sábado, outubro 05, 2013

O acelerador de partículas da história

A guerra é uma espécie de acelerador de partículas na transformação da história.

João Gouveia Monteiro

No programa da Antena 2, Quinta Essência, de João Almeida, o historiador João Gouveia Monteiro, com grande vivacidade e detalhe, conseguiu fazer com que este ouvinte presenciasse, em directo, a Batalha de Gaugamela, que opôs o exército de Alexandre Magno da Macedónia ao de Dário III da Pérsia, em 331 a. C.


O excelente programa pode ser ouvido AQUI.

Entretanto aguarda-se já a próxima grande batalha.

***

Um livro adquirir:


João Gouveia Monteiro, Grandes Conflitos na História da Europa, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

quinta-feira, outubro 03, 2013

Civilização e religião

Abro o Livro do Desassossego e leio:

Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas. Nós perdemos essa, e às outras também.”

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio e Alvim, 2013, p. 259

E não era sociólogo.

No cerne de cada civilização encontramos uma religião, se escavarmos bem fundo. Os que estudam as civilizações sabem-no. Fernando Pessoa, que não estudava civilizações, sabia-o. Desestrutura-se aquela civilização cujos membros vão abandonando paulatinamente a linha íntima da religião civilizacional.


É por aqui que podemos tomar o pulso da decadência civilizacional. Qualquer
que seja a civilização.

domingo, setembro 29, 2013

Turista não: viajante!

Duane Hanson, Tourists II, 1988

O principal desígnio do turista consciente é não ser confundido com um turista. Esses que constituem as hordas invasoras de cidades, campos e praias e que tudo conquistam com o olhar, o vociferar e a presença. Uma praga!

O principal desígnio de um turista consciente é ser tomado por viajante.

O turista inconsciente está-se nas tintas.

sábado, setembro 28, 2013

Sobre as alterações climáticas: duas leituras.


Expresso: “Relatório da ONU. Aquecimento global abrandou. A subida das temperaturas abrandou e nos últimos 15 anos até estabilizou. (…) É a primeira vez desde o relatório de 1990 que o IPCC não apresenta um cenário alarmista, apesar das emissões de CO2 continuarem a aumentar.” (pág. 2, Primeiro Caderno).


Parece que, pelo tom, a notícia do Expresso esteve ao cuidado de algum céptico das alterações climáticas e do aquecimento global.

África abaixo

Os países são feitos de pessoas, e eu acredito que a maioria das pessoas é feita bem. É feita de valores universais, que permitem a qualquer viajante sentir-se em casa quando se sente rodeado desses valores. O sorriso, a solidariedade, o bom-senso, a alegria, a música e a amizade valem mais que a corrupção, a desonestidade, o ódio, os preconceitos raciais, os estereótipos sociais. Viajarei com o primeiro grupo de valores na bagagem, para trocá-los por outros iguais ao longo da viagem. E como não os quero só para mim, depois de trocá-los, irei partilhar tudo.”

Gonçalo Cadilhe, África Acima, Oficina do Livro, 2007, p. 19


Conforta-me saber que existem viajantes experimentados que, depois de terem visto o mundo, ainda assim guardam uma confiança incondicional no ser humano, esse perigoso animal mais imprevisível do que um tubarão.

***

Não é que Gonçalo acredite viver no melhor dos mundos, como o doutor Pangloss, na história de outro grande optimista. Gonçalo não é ingénuo. Mas sabe que pode aventurar-se pelo mundo com relativa segurança, uma vez que sempre existem ilhas com bons ancoradouros onde poderá abrigar-se das tempestades.


Depois de ter lido as desventuras de Serpa Pinto pelas terras da África Austral no final do século XIX, e a história da travessia de Paul Theroux no século XX, do Cairo ao Cabo, sinto curiosidade em saber como se sairá Gonçalo Cadilhe nesse continente que é encanto e desencanto, que é sonho e pesadelo, que é tudo e o seu contrário.

Vou ler.

domingo, setembro 15, 2013

Um criminoso contra a humanidade, à solta.


Assad é um criminoso contra a humanidade. É Ban Ki-Moon, o Secretário-geral das Nações Unidas que o diz, e não um perigoso imperialista desejoso por alargar a esfera de influência do seu império. O que se deve fazer então em relação ao criminoso? Cruzar os braços e deixá-lo à solta? Vamos advogar que é um problema sírio, eles que se entendam? Que se matem uns aos outros? Parece-me que não: é um problema da humanidade, um problema planetário e portanto, um problema nosso. Já não vivemos no tempo do Rei Creso, nem na Idade Média europeia, em autarcia, fechados nos nossos feudos.

Quando nem uma só bala tinha ainda sido disparada e um só corpo tombado nas ruas de Damasco, quando o exército da Síria estava unido e o conflito não se tinha avolumado como uma bola de neve, Assad, por ter toda a força do seu lado, tinha o dever moral de evitar a guerra. Preferiu outro caminho e deixou que se avolumasse o conflito. O resultado está à vista.

