeu à queda da República e ao
triunfo de Augusto, que se tinha de escolher entre esses dois bens políticos,
ambos da maior importância.
Pode-se ter liberdade, mas para
isso há que sacrificar a paz. Inevitavelmente surgiriam conflitos, assim parecia,
entre homens que eram livres para perseguir os seus objectivos próprios e
divergentes. Também se podia ter paz, mas havia que sacrificar a liberdade,
doutra forma, como poderia sobreviver a paz se não se impusesse desde cima um
poder supremo que seria o único verdadeiramente livre, enquanto todos os demais
sofriam o jugo da tirania?»
Charles Van Doren, Breve Historia del Saber, Editorial
Planeta, 2011*
Traduzido do espanhol
por AMCD
***
O actual dilema português (um
falso dilema) parece colocar-se entre a riqueza e a liberdade. Ou escolhemos a
liberdade, abdicando de uma riqueza emprestada, porque não é a nossa, ou
escolhemos a riqueza emprestada e abdicamos da nossa liberdade, porque teremos
para todo o sempre de responder às exigências dos nossos credores e de lhes prestar
contas. E querendo ter as duas, a riqueza e a liberdade, corremos o risco de
perder as duas. O melhor será sempre libertar-nos desse lastro que é a riqueza
emprestada.
PS - A Breve Historia del Saber de Charles Van Doren está a ser uma agradável leitura. Desconhecia, até escrever este post que existia uma edição em português. Descobri ainda um interessante post de Carlos Fiolhais sobre o livro e o seu autor, no blogue De Rerum Natura. A leitura prossegue.
-----------------------------------
*Edição em português: Charles Van Doren, Breve Historia do Saber, Caderno, 2008
***
PS - A Breve Historia del Saber de Charles Van Doren está a ser uma agradável leitura. Desconhecia, até escrever este post que existia uma edição em português. Descobri ainda um interessante post de Carlos Fiolhais sobre o livro e o seu autor, no blogue De Rerum Natura. A leitura prossegue.
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*Edição em português: Charles Van Doren, Breve Historia do Saber, Caderno, 2008
segunda-feira, julho 08, 2013
A “globalização da indiferença”
O Papa Francisco refere-se à “globalização da indiferença” quando releva o que acontece em Lampedusa. Acerta na mouche. Já tínhamos reparado antes em Lampedusa. Não somos indiferentes e saudamos a iniciativa que irá por certo,
mais uma vez, colocar a ilha no centro das atenções de muito mundo.
E continuamos a afirmar: Lampedusa é uma metáfora, entre
outras, que desmente aqueles que tecem loas à globalização e ao maravilhoso
mundo plano (1).
________________________
(1) Referimo-nos a Thomas Friedman, O Mundo é Plano, Actual Editora, 2006, cuja edição portuguesa é
prefaciada pelo mui católico João César das Neves (que se associa também ao enaltecimento da
globalização).
domingo, julho 07, 2013
Fazer da fraqueza força ou “ponham-se finos”
“Em certas situações de negociação, tal como demonstra Thomas Schelling,
a fraqueza e a ameaça de que um parceiro irá entrar em colapso podem ser uma
fonte de poder negocial. Um devedor na bancarrota que tenha uma
dívida de mil dólares tem pouco poder, mas se dever mil milhões de dólares, ele
poderá deter um poder negocial considerável – basta recordar o destino das
instituições consideradas «demasiado grandes para cair» durante a crise
financeira de 2008.”
Joseph Nye, Jr. O Futuro do Poder, Temas e Debates, 2012, Pág.
23.
sábado, julho 06, 2013
Sobre o processo histórico e a História
"O que torna assustador o processo histórico é o facto
de passar despercebido aos que o estão viver."
Clara Ferreira Alves, “O
Ovo da Serpente”, Revista, Expresso, 06
de Julho de 2013
Há quem se aperceba que está a
viver um momento histórico quando o vive, mas um momento não é um processo (Clara
Ferreira Alves di-lo na sua crónica). Um processo histórico integra momentos históricos.
Os egípcios da Praça Tahrir ou os astronautas da Apolo 11, por exemplo, sabem
e sabiam que estavam a viver momentos históricos, ou, como se diz, estavam a “fazer
história”. Mas os festivos egípcios da Praça Tahrir talvez não se apercebam do
quão o seu país está próximo de uma guerra civil ou da subida do preço do
petróleo nos mercados internacionais e das suas implicações, devido, em grande parte, às suas
manifestações.
***
Depois de ler muitas obras de
historiadores concluo que a história contada é sempre distorcida pela visão do
historiador. Trata-se de um problema genético da História. Heródoto, o pai da
História, escreveu as suas Histórias para
glorificar os feitos dos gregos. Desde então não há historiador que não puxe a
brasa à sua sardinha.
sexta-feira, julho 05, 2013
Foi você que pediu um segundo resgate?
Eu não fui, mas dizem que já vem a caminho. Brilhante! Paga
o Zé!
Entretanto fiquemos aqui quietinhos, à espera, pois só estamos
autorizados a mexer os olhinhos, não vão os mercados assustar-se.
quinta-feira, julho 04, 2013
Pedro Passos Coelho conta com a apreensão e o medo dos portugueses
Ontem em Berlim, numa conferência de imprensa, afirmou o seguinte:
“Creio que os portugueses estarão muito mais apreensivos e assustados com a possibilidade de terem eleições sem
saberem o que é que poderá resultar disso, não sabendo sequer se poderão
continuar a dispor de apoio externo, como têm tido até hoje. Os portugueses
estarão muito mais assustados com
essa situação do que, com certeza, com a possibilidade de podermos fechar o
nosso programa de assistência económica e financeira e de podermos enfrentar as
dificuldades que temos, que ainda temos muitas."
Pedro Passos Coelho, Berlim,
dia 3 de Julho de 2013
***
A inépcia política é gritante. Podia
ter afirmado que contava com a razão, a sensatez, o bom senso dos portugueses
que ele governa (ou desgoverna)…Mas não. Conta com a apreensão e o medo dos
seus conterrâneos e disse-o duas vezes.
Estamos apreensivos e
assustados com a democracia? Estamos com medo do plebiscito e do que poderá daí
resultar? Estamos com medo das nossas próprias escolhas? Estamos com medo do futuro? Estamos com medo dos mercados? Pois o
pior que nos pode acontecer é viver com medo. Isso e calhar-nos em sorte a reeleição de Passos Coelho em futuras eleições. Disso sim, grande parte do povo português
provavelmente terá medo.
quarta-feira, julho 03, 2013
Os que mais lêem no mundo
Daqui: Russia Beyond the Headlines
Nota: esqueceram-se de pintar a Suécia e a ilha da Tasmânia que integra a Austrália.
Mais sobre este assunto: aqui e aqui.
Nota: esqueceram-se de pintar a Suécia e a ilha da Tasmânia que integra a Austrália.
Mais sobre este assunto: aqui e aqui.
terça-feira, julho 02, 2013
Portas bate com a porta.
E amanhã, quem será?
O CDS sempre beneficiou, quando
não coligado com o PSD, do descontentamento das franjas oscilantes do lado
conservador desse partido em relação à sua própria liderança, conseguindo dessa forma melhores
resultados eleitorais. Beneficiava com os descontentes da ala direita do PSD.
Quando assume o Governo em coligação com o PSD, cuja liderança se encontra agora num
momento de grande fraqueza e divisão, o CDS vê-se privado desse habitual
benefício, pois está no mesmo barco.
Será que julga que poderá voltar à sua condição de beneficiário do descontentamento dos simpatizantes do PSD, distanciando-se neste momento desse partido? Talvez agora seja tarde demais.
Será que julga que poderá voltar à sua condição de beneficiário do descontentamento dos simpatizantes do PSD, distanciando-se neste momento desse partido? Talvez agora seja tarde demais.
Quando o Mediterrâneo fervilha
Egipto, Cairo, Praça Tahrir, 30 de Junho de 2013
A situação está muito complicada
no Egipto. As elevadas taxas de natalidade dos países do Norte de África,
aliadas a elevadas taxas de desemprego jovem, funcionaram como uma autêntica bomba
demográfica que rebentou. Somadas ao sectarismo religioso e à crescente
percepção das assimetrias persistentes entre o mundo em desenvolvimento e o
mundo desenvolvido, alimentada pela difusão das novas tecnologias de informação
e comunicação, conduziram a uma frustração crescente que agita os países da margem
sul e este do Mediterrâneo, com raras e notáveis excepções.
Já Portugal e os países da margem
norte do Mediterrâneo empobrecem e revelam também elevadas e crescentes taxas de desemprego
jovem, embora a sua fertilidade seja muito mais reduzida comparativamente à dos
países do Norte de África.
segunda-feira, julho 01, 2013
Gaspar na hora da despedida
Já não era sem tempo. Mas o que conseguiu Gaspar de positivo? Era um ministro do agrado de Wolfgang Schäuble, dizia o engenheiro Mira Amaral. E agora sem ele, o que vai ser de nós?
E o défice orçamental, que estava tão bem controlado, apenas 10,6% do PIB, coisa pouca...
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