Estou perplexo com a posição das esquerdas portuguesas, contra Obama, aparentemente por cegueira ideológica: parece que, para as nossas esquerdas, todo o vento que sopra da América é mau, independentemente das razões que lhe assistem, quer sejam justas ou não. Como se Obama fosse um falcão ávido de sangue, um Bush. Curiosamente as posições das esquerdas assemelham-se às posições da extrema-direita fascista, basta ler as opiniões dos blogues dessa área, que defendem os regimes de Assad e de Putin. Ironias da história.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Estátuas







As estátuas altaneiras das velhas cidades imperiais miram-nos de cima, sobranceiras.

Antes que se escureça o sol, a luz, a lua e as estrelas


Preparo-me para deixar o Algarve após uma longa estadia de mais de meia década. Vou rumar para outras paragens. Algo em mim morre. Quando aqui cheguei o meu pai era vivo. À chegada ajudou-me a erguer um grande móvel para colocar os livros e a instalar-me. Agora que abalo, já não está entre nós. O Algarve mudou, e quando regressar, porque regressarei, decerto não o encontrarei como o deixo. Também quando cheguei, não foi o velho Algarve, o da minha infância, que encontrei. 

Ainda escrevo no silêncio nocturno da serra que em breve abandonarei. A casa e o quintal ficarão vazios. Talvez por isso, hoje, têm ecoado no meu pensamento umas palavras que em tempos li a uma velha tia analfabeta e devota, também já falecida, que se comprazia em ouvir-me ler a Bíblia:

«Lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que venham os dias maus e cheguem os anos, dos quais dirás: “Não sinto prazer neles”;
antes que se escureça o sol, a luz, a lua e as estrelas,
e voltem as nuvens depois da chuva;
quando os guardas da tua casa começarem a tremer,
e os homens robustos a vergar,
quando as mós deixarem de moer porque são poucas
e se obscurecerem os que olham pela janela;
quando se fecharem as portas sobre a rua,
quando enfraquecer o ruído do moinho,
quando se calar a voz do pássaro
e humedecerem as canções.
Então, também terão medo de subir aos lugares altos,
e temerão os sobressaltos no caminho.
A amendoeira florescerá,
o gafanhoto engordará
e a alcaparra perderá as suas propriedades,
porque o homem encaminhar-se-á para a casa
da sua eternidade,
enquanto os carpidores percorrem as ruas;
antes que se quebre o cordão de prata
e se desperdice a lâmpada de oiro,
e se parta a bilha na fonte,
e se desfaça a roldana sobre a cisterna,
e o pó volte à terra donde saiu,
e o espírito volte para Deus que o deu.
Vaidade das vaidades, dizia o Eclesiastes, e tudo é vaidade.»

Livro do Eclesiastes, Ecle. 12

***

Estou a ficar velho. Apenas isso.

segunda-feira, agosto 19, 2013

...

     Charles Conder, A holyday at Mentone, 1888

sábado, agosto 17, 2013

Deve o Estado ser gerido como uma empresa?

Obviamente que não. O Estado não é uma empresa, nem deve ser gerido como tal. O Estado não se gere. Governa-se! Ao contrário de uma empresa, não é objectivo do Estado o lucro ou a maximização da receita.

Agora vão lá dizer isso ao Primeiro-ministro.

"Passos Coelho admitiu, ao comparar o Estado com uma empresa, que o objectivo é reduzir/despedir funcionários públicos para equilibrar as contas, o que, todos sabemos, a Constituição não permite." AQUI.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Se

Evolução da taxa de variação do PIB de Portugal, em termos homólogos

Em relação ao crescimento trimestral do PIB faço minhas as palavras de Medeiros Ferreira no Córtex Frontal e acrescento uns “se”. Nada contra o crescimento, com certeza, se esse crescimento implicar a redução do desemprego, da pobreza e das desigualdades sociais. Crescimento sim, se não for à custa da degradação ambiental nem de atentados à Vida e às culturas locais, ameaçadas em todo o espaço planetário.

Afinal, como olhar para um degrau que se subiu, quando se desceram tantos degraus (dez trimestres consecutivos)?

Fizeram bem os que observam este crescimento trimestral do PIB com cautela, inclusive os ministros do Governo que não embandeiraram em arco, há que dizê-lo. Este crescimento ainda não é de fiar.

O crescimento é um meio para atingir o desenvolvimento. De nada nos servirá, se não atingir esse fim.
***
Adenda: na verdade se observarmos a evolução da taxa de variação do PIB, em termos homólogos, constatamos que o Produto Interno Bruto diminuiu 2,0% em volume no 2º trimestre de 2013, como refere aqui o INE.

terça-feira, agosto 13, 2013

O triunfo da imoralidade

Thomas Couture, The Romans of the Decadence, 1847

«Durante décadas, os fundos de pensões dos seguros e da banca privada foram constituídos pela capitalização das contribuições das próprias empresas, entidade patronal, e dos seus funcionários, não onerando o Estado. O Estado não era responsável pelas pensões nem pela capitalização desses fundos.
(...)
Em 1980, durante o primeiro governo da AD, com Cavaco Silva, as pensões de reforma passam a ser atribuídas a beneficiários no fim do exercício de certas funções independentemente de estarem ou não em idade da reforma. Uma pessoa podia exercer o cargo de administrador do Banco de Portugal ou da CGD durante um ou meio mandato, e tinha direito à reforma por inteiro a partir do momento em que saía da instituição.
(...)
A partir de agora, as pensões da banca privada passaram, simplesmente, a ser responsabilidade pública. Tolerando-se, como se vê pelos exemplos, a acumulação de pensões de reforma públicas com funções executivas privadas e concorrentes.»

Clara Ferreira Alves, “Os Reformados da Caixa”, Expresso (Revista), 10 de Agosto de 2013

***

Há muito que se anda a baixar as possibilidades, para agora se dizer que vivemos acima das nossas possibilidades.

E chegámos ao cúmulo de as primeiras figuras do Estado preferirem receber as pensões de reforma em vez dos respectivos salários. Ao que isto chegou…

Como foi possível tudo isto? Onde estavam os mecanismos de controlo democrático, as instituições vigilantes? Como pôde e pode a democracia tolerar isto?

Receber a reforma sem estar na idade da reforma. Dizem que é legal. É legal mas não é moralmente, nem eticamente admissível (também era legal, muito legal, denunciar judeus no tempo do nazismo, na Alemanha, ou enviá-los para campos de concentração, e era ilegal ajudá-los, que o diga Aristides de Sousa Mendes).

São as leis que servem os homens, não são os homens que servem as leis. Mas há homens que se servem das leis, quando as leis são demasiado imperfeitas, propositadamente assim elaboradas para que alguns habilidosos delas se possam servir.

E por favor, não nos venham dizer que o mundo é injusto e que é assim o mundo. Não podemos compactuar com as injustiças deste mundo, sob pena de nos tornamos uns canalhas.

***

«O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade, de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. Como não é possível converter em sã normalidade o que na sua essência é criminoso ou anormal, o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido, fazendo-se totalmente homogéneo com o crime ou a irregularidade que arrasta.»

Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

sábado, agosto 10, 2013

O Grande Canal

     Frederico del Campo, Vista do Grande Canal de Veneza, 1913

A Corda do Enforcado. Comentários de um leitor crítico.

Lido o longo livro de Nuno Rogeiro, 652 páginas (!), há ideias e pontos de vista com as quais concordamos e outros acerca dos quais discordamos. Mas nem poderia ser doutra forma quando se realiza uma leitura crítica. Para dizer a verdade, embora não sendo uma bíblia, são vários livros num, pois o autor deambula por vários temas com toda a liberdade, indisciplinadamente, e a seu contento, aprofundando mais aqui e menos ali, o que dá um certo desequilíbrio aos subcapítulos – por exemplo, só às questões que se prendem com a política de defesa, questões militares e geopolítica, são dedicadas 108 páginas integradas num capítulo reservado a políticas sectoriais de 181 páginas (em suma, a Defesa ocupa 60% das páginas desse capítulo). Mas Nuno Rogeiro escreve sobre aquilo de que gosta e fá-lo de forma fundamentada, como se pode atestar pelas inúmeras referências a que recorre, indicadas em rodapé. Escreve com grande erudição, existindo muitas outras referências implícitas no texto, para além das que indica em rodapé – por exemplo, Céline[1], Jean-Paul Sartre[2], Hayek[3], são citados, entre muitos outros, se o leitor estiver atento.

Em abono do autor está também o facto de ter resistido à ideia de colocar a sua cara na capa ao contrário destes aqui, referidos no Malomil.

Mas vamos às discordâncias e embirrações (ficamo-nos apenas por três para não sermos maçudos, pois outras haveria).

sexta-feira, agosto 09, 2013

Medusa

Caravaggio, Medusa (1598-99), Galleria degli Uffizi, Florença

De Fórcis, por sua vez, Keto deu à luz as Greias de belas faces
- cobertas de cãs desde o seu nascimento, chamam-lhes Velhas
os deuses imortais e os homens que caminham sobre a Terra,
Penfredo de belos peplos e Enio de peplos cor de açafrão –
e também as Górgonas, que habitam para lá do oceano ilustre,
na fronteira com a noite, na morada das Hespérides de voz cristalina,

Esteno, Euríale e Medusa de fatídico destino.
Esta era mortal, enquanto eram imortais e isentas de velhice
as outras duas. Mas, só a ela conheceu o deus dos cabelos anilados,
Na planície suave, entre as flores da primavera.

 Hesíodo, Teogonia

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